Internacional

Lá e de volta outra vez? Donald Trump e a cúpula do G7 em Évian 

Retrato de família: cúpula do G7, em Evian, em 17 jun. 2026 (Fonte: Instagram do G7)

Por Leonardo Ramos* [Informe OPEU] [G7] [Ordem liberal internacional] [Relações transatlânticas]

Em 2026, após 23 anos, a Cúpula do G7 ocorreu novamente na cidade de Évian, França, marcando um ponto relevante na trajetória diplomática de Donald Trump com relação ao grupo. Conhecido por, desde seu primeiro mandato, esvaziar a relevância do G7 e desafiar o multilateralismo, o presidente estadunidense adotou em Évian uma postura que, embora ainda centrada em sua lógica transacional e em sucessos bilaterais, permitiu uma rara convergência de interesses entre os países do G7 em um delicado momento da conjuntura internacional.  

Partindo do comportamento de Trump em edições anteriores, buscaremos discutir como o recente acordo entre EUA e Irã serviu de trampolim para um novo engajamento de Trump com as questões relativas ao conflito na Ucrânia, transformando o G7 de um campo de batalha ideológico entre EUA e demais membros em uma plataforma de validação para suas negociações – com impactos diretos para pensarmos as dinâmicas da ordem internacional contemporânea. 

O dissenso no G7: da Guerra Fria ao governo Trump 

Para que possamos entender a singularidade da cúpula de Évian em 2026, é importante revisitarmos, mesmo que de forma breve, o histórico do G7 e seus dissensos. Neste caso, é fundamental perceber como tal dissenso, embora não seja algo constante, frequentemente se encontra ligado a momentos críticos da conjuntura econômica e geopolítica internacionais. 

Particularmente no segundo ciclo das cúpulas do G7 (1982-1988), é possível notar algumas fissuras relevantes, com destaque para duas delas. Na Cúpula de Versalhes, em 1982, o então presidente Ronald Reagan tentou impor um bloqueio econômico à União Soviética, opondo-se ao gasoduto siberiano que abasteceria a Europa. Tal ação teria um impacto maior para os europeus, que discordavam. O resultado foi a explicitação das tensões entre os Estados, com o presidente francês François Mitterrand encerrando o encontro com uma declaração unilateral, e Reagan impondo sanções contra empresas europeias dias depois. Já na Cúpula de Bonn (“Bonn II”, em 1985), a falta de unanimidade sobre o comércio multilateral levou os países a colocarem na declaração final da cúpula que uma nova rodada do GATT era necessária e que “a maioria de nós pensa que deve ser em 1986” (G7, 1985, §10), deixando, assim, manifesta a incapacidade de consenso do grupo. 

Saiba mais:
Hegemonia, revolução passiva e globalização: o sistema G7/G8
de Leonardo Ramos (Editora PUC-Minas, 2013)
Decisões, dilemas e um futuro incerto: afinal, o que fica desse G7 

A ascensão de Donald Trump à Presidência dos EUA elevou as possibilidades e ocorrências de dissenso a um novo patamar, tornando-o a figura central da paralisia institucional do G7. Neste sentido, quatro momentos foram marcantes e ilustrativos, como veremos a seguir.  

Na cúpula de Taormina (2017), na Itália, o impasse sobre o Acordo de Paris bloqueou o consenso climático no âmbito do G7. No ano seguinte, em Charlevoix (2018), no Canadá, já a bordo do Air Force One, Trump cancelou, por meio de um tuíte, sua anuência à declaração final da cúpula. Tal postura levou o presidente francês, Emmanuel Macron, então anfitrião da cúpula de Biarritz (2019), a afirmar que não era necessariamente um objetivo da cúpula chegar a uma declaração final compartilhada por todos os países do G7. Não obstante, foi produzida uma declaração final ao término da cúpula – embora tal declaração seja substantivamente curta, sem grandes afirmações acerca de compromissos que teriam sido assumidos pelos países-membros do grupo. Por fim, mais recentemente, na Cúpula de Kananaskis (2025), no Canadá, as divisões sobre comércio e política externa deixaram o bloco incapaz de concordar a respeito de uma estratégia global unificada, resultando, de novo, em um encontro sem o tradicional comunicado abrangente e marcado pela partida antecipada de Trump. 

Tais episódios consolidaram a imagem de Trump como um dos principais arquitetos da crise da ordem liberal internacional que se expressa em suas ações em várias instituições formais e informais distintas, sejam elas OMC, Acordo de Paris, ONU e, neste caso, o próprio G7. 

O Enigma de Évian – ou por que Trump não “esvaziou” a Cúpula? 

Diferentemente do pessimismo que antecedeu o encontro de 2026, a presença de Trump em Évian foi marcada por um tom construtivo, embora egocêntrico. A incerteza sobre sua participação, dada a ausência de compromisso prévio da Casa Branca, foi dissipada por sua chegada e pela cordialidade imediata com o anfitrião Emmanuel Macron. Ora, a razão para essa mudança de postura reside no sucesso de sua iniciativa de negociação de um cessar-fogo com o Irã. Neste contexto, Trump desembarcou em Évian extremamente animado com o que descreveu como um memorando de entendimento “tremendo” com Teerã. Assim, o G7 passou a assumir uma nova característica: se antes era visto como um fórum eminentemente multilateralista e crítico ao exercício da soberania pelos EUA, agora passa a ser uma seleta audiência diante da qual ele, Donald Trump, poderia exibir sua mais recente e impactante vitória diplomática. 

Trump apresentou o acordo como um feito praticamente concluído, minimizando os desafios de implementação como meras “caçadas a minas” (referindo-se ao processo de desminagem do Estreito de Ormuz). O cerne do acordo envolve o levantamento das sanções ao petróleo iraniano, em troca de uma promessa de que o regime nunca produzirá armas nucleares; o fim das animosidades entre os países por 60 dias, visando a um acordo final; e a reabertura do Estreito de Ormuz durante este período. Aqui está o “enigma de Évian”: nesse contexto, Trump viu na presente cúpula do G7 a oportunidade de reforçar seu sucesso. Assim, ao garantir o apoio dos líderes europeus à sua iniciativa de cessar-fogo com o Irã, ele transformou uma instituição, até então marcada pelo dissenso, em um espaço político de validação internacional para sua lógica transacional.  

Mas a maior surpresa em Évian foi o aparente interesse renovado de Trump no conflito ucraniano. Se antes ele via a Ucrânia sob uma ótica cética, a estratégia europeia em Évian foi usar seu sucesso no Irã como isca para o reengajamento dos EUA no Leste Europeu. Assim, liderados por Macron, os países europeus presentes na cúpula adotaram uma abordagem tática: incentivaram o entusiasmo de Trump com Teerã e ofereceram assistência militar para a missão de reabertura do Estreito de Ormuz. Em troca, esperavam que Washington aumentasse a pressão sobre a Rússia, um conflito que a Europa considera existencial. 

Tal comportamento acabou logrando êxito, resultando em compromissos concretos. Trump endossou a declaração do G7 para aumentar a entrega de capacidades de defesa aérea e sistemas de longo alcance para Kiev. Mais importante ainda, Trump se comprometeu a restabelecer as sanções sobre o petróleo russo, que haviam sido suspensas durante a crise com o Irã para conter os preços da energia.  

Trump, Évian e o futuro do G7: convergência ou conivência? 

A postura de Trump em Évian não sugere, necessariamente, uma mudança da visão de Trump acerca da ordem liberal internacional e de suas instituições componentes. Pode-se inferir, no entanto, que ele esteja começando a ver o G7 não apenas como um bloco de aliados, mas como uma base de poder, a partir da qual alguns de seus objetivos para a política externa estadunidense possam ser atingidos – o que nos leva a pensar na negociação de um acordo final com Vladimir Putin. Assim, Trump parece sinalizar que o acordo com o Irã é o modelo que ele deseja replicar na Ucrânia: uma negociação direta, mediada por ele, que resulte em um acordo de grande escala. 

Ora, tal perspectiva é reforçada por sua preferência por negociações bilaterais em detrimento de consultas e articulações multilaterais tradicionais. Trump parece acreditar que a resolução do imbróglio com o Irã lhe dá o capital político necessário para encerrar a guerra na Ucrânia por meio de sua diplomacia pessoal, utilizando o G7 como o selo de aprovação ocidental para seus termos. 

Neste sentido, o dissenso continua, mas agora em novos termos. A Cúpula de Évian (2026) terminou com uma nota de unidade inesperada, com a adoção de nove declarações abrangendo desde crises geopolíticas até regulação de IA e minerais críticos. O comunicado oficial descreveu o encontro como uma “cúpula de convergência e unidade em resposta a múltiplas crises”. 

No entanto, essa convergência parece ser mais o resultado da lógica transacional de Trump do que de uma mudança de comportamento em direção a um retorno ao multilateralismo clássico. Trump não esvaziou o G7 desta vez porque o G7, em 2026, serviu aos seus propósitos: forneceu um palco para seu discurso de vitória com o Irã e permitiu que ele se reposicionasse como o mediador global capaz de lidar com a Rússia. A tensão entre o G7 e Trump permanece.  

Embora Évian tenha evitado o colapso visto em cúpulas anteriores, as dúvidas sobre até que ponto Trump está comprometido com a ação coletiva a longo prazo continuam em aberto. Por enquanto, o sucesso em Évian repousa sobre a frágil esperança daqueles que ainda defendem a pertinência da ordem liberal internacional e de que o acordo com o Irã possa, de fato, levar os EUA a se juntarem à Europa de uma forma mais assertiva na busca pelo fim do conflito na Ucrânia. Resta saber, contudo, até que ponto tal questão se aproxima da forma como Trump vê o mundo e lugar dos EUA nele.

 

Leonardo Ramos é professor do Departamento de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), professor visitante da Universidad Nacional de Rosario (UNR), pesquisador do INCT-INEU, líder do Grupo de Pesquisa sobre Potências Médias (GPPM). e pesquisador associado à Coordenadoria de Estudos da Ásia (CEASIA/UFPE). É autor do livro Hegemonia, revolução passiva e globalização: o sistema G7/G8, publicado em 2013 pela Editora PUC-Minas. Contato: lcsramos@pucminas.br. 

** Revisão e edição: Tatiana Teixeira. Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU.

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