‘I Want You’ (again): Trump 2.0 e a retomada do debate sobre alistamento militar nos EUA
Fonte: National WWI Museum and Memorial
Dossiê “As Forças Armadas de Trump 2.0”
Por Clarissa Nascimento Forner* [Informe OPEU] [Trump 2.0] [Forças Armadas] [Alistamento militar]
Em abril de 2026, o Departamento da Guerra e a agência responsável pelas bases de dados de recrutamento militar nos EUA, o Sistema de Serviço Seletivo (SSS), anunciaram que, a partir de dezembro deste ano, “todos os homens elegíveis entre 18 e 25 anos”, incluindo cidadãos norte-americanos e imigrantes, passarão a ser automaticamente registrados no sistema de alistamento militar. Embora o registro obrigatório (registration) já funcionasse, a novidade é que o cadastro no sistema se tornará automático, sendo realizado pelo próprio U.S. Selective Service System, e não mais individualmente. O cadastro não acarreta a conscrição imediata. Também não reinstaura, a princípio, o alistamento militar obrigatório nos EUA, que ocorre em formato voluntário desde 1973. A não apresentação para registro pode implicar, contudo, penalidades criminais, como multas, encarceramento e a inviabilização para a inscrição para benefícios sociais, principalmente no caso dos imigrantes. Até o momento de redação deste texto, os informes divulgados pelo governo sugerem que o registro automático abarcaria apenas “homens elegíveis”, não incluindo, por exemplo, mulheres. Ainda assim, restam dúvidas sobre a extensão e o formato de implementação do dispositivo.
A publicação dos anúncios gerou grande comoção nos espaços políticos e sociais norte-americanos, suscitando questionamentos sobre a possibilidade de restauração do serviço militar obrigatório no país. Essa potencial revisão seria, no entanto mais complexa e demandaria a aprovação no Congresso dos EUA. A inquietação sobre o tema permanece, já que os posicionamentos do governo Trump têm sido ambivalentes, ora rejeitando imediatamente a possibilidade de restauração da obrigatoriedade, ora ressaltando, conforme pronunciamento da assessora de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, que “o presidente Trump sabiamente mantém todas as opções à mesa”. Os debates se acentuam, particularmente, diante do fato de os EUA estarem novamente engajados em intervenções militares no exterior, como a guerra no Irã. Além disso, o alistamento tem sido frequentemente ventilado como medida desejável por diferentes figuras do espectro político estadunidense. Entre elas, destacam-se representantes da direita norte-americana e do próprio governo Trump, como o secretário da Guerra, Pete Hegseth, e o vice-presidente J.D. Vance; oficiais militares, como o general Stanley McChrystal (ver nossa última análise deste dossiê); e empresários do campo tecnológico, conforme ilustra o manifesto publicado pela Palantir, advogando em favor do serviço militar obrigatório.
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Também é importante ressaltar que, embora tenha sido oficializada em 2026, a instauração do registro militar automático já vinha sendo debatida, no Congresso, tendo sido aprovada em coalizão bipartidária como parte do texto da Lei de Autorização de Defesa Nacional (NDAA, na sigla em inglês), do ano fiscal de 2026, que dispõe sobre a organização do setor de defesa para o ano corrente. O texto que regulamenta o cadastro automático foi introduzido pela representante (deputada) democrata Chrissy Houlahan (D-PA) e pelo republicano Don Bacon (R-NE), ambos veteranos militares e participantes da Comissão da Câmara sobre Forças Armadas. A justificativa oferecida pela NDAA e pelos congressistas foi a redução de custos relacionados com o processo de registro individual, principalmente no que diz respeito ao monitoramento dos indivíduos inscritos e à garantia do cumprimento do cadastro obrigatório. Em sua página oficial, entretanto, Houlahan reafirmou que a medida teria como finalidade, unicamente, a redução de custos e de procedimentos burocráticos, não acarretando a retomada do serviço militar obrigatório.
A despeito destas declarações, a questão do alistamento militar mobiliza problemáticas que, certamente, transcendem a dimensão orçamentária e burocrática, e que envolvem pilares como a construção de noções de cidadania e pertencimento, nos EUA, bem como a operacionalização das práticas que legitimam e reproduzem o militarismo, enquanto forma de organização política e social.
A história do alistamento militar nos EUA e a construção de um modelo de cidadão
O debate sobre a conscrição tem sido um dos aspectos centrais da relação entre a sociedade norte-americana e o aparato militar. Embora o alistamento tenha sido frequentemente apresentado na construção da “autonarrativa liberal” como antitético aos pilares democráticos e ao “experimento norte-americano” (Forner e Pecequilo, 2023), o sistema de recrutamento passou por uma série de expansões e adaptações, ao longo da história. Estas transformações contribuíram, por um lado, para a legitimação do militarismo como força de organização social e econômica e, por outro, para o remodelamento dos padrões de cidadania e pertencimento dominantes no país.
A formação do sistema de milícias, no período posterior à Independência, foi uma das primeiras expressões da capacidade de adaptabilidade do militarismo, tanto ao discurso liberal quanto às forças produtivas do capitalismo emergente. Naquele arranjo, os contingentes milicianos eram organizados sazonalmente e em regime voluntário pelos estados locais, em contraposição aos exércitos profissionais permanentes europeus. Conforme discutido por Izecksohn (2017), ainda que as justificativas para a opção pelo voluntarismo recorressem à lógica do “excepcionalismo norte-americano” e à suposta rejeição aos “grandes exércitos”, na prática, o emprego de milícias era fruto da combinação pragmática entre as demandas pela preservação da autonomia dos estados ante uma ainda frágil União e pela continuidade das atividades econômicas, mesmo em contextos de guerras. De forma complementar, revisitando genealogicamente as bases filosóficas do pensamento liberal clássico, Cowen (2006) observa que, a despeito do debate sobre liberdades individuais, a conscrição aparece como “tolerável” nos escritos de cânones como John Locke, particularmente, para as massas “economicamente menos produtivas”. Nesse sentido, a formação miliciana respondia menos à alegada aversão à formação militar, e mais à concretização de interesses econômicos e políticos daquele contexto.
A guerra civil estadunidense (1861-1865) reforçou esta correlação de forças ao instaurar, pela primeira vez, o recrutamento compulsório e nacionalizado, por meio do decreto “Enrollment Act” de 1863. Duas consequências importantes decorrem deste período, sintetizando as considerações da obra Duas guerras nas Américas: raça, cidadania e construção do Estado nos Estados Unidos e no Brasil (1861-1870), do professor Vitor Izecksohn (FGV editora, 2025). Em primeiro lugar, ocorre a redefinição das relações entre a conscrição militar e o exercício da cidadania, considerando que a mobilização em massa promovida via União significava a transferência da lógica descentralizada do localismo do sistema de milícias para a construção de um sistema centralizado, pautado na criação de lealdades nacionais entre governo e cidadãos. Em segundo, observa-se o fortalecimento dos recortes de raça e classe nas fileiras militares, principalmente, mediante a autorização, pelo Congresso norte-americano, do recrutamento de homens negros, conforme se avolumavam as casualidades da guerra e, em especial, da população branca.
Ainda de acordo com o autor, a expansão do recrutamento fez o Exército assumir o posto de “ramo organizador do governo federal”, ao passo que o alistamento foi encarado como caminho e “moeda de troca” para a emancipação da população escravizada. Em 1864, foi concedida a emancipação aos soldados negros conscritos e suas respectivas famílias e, em 1865, a 13ª Emenda formalizou o fim da escravização de pessoas negras nos EUA. O ingresso nas fileiras armadas não significou, porém, o exercício pleno da cidadania, nem igualdade, posto que as discriminações continuaram a se expressar em desigualdades salariais entre soldados brancos e negros, na manutenção da segregação (sobretudo após o decreto das Leis Jim Crow) e na permanência do racismo estrutural na sociedade norte-americana.
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Não obstante, a Guerra de Secessão contribuiu para forjar o binômio conscrição-cidadania, que se consolidaria ao longo do século XX, em particular, após as duas guerras mundiais, com a instauração do sistema do Selective Service, isso é, o recrutamento militar obrigatório, vigente até a Guerra do Vietnã (1955-1975). O processo de instauração do alistamento compulsório adicionou pelo menos dois fatores centrais e instrumentais à difusão do militarismo na sociedade norte-americana. Por um lado, a mobilização em larga escala funcionou como um mecanismo de retroalimentação para a então embrionária indústria de defesa estadunidense que, após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), seria o alicerce do chamado complexo industrial-militar-acadêmico. Por outro, os debates sobre a conscrição foram permeados pela construção do imaginário da instituição militar como espaço de exercício de valores cívicos, de disciplina e de masculinidade, comportamentos vistos como desejáveis para o “bom funcionamento do corpo social” e, em particular, para a juventude.
Como consequência, cresceram, neste período, as pressões advindas de grupos políticos conservadores e das alas militares pela instauração do “Treinamento Militar Universal” obrigatório (TMU), visando ao oferecimento de treinamento militar básico a todos os homens e jovens do país. Embora a proposta não tenha sido levada adiante, a discussão permitiu a instauração do programa Junior Reserve Officers’ Training Corps (Corpo de Treinamento de Oficiais da Reserva Júnior, JROTC), em 1916, vigente até a atualidade (Forner, 2020). Apesar de não oficializado como um programa de recrutamento, o JROTC é ofertado pelas forças armadas em escolas norte-americanas, com o objetivo de desenvolver habilidades físicas e aptidões de “liderança, responsabilidade e disciplina” entre os estudantes (sobre o tema, ver as contribuições de Araujo, 2026). De forma emblemática, o programa tem sido aplicado majoritariamente em regiões periféricas dos EUA, ressaltando o direcionamento econômico e, consequentemente, racial das referidas iniciativas.
A dimensão de classe e raça também seria reforçada pelos próprios programas de recrutamento que, principalmente a partir chamada “Guerra contra a Pobreza” da Era Johnson, amplificariam os benefícios sociais associados ao ingresso na carreira militar, visando a alcançar jovens de baixa renda. Lógica similar foi estendida aos imigrantes, posto que as forças armadas também eram vistas como espaços de difusão dos valores norte-americanos e de “assimilação cultural”, conforme argumentado por Lori Lyn Bogle, no livro The Pentagon’s Battle for the American Mind: The Early Cold War (Texas A&M University Press, 2004).
Nesse sentido, a transição para o alistamento militar compulsório ressignificou a conexão entre a carreira militar e o exercício da cidadania, aqui compreendida não como um conjunto de direitos e deveres políticos, mas sim, em sua dimensão econômico-produtiva e, sobretudo, disciplinar. Segundo Ettinger (2017), três objetivos centrais foram promovidos pelo novo sistema: a construção de uma ideia de “cidadania robusta”, centrada na formação de “melhores cidadãos”; a remediação de desigualdades e injustiças sociais; e a difusão de uma “engenharia social” para a produção de indivíduos mais produtivos para o mercado. No primeiro eixo, o serviço militar obrigatório se consolidou como forma de incutir virtudes cívicas e morais, além de performances de masculinidade heteronormativa entre os conscritos. Além disso, o ingresso na carreira militar também se tornou um ativo de mobilidade social, engajando jovens de baixa renda – normalmente racializados e periféricos – no sistema de benefícios do Welfare State, ao mesmo tempo que garantia o disciplinamento de seus corpos. Por fim, o alistamento se converte em um instrumento de canalização de força produtiva para o mercado, ao estimular o desenvolvimento de habilidades vistas como necessárias ao “cidadão produtivo”, adaptado à economia capitalista.
Este arranjo foi mantido até 1973, quando as forças de oposição à Guerra no Vietnã e o processo de difusão do modelo de organização neoliberal levaram ao desmonte da conscrição obrigatória nos EUA.
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A neoliberalização e suas implicações para o serviço militar
O conjunto de eventos que culminou no encerramento do sistema de alistamento militar obrigatório e que instaurou o serviço militar voluntário (All-Volunteer Force) costuma ser frequentemente apresentado como um resultado da mobilização do movimento antiguerra que agregou diversas forças do campo progressista em oposição à Guerra do Vietnã, entre as décadas de 1960 e 1970. Com efeito, as manifestações generalizadas pelo país impuseram questionamentos importantes à lógica da mobilização contínua para a guerra, que se tornara dominante no país, principalmente no contexto da Guerra Fria (1947-1989). Na contrapartida, as motivações que embasaram o encerramento da obrigatoriedade pelo governo Nixon (1969-1974) expõem os limites históricos do antimilitarismo, nos EUA, e mostram a força da conexão entre o aparato militar e a esfera econômica.
De acordo com Cowen (2006), a transição para o sistema de alistamento voluntário não pode ser dissociada do fortalecimento do neoliberalismo enquanto racionalidade de organização econômica, social e política, no país. Isto pode ser evidenciado não apenas pelo fato de que figuras associadas à Universidade de Chicago, como Milton Friedman, tornaram-se algumas das principais vozes na defesa do fim da conscrição, mas também porque as motivações econômicas adquiriram o protagonismo nos discursos presidenciais e legislativos que justificaram a mudança para o novo sistema. Em pronunciamento para a rádio CBS, em 1968, por exemplo, o então presidente Nixon ressaltou o impacto dos “altos custos” da manutenção da conscrição obrigatória para o Estado e afirmou que as forças armadas eram “os únicos empregadores que não precisavam competir no mercado de trabalho”, sinalizando o deslocamento para a lógica mercadológica e o desmonte do modelo de “estado de bem-estar social”, vigente até então (Ettinger, 2017).
O fim do alistamento obrigatório coincide, portanto, com a consolidação do projeto neoliberal, que, por um lado, altera as geografias produtivas, os modelos de relações de trabalho, a relação com os gastos públicos e desmantela os movimentos sindicais, mas ainda assim não prescinde da manutenção de altos orçamentos militares, na medida que o aparato coercitivo doméstico/externo é ferramenta fundamental à repressão de dissidências e de manutenção dos fluxos econômicos, dos quais depende o próprio neoliberalismo (Brown, 2016). Esta equação se tornou central no governo Reagan (1981-1987), o qual também foi marcado pela extensão dos benefícios sociais associados às forças armadas, como mostrou a assinatura presidencial da “nova GI Bill”, que estendeu a vigência dos programas de assistência educacional para veteranos das forças armadas (Cowen, 2006). Esta dinâmica contribuiu para sustentar a atratividade do serviço militar em uma conjuntura de crescente precarização das relações de trabalho e de cortes sistemáticos no restante das contas públicas.
Complementando este panorama, o encaminhamento para o fim da Guerra Fria também trouxe mudanças na organização militar que corroboraram para transformar o perfil das forças armadas, como o aumento do alistamento de oficiais não-brancos, mulheres e indivíduos LGBTQIA+, em particular, após a instauração da política “Don’t Ask Don’t Tell”, durante o governo Clinton, em 1993, a qual permitia que homossexuais servissem, desde que não publicizassem sua orientação sexual. Nas décadas posteriores, outras mudanças relevantes merecem destaque como: nos anos 2000, a aceleração do processo de concessão de cidadania para imigrantes conscritos no pós-11 de Setembro pelo governo Bush Jr.; e, nos anos 2010, a revogação da Don’t Ask Don’t Tell, a permissão do ingresso de oficiais transgêneros nas forças armadas e a inclusão de mulheres em postos de combate, oficializados durante a era Obama.
Em certa medida, estas mudanças influenciaram o deslocamento dos padrões de masculinidade heteronormativa e branquitude que definiam tradicionalmente a construção do “contrato militar” nos EUA, conforme problematizado por Katharine Millar, na obra Support the Troops: Military Obligation, Gender, and the Making of Political Community (Oxford University Press, 2022). Na contrapartida, igualmente reforçaram a lógica da “cidadania militarizada” (Cowen, 2006), com um aprofundado recorte de classe, raça e, na conjuntura mais recente, também de gênero. De forma sintomática, as mulheres afro-americanas foram um dos grupos que mais cresceram em alistamento, nas últimas décadas (ver gráfico). Neste diapasão, corpos racializados e generificados são ativamente cooptados e engajados na reprodução do militarismo, ao mesmo tempo que se configuram como os principais alvos da violência perpetrada por seus efeitos no cotidiano (Basham, 2018).

Fonte: Council on Foreign Relations (2020)
Além dos padrões de alistamento, a neoliberalização do aparato militar estadunidense transformou a própria condução da guerra, intensificando, por exemplo, o papel da privatização e da terceirização das forças, por meio do aumento da contratação de empresas militares privadas pelo governo federal norte-americano. Este aspecto foi particularmente relevante durante as guerras do Afeganistão, em 2001, e do Iraque, em 2003, nas quais, de acordo com dados compilados pela obra The Sociology of Privatized Security (organização de Ori Swed e Thomas Crosbie, Palgrave Macmillan, 2019), a proporção de soldados contratados chegou a superar, em alguns momentos, os efetivos oficiais em campo. Embora não seja um fenômeno inédito da contemporaneidade, o recurso intensificado à privatização foi uma das decorrências da consolidação do modelo neoliberal e da transição para o alistamento voluntário. Como resultado, observou-se o aumento da simbiose entre o setor privado e o setor militar, e o aprofundamento da precarização do serviço militar, cada vez mais atravessado pela lógica empresarial de “prestação de serviços”.
A extrema direita e o governo Trump 2.0: cidadania restrita, mas militarizada
Diante do que foi exposto até aqui, a retomada do debate sobre o alistamento militar no governo Trump II não parece um fenômeno ocasional. Trata-se de um componente que se alinha profundamente ao projeto político da extrema direita global contemporânea, o que se reforça pelo fato de tais discussões não estarem circunscritas ao contexto local dos EUA, mas também se espraiarem para outros espaços de fortalecimento da direita radical, como o continente europeu. À primeira vista, é possível afirmar que a defesa reacionária do alistamento militar obrigatório e universal se conecta com os valores tradicionalmente associados ao serviço militar, como a promoção da disciplina, do primado da força e das hierarquias. Além disso, a dimensão do alistamento dificilmente se apresenta como um componente isolado, associando-se a outros projetos que ensejam expectativas de como “deve ser” o funcionamento da sociedade norte-americana e suas correspondentes visões de futuro, segundo as lentes do reacionarismo. De forma mais específica, pode-se mencionar as inúmeras performances públicas de valorização da força física e da masculinidade dominante presentes em pronunciamentos de figuras como o atual secretário da Guerra, Pete Hegseth, ou a proposta de expansão do programa JROTC nas escolas secundárias, apresentada como um dos eixos do famigerado “Project 2025”.
No entanto, não se trata de um movimento homogêneo, considerando que diversos grupos no campo da direita radical norte-americana também ganharam espaço entre integrantes (na ativa e aposentados) das forças armadas, ao arregimentarem os sentimentos de “ressentimento” e de “percepção de abandono” das tropas por parte do Estado norte-americano, no Vietnã, ou no Afeganistão e no Iraque, como mostram obras como a da socióloga Kathleen Belew, em Bring the War Home: The White Power Movement and Paramilitary America (Harvard University Press, 2018). Ainda assim, estes mesmos grupos incorporam elementos do militarismo e a própria lógica do “recrutamento” em sua forma de organização.
Considerando as inúmeras práticas de exclusão adotadas pelo governo Trump, como a restrição à imigração e a eliminação de políticas de diversidade, dentro e fora da instituição militar, a potencial restauração do alistamento obrigatório parece cumprir um papel ainda mais estruturante à consecução dos objetivos do projeto político autoritário: o reforço às hierarquias sociais e a reafirmação da cidadania restrita, mas militarizada, que limita os espaços de exercício de direitos e de representatividade, mas mantém os corpos universalmente disciplinados, na linha de frente.
Vale o reforço de que o projeto atual prevê o registro automático, mas não restaura – pelo menos não ainda – o alistamento compulsório. De toda forma, também não deve passar despercebido o fato de que sua consecução não foi uma proposta restrita aos espaços da extrema direita, alcançando apoio bipartidário no Congresso e entre representações das próprias forças armadas. Isto não significa que a medida não tenha sido alvo de críticas que, por sua vez, foram tímidas, mas presentes, especialmente entre os setores mais progressistas. Ademais, pesquisas de opinião pública das décadas pós-Vietnã revelam uma adesão relativamente baixa à possibilidade de restauração da conscrição obrigatória, no público geral, com exceção das famílias de veteranos das forças armadas, nas quais o apoio tende se ampliar, reforçando o “efeito socializante” do recrutamento (Fordham, 2016).
Destarte, a renovação atual do debate sobre o alistamento é tanto um exemplo ilustrativo do militarismo enquanto força hegemônica no campo social quanto – e talvez principalmente – dos desafios envolvidos na construção de alternativas críticas para seu enfrentamento e desmobilização. ![]()
* Clarissa Nascimento Forner é professora do Departamento de Relações Internacionais e do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Também é pesquisadora do INCT/INEU, do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (GEDES) e do Laboratório de Estudos de Defesa e Segurança (LabSEG) da UERJ. Contato: clarissa.forner@uerj.br.
** Revisão e edição: Tatiana Teixeira. Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU.
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