Resultados da política externa de Trump
(Arquivo) Presidente dos EUA, Donald Trump, na celebração “Salute to America”, em 3 jul. 2025, em Des Moines, Iowa (Crédito: (Daniel Torok/Casa Branca/Flickr)
Por Williams Gonçalves* [Informe OPEU] [Política externa Trump 2.0]
A maior dificuldade encontrada pelos analistas de política internacional em avaliar os resultados da política externa do governo Trump é identificar com precisão quais são os objetivos por ele perseguidos. A acreditar no que dizia no início de seu mandato, o objetivo consistia em recuperar o poder dos Estados Unidos. Poder esse que foi corroído em favor da China, que, em virtude da leniência daqueles que o antecederam no cargo, alcançou os Estados Unidos em poder econômico e capacidade de inovação tecnológica e, consequentemente, ameaçando traduzir esses êxitos em poder militar. Até o momento, porém, o que se assiste é que a China continua a evoluir econômica e tecnologicamente, enquanto o governo Trump se vê atolado em uma guerra contra o Irã, ao mesmo tempo em que ele continua a colecionar inimigos e a deixar um rastro de ressentimentos em antigos aliados do país. Ao fim e ao cabo, Trump parece um caricato tirano à moda da antiguidade, que se compraz em promover a destruição de tudo o que está a seu alcance com o único fito de provocar temor.
No plano da política doméstica, os resultados não parecem muito diferentes daqueles alcançados na política internacional. Trump obteve considerável prestígio junto à sociedade norte-americana, mesmo após ter encerrado seu primeiro mandato com uma agitação de seus prosélitos que se assemelhou a um golpe de Estado. Em grande medida, esse prestígio advinha de suas promessas de recuperar empregos perdidos para a globalização econômica e de não iniciar novas guerras. Nada indica, porém, que isto esteja para acontecer.
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Começando pela política interna, duas situações merecem destaque.
Além da construção do muro que deve separar fisicamente os Estados Unidos do México, um projeto apresentado no primeiro mandato e que continua em execução, o governo Trump, por meio da ICE (Agência de Imigração e Controle de Alfândega), prossegue com sua determinação de expulsar imigrantes do país. Apesar das denúncias de arbitrariedades e mortes praticadas pelos seus agentes, esse serviço é prestigiado e estimulado pelo próprio presidente.
A perseguição aos imigrantes tem apresentado resultados econômicos que vão de encontro aos imaginados por Trump, apesar de todas as advertências que lhe foram feitas. Os imigrantes têm deixado vagos centenas de milhares de empregos, o que representa significativa perda para o conjunto da economia. Processos produtivos foram interrompidos. A supressão dos correspondentes salários provocou queda do consumo e redução da renda dos empresários que em contrapartida vendem mercadorias e prestam serviços. No setor agrícola, a situação é mais grave, devido à dificuldade de recomposição dos postos desocupados. Essa turbulência no processo produtivo tem contribuído para a elevação da taxa de inflação, que registrou 3,5% em junho. Evidentemente, as questões econômicas são questões sociais. A expulsão de pessoas já há muito ambientadas e a fragmentação de famílias acompanham esse transtorno econômico.
Uma segunda situação é, por assim dizer, muito curiosa. Trata-se da expansão de ideias socialistas pelo país. Não que elas jamais tenham existido. Agora, porém, essas ideias socialistas têm apresentado resultados políticos concretos. Como isso vai evoluir, ainda é muito cedo para saber. Mas o que se sabe já é suficiente para despertar a atenção.
Tidos como seguidores do caminho aberto pela primeira campanha presidencial do senador Bernie Sanders, em 2016, candidatos socialistas afiliados ao Partido Democrata começam a colher resultados positivos junto ao eleitorado. Zohran Mamdani foi responsável pelo primeiro e expressivo êxito dessa corrente política, ao ser eleito prefeito de Nova York, no ano passado. Claire Valdez, Brad Lander e Darializa Avila Chevalier foram vitoriosos nas primárias para a Câmara de Representantes de Nova York. Abdul El-Sayed, em Michigan, está à frente nas pesquisas referentes às primárias para o Senado estadual.
Avançando na mesma direção, acha-se a organização política não-partidária Socialistas Democráticos da América (DAS, em inglês), que atualmente congrega mais de 120.000 membros. Seus ativistas trabalham apoiando candidatos socialistas. Recentemente, a DAS lançou nova plataforma, intitulada “Os Trabalhadores Merecem Mais”. A plataforma reivindica ampla reformulação do sistema político dos Estados Unidos, o que inclui a eliminação do Senado, da ICE e do sistema bipartidário, de modo a permitir maiores possibilidades de organização escolhas. No que diz respeito aos trabalhadores propriamente ditos, o DAS almeja a adoção da jornada de 32 horas de trabalho e folga remunerada; a ampliação da habitação pública e uma lei do inquilinato que proteja os indivíduos dos despejos arbitrários; educação pública gratuita da pré-escola à universidade; e, muito importante, o Medicare para Todos, o que se traduz como um sistema público gratuito de assistência à saúde de todos os cidadãos.
Com exceção das propostas político institucionais, o conteúdo das reivindicações apresentadas pelo DAS não constitui, propriamente, uma novidade. Essas são medidas há muito desejadas pela classe trabalhadora, que, caso atendidas, melhoraria consideravelmente suas condições de vida. A novidade veio da reação política ao anúncio da plataforma. Enquanto parte dos Democratas apoiou as reivindicações, outra parte denunciou-as como perigoso desvio programático. Donald Trump acusou o DAS de se haver tornado perigoso movimento comunista que constitui ameaça mortal à liberdade dos norte-americanos. Na tribuna do Senado, o senador republicano Chuck Grassley (R-IA) associou a plataforma do DAS às recentes eleições do prefeito de Nova York e dos outros parlamentares a um amplo movimento que pretende subverter o Estado norte-americano, transformando-o em algo similar a Venezuela, Cuba e Coreia do Norte.
Deixando de lado essas divertidas comparações do aguerrido senador, percebe-se que as instituições oficiais, Presidência e Congresso, nunca haviam se ocupado desses movimentos e de suas reivindicações. Em se tratando de Estados Unidos, que até há pouco tempo era praticamente imune a ideias socialistas, isso não é pouco. Em comparação com países desenvolvidos e até mesmo vários periféricos, as reivindicações da classe trabalhadora são chocantes. Considerando-se que Donald Trump se elegeu presidente acenando, justamente, para a classe trabalhadora, prometendo protegê-la da concorrência chinesa e acusando seus antecessores de pouco caso com a situação dessa classe, conclui-se que o quadro é realmente preocupante. Decerto, não era bem isso que Trump tinha em mente quando fez suas promessas.
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É por demais sabido que a política externa tem relativa independência da política da política interna. Cada qual tem sua própria dinâmica. Mas essa independência não é absoluta. Isso significa que o desejo de fazer o que se bem entende na política internacional pode ser comprometido pela situação em que se encontra a política interna. Na primeira semana de novembro deste ano, Trump enfrentará eleições congressuais. E esse quadro político interno pode influir negativamente, e ele, perder o apoio da maioria dos parlamentares. É nesse ponto em que as duas esferas da política de Estado, interna e externa, encontram-se. Para agravar suas dificuldades, a situação externa não está em muito melhor situação.
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Mesmo aqueles que o apoiam têm dificuldade em entender exatamente aonde Trump quer chegar. Até agora, ele realizou extraordinária obra destrutiva. A ordem internacional construída por seus antecessores na Casa Branca, difundindo valores como regimes democráticos, livre-comércio e respeito aos direitos humanos, embora eles próprios não os tenham respeitado, acha-se em frangalhos. As instituições internacionais e a própria ONU foram relegadas à insignificância. Trump praticamente não tem aliados. Alguns poucos que pretendiam gozar dessa condição acabaram por desistir, humilhados e maltratados que foram.
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Quando assumiu a Presidência, Trump anunciou que o objetivo de sua política externa era impedir a progressão econômica da China. Afirmava que enfrentaria a China recuperando empresas que para lá haviam-se transferido e, consequentemente, restabeleceria os postos de trabalho que os norte-americanos haviam perdido. Também impediria a entrada de produtos chineses no mercado, de modo a reabrir espaço para a produção nacional. E estimularia o desenvolvimento tecnológico em áreas críticas, para readquirir a liderança mundial e, assim, conservar a condição de maior potência militar do mundo.
A China já era prioridade da política externa norte-americana antes do retorno de Trump à Casa Branca. Ele, no entanto, mudou a abordagem. Baseando-se na oposição entre democracia e autoritarismo, Joe Biden dava um tratamento militar à questão. Seu governo agia como se a China, a cada semana, fosse invadir e ocupar Taiwan. O governo Trump entende o problema de outra maneira. Embora não despreze completamente a dimensão militar, ele interpreta a questão como eminentemente econômica. Em virtude da sua importância como produtora de semicondutores eletrônicos, Taiwan deve se manter fora da órbita chinesa, não podendo ser absorvida pelo aparelho produtivo chinês. Caso isso venha a acontecer, a China passará a usufruir de uma vantagem econômica e tecnológica muito grande.
Com o passar do tempo, os termos da disputa com os chineses foram burilados. A inicial agressividade tarifária que Trump dedicou ao comércio chinês não rendeu os dividendos esperados. Isso porque os chineses não se intimidaram, também elevando suas tarifas comerciais. Aos poucos, foi ficando evidente que, não obstante a concorrência, havia um espaço de convergência que não podia ser negligenciado. A existência de uma dependência mútua torna contraproducente medidas de retaliação severa. Não vale a pena agir agressivamente, quando é possível obter o que se deseja mediante a negociação pacífica. A importância da posse chinesa de terras raras, fundamentais para a tecnologia de última geração, é prova disso. No atual estágio da concorrência, disputa-se a primazia na tecnologia da Inteligência Artificial (IA). Deve-se sublinhar, contudo, que a vantagem proporcionada pela posição de vanguarda na IA somente se concretiza se for integrada ao sistema produtivo, a plataformas militares e a sistemas de pesquisa na área médica e científica. E, nessa disputa, não se ouve falar em recorrer aos meios militares, somente aos dispositivos científicos.
A visita de Trump a Xi Jinping, em 13-15 de maio deste ano, constitui a mais clara demonstração do ajuste da política externa dos Estados Unidos em relação à China. À frente de numerosa delegação, integrando cerca de 30 CEOs das grandes corporações, incluindo as principais Big Techs, Trump foi recebido com grandes manifestações de apreço e respeito, que incluiu guarda de honra, banquete no Salão Dourado da Casa do Povo e visita ao complexo de Zhongnanhai, sede central do Partido Comunista Chinês e do Conselho de Estado, um privilégio concedido somente aos mais próximos. A visita celebrou a “Relação Estratégica Construtiva e Estável”, na verdade, uma notável vitória político-diplomática da China, que, assim, viu anulada a agressividade verbal de Trump, como também testemunhou o vivo interesse dos dirigentes empresariais norte-americanos em fazer negócios com os chineses.
A inicial retórica agressiva contra a China, acompanhada de furor tarifário, foi, portanto, substituída por uma relação estratégica pacífica e construtiva. Já as relações com os países da Europa e com os países-membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), outrora a mais importante aliança que sustentava a hegemonia dos Estados Unidos no mundo, mesmo depois do colapso do Estado soviético, quando teoricamente a OTAN perdeu sua razão de ser, deterioraram-se completamente.
Ao mesmo tempo em que voltou à carga, exigindo dos europeus elevação das despesas com a segurança coletiva no âmbito da OTAN, com o argumento de que não fazia mais sentido o ônus financeiro da aliança militar recair sobre os Estados Unidos, Trump fez sérias ameaças à Dinamarca e ao Canadá, dois Estados integrados ao dispositivo militar. A ameaça à Dinamarca consistiu na ideia de anexar a Groenlândia, sob a justificativa de se defender da expansão russa e chinesa na região polar. No caso do Canadá, ameaçou com a ideia de simplesmente anexar o país aos Estados Unidos, tornando-o mais um estado da Federação. A ideia foi muito mal recebida, não só pelos dirigentes dos dois Estados afetados, mas também por todo o conjunto de integrantes da OTAN, que assim assistiam a um de seus membros se voltar contra a aliança militar, negando exatamente um dos objetivos da organização: o de livrar os países-membros de ameaças à integridade territorial de cada um deles.
Além dessa surpreendente iniciativa, Trump praticamente rejeitou a guerra que os europeus da OTAN travam com a Rússia na Ucrânia. Pelo fato de sua estratégia de Estado não atribuir à Rússia o sentido de antes, vendo em Putin um líder que devia ser cooptado para uma aliança antichinesa e não um inimigo irredutível, desse modo quebrando a espinha dorsal do BRICS, Trump confirma na prática o desdém pela organização militar antes demonstrada nos episódios envolvendo Dinamarca e Canadá. Contudo, revelando enorme contradição política, ele protesta com os europeus, ameaçando retaliá-los, por eles não darem o apoio aos Estados Unidos na guerra que trava com o Irã. Tal dinâmica é, com toda a razão, interpretada como uma tentativa de tratar os europeus como seus subordinados, e não como aliados. Essa é uma prática política que corrobora ideia por ele manifestada e expressa em sua Estratégia de Segurança Nacional (NSS 2025) de que a Europa é decadente, formada por Estados de segunda linha.
A dimensão da política externa de Donald Trump que o coloca, mais evidentemente, em situação política difícil na arena interna é a guerra com o Irã. O primeiro aspecto a considerar sobre esta questão é que Trump se elegeu presidente, prometendo à sua base eleitoral, o MAGA, que seria inteiramente diferente de seus antecessores, isto é, não iniciaria guerras, pois os Estados Unidos foram economicamente sangrados por guerras que não trouxeram qualquer benefício à nação, além de terem sido responsáveis pela perda de vida de numerosos cidadãos do país.
Por muitos considerada uma guerra, para a qual os Estados Unidos foram arrastados pelas razões de Israel, e não por razões propriamente nacionais, Trump se situa em uma situação muito difícil internamente, havendo iniciado um conflito que não consegue vencer, tampouco consegue encerrar. Contra tudo que dizia, está envolvido numa guerra que consome recursos financeiros e militares, ao mesmo tempo em que se vê como responsável pela elevação dos preços do petróleo em escala mundial, o que prejudica o conjunto da economia global, e igualmente responsável pela elevação do índice de inflação da economia nacional. Decerto que essa contradição não escapará da atenção dos eleitores nas próximas eleições. Prevendo perfeitamente isso, Trump já deu início a catilinária da lisura do processo eleitoral.
Essa apreciação geral não pode ser finalizada sem referências às relações com a América Latina. É nessa região que a política externa de Trump tem colhido melhores resultados.
Na Estratégia de Segurança Nacional, documento dado a público em novembro de 2025, o governo Trump apresenta muito claramente os objetivos perseguidos pelos Estados Unidos na América Latina, região denominada “Hemisfério Ocidental” (Western Hemisphere). Nesse documento, Trump anuncia a disposição de “afirmar e impor” (assert and enforce) um “Corolário Trump” à Doutrina Monroe. Por outras palavras, o governo Trump se arroga o direito de determinar como os povos da região devem ser governados.
Antes de avaliar os resultados práticos desse programa estratégico, é interessante observar que Trump não buscou a criação de qualquer movimento que funcionasse como base de orientação ideológica para seus admiradores estrangeiros. O que, evidentemente, condiz com o caráter nacionalista xenófobo de seu governo. Apesar de elementos de seu círculo político acarinharem lideranças políticas de extrema direita dos países da região, concedendo-lhes palco para a difusão de suas ideias extremistas, e as estimularem a alcançar o poder de Estado, não existe nenhuma organização política formalizada. O que não deixa de ser uma situação muito curiosa, pois, ao mesmo tempo em que ele investe furiosamente contra os imigrantes oriundos da região, qualificando-os de bandidos e narcoterroristas e expulsando-os do território norte-americano, os soi-disant nacionalistas da região reverenciam-no fanaticamente.
A extrema direita brasileira exemplifica, como nenhuma outra, essa esdrúxula concepção: ao mesmo tempo em que reivindica para si o monopólio do nacionalismo e se fantasia com as cores nacionais em suas manifestações públicas, ela o faz misturando com as cores da bandeira dos Estados Unidos e de Israel, como se fosse uma coisa só. O mais curioso ainda é que essa entrega efetuada pela extrema direita latino-americana não registra qualquer espécie de compensação, é uma via de mão única apenas. Isso reforça nossa ideia inicial de que Trump se comporta e é admitido por seu rol de admiradores como um tirano à moda da antiguidade, que se apossa de territórios sem se preocupar em prestar qualquer satisfação àqueles sob seu domínio.
A finalidade da estratégia de Trump para a América Latina, também denominada “Doutrina Donroe”, é exposta sem subterfúgios. Trata-se de forçar a ascensão de governos que se submetam docilmente à tutela dos Estados Unidos, com vistas a reduzir ao máximo a participação chinesa na economia desses países e facilitar tanto quanto possível o acesso das empresas norte-americanas aos seus recursos naturais. Para alcançar esse objetivo estratégico, o governo Trump não se furta a recorrer a qualquer expediente. Na Venezuela, esse propósito foi atingido. Por meio de intensa pressão militar, alegando perseguição a cartéis de narcotraficantes, o país foi invadido, seu presidente sequestrado, e a nova governante se dispôs a cooperar e ceder às exigências dos norte-americanos, interessados em se apropriar do setor petrolífero daquele país.
Trump também obteve êxito na pressão que exerceu sobre o presidente panamenho, José Raúl Mulino. Ameaçando tomar à força o controle do Canal do Panamá, sob a alegação de que o canal foi construído pelos Estados Unidos, Trump conseguiu que a Suprema Corte panamenha anulasse o contrato que havia firmado com a empresa chinesa Panama Ports Company, que operaria os portos de Balboa e Cristóbal. A resposta chinesa a essa investida contra seus interesses se limitou à abertura de um processo de arbitragem internacional para fazer valer seus investimentos. Para completar a submissão aos desígnios de Trump, o presidente panamenho retirou o país da Rota da Seda.
A recente eleição de Keiko Fujimori, no Peru, cria, por sua vez, grande expectativa em relação à política de Trump para a região. Isto porque, em novembro de 2024, foi inaugurado pela presidente peruana, Dina Boluarte, e por Xi Jinping o megaporto de Chancay, um porto de águas profundas construído com financiamento chinês. Além de interligar Peru e China no âmbito da Iniciativa Cinturão e Rota, o porto tem o objetivo de conectar a China com a economia brasileira, facilitando a exportação de minério de ferro e soja, por meio de uma nova linha férrea ligando o Brasil ao porto. A expectativa se deve ao fato de a nova presidente Keiko Fujimori ter sido eleita pelas forças de extrema direita do Peru e de o Porto de Chancay funcionar como fundamental base estratégica para integrar a economia chinesa às economias dos países da área, sobretudo, aos setores exportadores da economia brasileira.
Por fim, cabe examinar a relação de Trump com o governo brasileiro. Essa é uma relação historicamente importante para ambos os países. Em virtude de suas dimensões territoriais, de suas riquezas naturais e de sua produção e mercado consumidor, o Brasil tem grande relevância para os Estados Unidos. Além disso, o Brasil cultiva com a China relações econômicas muito intensas. O Brasil é o país do mundo que mais recebe investimentos dos orientais. No plano das relações multilaterais, divide com a China a responsabilidade pela criação do grupo BRICS, reiteradamente demonizado por Donald Trump, devido às suas iniciativas no sentido de promover negócios sem o uso da moeda norte-americana. Com certa razão, Trump percebe essas iniciativas como tendentes a uma desdolarização dos negócios internacionais, o que, caso continue evoluindo, reduzirá consideravelmente a influência dos Estados Unidos. Para completar, entre suas riquezas naturais, o Brasil conta com a segunda maior reserva do mundo de terras raras, minerais fundamentais para a tecnologia de ponta. Considerando-se que as maiores reservas estão na China e que os norte-americanos importam dos chineses esses minerais para sua produção industrial, é possível avaliar o interesse dos Estados Unidos nessas reservas brasileiras.
Sem apelar para os expedientes até então usados nos países mais vulneráveis da região, Trump tem pressionado o Brasil. Essas pressões estão se dando no campo comercial e no plano político. No domínio do comércio, o instrumento usado tem sido a elevação das tarifas sobre determinados produtos. Pretextando práticas comerciais injustas, uso de trabalho forçado, defesa do meio ambiente e até arbitrariedade jurídica por parte da Suprema Corte brasileira, Trump tem elevado arbitrariamente as tarifas comerciais. O governo brasileiro, por seu turno, tem-se defendido desse assédio, confinando o assunto à esfera estritamente econômica. Para tanto, tem usado seu dispositivo diplomático, bem como a ação das associações comerciais, com vistas a apelar, inclusive junto às associações empresariais norte-americanas, para a racionalidade econômica.
No plano político, as pressões têm sido feitas mediante o abrigo concedido a elementos vinculados à extrema direita brasileira em seu território, de onde eles lançam provocações e se empenham para influenciar o comportamento do governo daquele país em favor de seus objetivos políticos golpistas. Embora esses elementos procurem se apresentar como amigos e protegidos de Trump, que estaria firmemente comprometido com a eleição para presidente da República de seu representante, o fato é que, como já está sobejamente evidenciado, Trump é imune a lealdades pessoais em relação a admiradores e prosélitos estrangeiros, uma vez que sua xenofobia é impermeável a esses sentimentos. Trump deseja, sim, mudanças no governo brasileiro, seja ele qual for, desde que o governo de plantão se revele disposto a se curvar ante suas exigências. Dada sua determinação em fazer valer sua versão da Doutrina Monroe, resta a expectativa relativamente às Big Techs estarão dispostas a fazer ao longo da campanha presidencial que se avizinha em favor do candidato ungido pela principal liderança da extrema direita e a respeito do que poderá acontecer caso, como indicam as pesquisas até o momento, esse candidato seja derrotado pela maioria dos eleitores.
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A conclusão, a que nos permitimos, não difere daquela de avaliações anteriores, abordadas no OPEU e em outros veículos, assim como em trabalhos acadêmicos. Trump não dispõe de uma Grande Estratégia que possa ser sustentada por longo período. De certo modo, ele tem sido bem-sucedido, graças à posse de capacidade militar, ainda que esta também seja relativa quando encontra um opositor que tenha alguma capacidade de militar de deterrência e de legitimidade política para empregá-la, como é o caso do Irã. Seu arremedo de estratégia é deficiente, entre outros motivos, porque não se apoia em aliados confiáveis. Trump tem colecionados inimigos e governos tutelados, mas isso é inteiramente insuficiente para uma estratégia de longo alcance. Deste modo, o que é possível esperar, pelo menos em prazo mais curto, é uma mudança política interna nos Estados Unidos. Como exposto ao longo deste artigo, cresce na sociedade norte-americana ideias que negam, como nunca se viu, a direção imprimida pelo governo. Caso esse movimento na base se expresse eleitoralmente com vigor, é perfeitamente possível vislumbrar um impeachment, que venha a interromper a alucinada progressão de Donald Trump. ![]()
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Informe “Congresso: Partido Comunista Chinês se infiltra e influencia os norte-americanos”, 29 out. 2024
Informe “O Partido da Guerra”, 11 out. 2024
Informe “Relatório sobre Estratégia de Defesa Nacional 2024 adverte sobre grandes ameaças aos EUA”, 25 set. 2024
Informe “A tensa relação de Estados Unidos e China no Mar da China Meridional”, 13 jun. 2024
Informe “Rotas de colisão”, 18 de maio de 2024
Informe “Repensar a Estratégia dos Estados Unidos”, 2 ago. 2023
* Williams Gonçalves é Professor Titular de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e professor do Programa de Pós-Graduação em Estudos Marítimos da Escola de Guerra Naval (PPGEM-EGN). Doutor em Sociologia, também é pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre Estados Unidos (INCT-INEU).
Entre outros livros, é autor de A China e a nova ordem internacional (Editora Ayran, 2023) e O realismo da fraternidade: as relações Brasil-Portugal no governo Kubitschek (Funag, 2024).
** Revisão e edição: Tatiana Teixeira. Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU.
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