Saúde

Surto de ciclosporíase em 34 estados nos EUA preocupa experts em saúde 

Alface do tipo iceberg contaminada pode ser uma das causas do novo surto (Crédito: Vecteezy/Pronojoy Saha)

Por Ingrid Marra* [Informe OPEU] [Saúde] 

Desde o início de maio deste ano, os Estados Unidos enfrentam um surto de ciclosporíase, uma infecção gastrointestinal causada por um protozoário chamado Ciclospora. Caracterizada por diarreias explosivas graves, dor abdominal e gases, a doença costuma ser adquirida pelo consumo de água ou alimentos contaminados por fezes. Até o momento, acumula 6.358 casos ativos confirmados e duas mortes, com 34 estados afetados. 

Estados afetados pelo surto de ciclosporíase 

Legenda:
Estados em vermelho: pelo menos um caso / Estados riscados: surto em vários estados.
Notas: Dados até 24 jul. 2026. Os dados não incluem casos contraídos fora dos EUA.
Fonte: CNN  

Embora casos de ciclosporíase sejam relativamente comuns durante o verão, o total de casos desse surto é 27x maior que o número registrado nos anos anteriores. O parasita é de difícil rastreio, devido ao longo período de incubação. Uma pessoa pode estar infectada por diversos dias – ou até semanas – antes de apresentar sintomas. O problema disso é que, durante investigações, é difícil que um paciente afetado se lembre do que comeu 6-8 semanas antes do início dos sintomas. Surtos anteriores foram vinculados a saladas prontas, ervas e temperos, e também a determinadas frutas, como framboesa, geralmente importados de outros países. Nos últimos anos, porém, é importante mencionar que casos ligados a produtos originados nos Estados Unidos vêm crescendo nos últimos anos, de acordo com a FDA, a agência reguladora do setor de alimentos e medicamentos no país. 

Por enquanto, 278 pessoas precisaram de hospitalização. O estado considerado “epicentro”, Michigan, acumula mais de 12.485 casos (confirmados e sob investigação) desde o início do surto. O CDC (Centro para Prevenção e Controle de Doenças, em português) abriu uma investigação e, no dia 17 de julho, a empresa Taylor Farms solicitou o recall preventivo de alface tipo Iceberg importada do México.  

Em 19 de julho, a FDA publicou que uma amostra da Taylor Farms teve como resultado um falso positivo – quando o resultado do teste é positivo, mas a amostra não apresenta contaminação. Ainda assim, a recomendação de não consumir os produtos da marca se mantém, uma vez que há dados epidemiológicos suficientes para indicar a suspeita de contaminação do produto: 90% das pessoas entrevistadas reportaram comer alface do tipo Iceberg.  

A gigante Taylor Farms gerencia dezenas de plantas industriais – incluindo parcerias com fornecedores menores – nos Estados Unidos, Canadá, México e Europa e reportou US$ 6 bilhões em lucro em 2022, sendo um dos maiores produtores alimentícios dos EUA. A empresa está ligada a diversas investigações e recalls. Em 2024, foi responsável pela distribuição de cebolas contaminadas com E. Coli para o McDonald’s, resultando em mais de 100 casos da doença e uma morte. A FDA encontrou dezenas de violações de biossegurança em uma das plantas industriais da empresa, incluindo equipamentos sujos. No mesmo ano, alface contaminada com E. Coli foi responsável por 89 casos, hospitalização de 36 pessoas, das quais sete desenvolveram Síndrome Hemolítica-Urâmica (doença grave e potencialmente fatal), e um óbito.  

Antes disso, em 2023, o Departamento de Saúde do Colorado investigou casos de Ciclospora ligados a um único restaurante, que utilizava produtos frescos de fornecedores ligados à Taylor Farms. Não houve recall ou publicação do número oficial de casos. Em 2021, registrou-se um pequeno surto de E. Coli, vinculado à alface fornecida pela Taylor Farms, também sem recall de produtos. Em 2020, houve outro recall de cebolas de um de seus fornecedores por suspeitas de Salmonela. Alguns anos antes, em 2017, a empresa já havia solicitado um recall de saladas de porco e frango contaminadas por Listeria, bactéria que causa a doença grave Listeriose.  

Em 2015, o mix de aipo e cebolas já havia registrado contaminação por E. Coli. Nesse episódio, 19 pessoas foram afetadas pelo surto, com cinco hospitalizações e dois casos de Síndromes Hemolítica-Urâmica – um dos quais levou a um transplante renal. O recall envolveu mais de 155.000 produtos e sete estabelecimentos. Já em 2013, o mix de saladas produzidas no México foi responsável por um surto de Ciclosporíase que atingiu 631 de pessoas em 25 estados nos EUA. A investigação da FDA encontrou diversas irregularidades na planta responsável pelo produto, mas nenhum recall foi emitido. Apenas quatro anos antes, em 2009, alface picada contaminada por Salmonela provocou 45 casos nos EUA e 12 no Canadá. Nenhum recall foi emitido.  

Em julho de 2025, já no governo Trump 2.0, o CDC cortou o orçamento de diversos programas de vigilância de doenças transmitidas por alimentos, incluindo o chamado FoodNet. Fundado em 1995, o programa era responsável pelo rastreamento e pela investigação de surtos no país. Por conta dos cortes orçamentários, o Departamento de Saúde de dez estados, o Departamento de Agricultura e a FDA diminuíram a vigilância de Salmonela e E.Coli, além de categorizar como opcional a vigilância e a notificação de doenças causadas por Campylobacter (campilobacteriose), Cyclospora, Listeria, Shigella (shigelose), Vibrio (vibriose) e Yersinia (peste negra). Aproximadamente 48 milhões de pessoas sofrem de intoxicação alimentar por ano no país, com 128.000 hospitalizações e aproximadamente 3.000 mortes.  

Embora não seja possível confirmar uma ligação direta entre o corte orçamentário do FoodNet e o atual surto de Ciclosporíase, a tendência na diminuição de programas de vigilância desde o início do governo Trump dificulta que surtos sejam detectados mais cedo e que uma resposta coordenada pela implementada. Em 2024, ainda no governo de Joe Biden (2021-2025), apenas 57% da população demonstrou grande confiança nas habilidades do governo em manter a segurança nas cadeias de suprimento alimentar do país, 11% a menos do que a enquete anterior, realizada em 2019, durante o primeiro mandato de Trump (2017-2021).  

Níveis de confiança no fornecimento de alimentos 

Legenda:
Verde: Alto nível de confiança. Roxo: Médio nível de confiança. Azul: Soma de alto nível e médio níveis de confiança.
Notas: Categorias “não muito” e “zero confiança” não são mostrados no gráfico.
Fonte: Gallup 

Outra agência de segurança alimentar, a Food Emergency Response Network (FERN) também sofreu diversos cortes de orçamento e de funcionários, o que dificulta uma resposta coordenada a surtos como o atual. Diversas autoridades em saúde reportaram o envio de cartas e outros tipos de comunicação ao secretário de Saúde, Robert F. Kennedy Jr., solicitando a restauração de fundos orçamentários e explicando que esses cortes estão minando a segurança alimentar no país.  

Algo importante a salientar é que os problemas de segurança de alimentos enfrentados pela população não estão constritos a políticas adotadas (ou ignoradas) durante o governo de um partido específico, o que pode sugerir um padrão: defender os interesses da indústria alimentícia. Em um relatório produzido pela King & Spalding, a partir de 2020 com o início da pandemia da covid-19, o Center for Food Safety and Applied Nutrition (CFSAN)órgão da FDA, iniciou processos de flexibilização da indústria e suspendeu inspeções industriais de rotina. Embora os planos do governo democrata tenham sido a fortificação de regulamentação para a garantia da segurança alimentar, o grande número de surtos de doenças transmitidas por alimentos e o manejo da covid-19 indicam uma política suprapartidária de individualismo e proteção da economia – e não exatamente da população.  

 

Ingrid Marra é mestra em Global Political Economy and Development (GPED) pela Universität Kassel, graduada em Relações Internacionais pela UFRJ (IRID-UFRJ), colaboradora externa do Observatório Político dos Estados Unidos (OPEU) na área de Economia e Finanças 2021-2024, e Política Doméstica a partir de 2024. Áreas de interesse: hierarquia monetária internacional e criptomoedas, análise de discurso, pós-desenvolvimento e saúde. LinkedIn.   

** Revisão e edição: Tatiana Teixeira. Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU.

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