Eleições

Kamala Harris e a ‘Economia da Oportunidade’: uma agenda para resgatar o Sonho Americano

‘Salve o Sonho Americano’ (Fonte: Lisa Norwood/Flickr)

Por Ghabriel de Oliveira Teixeira* [Informe OPEU] [Eleições 2024]

Em texto publicado no OPEU em meados de maio deste ano, analisei o início da corrida presidencial americana, na época, ainda tendo Joe Biden no páreo. Ao longo do artigo, questionei a falta de criatividade política e de quadros fortes do Partido Democrata. O cenário ainda era marcado por uma política negativa realizada por ambos os lados. Donald Trump se apresentava como o candidato que acabaria com a “cultura woke” e a batalha ideológica no país. Biden, em contrapartida, seria o candidato anti-Trump, a antítese de tudo o que o republicano representa. Em maio, entendi que esse caminho seria um equívoco, afinal, o jogo da negação é, essencialmente, o jogo de Trump e da extrema direita global.

Na última quarta-feira, dia 25, Kamala Harris discursou por 40 minutos para o The Economic Club, em Pittsburgh, no estado-chave da Pensilvânia, e apresentou uma mudança substancial do que vinha sendo a campanha democrata liderada pelo atual presidente. Durante o discurso, Harris apresentou o plano econômico de sua candidatura, apelidado de “Economia da Oportunidade”.

O fio condutor (e público-alvo) do discurso da candidata do Partido Democrata foi a classe média. Kamala Harris apresentou uma plataforma econômica direcionada quase que integralmente para esse segmento da sociedade, reconhecendo as dificuldades de vida do estadunidense comum, como o alto custo de vida e a carência no acesso a direitos básicos. É na parte inicial do discurso que a candidata fala mais diretamente com essa faixa da população, e também é nesses momentos que mais flerta com posicionamentos à “esquerda”, defendendo o fortalecimento de sindicatos, a regulamentação de empresas “más” e o aumento de auxílios governamentais. Assim, em seu discurso, Kamala defende a construção de um “capitalismo de classe média” nos Estados Unidos.

Kamala Harris speaks in a theater full of people at CMU.Vice-presidente Kamala Harris discursa em evento da campanha “Economia de Oportunidades” no Chosky Theater, em Pittsburgh, Pensilvânia, em 25 set. 2024 (Fonte: Carnegie Mellon University)

Capitalismo de classe média e o sonho americano

Kamala também revelou sua preocupação com os altos custos de vida. Para combater isso, a presidenciável defendeu a queda na taxa de juros realizada pelo Federal Reserve (Fed, o Banco Central dos EUA) poucos dias antes do discurso, bem como um corte de impostos sobre consumo e serviços. Se eleita, prometeu cortar impostos para cuidadores de crianças e idosos, pais de primeira viagem e pessoas que estão construindo sua primeira casa. Enquanto Trump foca suas propostas econômicas no aumento de taxas no cenário internacional, Harris está concentrada no corte de impostos no plano doméstico. Com isso, a candidata pretende diminuir os custos de vida da classe média, ampliando o acesso ao trabalho e à moradia, pilares para alcançar o que ela chamou de “riqueza geracional” para os americanos. Entre as principais propostas para alcançar esse objetivo destacam-se:

  • Dedução de US$ 50.000 em taxas de novos pequenos empresários, dez vezes o valor da dedução atualmente em vigor. Com isso, Kamala Harris pretende criar 25 milhões novos pequenos negócios nos dois primeiros anos de mandato;
  • Banimento de empresas que cometem “price gouging” (aumento dos preços para valor muito acima da média do mercado, prática comum em períodos de desastres ou de convulsões sociais) em produtos básicos de mercado;
  • Assistência de US$ 25.000 para quem realizar a compra da primeira casa. Harris pretende construir três milhões de novas moradias ao longo do mandato. Também será criado um fundo de inovação no valor de US$ 40 bilhões para enfrentar o déficit de habitações;
  • Dedução fiscal de US$ 6.000 para pais de primeira viagem durante o primeiro ano de vida da criança, somado ao retorno da dedução de US$ 3.600 para cada criança de famílias pobres e de classe média;
  • Aumento na taxação de grandes empresas e corte de US$ 1.250 em impostos para trabalhadores em empregos de baixa remuneração;
  • Esforço para redução da dívida dos americanos com saúde e subsídio para medicamentos, com o objetivo de gerar economia de até US$ 700 anuais com plano de saúde;
  • Dialogar com o Congresso para garantir que essas medidas sejam aprovadas. Harris afirma que seus planos correspondem à necessidade do eleitor, e que isso seria o suficiente para convencer os congressistas a passarem suas medidas.

Harris concilia essas propostas com um apelo à classe média, aludindo ao espírito americano. Durante o discurso, a candidata fez diversas referências aos Pais Fundadores e ao espírito de inovação e de ambição que simboliza o povo estadunidense. Kamala também diferencia as empresas “boas”, que carregam todo o potencial de liderança americano, e as empresas “más”, que se aproveitam da miséria e do desespero do povo. Com isso, a candidata entra em um campo moral para, por um lado, explicar os problemas econômicos vividos pelo país, e, por outro, justificar as propostas econômicas de sua campanha.

Assim, ao longo de seu pronunciamento, Harris ataca Trump, colocando-o como um defensor dos ricos e dos poderosos, enquanto reforça o tempo todo ser filha da classe média e a única candidata que reconhece e identifica o sofrimento de quem, de fato, carrega o país nas costas. Esse apelo moral de Harris revela a alternativa do partido para uma polêmica que o divide desde a escolha de Kamala Harris para a disputa presidencial. Parte da legenda entende que seria necessário encontrar um vilão para a economia, da mesma forma que Trump fez com os trabalhadores imigrantes nos EUA. Para esse grupo, o caminho seria culpar as big corporations pelo desempenho econômico ruim. Apesar de tecer críticas às más companhias – com a licença poética do trocadilho –, a candidata não seguiu por essa rota. Pelo contrário, valorizou a importância do mercado justo e do empresariado para o desenvolvimento do país, sendo a frase “Look, I’m a capitalist” um dos momentos do discurso mais celebrados pela plateia de empresários e empreendedores. Afinal, os bons empresários são apresentados como a essência do espírito americano, impulsionando o país com sua ambição, inovação e seus sonhos. Kamala não se filia a nenhuma ideologia que não seja a da excepcionalidade americana, prometendo governar de forma pragmática, sem se colocar como de esquerda ou de direita, conservadora ou liberal.

Corporate American Flag | media.radical | Flickr

‘Eu sou uma capitalista!’, diz Kamala (Crédito: media.radical/Flickr)

Com isso, a democrata é eficiente em apresentar um projeto de capitalismo “humanizado”, direcionado para os mais pobres e os mais afetados pela quebra de indústrias causada pela guerra comercial com a China. A candidata encontra, assim, na ausência de patriotismo e na imoralidade dos grandes empresários uma vilania exigida por parte do partido, mas o faz de forma rasa, limitando-se, propositadamente, a manter a crítica no campo moral e sem dar centralidade para a questão.

Dessa forma, Kamala concilia a valorização da classe média com o reconhecimento do poderio empresarial para desenhar o que chamou de “economia das oportunidades”. Para alcançar esse objetivo, as propostas de Harris são baseadas no aumento do crédito, tanto para a classe média quanto para os pequenos e médios empreendedores. Se, em uma primeira análise, as propostas de Harris parecem excessivamente intervencionistas, um olhar mais cuidadoso revela, no entanto, um reconhecimento completo da predominância do mercado na e para a economia americana. O fortalecimento da classe média não virá por meio de investimentos públicos feitos diretamente nos setores cruciais para os americanos (saúde, educação e moradia), mas a partir do incentivo à iniciativa privada. Inclusive, a candidata reiterou ao longo de sua fala a importância dos pequenos empresários para a construção cívica das comunidades, bairros e pequenas cidades americanas. Durante o discurso da presidenciável, o espírito americano apresentou poucas diferenças para o que poderíamos chamar de espírito do mercado. Ou seja, a “economia de oportunidades” busca criar um “capitalismo de classe média” que incentiva a demanda via crédito, e a oferta, via incentivos fiscais, para os pequenos e médios empreendedores.

Inimigo em comum: as propostas de Kamala Harris para fazer frente ao crescimento chinês

Concomitante a isso, Kamala reconhece a necessidade de resgatar o setor industrial do país e dá destaque a essa tarefa ao longo de sua exposição. O resgate do espírito inovador americano durante o discurso não é aleatório. Os democratas reconhecem que a competição pelo século XXI – preocupação explicitada pela candidata em ataque direto à China – passa por vencer a disputa tecnológica. Harris não deseja apenas resgatar a indústria, ou toda indústria, mas, sobretudo, sua parcela capaz de competir com a China, quando o quesito é inovação. A disputa com a China, de fato, ocupou uma parcela considerável do terço final do pronunciamento. Kamala criticou as relações de Trump com o país, citando diretamente a venda de microchips para a potência asiática, a demora para a conclusão de obras de infraestrutura nos EUA (uma desvantagem em relação ao rápido crescimento chinês) e clamou por um maior dinamismo interno. Além disso, prometeu não fazer negócios com os “inimigos” dos Estados Unidos. Se o apelo ao espírito americano apresenta um resgate da ideologia do Destino Manifesto, a visão democrata sobre a posição dos EUA no mundo é similar à defendida pelo trumpismo e marcada pelo jargão “America’s First”. A visão de Kamala, entretanto, é mais cosmopolita que a dos republicanos e exatamente por isso ainda mais perigosa.

Desse modo, é possível observar três pilares da visão de Kamala Harris para a economia:

  • Foco na classe média e no crescimento interno impulsionado pelo crédito;
  • Resgate do excepcionalismo do espírito americano e cruzada contra a imoralidade no mercado;
  • Dinamização da economia para fazer frente a China e possibilitar um segundo resgate da hegemonia americana.

Dessa forma, o discurso de 25/9 revela uma visão “conciliadora” de Kamala Harris, apelando ao povo comum, mas reforçando que o poder do país vem de seus empresários. E faz tudo isso aderindo à parte da nostalgia que Trump também utiliza, porém, olhando para os novos desafios que a conjuntura impõe aos EUA. Se, em maio, os democratas ainda não haviam encontrado um caminho positivo, o comício de Pittsburgh revela que a rota foi recalculada. Harris reafirma o espírito americano, propõe o resgate industrial e deixa claro com quem está falando e para quem irá governar.

Desde 2016, Trump achou os seus losers – classe média-baixa rural excluída dos benefícios do desenvolvimento tecnológico americano, especialmente homens brancos e de baixa escolaridade – e sabe muito bem jogar com as insatisfações e frustrações de seus eleitores para manter sua base aquecida. Kamala, por sua vez, busca os seus perdedores na classe média urbana afetada pela queda da indústria americana, apelando para o sentimento anti-China e para os tradicionais valores do país. Kamala Harris e os democratas entenderam que as eleições de 2024 podem mudar a história da hegemonia americana e do século XXI. Resta saber se ela conseguirá convencer o povo disso, e se esse mesmo povo estará disposto a mais um sacrifício para sustentar a ilusão de que sua excepcionalidade justifica e garante o seu poderio em relação ao restante do mundo. Trump aposta no hegemon que os EUA já foram no século passado; Kamala, no hegemon que os EUA precisam ser para liderar o século XXI.

 

Leia mais do autor no OPEU

Informe, “Nem cruz, nem espada: o impasse eleitoral americano em meio à crise da hegemonia”, 16 de maio de 2024

 

Ghabriel de Oliveira Teixeira é graduado em Relações Internacionais pela UFSC, mestrando pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais na mesma universidade, sob orientação do prof. Dr. Jaime Cesar Coelho. É membro do grupo de pesquisa da UFSC no INCT-INEU e do Núcleo de Economia e Política Externa da UFSC (NEPEX). Contato: gh_oliveira@outlook.com.

** Revisão e edição final: Tatiana Teixeira. Recebido em 9 out. 2024. Este Informe não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU.

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