A guerra no Irã e o desmantelamento do sistema petrodólar
Crédito: Captura de tela do canal Reppond Investments, Inc. no YouTube
Por Ana Thees* [Informe OPEU] [Guerra no Irã]
No dia 5 de abril, o Irã lançou ataques a instalações de fornecimento de combustível em países do Golfo Pérsico, incluindo Bahrein, Kuwait e Emirados Árabes Unidos. Segundo a emissora estatal iraniana, a ofensiva foi uma resposta a dois ataques aéreos: um, cujo alvo foi um complexo petroquímico em Mahshahr, no sudoeste do país, pelo qual Israel se responsabilizou; e o outro, a uma ponte próxima a Teerã .
Esse episódio não foi um caso isolado, demonstrando como a Guerra no Irã tem estremecido peças importantes no complexo tabuleiro do sistema internacional, algo inesperado para o governo Trump, que subestimou o país desde o primeiro dia do conflito. O Estado persa tem respondido com altivez às agressões estadunidense-israelenses, sendo responsável pelo bombardeio de infraestruturas de energia, refinarias e instalações de petróleo de aliados dos EUA no Oriente Médio.
Para além da busca por retaliação, os ataques iranianos a tais infraestruturas estratégicas têm o objetivo claro de minar os interesses energéticos e geopolíticos dos EUA na região. Considerando que essa área dispõe, no presente, de condições para sustentar sua própria segurança energética, elemento fundamental para a manutenção de seu poder econômico e político, os Estados Unidos se empenham em exercer controle sobre as fontes globais de matéria-prima. De acordo com Celso Furtado, em sua obra Criatividade e dependência na civilização industrial (1978), tal estratégia visa a impedir que nações concorrentes se beneficiem do acesso a recursos a custos reduzidos fora do território norte-americano, o que poderia comprometer sua posição econômica. Esses interesses não poderiam estar mais expostos, com o fim dos 50 anos, em 2024, do acordo firmado entre Estados Unidos e Arábia Saudita, o qual instituiu uma das mais poderosas armas de influência e controle global estadunidense: o Sistema Petrodólar.
Antecedentes
Antes de adentrar no intrincado arranjo geopolítico e financeiro do Petrodólar, faz-se necessário realizar um retorno ao passado para melhor compreendermos o presente e, sobretudo, as razões sobre as quais atualmente esse importante mecanismo do poderio estadunidense se encontra tão vulnerável.
Em um contexto de ressaca da crise de 1929, seguida do fim da Segunda Guerra Mundial, o sistema de Bretton Woods estabeleceu o dólar como reserva mundial, lastreado no ouro. A partir daí, forjou-se um novo sistema monetário internacional, no qual os Estados Unidos eram o centro.
Essa estrutura começou a ruir nos anos 1960, porém, devido aos altos gastos acumulados pelos Estados Unidos com a Guerra do Vietnã e com programas sociais, provocando uma inflação que gerou uma erosão na confiança de países estrangeiros no lastro. Em 1971, o presidente Richard Nixon suspendeu a conversibilidade do dólar em ouro (o “Choque de Nixon”). Dessa forma, o dólar passou a ser uma moeda fiduciária de livre flutuação, levando o país norte-americano a buscar novos mecanismos para garantir a demanda global de sua moeda.
O ponto de ruptura foi a Guerra do Yom Kippur. No início dos anos 1970, os EUA apoiaram Israel na Guerra Árabe-Israelense e, em resposta, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) aumentou artificialmente o preço do petróleo. Tal medida acarretou impactos significativos para a economia norte-americana. Em um primeiro momento, desencadeou uma crise energética e inflacionária no âmbito doméstico; posteriormente, contribuiu para a desvalorização do dólar, uma vez que, sem o lastro em ouro, reduziu-se a necessidade de sua manutenção como reserva de valor.
Tal cenário levou os Estados Unidos à conclusão de que precisavam fazer algo a respeito da distribuição do petróleo no mundo.
A origem de tudo
Firmado em 1974, o Acordo do Petrodólar estabeleceu uma aliança estratégica de longo prazo entre os EUA e a Arábia Saudita. Na prática, a dinâmica definiu que o petróleo saudita seria comercializado exclusivamente em dólares. Em troca, os EUA forneceriam proteção aos campos de petróleo do regime saudita.
As implicações desse arranjo, como se pode imaginar, foram significativas para o poderio estadunidense, visto que o acordo amarrava o detentor da segunda maior reserva petrolífera do planeta e a commodity mais valiosa da economia mundial à sua moeda nacional.
Gradualmente, os demais membros da OPEP adotaram o mesmo modelo. Com isso, os países ao redor do mundo não tinham escolha, a não ser manter reservas em dólar. Logo, sua demanda constante levou ao fortalecimento da moeda. Isso concedeu, aos estadunidenses, a grande vantagem de se financiarem a um custo menor. Além disso, diante da necessidade das reservas em dólar, países da OPEP passaram a comprar títulos de dívidas públicas dos EUA. Isso porque, com a instituição do sistema petrodólar, as economias desses países passaram a ser inundadas com a moeda. Dessa forma, para contornar uma possível inflação e a desvalorização de suas reservas, a solução encontrada foi comprar títulos de dívidas dos EUA, transformando o “lucro do petróleo” em um investimento que rende juros. Assim sendo, o país norte-americano ganha outro trunfo: o poder de bloqueio econômico global.
A partir disso, fica clara a importância do sistema petrodólar para a hegemonia financeira dos Estados Unidos no sistema internacional.
O que está em jogo?
Em 9 de junho de 2024, o prazo atribuído ao acordo expirou, e a Arábia Saudita optou pela sua não renovação. Isso ocorre em um contexto geopolítico que não pode ser ignorado, uma vez que está intimamente ligado às causas desse cenário.
A ascensão da China ao status de potência global representa uma clara ameaça à hegemonia dos EUA, já que se apresenta como uma alternativa às históricas relações de dependência junto aos Estados Unidos. Essa movimentação se evidencia no mercado de commodities, em que a Arábia Saudita, o pivô da estabilidade energética, vem-se afastando da órbita de influência de Washington, na mesma medida em que reforça seus laços com Pequim. Esse realinhamento não representa meramente a troca comercial: ao aceitar o yuan como moeda para suas exportações petrolíferas à China, o Reino não apenas consolida seu maior mercado consumidor, mas também desafia a hegemonia do petrodólar, diversificando suas salvaguardas econômicas.
É justamente esse calcanhar de Aquiles que o Irã está expondo. Ao atacar ou ameaçar atacar a estrutura produtiva do petróleo dos países da OPEP, Teerã comprova que os Estados Unidos não são capazes de cumprir sua parte do acordo no sistema petrodólar: o de proteger militarmente os campos de petróleo desses países.
Além do mais, a guerra corrói a credibilidade necessária para a manutenção de uma hegemonia, uma vez que escancara que as políticas estadunidenses não mais se propõem a atender a um propósito coletivo.
Dessa forma, a guerra estremece os pilares que sustentam a hegemonia econômica estadunidense. Cada decisão tomada irá ser reverberada nos fundamentos do país. Resta saber se o governo Trump está à altura para responder a um sistema internacional em transição, que já não mais se contenta com os arranjos tradicionais de poder e a soberania do petrodólar. ![]()
* Ana Thees é graduanda em Relações Internacionais pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e bolsista de IC do INCT-INEU, sob supervisão e orientação da profa dra Clarissa Nascimento Forner (Uerj/INCT-INEU). Contato: anathees241@gmail.com.
** Revisão e edição: Tatiana Teixeira. Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU.
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