Brasil

A XVIII Cúpula do BRICS e a ‘presença’ de Trump 

Retrato de família, Nova Délhi, 12 set. 2026 (Fonte: Site oficial da XVIII Cúpula do Brics)

Por Leonardo Ramos e Nataly Mayla de Sá* [Informe OPEU] [BRICS] 

Realizada entre os dias 12 e 13 de setembro de 2026, em Nova Délhi, na Índia, a XVIII Cúpula do BRICS marcou, conforme registrado na declaração final da reunião, o 20° aniversário do bloco. Sob o tema “Construindo Resiliência, Inovação, Cooperação e Sustentabilidade”, a XVIII Cúpula reforçou o posicionamento contrário do BRICS ao unilateralismo e às tentativas de desmonte dos organismos de cooperação internacional, muito presentes nos discursos e na articulação internacional recente dos Estados Unidos. Sem citar os EUA diretamente em seu documento, o agrupamento reforçou seu compromisso com a cooperação e com o multilateralismo no sistema internacional: “Nesta ocasião histórica do 20º aniversário do BRICS, reiteramos nosso compromisso com a reforma e o aprimoramento da governança global, promovendo […] o fortalecimento do multilateralismo e da multipolaridade e com a defesa do direito internacional”. 

O grupo reafirmou seu compromisso com os princípios estabelecidos na Carta das Nações Unidas (ONU), além da defesa da cooperação internacional para a manutenção da paz e da segurança, da promoção do desenvolvimento sustentável e da proteção da democracia, dos direitos humanos e das liberdades fundamentais. No âmbito dos conflitos internacionais, o BRICS manifestou preocupação com as tensões no Oriente Médio, defendendo o cessar-fogo em Gaza e reiterando sua posição contrária às tentativas de expulsão e de deslocamento do povo palestino de seu território. O BRICS ressaltou, ainda, a necessidade de garantir o acesso das agências humanitárias e de assistência aos refugiados palestinos. 

Além do conflito em Gaza, as tensões políticas e energéticas pressionaram os preços dos combustíveis fósseis e mudaram a passagem de rotas comerciais da região. No setor de energia, o BRICS reafirmou seu compromisso com a formulação de estratégias voltadas para a transição energética, embora os combustíveis fósseis ainda representem – e continuarão representando, por um longo período – uma parcela expressiva de sua matriz energética. Cabe lembrar o compromisso estabelecido pelo grupo com a Agenda 2030 e com o desenvolvimento sustentável e que, desde 2025, as estratégias de cooperação e transição energética têm sido pensadas de forma mais robusta, com o lançamento do Roadmap for BRICS Energy Cooperation 2025-2030. 

Em razão da seleção, prevista para 2026, de um novo secretário-geral da ONU, o BRICS ressaltou a importância de se considerar a diversidade cultural e geográfica do sistema internacional, mas, em especial, dar atenção à diversidade de gênero nesse processo, tendo em vista que a organização jamais teve uma mulher em seu mais alto cargo. Além disso, China e Rússia, membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, manifestaram apoio às aspirações de Brasil e Índia a obterem papéis de maior relevância dentro da organização, mas, principalmente, dentro do Conselho. 

Com relação ao futuro do BRICS, as discussões foram direcionadas pela estratégia de “quatro pioneiros”, proposta pelo presidente da China, Xi Jinping. Em seu discurso, Xi defendeu que o BRICS assuma quatro funções centrais para reforçar seu papel econômico e político: (1) promover o desenvolvimento impulsionado pela inovação; (2) manutenção da paz e da estabilidade; (3) fomento ao aprendizado entre civilizações; e (4) continuidade na atuação voltada para a reforma da governança global. 

Consonante a essa estratégia, Xi também delimitou cinco frentes centrais para atuação do grupo no âmbito da cooperação: (1) Inteligência Artificial (IA) de código aberto e inclusiva, dando sequência à visão estratégica sobre IA estabelecida na cúpula de 2025; (2) facilitação do comércio e dos investimentos, com destaque para a atuação do Novo Banco de Desenvolvimento do BRICS (NBD, na sigla em inglês) e a utilização de moedas locais, principalmente nos financiamentos (entre 2027-2031, essa modalidade estará na faixa de 40% a 50% da carteira); (3) investimentos e incentivos à indústria digital; (4) manufatura inteligente; e (5) formação de profissionais especializados para as áreas de ciência e tecnologia. A China se propôs, ainda, como presidente do BRICS em 2027, a alinhar suas estratégias internas com o grupo, com base na articulação de seu 15º Plano Quinquenal, utilizando-o como pilar para o desenvolvimento de metas e projetos econômicos e tecnológicos compartilhados com os demais integrantes.  

Sobre as sanções e os bloqueios internacionais, a cúpula condenou as medidas impostas pelos Estados Unidos a Cuba, expressando preocupação com os impactos econômicos e a condição de vida da população cubana. De acordo com Maria Luiza Silva (2026), “o BRICS questionou a pretensão de Washington de decidir quais países podem comercializar entre si, quais moedas devem utilizar, quais tecnologias podem compartilhar e quais governos têm o direito de escolher seus próprios parceiros”. Nesse contexto, para além das questões econômicas, comerciais e financeiras discutidas ao longo da cúpula, os debates realizados em Nova Délhi evidenciaram tensões mais amplas em torno dos fundamentos da ordem internacional contemporânea.  

Em última instância, os resultados da cúpula de Nova Délhi de 2026 permitem identificar uma dimensão significvativa das transformações contemporâneas do BRICS. Em um contexto de expansão e de tensões internas ao grupo – vide as tensões entre Irã e Emirados Árabes Unidos, particularmente –, poder-se-ia esperar uma divergência quase intransponível entre os membros. Não foi, contudo, o que aconteceu. Na verdade, o engajamento ativo de atores do BRICS para mediar tal conflito, bem como a rejeição ao trumpismo, foram aspectos fundamentais para o êxito da cúpula e as convergências entre os membros do grupo. Nesse sentido, a cúpula evidencia uma tensão constitutiva do atual momento do BRICS. Ao mesmo tempo que a expansão do agrupamento fortalece sua condição de espaço de articulação entre países em desenvolvimento, ela também amplia as possibilidades de projeção de interesses e iniciativas particulares de seus membros.  

A China em especial procura consolidar o BRICS como uma plataforma privilegiada de diálogo e cooperação com o Sul Global – especialmente em um contexto de crise da ordem liberal internacional. Essa dinâmica não elimina a possibilidade de convergências, mas revela que a construção de uma agenda comum não significa a existência de uma orientação homogênea entre os integrantes do agrupamento. A resistência às políticas de Donald Trump deve ser compreendida, portanto, menos como a expressão de um projeto unificado do que como um campo de convergência entre interesses, estratégias e interpretações distintas acerca das transformações  contemporâneas da ordem internacional e das possibilidades que estas apresentam aos demais países. 

A obtenção de uma declaração conjunta entre Irã e Emirados Árabes Unidos, países diretamente envolvidos nas tensões regionais, apresenta outro aspecto importante da cúpula. Independentemente dos limites de seus efeitos concretos, a iniciativa evidencia a possibilidade de o BRICS funcionar como espaço de diálogo entre atores, cujas relações são atravessadas por conflitos e divergências. Em um contexto de intensificação das tensões no Oriente Médio e de disputas em torno da atuação dos Estados Unidos, a manutenção de canais de interlocução constitui uma dimensão relevante da atuação do agrupamento.  

Em suma, tais aspectos permitem compreender a cúpula de Nova Délhi como parte de um processo mais amplo de transformação do BRICS em uma plataforma de articulação política, econômica e tecnológica do Sul Global. Sua relevância para a discussão sobre a resistência às políticas de Trump reside não apenas nas posições assumidas por tais países diante dos Estados Unidos, mas também na construção de iniciativas de cooperação, na ampliação dos espaços de diálogo e na busca por alternativas às estruturas de governança internacional existentes. Ao mesmo tempo, as disputas por representação e liderança, assim como as divergências entre seus membros, indicam que esse processo permanece aberto, vivo e contraditório.  

O BRICS não constitui, assim, um polo homogêneo de oposição aos Estados Unidos, mas um espaço, no qual diferentes projetos de inserção internacional e de reorganização da ordem mundial se encontram. E é precisamente nessa combinação de convergências e de contradições que reside parte de sua importância para compreender as possibilidades e os limites da transformação contemporânea da ordem internacional.

 

Leonardo Ramos é professor do Departamento de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), professor visitante da Universidad Nacional de Rosario (UNR), pesquisador do INCT-INEU, líder do Grupo de Pesquisa sobre Potências Médias (GPPM) e pesquisador associado à Coordenadoria de Estudos da Ásia (CEASIA/UFPE). Contato: lcsramos@pucminas.br 

Nataly Mayla de Sá é aluna do Programa de Pós-Graduação em Relações internacionais (PPGRI) da PUC Minas. Contato: natalymayla@gmail.com. 

** Revisão e edição: Tatiana TeixeiraEste conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU. 

 

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