A ‘Real Politik’ em livro de Pedro Costa Jr, por Euclides de Sousa
Crédito: Bandeira EUA/China como pano de fundo, StuckInLagToad/Wikimedia Commons
Livro de Costa Jr. é apresentado em resenha que evidencia a importância de entender a geopolítica para visualizar mundo atual
Por Redação Jornal GGN* [Divulgação] [Lançamento de livro] [China] [Republicação]
Mais que uma releitura histórica da relação entre EUA e China, a obra de Pedro Costa Júnior elabora uma reconstrução teórica das relações diplomáticas e de competição entre aqueles países. Tendo como base a disputa do poder global sob o ponto de vista da tese do sistema interestatal capitalista, de José Luís Fiori, em primeiro plano — mas não só — a narrativa nos conduz ao impasse momentâneo do embate entre os dois Estados. E nos coloca uma grande questão, uma grande pergunta: até onde as duas nações vão continuar competindo sem cair na chamada “armadilha de Tucídides”, isto é, o ponto onde o embate armado direto torna-se inevitável.
A tese da competição interestatal indica que a pressão competitiva só faz aumentar, quando um Estado desafia o outro, o hegemon, por meio de aumento de poder econômico e influência política, como está fazendo a China no mundo inteiro, modificando o perfil da economia-mundo e deslocando o eixo dinâmico para a Ásia, tornando assim o Pacífico um novo ponto de referência estratégico-logístico.
O livro inicia o estudo das relações EUA-China desde a gestão Nixon, nos anos 1970, por onde as relações com a China são reestabelecidas e a partir daí tratada sob uma ótica integracionista — de aproximação, mas não apenas política, também econômica. Naquele momento o principal objetivo de política externa dos EUA era isolar a URSS. A partir daí a China desenvolve-se economicamente num ritmo acelerado, até chegarmos ao século XXI onde o grande país asiático se posiciona como um desafiante de peso na competição global.
Não por acaso, a administração Obama nos EUA, ainda em seu primeiro mandato, lança uma nova estratégia: o pivô para a Ásia (Pivot to Asia). Após décadas entre ora uma política de contenção, ora de engajamento, os EUA decidem por uma política mais firme com relação à região e à China especialmente. O Oriente Médio deixa de ser uma prioridade; as atenções se voltam para o Pacífico — os EUA promovem a TPP (Transpacific Partnerhip), uma parceria com os Estados asiáticos objetivando isolar a China. Mas as dificuldades encontradas no mundo islâmico, como Líbia e Iraque, não permitiram a implementação de tal política. Enquanto isso a China avança ferozmente em seu desenvolvimento, o que faz com que o próximo governo norte-americano, sob Trump, afirme peremptoriamente que seu inimigo é a China. A gestão de Trump retira os EUA da TPP, mas não a China do cenário de “guerra econômica” e afirmando uma ofensiva de “posição de força”. Portanto, estamos para além de contenção versus engajamento: agora a disputa vai para o enfrentando nas diversas áreas: ciência, tecnologia, engenharia, indústria. Ao mesmo tempo a ordem internacional que se desenvolveu no pós-guerra é abandonada pelo principal ator que a impôs ao mundo — os EUA se retiram de vários organismos internacionais, exceto FMI e Banco Mundial.
A administração Biden, embora menos beligerante, reconhece, formalmente, a China como principal ameaça à segurança dos EUA, retomando inclusive o QUAD (Quadrilateral Security Dialogue — cooperação estratégica e militar) com EUA, Japão, Austrália e Índia; bem como uma nova aliança de defesa, a AIKUS (Australia, United Kingdom, United States). Podemos dizer que é uma alteração de qualidade a partir de um governo democrata, pela primeira vez com relação à China. Por meio de um documento oficial do Departamento de Defesa, a China é declarada um desafio no Indo-Pacífico, bem como a Rússia é na Europa. Entrementes, prossegue a disputa em relação à tecnologia 5G e a dos semicondutores, além da “novidade” da IA.
Ao mesmo tempo que a pressão competitiva se eleva, o orçamento de defesa também aumenta significativamente — evidentemente para todos os países envolvidos diretamente. Durante décadas, afirma o autor, a política externa norte-americana com relação à China consistiu na tendência integracionista, de engajamento na economia mundial, deduzindo com isso que ela se conformaria nos moldes da ordem econômica liberal. O que não ocorreu, como sabemos. A inserção da China na economia-mundo deu-se muito ativamente, sem ficar dependente das potências ocidentais.
O que nos leva à encruzilhada da guerra, tal como explicitada no livro:
“À medida que a competição global pelo poder se aprofunda e desmorona a ordem internacional ‘baseada em regras’, o espectro da ‘armadilha de Tucídides’ se torna mais eminente.” (p. 225)
E finalmente, conclui o autor, temos duas posições: uma em que os EUA se posiciona como agente desestabilizador; outra, em que a China tenta se manter prosseguindo em suas políticas econômicas e diplomáticas, como agente estabilizador da economia-mundo e, portanto, evitando ao máximo o choque direto com a grande potência militar. O livro termina com uma interessante citação de Deng Xiao Ping, aconselhando seu sucessor neste sentido.
Enfim, a obra é uma referência para quem busca uma exposição condensada e ao mesmo tempo bastante explicativa das relações EUA-China e de como chegamos ao momento presente. Há uma exposição muito elucidativa de teoria e metodologia no primeiro capítulo. No conjunto, uma aula de Real Politik, relações internacionais, diplomacia e reflexão sobre o choque entre as nações.
Informações sobre o livro
Título: EUA x China: a luta pelo poder global
Autor: Pedro Donizete da Costa Junior
Editora: Escuta Geopolítica
ISBN: 9786559060573
Número de páginas: 248
Ano de edição: 2026
Edição: 1ª
Preço: R$ 104
Disponível no site da Editora Martins Fontes ![]()
* Euclides Roberto Novaes de Sousa é servidor público estadual, graduado em Ciências Sociais, História e Filosofia. Licenciado em Sociologia. Especialização em Textos em Língua Portuguesa e amante de Literatura.
** Publicado originalmente no site do Jornal GGN, em 23 abr. 2026. Republicado pelo OPEU com a autorização do veículo. Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU.
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