Por que a renúncia de Joe Kent importa para a Guerra no Irã?
(Arquivo) Joe Kent toma posse como diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo em julho de 2025 (Fonte: X, @DNIGabbard)
Por Augusto Scapini* [Informe OPEU] [Guerra no Irã] [Contraterrorismo]
No último 17 de março, Joe Kent, o diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo dos Estados Unidos (NCTC, na sigla em inglês) anunciou sua renúncia ao cargo, que ocupava desde fevereiro de 2025, após ser nomeado pelo presidente Donald Trump. Em uma carta endereçada ao líder norte-americano e publicada nas redes sociais, Kent indicou que o principal motivo da sua renúncia está relacionado com o conflito do país com o Irã. Em suas próprias palavras, Kent disse que não pode, “em boa consciência, apoiar a atual guerra no Irã”, chegando a afirmar que o Estado americano somente iniciou esse conflito por “pressão de Israel e de seu poderoso lobby americano”.
O anúncio de Kent, um ex-militar, ocorreu em meio à recente intensificação do conflito entre o Irã e Israel, apoiado militarmente pelos Estados Unidos. De acordo com algumas atualizações do jornal The New York Times e da Agence France-Presse, no fim de semana do dia 14, Israel lançou ataques contra bases militares do Irã em Hamedan, enquanto mísseis iranianos foram interceptados pelos sistemas de defesa de Israel, da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes. Além disso, a milícia iraquiana pertencente ao Hezbollah assumiu responsabilidade por um ataque de mísseis ao Aeroporto Internacional de Bagdá, onde se localiza um centro diplomático estadunidense, e que deixou cinco feridos. Os arredores da embaixada dos Estados Unidos na cidade também foram alvo de ataques de drones iranianos no dia 17.
Motivações da saída
Mas, indubitavelmente, um dos fatores decisivos que motivaram a saída de Kent foi a morte de seis militares estadunidenses em uma queda de avião de reabastecimento da Força Aérea americana, no dia 12, no Iraque. Segundo uma declaração do Comando Central do país, o incidente não foi resultado de forças hostis ou de fogo amigo e continua a ser investigado. Porém, a Resistência Islâmica do Iraque, grupo de facções milicianas associadas ao Irã, já assumiu responsabilidade pelo ocorrido. Nesse ínterim, com as baixas estadunidenses, desde o início do conflito até o momento atual, chegando ao número total de 13, a mensagem de Kent ganhou ainda mais peso, ao argumentar que a guerra “não serve nenhum benefício ao povo” e “não justifica o preço de vidas americanas”.
Na carta, o político também chega a mencionar a morte da sua esposa, Shannon Kent, vítima de um ataque suicida cometido por um homem-bomba associado ao Estado Islâmico, em 2019, na cidade de Manbij, na Síria. Ambos eram membros das forças armadas dos Estados Unidos. Eles haviam se conhecido em 2007, em Bagdá, durante a onda de intensificação do número de tropas estadunidenses no Iraque – uma iniciativa ordenada pelo então presidente George W. Bush (2001-2009) intitulada The New Way Forward. No dia da cerimônia de recebimento do corpo da esposa, Joe Kent conta que conheceu e foi consolado pelo presidente Donald Trump, e se surpreendeu, ao ser questionado por ele sobre suas opiniões pessoais acerca das ações do país na Síria. Esse encontro deu início a uma longa relação de adoração ao líder republicano e, ao mesmo tempo, foi o pontapé inicial que daria marcha à sua futura carreira política.
Após a tragédia pessoal, o ex-militar se afastou de seu cargo como agente paramilitar da Agência Central de Inteligência dos EUA (CIA, na sigla em inglês), período durante o qual, a conselho de sua falecida esposa, começou a escrever artigos para veículos como CNN, NBC e Fox News e para a plataforma de extrema direita Breitbart News. Nela, passou a emitir opiniões contrárias às políticas intervencionistas de W. Bush e Barack Obama (2009-2017) no contexto da Guerra Global ao Terror – apesar de enaltecer a política externa de Trump em diversos momentos, até mesmo em relação às operações na Síria.
Kent não se manteve longe dos assuntos políticos internos da sociedade norte-americana. Em 2020, apoiou a candidatura do então presidente Trump à reeleição e, ainda, propagou sua subsequente campanha de desinformação e tentativas de subversão dos resultados eleitorais após a vitória de Joe Biden. No dia 6 de janeiro de 2021, quando os eleitores de Trump invadiram o prédio do Capitólio, pretendendo interromper a confirmação dos votos pelo Congresso, Kent chegou, em um primeiro momento, a chamá-los de “terroristas”. Ao perceber que Trump poderia ser judicialmente responsabilizado pelas atitudes de seus apoiadores, rapidamente mudou seu tom para defendê-los, como indicado em seu discurso no evento público “Justiça para os J6”, em setembro do mesmo ano.
O fracasso de Trump e as consequências do 6 de Janeiro levaram Kent a anunciar sua candidatura ao cargo de representante (deputado) federal, pelo 3º distrito do estado de Washington. À época, o assento era ocupado pela republicana Jaime Herrera Beutler, a quem havia criticado por ter votado a favor do segundo impeachment de Trump após as eleições. Além de sua visão anti-intervencionista, Kent também defendia, em sua campanha, uma posição “antissistema”, antiaborto e antivacinas. Com endosso explícito do presidente, o republicano conquistou considerável apoio popular e financeiro – arrecadando mais de US$ 360 mil em fundos de campanha – e conseguiu ultrapassar Herrera Beutler nas primárias de 2022. Escândalos relacionados à frequente associação do candidato a supremacistas brancos contribuíram, no entanto, para sua eventual derrota nas eleições gerais contra Marie Gluesenkamp Perez, uma democrata com visões mais moderadas, por uma margem de diferença de apenas 0,8% dos votos, em uma das corridas eleitorais mais acirradas do país no ano. Kent tentou uma revanche contra Perez nas eleições de 2024, mas foi vencido, novamente, pela adversária, por uma margem de diferença ainda maior (3,8%).
Insistência na vida política
O revés nas eleições não desencorajou Kent de seguir sua carreira política, especialmente após a volta de Trump ao poder, no início de 2025. Segundo o jornal The Washington Post, Kent atuou, por um tempo, como chefe de gabinete da diretora de Inteligência Nacional, Tulsi Gabbard, aliada de longa data de Trump, mas logo foi nomeado pelo presidente como novo diretor do NCTC, substituindo o diretor interino Don Holstead. Em sua audiência de confirmação perante o Senado, em julho, Kent foi questionado sobre suas declarações passadas acerca do 6 de Janeiro e de sua participação no escândalo dos chats vazados do aplicativo Signal. Apesar de formular respostas vagas, Kent foi aprovado pelo Senado, de maioria republicana, para ocupar a posição.
Durante o exercício do cargo, o aliado de Trump se envolveu em uma pequena polêmica interna, ao indicar que obteve acesso a arquivos confidenciais e estava investigando a influência de “atores estrangeiros” no assassinato do ativista conservador Charlie Kirk. O fato alarmou o diretor do FBI, Kash Patel, que havia assumido a jurisdição do caso. Desde então, segundo reportagem do The Wall Street Journal, Kent vem sendo escanteado pela equipe responsável por realizar briefings de segurança ao presidente. Após a renúncia, quatro fontes internas confirmaram ao site de notícias americano Semafor que o FBI já havia aberto uma investigação sobre o compartilhamento impróprio de informações por parte de Joe Kent antes de seu anúncio. A acusação foi veementemente negada pelo republicano em entrevista posterior.
Apesar de Kent acusar Trump, em sua carta, de ter sido ludibriado pela mídia americana e pelo governo israelense a acreditar que o Irã representava uma ameaça iminente aos Estados Unidos – lógica que ignora o extenso histórico beligerante do governante contra o Irã –, é prematuro dizer que essa posição representa uma quebra completa do republicano com o líder. Nessa linha, Kent finaliza o documento agradecendo pela honra de servir ao presidente e suplica a ele que mude o curso de ação do país no Oriente Médio. Trump, que é conhecido por sua política de retribuição total e tolerância zero a quaisquer críticas de inimigos – e aliados – políticos, reagiu ao anúncio de Kent, declarando que está “feliz que ele saiu” e que sempre pensou que “ele era fraco na [questão de] segurança”.
O chefe de Estado reafirmou, ainda, que o Irã é uma “ameaça tremenda” e que as pessoas que pensam ao contrário “não são muito inteligentes”. Vale notar, ainda, que as justificativas para o confronto oferecidas por Trump – de que o Irã estaria perto de desenvolver armamentos de alcance intercontinental que poderiam atingir os EUA – foram contraditadas por relatórios da Agência de Inteligência de Defesa do seu próprio governo, em 2025. No mais, em uma fala posterior, o republicano lançou ainda mais ataques pessoais a Joe Kent, dizendo que não era “um fã do cara” e que ele se casou novamente “cedo demais” após a morte da esposa (Kent se casou com a artista Heather Kaiser Kent em 2023).
Reações no Magaverso
Enquanto Trump busca se afastar da imagem de Kent, o ex-militar se mobilizou ligeiramente para tentar difundir sua mensagem antiguerra nos círculos do Magaverso (termo utilizado para designar o universo virtual, político e midiático responsável por propagar a ideologia ultraconservadora do Make America Great Again), participando de podcasts de figuras políticas populares desse meio, como Megyn Kelly, Saagar Enjeti e Tucker Carlson. Nesses, Kent defendeu sua decisão, afirmando que as equipes de Inteligência do governo não tinham informações concretas sobre a produção de novas armas nucleares iranianas. Declarou, também, que Trump foi pressionado pelo governo israelense a adentrar o conflito, alegação que foi rechaçada pelo primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, em uma coletiva de imprensa, no dia 19. Além disso, Kent rebateu críticas – procedentes de seus correligionários, como o senador federal pelo Kentucky Mitch McConnell – de que seus comentários contra Israel tinham um teor antissemita. Também voltou a insinuar que o país poderia ter orquestrado o assassinato de Charlie Kirk, que era, segundo o político, contrário a um possível confronto dos EUA com o Irã.
A mensagem de Kent foi recebida com reações mistas pela comunidade MAGA. Enquanto alguns parabenizaram-no por defender aquilo em que acredita, outros acusaram-no de trair o partido e expor o presidente a ataques da “esquerda”. Foi o caso do analista político pró-Israel da Fox News Mark Levin, que chegou a afirmar que Kent faz parte de uma “direita woke radical e isolacionista”. Embora ainda seja cedo para dizer que a base apoiadora de Trump está se “fragmentando”, como sugere o especialista e ex-diretor da CIA John Brennan, é certo afirmar que, em um momento no qual a opinião popular estadunidense sobre a guerra ainda está bem dividida (apesar de tender à oposição), a renúncia de Kent expôs um importante ponto de contestação da lógica MAGA.
Em todos os momentos de sua campanha eleitoral, e até mesmo em seu primeiro mandato, Trump garantiu que não iria submeter o país a “novas guerras”, autointitulando-se um “candidato da paz”. E, nesse sentido, sua política de America First, que prometia se concentrar no impulsionamento econômico e nos assuntos internos do país, conquistou a população insatisfeita com o desempenho do democrata Joe Biden enquanto presidente. Nesse primeiro ano de governo, todavia, Trump já chegou a lançar ataques contra sete países: Irã, Iêmen, Iraque, Nigéria, Síria, Somália e Venezuela.
A perda do apoio popular estadunidense ao conflito não traz consequências apenas para a imagem de Trump, como também pode impactar as relações da nação com Israel. De acordo com oficiais israelenses, as baixas militares e o aumento considerável do preço dos combustíveis poderá piorar as recentes tendências negativas da população norte-americana em relação ao apoio histórico a Israel. Já segundo análise do Institute for the Study of War, a principal estratégia do Irã neste certame não é, necessariamente, derrotar as forças americanas, mas causar desgaste político-econômico suficiente para aumentar o custo da participação da potência no conflito e, logo, causar uma retração de suas ofensivas. Considerando esse quadro, o líder estadunidense tenta, ao máximo, passar a imagem de estabilidade, a fim de apaziguar os mercados globais. Chegou, nesta semana, a afirmar que a guerra se “encerraria em alguns dias” e que já teve conversas com o governo do Irã para negociar um acordo – fato que é negado por oficiais iranianos.
De qualquer maneira, é possível concluir que a guerra com o Irã vem produzindo efeitos concretos sobre a política interna do país, como evidenciado pela reação do Magaverso à renúncia de Kent. Dessa maneira, a não ser que Trump seja capaz de cumprir seus objetivos de curto-médio prazo no Irã – cenário não muito plausível quando se considera o histórico baldado das intervenções da potência nos países do Oriente Médio –, é provável que esse conflito traga mais prejuízos do que benefícios para o chefe de Estado dos EUA. ![]()
* Augusto Scapini é mestrando do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política e Relações Internacionais (PPGCPRI) da Universidade Federal de Goiás (UFG) e bacharel em Relações Internacionais pelo Instituto de Relações Internacionais e Defesa (IRID) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Foi pesquisador bolsista de iniciação científica (INCT-INEU/PIBIC/CNPq) no OPEU, entre 2021 e 2024 e, atualmente, é bolsista de Apoio Técnico à Pesquisa do INCT-INEU, com financiamento do CNPq, e pesquisador colaborador do OPEU. Contato: augustoscapini@discente.ufg.br
** Revisões são de responsabilidade dos autores. Revisão e edição final: Tatiana Teixeira. 1ª versão recebida em 23 mar. 2026. Este Informe OPEU não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU.
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