“God bless America and Brazil”: a CPAC e o projeto Bolsonaro 2.0
Crédito: CPAC
Por Cairo Junqueira, Livia Peres Milani e Robson Abraão Fonsêca Viana* [Informe OPEU] [Brasil] [CPAC] [Bolsonaro]
A Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC, na sigla em inglês) tem-se consolidado como um espaço para a articulação transnacional da extrema direita nas Américas, com a participação de lideranças da região nos eventos em território norte-americano e com a realização de eventos em diversos países como Argentina, Brasil e México. No dia 28 de março, no Texas, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) aproveitou a conferência para lançar sua pré-candidatura à Presidência do Brasil para a audiência estadunidense, descrevendo-se como favorito no pleito de 2026.
Em seu discurso, traçou paralelos entre Jair Bolsonaro e Donald Trump e apresentou sua visão para a Política Externa Brasileira, baseada no alinhamento com os Estados Unidos. Em sua narrativa, o Brasil aceita o papel de parceiro subordinado aos EUA, inserindo a exportação de minérios e colocando a aliança bilateral como ferramenta para a defesa de “valores conservadores”, além de fazer aproximações discursivas com outros atores da extrema direita global.
Paralelismo entre as políticas domésticas
Flávio caracterizou como “lawfare” (guerra jurídica) o julgamento que condenou seu pai por tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022. Ao comparar a situação de Bolsonaro com a de Trump — o qual também foi julgado, embora absolvido, por incitação das invasões ao Capitólio em 6 de janeiro de 2021 —, buscou aproximar as trajetórias das duas figuras, criando uma narrativa de perseguição política nos dois casos, supostamente motivada pela defesa que ambos fazem de valores conservadores.
Leia mais sobre a CPAC no OPEU
CPAC e o avanço republicano entre populações latino-americanas
A América jamais será cancelada: a primeira CPAC pós-Trump
CPAC e a integração conservadora Brasil-EUA
Com este discurso, Flávio Bolsonaro parece querer chamar a atenção dos estadunidenses para as eleições no Brasil. O pré-candidato pediu “pressão diplomática” sobre as instituições brasileiras e o monitoramento da “liberdade de expressão” durante as eleições. Assim, retomou a narrativa da liberdade individual de expressão como valor absoluto, supostamente acima de outros direitos fundamentais. Ao mesmo tempo, de forma contraditória, Flávio disse rejeitar interferências externas durante o processo.
Ao frisar que sua vitória é a “vontade do povo”, o senador utiliza uma marca discursiva frequentemente atribuída às lideranças populistas da extrema direita: a noção de que ele e seus aliados estão ao lado das pessoas comuns, opondo-se aos supostos inimigos da nação, às elites transnacionais e às lideranças de esquerda.
Os eixos da “parceria”: terras raras e valores
Dentre diversos aspectos mencionados por Flávio como essenciais para a relação com os EUA, o fator econômico tem ênfase especial. O senador chamou atenção para as terras raras disponíveis em território nacional, que interessam ao governo trumpista, tendo em vista seu emprego na produção de mercadorias de tecnologia de ponta e de equipamentos de defesa. Dessa forma, argumentou que a aliança com o Brasil teria importância estratégica para os EUA, em especial na disputa contra a China e na defesa do território americano.
Em suas palavras, o Brasil é um ponto-chave para barrar a influência chinesa na região, apontando o país asiático como o controlador de recursos minerais ao redor do mundo. Nesse sentido, a subordinação e a parceria com os EUA aparecem ligadas, diretamente, à lógica de se combater um inimigo em comum, dinâmica muito presente em discursos de lideranças de extrema direita. Ao mesmo tempo, Flávio apresentou, com orgulho, uma visão de parceria baseada na exportação de recursos naturais e na importação de produtos de alto valor agregado, reproduzindo um histórico marcado por subordinação e dependência do Brasil aos Estados Unidos.
Sugestões da editora
A Rede Global: como Epstein, Bannon e os doadores de Trump construíram uma nova extrema direita internacional
Resenha de ‘Fanatismo e movimento de massas’, de Eric Hoffer
Resenha: ‘A vitória de Donald Trump nas eleições de 2016: a extrema-direita e as fake news’, de André Pini
(Re)Pensando a dependência: Atlas Network e institutos parceiros no governo Bolsonaro
Consenso de Genebra e a consolidação de redes conservadoras transnacionais
O combate à China também está relacionado à defesa da “Civilização Ocidental”. Para Flávio, os EUA devem estar atentos aos rumos políticos brasileiros, em razão da representatividade geográfica, populacional e econômica do país na América Latina. Se a região depende do Brasil, este depende dos EUA, o único capaz de resguardar a manutenção da ordem internacional centrada no Ocidente. Em sua fala, o senador se refere à “América” como sinônimo de Estados Unidos e, se ela se torna vulnerável, por conseguinte, todo o mundo também se torna vulnerável. Ou seja, Trump, descrito por ele como o “maior negociador de todos os tempos”, é enaltecido e defendido por Flávio como a figura capaz de expressar os anseios ocidentais em torno de uma agenda valorativa pautada no conservadorismo político e religioso e em suposta decadência civilizacional.
A esquerda como inimigo e a agenda reacionária
As pautas reacionárias apresentadas por Flávio estão diretamente relacionadas à oposição a lideranças de esquerda. Há construção discursiva de inimigos internacionais, como a China, mas também domésticos, neste caso, o atual presidente brasileiro, Lula da Silva. Logo no início de sua fala, Flávio projetou fotos de seu pai com Donald Trump e, pouco depois, projetou uma foto de Lula da Silva com Nicolás Maduro, promovendo a narrativa de que Lula é “anti-América”, citando as críticas feitas pelo líder brasileiro às ações de política externa dos Estados Unidos durante o atual mandato de Trump, a exemplo das operações na Venezuela e da luta contra as drogas. Lula da Silva é designado como um expoente da esquerda, esta eequalizada com a miséria e violência, além de ser retratado como ligado ao narcotráfico, enquanto Jair Bolsonaro é descrito como antissistema, inclusive em resposta à “covid tirany”.
Correlacionados com esse aspecto, encontram-se cinco pontos presentes na agenda reacionária de Flávio apresentada durante a CPAC. Em primeiro lugar, a política antidrogas, uma vez que sua fala denota a centralidade do combate ao tráfico de drogas, concatenando-o ao terrorismo, de forma semelhante à agenda trumpista, e criticando as políticas de segurança pública de governos progressistas. Em segundo lugar, há o aspecto anti-woke, a partir do qual Flávio defende a abordagem “tradicional” da família, restringindo direitos das mulheres e populações LGBTQIA+. Em terceiro, a pauta ambiental e climática, ligando-se a aspectos já presentes no governo de Jair Bolsonaro no Brasil. Como exemplo, vale lembrar a fala de Ernesto Araújo na Heritage Foundation em 2019, quando mencionou “climatismo” e se referiu à “falácia” das queimadas. Em quarto, evidencia-se a oposição à elite global, aspecto muito evidente na extrema direita global em se mostrar a partir de uma narrativa antissistêmica, como expressam Abrahamsen et. al no livro World of the Right (Cambridge University Press, 2024).
Relembre Trump e Bolsonaro no OPEU
Trump, Bolsonaro e a tentativa de alinhamento automático sob o neoliberalismo autoritário
Bolsonaro sem Trump: um balanço das relações bilaterais na conjuntura atual
Bolsonaro na Assembleia Geral da ONU e a reverência à política externa de Trump
Bolsonaro cede a Trump sem reciprocidade e com contrapartida mínima
As mensagens de Trump e Bolsonaro na ONU para seus públicos domésticos
Parece mas não é: Bolsonaro e Trump
Trump e Bolsonaro contra o Judiciário: uma análise comparativa
Por fim, o último ponto a ser retratado na agenda reacionária é o que Flávio denominou “valores tradicionais”. E aqui há uma concepção muito ligada a aspectos religiosos. Em determinado momento, o pré-candidato mencionou que “Jesus Cristo é nosso Senhor” e disse que 90% da sociedade brasileira é cristã – segundo o último Censo Demográfico do IBGE, 83,6% da população brasileira é católica ou evangélica. Na tentativa de chamar a atenção e fazer eco a Trump, proclamou: “Brasil e América foram feitos um para o outro. Compartilhamos os mesmos valores judaico-cristãos e temos o que o outro precisa”. Nesta fala, além de propor a aliança com o “Ocidente”, o filho do ex-presidente apaga a diversidade cultural e religiosa existente no país, uma outra característica das direitas no plano global, que se baseiam em uma narrativa de homogeneidade nacional.
Onde os eixos se (re)encontram
Segundo Flávio, faz parte de sua missão ser eleito presidente do Brasil no pleito de outubro. Com isso, seria possível reestabelecer uma aliança forte com os EUA e a formação da chamada aliança ocidental conservadora. Nesta visão proposta por Flávio Bolsonaro, o Brasil aceita, conforme exposto na abertura desta análise, a posição de subordinação, mantendo-se como provedor de recursos, desta vez alicerçado na exportação de terras raras. O discurso serve como ilustração da transnacionalização da extrema direita mundo afora, principalmente quando observamos a defesa de uma pauta reacionária em termos políticos, religiosos e de direitos.
Para o Brasil, essa participação na CPAC sinaliza a importância que a agenda de política externa terá na eleição presidencial de 2026. Não há dúvidas de que Flávio propõe a inclusão brasileira dentro de uma concepção ocidental sem, necessariamente, haver qualquer contrapartida dos EUA ou mesmo de Trump em considerar a América Latina como parte integrante desse sistema. Tal pai, tal filho. ![]()
* Cairo Junqueira é professor do Departamento de Relações Internacionais (DRI/UFS) e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais (PPGRI/UFS) da Universidade Federal de Sergipe. Pesquisador do Observatório de Regionalismo (ODR) e líder do Grupo de Pesquisa sobre Política Internacional e Sul-Americana (GP-SUL), no qual atualmente desenvolve pesquisa de PIBIC intitulada “O que é a América Latina? Visões e interpretações da Extrema Direita para a região”. Contato: cairogbj@academico.ufs.br.
Lívia Peres Milani é pesquisadora do quadro permanente do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais da Unesp (IPPRI). Pesquisadora do INCT/INEU e do Grupo de Elaboração de Cenários e Estudos de Futuro (Gecef), vinculado ao Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (Gedes). Contato: livialpm@gmail.com.
Robson Abraão Fonsêca Viana é graduando em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Sergipe (UFS) e bolsista PIBIC/CNPq com pesquisa intitulada “A ideia de América Latina nos discursos de lideranças da extrema direita na região”. Contato: robsonfonseecaa@academico.ufs.br.
** Revisões são de responsabilidade dos autores. Revisão e edição finais: Tatiana Teixeira. Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU.
* Sobre o OPEU, ou para contribuir com artigos, entrar em contato com a editora do OPEU, Tatiana Teixeira, no e-mail: tatianat19@hotmail.com. Sobre as nossas newsletters, para atendimento à imprensa, ou outros assuntos, entrar em contato com Tatiana Carlotti, no e-mail: tcarlotti@gmail.com.
Assine nossa Newsletter e receba o conteúdo do OPEU por e-mail.
Siga o OPEU no Instagram, Twitter, Linkedin e Facebook e acompanhe nossas postagens diárias.
Comente, compartilhe, envie sugestões, faça parte da nossa comunidade.
Somos um observatório de pesquisa sobre os EUA,
com conteúdo semanal e gratuito, sem fins lucrativos.