‘The MAGA Doctrine’, manual e legado de Charlie Kirk (parte II)
Crédito: Reason.com
Por Tatiana Teixeira* [Informe OPEU] [Charlie Kirk] [MAGA]
Lançado em março de 2020, The MAGA Doctrine: The Only Ideas that Will Win the Future (HarperCollins) logo se tornou um best-seller, impulsionado por um elogioso tuíte do presidente Donald Trump. Segundo Charlie Kirk, em entrevista ao ideologicamente afim site Breitbart, sua intenção foi escrever algo próximo de um manifesto, que oferecesse ao movimento Make America Great Again uma sólida fundamentação intelectual. “A razão pela qual escrevi o livro, em termos simples, é que eu estava ficando cansado de ouvir as pessoas insultando o presidente Trump e seus apoiadores com a ideia de que não havia base intelectual por trás do presidente Trump e seu movimento […] Então, procurei analisar, tanto histórica quanto atualmente, o que exatamente impulsiona esse movimento e se essas ideias valem a pena seguir e compreender”, declara, na conversa com Matthew Boyle.
No prefácio e no decorrer das páginas, o autor explica que buscou dar robustez ideológica ao slogan carro-chefe do trumpismo e fortalecer a conexão com um público desiludido com a política, amargurado com o fim do Sonho Americano e deprimido pelo desemprego e pela consequente perda de qualidade de vida – a classe trabalhadora branca, o americano branco das zonas rurais, o americano branco sem ensino superior. Tratou-se, sobretudo, de fincar raízes para que o movimento sobreviva à ausência (cada vez mais iminente, a meu ver) de seu líder.
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Para levar essa tarefa adiante, Kirk começa elencando aqueles que são, sob sua perspectiva, os principais problemas enfrentados pela sociedade americana e as áreas que precisam de atenção e de mudanças drásticas. Em meio a achismos e a relatos pessoais, ele elabora o que intenta ser um compilado de soluções e diretrizes políticas. O que Kirk entrega, no entanto, é uma análise superficial, que ignora a complexidade da política. De linguagem e vocabulário simples e diretos, The MAGA Doctrine é um alongado panfleto opinativo e autocongratulatório, de inconsistência prescritiva e de baixo poder explicativo. Posicionamentos políticos são reiterados a cada capítulo como verdades absolutas. Afirmações categóricas e confiantes sobre diferentes temas expõem uma certeza arrogante ilustrada por versões alternativas de registros históricos e que se materializa em proposições vazias e em uma insistente e distorcida bajulação idólatra de Trump.
No caso deste último, Kirk resolve, sem constrangimentos, uma das mais gritantes contradições entre discurso e prática: ainda que seja um bilionário nova-iorquino, a postura antiestablishment de Trump conectou-o com os jovens conservadores fãs de Kirk e com a classe trabalhadora frustrada com os democratas. [Fato curioso que torna a contradição ainda mais evidente e desnuda a indecência de qualquer argumento a esse respeito. De acordo com levantamento atualizado da revista Forbes, divulgado em setembro de 2025, Trump acumula um patrimônio de US$ 7,3 bilhões. Foram pelo menos US$ 3 bilhões a mais neste último ano. Nenhum presidente americano lucrou tanto enquanto esteve no cargo.]
Com seu estilo informal de escrita, Kirk parece conversar com o leitor. É o bate-papo na fila do supermercado, durante o qual dois desconhecidos encontram comunalidade e amparo nos clichês e no senso comum, ao reclamarem da inflação, ou da última decisão do governo, baseando-se em fontes de origem duvidosa. Este não é um livro preocupado com fatos. Quando mencionados, números, dados e citações diretas carecem de contexto, de referência e de elementos comparativos. Não há indicação bibliográfica, embora apareçam citações de autores, obras, personalidades. Nesses casos, o leitor mais atento (ou apenas mais curioso) observará a fecunda imaginação e o desinibido uso de licença poética que, com frequência, extrapolam seus significados e sentidos originais.
O conforto do passado
O texto recorre, amplamente, aos mitos e narrativas que os americanos criaram de e para si mesmos. Enaltece o excepcionalismo do país e o retorno à grandeza de um passado idealizado. É daí que se deve desenterrar o modelo a ser reinstaurado para conter e reverter o declínio e a “mediocridade administrada” que estariam sendo infligidos ao país, nas últimas três ou quatro décadas, por partidos políticos tradicionais (em alusão a governos republicanos e democratas), veículos da imprensa mainstream (liberal), instituições acadêmicas, indústria do entretenimento e de alta tecnologia. Há tempos, denuncia Kirk, esses setores marginalizam o povo, negligenciando seus interesses.
Manter seu público ansioso pelo retorno ao passado como antecipação da promessa de dias melhores renova a esperança, continuamente. E desvia a atenção de um presente que se despedaça e que possibilitará apenas um simulacro de futuro. Também nos ajuda a entender a recorrência do uso da palavra “revolução” por parte de Trump, Kirk e demais acólitos. Esse é um vocábulo que dá protagonismo e oferece um propósito maior aos que aderem ao trumpismo, aumenta a relevância e a responsabilidade individual para que ela ocorra e, ainda melhor, reforça a mensagem de que qualquer sacrifício no presente é válido e necessário para recuperar uma sociedade degenerada.
A abnegação dedicada diz para aceitar e entender o aumento da inflação em certos setores da economia, resultante do tarifaço de Trump. Aceitar e entender a queda no turismo, o estrangulamento do setor agrário e do microempreendedorismo, a deportação de familiares. Aceitar e entender os abusos da ICE e da Guarda Nacional. Afinal, a tal “revolução” conservadora tem uma lógica própria que levará, em breve, à reconstrução nacional. É um modelo que será recortado e reproduzido, de forma seletiva e mesmo contraditória, para adaptar e fazer caber ideias e argumentos.
Isso será possível, de acordo com Kirk, com a “restauração tardia” das instituições tradicionais (família, Igrejas, comunidades locais) e dos valores-núcleo da nação, como: patriotismo e nacionalismo (lealdade à pátria, preservação de uma certa identidade cultural); governo limitado (porque o governo federal e as instituições centralizadas se tornaram poderosas demais, ineficientes e corruptas); autogoverno e liberdade individual (devolver o poder ao indivíduo); soberania.
O que está destruindo os EUA
A lista de alvos e inimigos do movimento MAGA é extensa. Vai do establishment político (tanto a elite liberal quanto o conservadorismo tradicional) ao Deep State (transformado em um conceito guarda-chuva, dentro do qual Kirk coloca “a burocracia permanente do governo e agências mais obscuras”, à p. 21; “a mistura de serviços civis permanentes, agências de Inteligência e polícia vasta o suficiente para gerar suas próprias cabalas com suas próprias agendas políticas”, à p. 122; e mesmo a oligarquia tecnocrática), passando pelas elites dominantes (outro conceito-ônibus, em que Kirk costuma depositar de tudo), pelas organizações internacionais governamentais e não governamentais, pela política migratória aberta e sem limites (o que nunca foi uma realidade no país), pela expansão da interferência externa dos EUA (e suas várias guerras) e pela corrosão do federalismo e da liberdade individual.
Como mencionado na seção anterior, o problema não está apenas no Big Government, mas também nas Big Techs (e em seus bilionários do Vale do Silício), na Big Media (os grandes conglomerados da mídia tradicional que divulgam fake news e distorcem a agenda conservadora), na Big Pharma (indústria farmacêutica), na Big Education (as universidades liberais, especialmente as Ivy League, como Harvard e Columbia) e no “complexo industrial-militar”. Na visão de Kirk, essas instituições e a elite a elas ligada sufocam a liberdade e a prosperidade da “América real”. Estão desconectadas dos valores e necessidades dessa América mais genuína, afastada dos grandes centros urbanos e, por isso mesmo, esquecida e abandonada por Washington e seus políticos. O movimento é, portanto, uma resposta ao descontentamento popular com as elites culturais, econômicas e políticas nos Estados Unidos.
Para Kirk, MAGA é o futuro do conservadorismo americano, por oferecer ideias que “superam” a direita tradicional e a esquerda progressista.
É a base para resistir às “forças globalistas” e ao “multiculturalismo”, ao promover uma política externa “pragmática”. Em tese, trata-se, aqui, de se afastar de guerras sem propósito estratégico claro, manter o foco em interesses nacionais concretos e em segurança, envolvendo-se apenas nos confrontos necessários (caso da China), mas sem uma participação excessiva.
É a base para “atacar” as instituições culturais, uma estrutura pérfida que “molda opiniões”, “inibe vozes conservadoras”, “promove agendas liberais e a cultura woke”. É preciso criar alternativas, insiste Kirk, ao defender a descentralização institucional e cultural. Também é preciso estimular uma ação política ativa, sobretudo, dos jovens. É preciso se envolver mais, continua ele: seja por meio da participação eleitoral (vimos a diferença que isso fez em 2024), da organização local, do treinamento e da expansão de uma cultura de debate e de resistência ideológica. Ao participar de algo “grande” (de novo: por isso “revolução” é uma palavra tão importante aqui), cria-se ou se reforça a sensação de pertencimento e de ser capaz de mudar sua realidade.
É a base para fortalecer a narrativa e a prática dos valores tradicionais cristãos. Ao recuperar a moralidade e o cristianismo, reconstrói elementos da identidade nacional que se perderam e que precisam ser resgatados e preservados: as expressões de fé, o papel da igreja, a família tradicional, o lugar da mulher na sociedade, a valorização da vida e da escolha.
O que se sobressai é o quão intensamente a Doutrina MAGA (ou Kirk) enfatiza divisões no país, brandindo a polarização como essência, e os discursos de identidade e moral, como ferramenta política. Com a escalada vertiginosa de medidas arbitrárias e de ordens executivas no limite da legalidade, seu impacto deletério avança também rapidamente: sufocamento da diversidade historicamente identificada como um traço da sociedade americana, erosão institucional, repressão das minorias, desmonte das liberdades civis. E mais virá.
Críticas ao livro
Em uma das duas resenhas que encontrei sobre a obra, o crítico Steve Donoghue expõe incoerências e evasões de Kirk, a começar pelo título. “Não é ‘Doutrina MAGA’, é ‘Doutrina Charlie Kirk’”, já que “não só Donald Trump não tem a capacidade mental de formular uma ‘doutrina’, como ele não tem o temperamento de seguir uma”. Kirk, continua Donoghue, precisa conectar Trump às suas ideias para tornar o movimento mais “apresentável” intelectualmente, mas falha em mostrar o próprio aplicando a doutrina de forma coerente. Afinal, Trump se contradiz diariamente, com base em um “princípio de autorrefutação instantânea”. O livro traz mais retórica, apelo emocional e declarações fortes e apologéticas do que evidências de políticas e resultados que validem as ideias de Kirk. Ainda é escasso o material de consulta (acadêmico e não acadêmico) sobre o livro de Kirk ou a Doutrina MAGA como um conceito em si. Essa lacuna será abordada nos meus próximos textos.
The MAGA Doctrine prega para os convertidos. Foi escrito com este fim. Justamente por isso, pode ser um ponto de partida esclarecedor para qualquer pessoa que queira entender os Estados Unidos do presente… ou mesmo o Brasil de poucos anos atrás. ![]()
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Conheça alguns dos textos da autora publicados no OPEU
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Informe “O estadista e o autocrata delirante: democracia como base e norte (parte II)”, 25 set. 2025
Informe “O estadista e o autocrata delirante (parte I)”, 25 set. 2025
Informe “Elementos do declínio do poder americano.”, 5 set. 2025
Informe “Ucrânia, apoios políticos e enquadramentos da cobertura jornalística nos EUA”, 21 ago. 2025
Informe “I hear you, America”, 12 ago. 2025
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Divulgação “Sugestão de pautas para publicação no OPEU – Agosto 2025”, 1º ago. 20225
Informe “Um Brics ampliado incomoda muita gente: Trump e o tarifaço ao Brasil (I)”, 17 jul. 2025
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Informe “Oscar 2025 diz ‘não’ a Trump e sua agenda”, 4 mar. 2025
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Informe “Colégio Eleitoral nos EUA: um sistema obsoleto que resiste à mudança dos tempos e da sociedade”, 28 de maio de 2024
Informe “Lula e Biden: uma relação com ganhos e (novos) limites para Brasil e EUA”, 11 fev. 2023
Informe “A carta de Biden”, 21 mar. 2021
Informe “O legado do senador republicano Mitch McConnell”, 30 out. 2020
Informe “Think tanks e política nas eleições de 2020 nos EUA”, 15 dez. 2019
Informe “A bilionária e feroz propaganda eleitoral nos EUA”, 17 nov. 2019
Informe “Think tanks americanos e a desigualdade de gênero”, 29 out. 2019
* Tatiana Teixeira é editora-chefe do OPEU. Esteve nos EUA em junho e julho de 2025 para participar do curso de American Politics and Political Thought, realizado no âmbito da Civic Initiative, do Donahue Institute, vinculado à Universidade de Massachusetts Amherst (UMass). SUSI 2025 é patrocinado pelo Departamento de Estado dos EUA e administrado pela Universidade de Montana (UM). Trabalhos decorrentes do programa ou outros relacionados aos Estados Unidos são considerados de totais autonomia, iniciativa e responsabilidade da pesquisadora e não representam qualquer endosso ou adesão a quaisquer políticas e agendas por parte do governo americano atual, ou anteriores. Contato: tatianat19@hotmail.com.
** Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU.
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