Da transferência de risco à guerra algorítmica: a Doutrina do Império Predador
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Por Jun Lacerda e Luan Brum* [Informe OPEU] [Inteligência Artificial]
O drone representava apenas uma perda de hardware e, assim, começou um esforço de “transferência de risco”, que é uma estratégia deliberada das democracias liberais para manter a legitimidade da guerra, ao deslocar sistematicamente a vulnerabilidade de seus próprios soldados para as populações civis e combatentes locais nos territórios-alvo. Martin Shaw, sociólogo e Professor Emérito de Relações Internacionais e Política da Universidade de Sussex (2001)
Assinado em 5 de junho de 2026, o Memorando Presidencial de Segurança Nacional-11 (NSPM-11) institucionalizou uma profunda reorganização na governança da Inteligência Artificial (IA) no setor de segurança nacional dos Estados Unidos.
O documento revogou, formalmente, as diretrizes estabelecidas por governos anteriores que previam ciclos mais rigorosos de avaliação e adaptação tecnológica. No texto, determina-se que o secretário de Guerra, Pete Hegseth, atualize em até 90 dias a Diretriz 3000.09 (Autonomy in Weapon Systems), principal marco normativo do Departamento de Defesa dos EUA (DoD) para o desenvolvimento, teste e emprego de sistemas de armas autônomos e semiautônomos. A medida não é só uma aceleração burocrática, mas uma mudança paradigmática: a regulação das armas autônomas foi atrelada a uma linha de base tecnológica móvel e tratada como pilha de tecnologia (technology stack) integrada, não mais um artefato isolado.
Seis dias após a decisão, dia 11 de junho, o Comitê de Serviços Armados do Senado dos EUA avançou uma proposta de criação do Robotic and Autonomous Systems Combatant Command (Comando Combatente de Sistemas Robóticos e Autônomos), uma estrutura inédita de quatro estrelas desenhada para centralizar a aquisição e a geração de forças não tripuladas. Essa corrida pela automação absoluta do campo de batalha é frequentemente apresentada pelos legisladores de Washington como resposta inevitável às pressões sistêmicas de competidores como China e Rússia. Essa lógica foi reforçada pelo representante (deputado) republicano Mike Gallagher (Wisconsin). Em 18 de julho de 2023, durante audiência da Comissão de Serviços Armados da Câmara dos EUA intitulada “Homem e Máquina: Inteligência Artificial no Campo de Batalha”, ele já havia argumentado que uma eventual desaceleração no desenvolvimento de tecnologias baseadas em Inteligência Artificial poderia comprometer a vantagem estratégica estadunidense diante da China.
Esse tipo de declaração exemplifica o enquadramento da inovação militar como um imperativo competitivo, no qual a aceleração tecnológica passa a ser apresentada não como uma escolha política, mas como uma necessidade decorrente da disputa geopolítica. Sob o manto da inovação e da precisão técnica, oculta-se a lógica doutrinária de longo prazo associada à redução da exposição humana ao risco militar.
A análise histórica do desenvolvimento dos aeronaves não tripuladas pelos Estados Unidos revela que a emergência da atual guerra algorítmica não constitui uma ruptura ética, mas o amadurecimento da estratégia de risk-transfer (transferência de risco) e a consolidação de um modelo de projeção de poder denominado pelo professor Ian G. R. Shaw como “império predador”, conceito desenvolvido na obra Predator Empire: Drone Warfare and Full Spectrum Dominance (Oxford, 2016). Para Shaw, essa virada representa a transição de um sistema de dominação intensivo em mão de obra para um sistema intensivo em máquinas ou capital, no qual “os gestores de guerra de Washington correram para encontrar uma nova estratégia”.
Sua resposta foi fazer mais com menos, embaralhando “a geografia de soldados humanos, robôs e drones – transferindo corpos vulneráveis dos EUA da linha de frente para os escritórios de retaguarda”. Esse processo não se limita a uma tática pontual, mas expressa o que o autor define como “uma nova forma de império americano que fez a transição para além das contrainsurgências do Vietnã, do Afeganistão e do Iraque”, consolidando um modelo, no qual “a importância dada às ‘botas no chão’ diminuiu” e “os militares podem agora fazer mais com menos”.
A contemporaneidade: a algoritmização da política de defesa
A assinatura do memorando NSPM-11 e a iminente criação de um comando militar dedicado a sistemas robóticos marcam o início de uma nova fase da política de defesa dos Estados Unidos. Nela, o software de orquestração passa a se sobrepor ao próprio vetor físico como elemento decisivo da guerra. Análises estratégicas recentes do Center for Strategic and International Studies (CSIS) indicam que a autonomia no combate contemporâneo não reside apenas na plataforma responsável pelo emprego da força, mas, sobretudo, no software capaz de integrar dados provenientes de múltiplos sensores, identificar e priorizar alvos e determinar o momento oportuno para o emprego da força.
Do Kettering Bug aos drones: a trajetória histórica da despersonalização da guerra
A busca de um Estado por projetar destruição material, sem esbarrar na vulnerabilidade mútua do combate presencial, tem suas raízes na Primeira Guerra Mundial. Neste conflito, a indústria bélica estadunidense desenvolveu o Kettering Bug, um torpedo aéreo sem piloto. A inicial bomba voadora pré-programada para mergulhar no alvo marcou o nascimento da transferência de risco, conceito que descreve o deslocamento sistemático e deliberado do perigo de morte e das baixas militares do núcleo estatal em direção às populações periféricas sob sua intervenção.
Fonte: National Museum of The United States Air Force
A palavra “drone”, que significa zangão em inglês, revela a construção de uma linguagem tecnoburocrática que torna a violência mais asséptica, distante e eticamente neutralizada. O termo originou-se do modelo DH.82B Queen Bee, um biplano controlado por rádio que servia como um alvo de artilharia. A associação entre a aeronave e o zangão, cuja existência biológica é marcada por uma função estritamente instrumental e descartável, não é apenas uma metáfora técnica: ela integra uma semântica militar que naturaliza a substituição do combatente humano por dispositivos automatizados e contribui para a burocratização e a higienização simbólica do extermínio.
A reconfiguração ontológica do campo de batalha
O desenvolvimento e a proliferação dos softwares alteraram de forma irreversível os pressupostos ontológicos dos conflitos armados. Na obra Da Guerra, Carl von Clausewitz descreve a guerra sob o modelo do duelo físico, um encontro recíproco do perigo e simetria de forças morais. Drones e sistemas de software de decisão militar rompem a reciprocidade, criando um combate para o domínio da “caça ao homem” (man-hunting) conforme formulado por Grégoire Chamayou em Teoria dos Drone (2013).
Com isso, a agressão militar deixa de ser um recurso excepcional e se converte em um método permanente de policiamento desterritorializado, cujas implicações são profundas. A caça ao homem mediada por sistemas de armas remotos submete populações periféricas a um trauma existencial crônico, instaurando uma atmosfera permanente de terror diante da ameaça constante do que pode vir do céu. Nesse contexto, o dano colateral tende a ser naturalizado, enquanto o julgamento ético é deslocado para a aparente neutralidade técnica de monitores e softwares operados a milhares de quilômetros de distância.
A institucionalização da Inteligência Artificial imposta pelo NSPM-11 não representa apenas uma atualização doutrinária, mas o desmonte final das barreiras éticas que tradicionalmente balizavam o uso da força letal. Ao delegar a seleção e a neutralização de alvos para a impessoalidade de softwares de orquestração, cria-se um abismo tecnoburocrático que blinda o decisor da realidade física e moral do extermínio, convertendo o ato de tirar uma vida em uma métrica de eficiência processual.
Ao revogar as diretrizes da administração anterior sob a justificativa de eliminar “burocracias desnecessárias”, o memorando deixa evidente uma prioridade: acelerar a adoção de novas tecnologias militares, ignorando, intencionalmente, quaisquer desafios éticos envolvidos. Sob o princípio da garantia (Assurance), que exige sistemas robustos, direcionáveis (steerable) e controláveis (controllable), consolida-se uma das principais características da guerra digital contemporânea: a transformação da violência militar em uma questão apresentada como técnica, medida por parâmetros e métricas de engenharia de software.
Ao transferir a identificação, a seleção e a neutralização de alvos para softwares de orquestração desenvolvidos por diferentes empresas privadas, cria-se uma distância crescente entre aqueles que decidem pelo uso da força e as consequências reais dessa decisão. A violência deixa de ser percebida como uma escolha humana direta e passa a ser mediada por sistemas tecnológicos que distribuem e diluem a responsabilidade entre operadores, empresas, algoritmos e estruturas burocráticas.
Esse processo de distanciamento transforma os campos de batalha contemporâneos, marcados pela vigilância constante e pela capacidade de intervenção remota, em espaços onde a vida e a soberania podem ser submetidas à lógica de uma decisão automatizada. Sob o argumento da precisão técnica e da redução de danos, essa “caça ao homem” tecnologicamente mediada acaba por tornar a violência mais distante, menos visível e mais facilmente justificável, criando procedimentos que amenizam o peso moral do ato de matar e reduzem a responsabilidade humana direta sobre o conflito.
A algoritmização da guerra e a normalização do conflito permanente
A trajetória estadunidense em direção à automatização dos ataques e à transferência de risco demonstra que a inovação tecnológica no campo da defesa não se desenvolve de forma neutra ou autônoma. Ela expressa prioridades estratégicas, interesses políticos e concepções específicas sobre o emprego da força militar.
As diretrizes contemporâneas estabelecidas pelo memorando NSPM-11 e a estruturação de um comando combatente voltado a sistemas autônomos em 2026 completam essa trajetória, ao deslocar a tomada de decisão sobre o emprego da violência: do operador humano para sistemas de orquestração algorítmica capazes de integrar dados, processar informações e orientar ações no campo de batalha. Sob o pretexto de garantir maior eficácia operacional contra novos rivais no campo geopolítico, a automação da cadeia de destruição é o estágio superior do desenvolvimento de um Império Predador. Sem a reintrodução do controle democrático e dos julgamentos éticos por trás da máquina da guerra, o futuro dos conflitos armados se torna um fluxo digital e, por consequência, um mar de mortes remotas.
Em seu discurso de despedida, o presidente Dwight D. Eisenhower (1953-1961) apresentou um alerta sobre a consolidação do complexo industrial-militar, argumentando que sua crescente influência econômica, política e ideológica poderia ultrapassar os limites da esfera militar e passar a moldar decisões fundamentais do Estado. Apesar de ser um militar de mais alta patente, tendo alcançado o posto de general do Exército de cinco estrelas, Eisenhower compreendeu que a transformação na direção de um aparato de defesa permanente e oneroso deslocaria, progressivamente, a governança política para a influência de uma elite técnico-científica.
Dentro das esferas deliberativas do Estado, torna-se imperativo o policiamento contra a influência desmedida do complexo industrial-militar. A possibilidade latente de uma hegemonia deslocada e funesta perdura como ameaça sistêmica. É vital que a gravidade desta aliança não comprometa as garantias democráticas ou as liberdades civis. Sob a ótica da vigilância constante, apenas uma sociedade civil informada pode subordinar o aparato técnico-militar aos propósitos da paz, assegurando que a segurança nacional e a autonomia política coexistam em equilíbrio.
Embora Eisenhower tenha defendido o controle do complexo industrial-militar para proteger a autonomia democrática, seus alertas encontram eco na ascensão de um aparato de guerra cada vez mais orientado pela eficiência técnica. A incorporação de sistemas algorítmicos promete maior precisão operacional, mas também cria mecanismos que distanciam os decisores das consequências humanas da violência, convertendo o combate em uma sequência de procedimentos técnicos e reduzindo o ato de matar a uma operação despersonalizada. ![]()
Jun Lacerda é graduando de Relações Internacionais na Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e integrante do grupo de pesquisa “Repensando a hegemonia: poder e contradições da presença dos Estados Unidos no mundo contemporâneo”, sob a orientação do professor Luan Brum. Contato: academicojun@gmail.com.
Luan Brum é professor substituto do curso de Relações Internacionais da UFPel, doutor em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina e membro do IELA (UFSC). Coordena o projeto “Repensando a hegemonia: poder e contradições da presença dos Estados Unidos no mundo contemporâneo” (RI-UFPel). Contato: luan.brum1996@hotmail.com.
** Revisão e edição: Tatiana Teixeira. Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU.
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