Internacional

Elementos do declínio do poder americano. 

Prédio da Bolsa de NY, em jul. 2025 (Crédito: Tatiana Teixeira/Arquivo pessoal)

Dossiê “Declínio do poder americano”

Por Tatiana Teixeira* [Informe OPEU] [Declínio] [Hegemonia]

Mais uma vez, estamos às voltas com o debate sobre o declínio do poder americano. Trata-se de tema recorrente – sobretudo, após o fim da Guerra Fria – e que divide declinistas e hegemonistas. O que distingue o debate do passado, período que situo entre a década de 1970 e meados da década de 2010, da discussão atual? Há muitos elementos, e trarei alguns neste texto. 

Historicamente, a queda dos Estados Unidos de seu lugar especial e quase único na hierarquia das potências globais, ao longo do século XX, sempre foi analisada do ponto de vista estrutural externo: seu envolvimento em guerras mundo afora (por procuração, ou diretamente; quente, ou fria), as condições em que isso acontecia e sua capacidade material de enfrentamento, ou seja, os recursos disponíveis para lidar com tais desafios (como tecnologia e armamentos); o declínio relativo e a perda gradual de sua influência global, nos planos econômico e militar; a competição geopolítica; e a ascensão de potências concorrentes, como Japão e Alemanha, ou China, cada uma a seu momento. 

Acentuando-se desde a inserção oficializada de Donald Trump na política americana em 2016, a crise interna dos Estados Unidos alcança hoje um patamar comparável, talvez, somente à divisão aguda entre os estados do Norte e do Sul e à subsequente Guerra Civil no século XIX. A ideia da inevitabilidade do declínio permanece, mas, ao contrário dos debates anteriores, desta vez, essa queda é percebida como sendo marcada por um ritmo mais acelerado. As análises se concentram, agora, no colapso do modelo político e social americano. Estamos falando do desgaste e da obsolescência de um produto bem embalado e divulgado, que se tornou responsável, sobretudo, pela própria possibilidade de se exercer aquilo que os ideólogos americanos chamaram, muito convenientemente, de hegemonia a convite. 

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Passamos da discussão sobre the rise of the rest (O mundo pós-americano, Fareed Zakaria, Cia das Letras, 2008) para collapse from within (título do livro homônimo de Charles Dawson, publicado em 2016 pela Archway Publishing) e morte da democracia americana (Como as democracias morrem, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, Cia das Letras, 2018). A expectativa de um mundo multipolar – que ainda teria os Estados Unidos à frente, liderando os demais como um farol – é superada pela conjuntura atual. Vê-se um país instável, disfuncional, mergulhado no caos (deliberado) e com um presidente que adota a política como arma e usa a incerteza e a imprevisibilidade como estratégia. 

A crise que o país vivencia no presente, mediante políticas implementadas por Trump com base na agenda de seus aliados da extrema direita, materializa-se no exercício autoritário das atribuições do Poder Executivo, na figura de seu presidente; nos ataques à democracia, por diferentes vias; e no desmonte dos direitos políticos e civis. Esses três cursos de ação levam a uma extrema polarização política e ideológica e, do mesmo modo, à deslegitimação e à erosão das instituições americanas. Essa desconfiança se agrava nos planos doméstico – com o questionamento, por exemplo, do resultado das eleições – e internacional – caso da busca, por parte de diferentes países e grupos de países, como o Brics, de alternativas ao dólar e de parceiros comerciais e estratégicos que se mostrem mais estáveis e confiáveis.

Aqui, refiro-me ao conceito de instituições em seu entendimento mais amplo: não apenas às organizações per se, mas ao conjunto de normas, valores, regras, compromissos que orienta e dá coesão a uma determinada sociedade. Há uma grave crise, intencionalmente instalada, nos dois sentidos. E, como observa o economista Paul Krugman no breve artigo “Decline and Fall of the American Empire”, de 29 de agosto, em seu blog, “De fato, o mundo não apenas deixou de nos temer. Cada vez mais, ele não precisa de nós”. 

Acompanhe a discussão neste episódio do Observatório de Geopolítica EUA 

Mais do que em outros recortes temporais, a identidade americana é questionada também de dentro, por aqueles que compartilham o senso de pertencimento a uma nação excepcional e exemplar, com seus reconfortantes mitos fundacionais. A bonita e atraente retórica sobre Sonho Americano e sobre o American Way of Life se esvazia de significado e de simbologia. Constata-se, agora de forma escancarada, que o primeiro não é (e nunca foi) para todos, e que o segundo também traz consigo o colapso do contrato social, a normalização da violência política e a clivagem profunda de uma sociedade que não se curou de ódios e ressentimentos do passado. A linear e organizada narrativa unificadora da nação perde tangibilidade e se torna uma abstração. 

Apropriados dos iluministas europeus, assimilados, processados e universalizados como seus, os valores centrais de liberdade, democracia, pluralismo e defesa dos direitos humanos estão sendo reinterpretados em diferentes segmentos da sociedade americana. Estamos falando da perda de poder global, concomitante a profundas transformações dentro de casa – tanto estrutural quanto identitária. Neste momento de transição, a fragilidade dos EUA, retratada pelas incertezas agora diárias na vida dos americanos, fica mais evidente. 

Para encerrar, tomo a liberdade de citar o comentário do embaixador Tadeu Valadares, durante o programa Observatório de Geopolítica EUA desta semana, do qual também participamos eu e Pedro Costa Jr.. Não há mais dúvida sobre o declínio. Não se trata mais de debater se ele ocorrerá, mas quando e como. E o movimento está acontecendo. “Agora é um ponto final, não uma interrogação”.

 

Tatiana Teixeira é editora-chefe do OPEU. Esteve nos EUA em junho e julho de 2025 para participar do curso de American Politics and Political Thought, realizado no âmbito da Civic Initiative, do Donahue Institute, vinculado à Universidade de Massachusetts Amherst (UMass). SUSI 2025 é patrocinado pelo Departamento de Estado dos EUA e administrado pela Universidade de Montana (UM). Trabalhos decorrentes do programa ou outros relacionados aos Estados Unidos são considerados de totais autonomia, iniciativa e responsabilidade da pesquisadora e não representam qualquer endosso ou adesão a quaisquer políticas e agendas por parte do governo americano atual, ou anteriores. Contato: tatianat19@hotmail.com. 

** Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU. 

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