As intrusões estadunidenses na Venezuela à luz da interação intraelites
(Arquivo) Observado pelo presidente Donald Trump, o secretário de Estado Marco Rubio comenta a Operação ‘Absolute Resolve’ na Venezuela, em entrevista coletiva em Mar-a-Lago, em Palm Beach, Flórida, em 3 jan. 2026 (Crédito: Molly Riley/Casa Branca/Flickr)
Por Francisco Simões Lins de Albuquerque, José Pedro Couto Falcão e Mariana Moraes Costa* [Informe OPEU] [Venezuela]
Ao analisar a relação entre Venezuela e Estados Unidos nas últimas décadas, observa-se um caso paradigmático de ações hegemônicas intrusivas, caracterizado pela escalada sistemática de mecanismos de pressão política, econômica e militar sobre um Estado soberano. Em contrapartida, a coesão da elite governante venezuelana, formada, sobretudo, por lideranças partidárias e militares, torna-se um fator central para compreender por que essas iniciativas têm-se mostrado insuficientes para promover uma mudança de regime no país.
Longe de episódios isolados, as ações estadunidenses compõem uma estratégia coerente de tentativa de mudança de regime. Seu desenvolvimento pode ser compreendido com base na tipologia proposta por Rodrigo Amaral, em seu artigo “Beyond Interventionism: A Theory of International Intrusions as a Mechanism of Hegemonic Action”, publicado em 2025. O autor organiza as formas de intrusão internacional em uma escala crescente, da influência à interferência e, desta, à intervenção, com destaque para a interlocução transnacional entre as elites.
Nesse sentido, observamos as intrusões estadunidenses na Venezuela à luz das dinâmicas intraelites que condicionaram tanto o avanço quanto os limites dessa estratégia. Segundo C. Wright Mills, em seu livro A Elite do Poder, publicado originalmente em 1956, entende-se elite como grupo que ocupa “os postos de comando estratégico da estrutura social, no qual se centralizam atualmente os meios efetivos do poder e a riqueza e celebridade de que usufruem”.
Logo, apesar da intensificação da pressão externa sobre Caracas, a tentativa de mudança de regime segue limitada pela manutenção da coesão entre elites governantes venezuelanas, compostas por setores militares, econômicos e políticos com interesses próprios na preservação do chavismo. Essa conjuntura é ainda mais determinante do que a capacidade estadunidense de cooptar a oposição venezuelana e de esta converter o apoio externo em capital político no plano doméstico.
Relação EUA x Venezuela: cronologia das intrusões
Com base na tipologia proposta por Amaral, que diferencia as formas de intrusão como mecanismo de ação hegemônica, a atuação dos EUA na Venezuela pode ser compreendida como um processo gradual de intensificação de pressão política, econômica e militar. Esse processo reuniu sucessivas formas de influência e interferência ao longo de duas décadas e culminou, em 2026, em uma intervenção militar direta. A análise cronológica permite observar as diferentes formas de intrusão empregadas, seu enquadramento e a progressiva escalada das violações à soberania venezuelana.
A partir de 2011, verifica-se um aumento no grau de intrusão das ações estadunidenses na Venezuela. Nesse ano, foram impostas sanções financeiras à Petróleos de Venezuela S.A. (PDVSA), principal empresa estatal do país responsável por uma parcela significativa das receitas nacionais, sob o pretexto de cooperar comercial e tecnologicamente com nações inimigas dos EUA, como o Irã. Em contraste com medidas anteriores, essas sanções passaram a afetar diretamente um setor estratégico, limitando sua capacidade de realizar transações internacionais e de obter financiamento externo. Em 2014, a aprovação da Venezuela Defense of Human Rights and Civil Society Act, que autorizava a aplicação de sanções contra autoridades venezuelanas acusadas de violações de direitos humanos, ampliou as justificativas para a adoção de medidas coercitivas. Adicionalmente, a publicação da Ordem Executiva 13692, que classificou o país como “ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional dos Estados Unidos”, em 2015, durante o governo Barack Obama (2009-2017), representou um marco importante nessa escalada. O documento forneceu a base jurídica para a ampliação das sanções e o enquadramento unilateral do governo de Nicolás Maduro como alvo legítimo de medidas coercitivas. Nesse sentido, essa ação representa uma interferência avançada, pois, embora não envolvesse ainda o uso da força ou a alteração direta das instituições locais, legitimava ações cada vez mais agressivas de pressão política e econômica, que produziam efeitos internos.
O auge desse processo ocorreu em 2026, quando os Estados Unidos lançaram uma operação militar contra a Venezuela. A ação incluiu bombardeios contra instalações militares, navios civis que circulavam pela costa venezuelana e sistemas de defesa localizados em regiões estratégicas do país, seguidos por uma operação especial que resultou no sequestro do presidente Maduro e da primeira-dama Cilia Flores. Tanto os bombardeios quanto a captura do chefe de Estado são exemplos de intervenção direta, uma vez que envolveram o uso ostensivo da força militar em território estrangeiro e resultaram na alteração imediata da estrutura política interna do país. Na tipologia proposta por Amaral, esse evento corresponde ao nível máximo de intrusão, caracterizado pela tentativa explícita de moldar, pela força militar, a organização política de uma nação independente e soberana.
A análise cronológica das ações estadunidenses na Venezuela demonstra que o processo de intrusão não é linear, podendo assumir diferentes formas e níveis de intensidade. O que começou como mecanismos de influência diplomática evoluiu para formas de interferência político-econômica entre 2011 e 2015 e, posteriormente, para medidas de intervenção destinadas a enfraquecer o governo, em etapas sucessivas de uma estratégia de crescente intrusão dos EUA sobre a Venezuela.
As elites venezuelanas
Apesar da escalada do processo intrusivo descrito, o sequestro de Maduro não propiciou a consolidação da mudança de regime, ainda que a apropriação de recursos energéticos venezuelanos seja um elemento-chave de interesse dos EUA no país. Logo, a análise de tal conjuntura exige um enfoque que considere dinâmicas endógenas, de modo a observar a sobrevivência do chavismo, não obstante o caráter assimétrico existente. Diante desse quadro, a literatura sobre elites sugere que processos dessa natureza também dependem da fragmentação ou da cooptação dos grupos detentores do poder.
A partir de uma leitura gramsciana, o conceito de hegemonia é fundamental para analisar a posição exercida pelos EUA no plano internacional, sendo entendido como a combinação entre força e consenso. Diante da intensificação da intrusão estadunidense como exercício da força, a compreensão do consenso é central, uma vez que a manutenção da hegemonia liberal depende diretamente da incorporação de elites estrangeiras, concebidas como potenciais agentes de mudança e de influência estadunidense, a partir da leitura de Inderjeet Parmar, em seu artigo “The US–led Liberal Order: Imperialism by Another Name?”, de 2018. Segundo o autor, tal dinâmica ocorre por meio de formas de coerção, atração e socialização, ilustrando uma interação voluntária entre esses grupos.
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Consequentemente, ao analisar a tentativa de mudança de regime na Venezuela e as articulações existentes, verifica-se um padrão de financiamento estadunidense à oposição ao governo Maduro, especialmente após a autoproclamação de Juan Guaidó como presidente interino do país, em janeiro de 2019, em meio a alegações de fraude na eleição presidencial de 2018. Esse processo se aproxima da divisão estabelecida por Pareto que classifica as elites em dois grupos: governante e não governante. Nessa perspectiva, a ação idealizada pelos Estados Unidos e pela oposição venezuelana pode ser analisada como uma tentativa de “revolução política”, na concepção de Theda Skocpol, ou de “revolução passiva”, na perspectiva de Antonio Gramsci, caracterizada pela transformação da ordem política de cima para baixo e pela manutenção da estrutura social preexistente, conforme elucidado por Rodrigo Amaral, em sua tese de doutorado, intitulada “Dinâmicas de poder dos EUA por um Iraque pós–Saddam: a articulação entre o governo norte–americano e as elites do poder iraquiano na década de 1990”, publicada em 2022.
Essa articulação revela, sobretudo, o modus operandi da hegemonia estadunidense e sua natureza, ao promover uma elite já consolidada internamente, inserida no capitalismo e em sua zona de influência. A redução de tal dinâmica a uma tese liberal de apoio simbólico supostamente neutro e de defesa à democracia, mostra-se incompatível com as reais diretrizes do exercício de poder do país, que, conforme indicado por Inderjeet Parmar, envolvem financiamento, articulação e suporte a tais grupos. Como reconhecido pelo Congressional Research Service, no documento “Venezuela: Background and U.S. Relations”, de 2022, a assistência estadunidense para a Venezuela atingiu seu maior nível em 2018, reforçando um viés oportunista de sua política externa. Para além do financiamento destinado a programas de promoção de direitos humanos, da saúde e da democracia, que também envolvem a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID, na sigla em inglês) e a National Endowment for Democracy (NED), o CRS menciona a destinação de recursos para despesas operacionais do governo interino, incluindo salários, sistemas seguros de comunicação e apoio logístico.
Essas iniciativas ganharam maior relevância após a assinatura do acordo bilateral entre a USAID e o governo interino venezuelano, em outubro de 2019, reforçando que a assistência estadunidense tinha como um de seus principais objetivos fortalecer a elite não governante do país por meio da construção de uma plataforma institucional. No plano diplomático, o movimento de reconhecimento político de Guaidó também demanda atenção e engloba outra dimensão da influência exercida pela hegemonia liberal. De acordo com Susanne Gratius, em seu artigo “The West Against the Rest? Democracy Versus Autocracy Promotion in Venezuela”, publicado em 2021, a rápida decisão dos EUA de reconhecer o governo interino foi acompanhada por diversos países, incluindo 25 dos 28 Estados-membros da União Europeia, em um total de 60 países ao redor do mundo. Esse movimento representou um ganho relevante de capital político, por meio do aumento de legitimidade e inserção na ordem liberal e em redes pró mudança de regime.
A análise da insuficiente mudança de regime revela um aspecto central, que envolve as elites governantes do governo Maduro. Retomando estudos clássicos, Benedicte Bull e Francisco Sánchez observam, no artigo “Élites y populistas: los casos de Venezuela y Ecuador”, publicado em 2020, que líderes dependem de grupos de apoio situados nos âmbitos institucional, militar, econômico e social, inclusive para além do Estado. Ao analisar as origens do modelo chavista, identifica-se um ponto de inflexão em relação ao modelo estabelecido pelo Pacto de Punto Fijo, em 1958, que marcou a transição democrática venezuelana, a partir da implementação de um sistema rentista e corporativista de distribuição de poder político, na figura dos partidos COPEI e Acción Democrática e econômico entre as elites tradicionais do país. No artigo “El reemplazo de las elites en Venezuela. Una explicación a partir del conflicto entre gobierno y medios de comunicación”, de 2023, Andrés Zambrano interpreta o processo como uma substituição das elites tradicionais venezuelanas pelas novas elites de origem militar e empresarial. Nesse contexto, intensificou-se a mobilização político-social venezuelana entre 1999 e 2006, cujo ápice se refere à tentativa de golpe de Estado de 2002, liderada pelo presidente da Fedecámaras, principal organização de entidades empresariais do país, em meio ao conflito em torno do controle da PDVSA.
O episódio indica não apenas a disputa política intraelites, mas também o entendimento de Chávez de que seria necessário construir uma elite alternativa capaz de respaldar seu governo. Nesse sentido, o segmento militar da Revolução Bolivariana passou a ser fortalecido e se tornou um dos pilares do chavismo, abandonando sua posição apolítica e assumindo participação ativa em funções cotidianas. Esse processo incluiu a atuação das Forças Armadas na segurança pública e em políticas sociais, estabelecida pelo Plano Bolívar de 2000, além de uma participação mais frequente em empresas estatais e na base ministerial.
As novas elites econômicas e políticas também passaram a integrar a base do governo. As primeiras, valendo-se de novos privilégios, passaram a atuar na importação e na exportação de divisas ligadas a empresas e a bancos estatais, enquanto as segundas utilizaram o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) como canal de mobilidade social. Desse modo, formou-se um grupo coeso de elites com interesse em dar continuidade ao bolivarianismo
Dada essa conjuntura, mesmo com a morte de Chávez, em 2013, e a queda dos preços do petróleo, em 2014, o chavismo se sustentou, o que reforça a tese de Benedicte Bull e Francisco Sánchez de que a sobrevivência do modelo está intrinsecamente ligada ao seu vínculo com as elites alternativas, que seguem atuantes. Desse modo, um aspecto central destacado pelos autores e que auxilia na compreensão da continuidade do governo Maduro é a consolidação dos militares como força dominante.
Essa interpretação também encontra respaldo no artigo “Militarização e desdemocratização ao longo dos governos chavistas na Venezuela”, de Jefferson Nascimento, publicado em 2025, que caracteriza a militarização do Estado venezuelano como um dos principais escudos para a sobrevivência do chavismo, especialmente no governo Maduro. Diante desse quadro, em consonância com a tese de Nascimento, o aumento da influência das Forças Armadas no campo político pode ser exemplificado pela conversão do Ministério do Poder Popular para a Defesa — órgão responsável pela coordenação das instituições militares — em segunda força política no país, atrás apenas do presidente. O processo também se acentua no âmbito econômico, dado o aumento do controle administrativo de empresas estatais e mistas pelos militares, que lhes rendeu status de empresários, bem como críticas referentes à qualificação técnica e a indícios de corrupção por parte da oposição.
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Assim, a consolidação dos militares como trunfo do governo Maduro pode ser exemplificada pelas sucessivas tentativas da oposição de fragmentar o grupo. A partir de 2017, observa-se um incremento desse processo com a criação da Comissão de Garantias para a Transição, que estabeleceria anistia, mesmo sendo classificada como inconstitucional pelo Supremo Tribunal em maio do referido ano. O levante seguinte à decisão reforça que o plano de fragmentar as Forças Armadas passou a ser um objetivo central da oposição, como exemplificado por Guaidó. Ele utilizou o suposto descontentamento para tentar convencer o país de que a revolta era um sentimento generalizado entre os militares, embora o movimento tenha-se restringido a uma unidade militar e à Guarda Nacional, braço mais fraco das Forças Armadas. A frase final do comunicado de resposta das Forças Armadas elucida o vínculo do grupo com o chavismo, conforme indicado por Jefferson Nascimento: “Chávez vive, a pátria continua. Independência e pátria socialista, viveremos e venceremos”.
A derrota não alterou o modus operandi da oposição, a exemplo do levante realizado em Valência em agosto do mesmo ano, em resposta à interferência do Executivo no Parlamento e, especialmente, da Operação Liberdade, movimento mais ousado da oposição contra o governo Maduro, em abril de 2019. Na ocasião, Guaidó reuniu, em uma base militar, militares rebeldes e Leopoldo López, figura emblemática da oposição que estava em prisão domiciliar. A inesperada aparição do opositor foi instrumentalizada em vídeo como suposta prova da fragmentação das Forças Armadas com o governo, movimento novamente rechaçado e desmentido pela alta cúpula do Executivo.
Além disso, embora as sanções impostas pelos EUA buscassem pressionar e isolar o governo Maduro, Susanne Gratius sustenta que a estratégia produziu um efeito inverso, ao reduzir os vínculos materiais entre o “Ocidente” e o país e, simultaneamente, ampliar a zona de influência de Rússia, China e Cuba, criando condições favoráveis aos ganhos financeiros da elite econômica. Nesse contexto, os contínuos esforços estadunidenses para promover a elite não governante ocorreram em meio à diminuição das exportações venezuelanas para os EUA, marcada pela queda de US$ 38,7 bilhões para US$ 1,9 bilhão em 2019. O cenário reforça a tese de Gratius de que uma estratégia voltada para a pressão ideológica, combinada com a redução de vínculos materiais, limita a capacidade de induzir uma mudança de regime, considerando aspectos de interdependência e diminuição de poder de barganha.
Assim, a estratégia do “Ocidente” e da oposição fragmentada de concretizar a mudança de regime esbarrou, principalmente, na solidez das elites governantes, visto que, de acordo com Bull e Sánchez, “todas têm como prioridade a continuidade do regime, sem se importar com o quão corrupto, ineficaz e autoritário o governo seja”. Nota-se que o apoio das elites militares representa a principal base de sustentação do chavismo, elemento igualmente compartilhado pela oposição. O caso venezuelano sugere, portanto, que a pressão externa e a intensificação das intrusões americanas encontram limites diante da força das estruturas domésticas e políticas, conforme desenvolvido por Steven Levitsky e Lucan A. Way em “Competitive Authoritarianism: The Origins and Dynamics of Hybrid Regimes in the Post–Cold War Era”, publicado em 2010. Adicionalmente, o enfoque das elites contribui ativamente para a compreensão do chavismo como produto da coesão entre elites governantes, e não da posição exercida por seus líderes.
A formação de um consenso entre as elites governantes venezuelanas se torna, desde o governo Chávez, um mecanismo central de sobrevivência do chavismo e, apesar das mudanças de líderes, o chavismo se perpetua por meio da consolidação de grupos de interesse. Essa tese encontra respaldo em Bull e Sánchez, que sustentam que as chances de sobrevivência de um movimento populista, após a mudança de sua principal liderança, são maiores quando uma elite alternativa já tiver sido formada.
O enfoque das elites no caso venezuelano permite aprofundar a compreensão das dinâmicas de poder nas Relações Internacionais. Observa-se, assim, um processo de disputa intraelites, conformado por uma estrutura de poder que não é neutra, mas que condiciona e orienta a atuação de seus agentes. Nesse sentido, a evolução da intrusão estadunidense na Venezuela deve ser compreendida como parte integrante de sua ação hegemônica. Embora essa estratégia tenha incorporado setores da elite não governante, não foi capaz de produzir a fragmentação e a cooptação da elite governante.
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Por conseguinte, é fundamental compreender a existência de uma rede consolidada de interesses entre as elites que compõem a coalizão governante. Esta configuração permite explicar por que estratégias de intrusão tendem a encontrar maiores obstáculos em contextos, nos quais a elite do poder permanece coesa. No caso venezuelano, a convergência de interesses entre lideranças partidárias, cúpulas militares e setores econômicos vinculados ao regime dificultou a produção de fraturas internas capazes de favorecer a mudança de regime pretendida pelos Estados Unidos.
O cenário atual na Venezuela reflete uma nação fraturada e sob intensa tutela estrangeira, onde as decisões mais importantes passaram a ser fortemente arbitradas por Washington, após a intervenção militar que capturou Nicolás Maduro. Diante disso, setores cruciais da elite venezuelana — que incluem o alto comando militar e a ala histórica do chavismo — oferecem uma resistência firme e silenciosa contra a ingerência dos Estados Unidos. Para essas lideranças, as ações americanas e o desmantelamento de bases logísticas locais representam uma agressão direta à soberania do país, gerando uma recusa clara em subordinar os aparatos de segurança, Inteligência e defesa do Estado às diretrizes do Pentágono.
Essa resistência ganha contornos ainda mais críticos diante das pressões econômicas e sociais que estrangulam o país atualmente. A elite bolivariana tradicional e movimentos de esquerda denunciam os acordos petrolíferos forçados pelo bloqueio como uma capitulação neocolonial, acusando o governo interino de renunciar à soberania sobre a PDVSA em troca de oxigênio financeiro imediato. Essa disputa foi tensionada pelo colapso estrutural agravado pelos terremotos e o fim do prazo constitucional de 180 dias do mandato de Delcy Rodríguez, mergulhando a Venezuela em um profundo impasse institucional.
Por fim, os desdobramentos do momento mais intenso da intrusão dos Estados Unidos na Venezuela permanecem em aberto por se tratar de um processo contínuo ainda em curso. Seu desfecho dependerá da capacidade das elites chavistas de se manterem coesas e da continuidade do processo de ação hegemônica estadunidense, marcado tanto por tentativas de fragmentar ou cooptar grupos de interesse quanto pelo emprego de eventuais novas medidas intrusivas no país.
* Francisco Simões Lins de Albuquerque, José Pedro Couto Falcão e Mariana Moraes Costa são alunos do curso de graduação em Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Esse texto é produto final da disciplina “Mapeando o Poder nas Relações Internacionais”, ministrada pelo prof. dr. Rodrigo Amaral na referida instituição.
** Revisão e edição: Tatiana Teixeira. Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU.
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