José Miguel Insulza comenta desafios da democracia no continente americano
(Arquivo) José Miguel Insulza, no Chile, em 14 jul. 2008 (Crédito: Pontificia Universidad Católica de Chile/Flickr)
Parlamentar chileno, ex-secretário-geral da OEA, participa de Seminário Regional “As Relações EUA-América Latina no Segundo Governo Trump” e concede entrevista exclusiva à ACI
Por Renato Coelho, para Assessoria de Comunicação e Imprensa (ACI), da Unesp* [Republicação] [Divulgação]
Nos dias 20 e 21 de maio, a Unesp realiza o Seminário Regional “As Relações EUA-América Latina no Segundo Governo Trump” na sede do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais (IPPRI), na capital paulista. O evento é gratuito e aberto ao público, e os participantes que comparecerem a pelo menos quatro mesas-redondas terão direito a certificado.
Promovido pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INEU) em parceria com o Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (Gedes/UNESP), o encontro reunirá especialistas nacionais e internacionais para analisar os impactos, na América Latina, da volta de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos. Entre os temas estão: crise do multilateralismo, migrações, militarização, disputa tecnológica entre EUA e China, guerras tarifárias, desdolarização e a atuação da extrema-direita transnacional.
A mesa inicial, que ocorre às 9 h do dia 20 (quarta-feira), debaterá a crise do multilateralismo e os desafios para a integração latino-americana, e contará com o embaixador e ex-secretário-geral da OEA (Organização dos Estados Americanos) José Miguel Insulza. A mediação será feita pelo professor Marcos Cordeiro, da Unesp; o professor Andrei Koerner, coordenador do INEU, também fará parte da cerimônia de abertura.
O evento contará ainda com sete mesas-redondas ao longo dos dois dias, abordando segurança pública, criminalização de movimentos sociais, tecnologia militar e conflitos no campo, nas cidades e no âmbito global.
Em entrevista à Assessoria de Comunicação e Imprensa da Unesp, José Miguel Insulza, atualmente senador com mandato no Congresso Nacional do Chile, fala sobre pontos que permeiam o cenário da democracia e os desafios políticos dos países da América Latina.
Inicialmente, como o senhor analisa a estrutura atual da diplomacia na América Latina? Quais os riscos que permeiam esse cenário?
Os últimos anos têm sido difíceis para a América Latina, resultado do crescimento lento sob muitos governos e da perda de apoio político para muitos deles. O maior risco reside na desunião de seus países.
Com base na sua vasta experiência internacional, como o senhor vê o avanço do autoritarismo na região? A OEA ainda possui ferramentas eficazes para mediar essas crises?
Observa-se um aumento do autoritarismo, que infelizmente resultou de eleições em diversos países que optaram por soluções de extrema-direita devido ao que consideram a ineficácia de seus governos. A OEA (Organização dos Estados Americanos) pode observar eleições, mas não tem autoridade para intervir em governos eleitos.
Qual o impacto das tensões geopolíticas globais (como as políticas externas dos EUA e a influência da China) na soberania dos países latino-americanos?
Semanas antes da Cúpula de Pequim, o presidente dos EUA, Donald Trump, convocou uma reunião com vários presidentes latino-americanos para proclamar sua determinação em impedir que qualquer outra superpotência interferisse no hemisfério que, nas palavras do secretário de Estado Rubio, é “nosso hemisfério”. Esse conceito é reiterado no documento oficial sobre a estratégia do presidente Donald Trump.
A intervenção mais significativa dos EUA na América Latina foi a ação militar na Venezuela, o sequestro de Nicolás Maduro e sua esposa e a imposição de um governo provisório chefiado pela ex-vice-presidente Delcy Rodríguez. Antes disso, nos meses anteriores, houve ataques a pequenas embarcações supostamente transportando drogas em águas internacionais perto da Venezuela.
Pode-se citar também o apoio aberto de alguns governos a candidatos presidenciais em outros países. Mais notavelmente, o presidente Trump concedeu indulto ao ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández, que havia sido extraditado a pedido do governo anterior dos EUA e cumpria uma pena de 45 anos por crimes de tráfico de drogas.
Por que projetos de integração regional, como a UNASUL ou a própria OEA, parecem ter perdido fôlego nos últimos anos?
O encerramento da UNASUL ocorreu devido à recusa da Venezuela e da Bolívia em concordar com vários nomes propostos pelos demais países membros para o cargo de Secretário-Geral. Dois anos após a renúncia do Secretário-Geral anterior, a instituição encerrou suas atividades. Posteriormente, alguns governos de direita se retiraram da UNASUL e tentaram criar um novo mecanismo substituto, mais modesto, chamado PROSUL (Fórum para o Progresso da América do Sul), que acabou fracassando completamente.
Quanto à OEA, acredito que sua força tenha diminuído, visto que alguns dos países mais importantes retiraram seu apoio. Uma OEA forte precisa da disposição favorável dos principais países da América do Norte e do Sul, o que não tem acontecido nos últimos anos.
Em um mundo marcado por intervenções militares unilaterais e tensões no Oriente Médio, como proteger a validade do Direito Internacional?
O fortalecimento do sistema multilateral é a única maneira de validar a validade do direito internacional. O maior problema hoje é que, dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas, dois não respeitam as disposições da Carta em seus conflitos internacionais. As ações da Rússia na Ucrânia e as dos Estados Unidos em diversos conflitos violam claramente as normas internacionais que esses mesmos Estados ajudaram a aprovar. Reformar o Conselho de Segurança à luz das novas realidades internacionais é uma necessidade urgente há muito tempo, mas nenhum progresso foi feito nesse sentido.
Como o senhor avalia o futuro da esquerda na América Latina? O socialismo democrático que o senhor representa ainda ressoa com as demandas das novas gerações?
Acredito que o socialismo democrático não conseguiu compreender as enormes transformações pelas quais a humanidade passou no primeiro quarto deste novo século. Suas propostas e slogans ainda são os do século XX. Talvez isso se deva ao fato de que os sucessos alcançados na primeira década do século o tenham levado a ansiar pelo passado em vez de olhar para o futuro. O socialismo democrático precisa atualizar suas análises à luz da nova realidade produtiva do mundo, que se transformou radicalmente neste século XXI.
Agora, com base na temática do evento, o senhor irá participar aqui na Unesp: “As relações EUA-América Latina no segundo governo Trump”. Qual o seu ponto de vista sobre essa questão? Quais os impactos e riscos para a região?
Acredito que Trump carece de uma visão clara de política externa e só enxerga a América Latina como alvo de oportunismo. Sua declaração desdenhosa no dia da posse ainda é lembrada: “Eles precisam muito mais de nós do que nós deles. Nós não precisamos deles. Eles precisam de nós. Todos precisam de nós.”
Apesar disso, e com exceção de suas exigências iniciais em relação ao Canal do Panamá, Trump parece se distanciar da região, onde seu tratamento desumano aos migrantes, especialmente latinos, o tornava cada vez mais impopular. O ponto de virada ocorreu quando Trump decidiu romper as negociações com Nicolás Maduro e o removeu abruptamente do poder e do país.
A remoção bem-sucedida de Maduro e Cilia Flores permitiu uma mudança de regime, que foi apenas parcial; um regime permaneceu no poder, no qual os aliados de Maduro continuam reinando, mas a serviço de Trump. Mas isso permitiu que o Secretário de Estado Marco Rubio atuasse com mais eficácia. A proclamação de Rubio no dia da eleição reviveu os piores aspectos da Doutrina Monroe: “Este é o nosso hemisfério e nós o defenderemos.” Agora, Trump parece precisar ainda mais da América Latina para suas ambições hegemônicas. E a região, particularmente dividida, não apresentou uma resposta adequada.
Qual a relevância do evento que o senhor irá participar na Unesp, de debater essa questão com especialistas, professores e estudantes universitários?
Penso que precisamos analisar profundamente a situação em nossa região. Há novos governos de direita e muitas tentações para reavivar uma aliança liderada pelos Estados Unidos. Certamente, temos uma relação essencial com esse país. Mas somente um entendimento entre as grandes nações (Brasil, México e Colômbia) poderá gerar um equilíbrio mais positivo.
Serviço
– Evento: Seminário Regional “As Relações EUA-América Latina no Segundo Governo Trump”
– Local: Sede do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais (IPPRI/Unesp). Praça da Sé, 108 – Centro – São Paulo (Metrô Sé)
– Data e horário: 20 e 21 de maio de 2026, a partir das 9h
– Transmissão pelo canal do INCT-INEU no YouTube (@INCTINEU).
– Inscrições:
https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLScb4ZFqf0we31u4NNNLAeGtWuAEjozUQbHqb6mlrotFWcnsHw/viewform
– Informações para imprensa: livia.milani@unesp.br ![]()
* Publicado originalmente no site da Unesp, em 19 de maio de 2026. Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU.
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