Brasil

Chutando a escada: o futuro que repete o passado, parte III  

Anúncio da Cobra na década de 1980 (Fonte: Research Gate)

Por Marcus Tavares* [Informe OPEU] [Brasil] [Brasil-EUA]

Série “Futuro em xeque — Entre a Coerção e a Barganha”

Antes mesmo de o dia se resolver a nascer, o velho já está de pé, porque a velhice tem dessas, rouba o sono e devolve a madrugada. Acende o fogo no tato, sem olhar. Põe o café. E, enquanto a água não ferve, fica ali, parado no meio da cozinha pequena, ouvindo o bule começar baixinho o seu assobio. Aquele cheiro de pó requentado subindo morno pelo frio, o mesmo pó da mesma marca que sua finada comprava, porque trocar seria como apagar mais um pedaço dela, e ele já apagou pedaços demais. O café é ralo. Ele gosta assim, ralo e quente, em goles pequenos que aquecem as mãos antes de aquecer o peito. 

Pela vidraça sem cortina entra o cinza de junho. O velho senta na beira da cama com o pires no joelho e pega o telefone, não porque espere notícia de alguém, faz tempo que não espera, mas pelo costume de quem ainda quer ver se o mundo continua lá fora acontecendo sem ele. O polegar desliza devagar sobre o vidro frio. A telinha vai jogando a vida em retalhos, o neto que cresce em fotos numa cidade que ele não conhece, um anúncio de tênis colorido demais, e de repente uma frase que faz o dedo parar no ar como pássaro que sente o tiro antes do estampido. A China, diz a manchete, deu mais um passo na tal computação quântica, a máquina que um dia há de abrir todos os cofres e ler todos os segredos que o mundo julgou trancados. 

Ele lê duas vezes, mexendo os lábios sem som, como se desconfiasse das próprias vistas. Não é homem de tecnologia – não mais. Faz tempo que não é homem de quase nada, só de café fraco e do banco de praça onde os pombos já o conhecem. Mas houve um tempo em que aquelas palavras difíceis foram dele, em que ele as segurou com as mesmas mãos que hoje tremem um pouco ao levantar a xícara. Um passado que ainda habita um canto na memória. Cobra – o nome irrompe nas lembranças de sua época de montador, dos seus trinta e poucos anos, e um crachá plastificado que batia no peito a cada passo. 

Não vai subir ninguém: o inimigo agora é invisível, parte II

A Computadores e Sistemas Brasileiros, fundada em 1974, nascida do desconforto dos militares da Marinha que não queriam depender de computador estrangeiro para controlar as suas fragatas, e do engenho dos rapazes da universidade que tinham montado, dois anos antes, o primeiro computador de verdade feito no país, a que deram o apelido de Patinho Feio. A fábrica grande lá em Jacarepaguá que todo mundo chamava de Cobrão, com um carinho meio de torcida de futebol.  

Ele fecha os olhos, e ela volta inteira, pelos sentidos antes da cabeça. Volta o cheiro, sobretudo o cheiro, aquele da solda derretendo, a resina queimada que impregnava o macacão e que nenhum sabão tirava, e que a mulher xingava no tanque aos domingos torcendo o pano com força. E voltam as mãos, as dele, jovens e firmes, montando peça por peça o Cobra 530, o primeiro computador inteiramente projetado e fabricado no Brasil, com nome brasileiro e alma brasileira, a máquina que ele acreditava de verdade, com uma fé meio tola e meio comovente, que ia deixar o país de pé sozinho.  

Porque havia uma lei de 1984 que segurava as máquinas de fora para que as de dentro pudessem nascer, a chamada reserva de mercado, e enquanto ela durou foi assim, o Brasil teimando em aprender a fazer o que só os países ricos sabiam. Tecnologia não tinha dono, ele pensava. Era uma ferramenta limpa, sem pátria. Bastava aprender a fazer, e nunca mais a gente precisaria depender de ninguém. 

Ele não sabia, curvado sobre as placas, que em 1986 o Brasil havia chegado ao sexto lugar do mundo inteiro em informática, nem que a indústria que o empregava, ao fim daquela década, faturava perto de US$ 4 bi por ano e dava trabalho a mais de 70 mil pessoas, mas pressentia, pelo vaivém das encomendas e pelo peito estufado do gerente nas reuniões, que ali medrava alguma coisa grande. A China, essa mesma que hoje anuncia a máquina do amanhã, era naquele tempo um país de roça, oito em cada dez debruçados sobre a terra com a enxada de sempre, arando como se arava fazia séculos, ainda longe de sonhar com os computadores que hoje fabrica para o mundo. O atraso, naquela década, morava longe de Jacarepaguá. Disto o velho tem certeza, e a certeza é quase a única brasa que ainda esquenta esta lembrança, porque o resto dela esfriou, esfriou feito o café que agora dorme frio no fundo do pires sem que ele tenha percebido. 

O que veio depois ele foi aprendendo devagar. Não foi uma tropa que fechou a fábrica. Não houve tiro ou fumaça alguma além da do seu próprio ferro de solda. Foi uma coisa sem cara, que chegava de muito longe e mesmo assim mandava aqui dentro. Foi a notícia, em 1985, de que os Estados Unidos tinham aberto uma investigação contra a lei brasileira; foi a ameaça do presidente Reagan, dois anos depois, de retaliar mais de US$ 100 milhões em produtos do Brasil, dos aviões aos calçados, se o país não abrisse o mercado; foi um contrato de um programa americano de computador que o Brasil teve a ousadia de recusar e que, de repente, virou caso de Estado. E foi também, e isto ele levou anos para conseguir engolir, o bater de palmas de tanta gente da própria terra, o jornal a pregar abertura todo santo dia, o dono do banco que queria a máquina importada, o homem de gravata na televisão repetindo as palavras atraso e preço alto, até que a fábrica que lhe dava o pão e enchia o seu peito de orgulho foi virando, na boca dos próprios brasileiros, um erro que era urgente corrigir.  

O enxadrista e as marionetes, parte I 

Em 1991, veio a lei nova que enterrou a reserva de mercado, e com ela o Cobrão foi minguando, bancada por bancada, como um corpo que se esvazia, até o que sobrou ser absorvido por um banco do governo. E, numa tarde qualquer, sem discurso nem despedida, ele saiu pelo portão pela última vez sem entender por que cargas-d’água o país parecia ter desistido de si mesmo, e ainda por cima com aquela alegria de quem se livra de um peso. 

O café acabou. O frio ficou. E a telinha morna no côncavo da mão devolveu ao velho, 40 anos depois, a pergunta que ele nunca soube formular direito, mas que sempre carregou atravessada como espinha de peixe na garganta. Se não foi um exército que derrubou aquele sonho, então o que foi? Que força é essa que não sobe a ladeira, não arromba portão, não põe a bota no chão da fábrica, e ainda assim alcança um país inteiro e o convence, com jeito, a entregar o próprio futuro? A resposta o outrora montador pressente sem conseguir dar-lhe nome, ali no último calor que escapa da xícara vazia entre os dedos. Ela está nos dois lugares onde aquela gente sempre reinou sem precisar mandar soldado: o dinheiro e o código. E é por esses dois territórios invisíveis que a história vivida por ele nos anos oitenta torna, devagarinho, a se sobrepor ao Brasil de hoje. 

Quando se fala em vigilância americana sobre o Brasil, a memória deveria correr, em um primeiro momento, para o Ato Patriota e para os excessos do pós-11 de Setembro. A peça daquela lei que autorizava a coleta de metadados em massa expirou em 2020 e nunca foi recriada, de todo modo mirava o cidadão americano. Porém, o que alcança o brasileiro é outra coisa, mais discreta e mais duradoura. 

Duas autorizações sustentam o alcance externo de um sofisticado aparato. A primeira é a Seção 702, da Lei de Vigilância Estrangeira, reautorizada em abril de 2024 e em disputa voraz no Congresso americano à data desta publicação. Ela permite adquirir as comunicações de praticamente qualquer estrangeiro fora dos Estados Unidos sem ordem judicial individualizada. A segunda, e mais grave para quem está fora, é o Decreto Executivo 12333, a autorização que permite a maior parte da coleta de sinais no exterior e que não se submete a controle judicial algum nem proíbe a coleta em massa. Estima-se que um único programa amparado nesse decreto recolha mais de 1,8 bilhão de e-mails por mês. Para o brasileiro, que é estrangeiro aos olhos da lei americana, não há juiz a recorrer, não há mandado a exigir, não há limite que a sua condição de cidadão de outro país lhe garanta. Há o decreto, e a varredura que ocorre nas sombras. 

Uma moldura jurídica, contudo, não paira no ar. Ela precisa de um chão, sobre o qual se apoiar, e o aparato americano se apoia em dois territórios que não aparecem em mapa algum e que, por isso mesmo, são os mais difíceis de se defender. Um é o território financeiro, o do dólar e dos circuitos por onde corre o dinheiro do mundo. O outro é o território cibernético, o das redes, dos cabos, dos servidores e dos padrões técnicos que governam a troca de dados. Nesses dois domínios sem fronteira física, os Estados Unidos exercem um grau de controle que jamais conseguiriam sobre o solo de um país soberano, e é desse controle, e não da ameaça de invasão, que decorre o poder real sobre o Brasil. O montador intuiu os dois ao dizer o dinheiro e o código. Falta entender como um conduziu ao outro. 

O território financeiro é o mais antigo dos dois, e foi o alicerce do segundo. Desde que o dólar se tornou a moeda de referência do comércio e das reservas mundiais, os Estados Unidos descobriram que controlar o meio, pelo qual o valor circula, vale mais do que controlar este ou aquele mercado. Quem detém o sistema de compensação em dólar detém uma fronteira móvel, que acompanha cada transação mundo afora e se fecha quando convém. A sanção financeira, o congelamento de ativos, a exclusão de um banco ou de um país do circuito do dólar tornaram-se armas mais eficazes do que muitas tropas, porque ferem sem disparar e porque alcançam onde nenhum soldado pisaria. 

Foi a lógica desse poder financeiro que conduziu a formulação do poder cibernético. Quando a informação passou a ser o insumo decisivo, o mesmo princípio que regia o dólar transpôs-se para o dado. Controlar as redes por onde a informação corre, os padrões técnicos que definem como os sistemas conversam, os sistemas operacionais e os protocolos que organizam a troca, passou a render o tipo de poder que antes só o controle da moeda rendia. Os Estados Unidos, que já governavam o circuito do dinheiro, trataram de governar também o circuito dos dados, e ergueram sobre os dois aquilo que se pode chamar de império virtual, uma soberania que não precisa de território porque se exerce sobre os fluxos que atravessam todos os países. 

A imposição de padrões técnicos é uma das faces desse império. Quem define o padrão define quem entra e quem fica de fora, e a história do montador da Cobra é precisamente a de um país que tentou criar algo próprio e foi esmagado por isso. O caso da Huawei, décadas depois, repetiu a intenção em escala maior. Quando a empresa chinesa passou liderar o padrão de quinta geração da telefonia móvel (5G), os Estados Unidos recorreram à chamada regra de produto direto, que estende a jurisdição americana a qualquer mercadoria fabricada em qualquer lugar do mundo, desde que contenha tecnologia de origem americana. Bastou isso para estrangular o acesso da Huawei aos componentes de que dependia. O recado, para o resto do mundo, foi o de que nenhum concorrente prosperaria fora dos padrões que Washington impõe e controla, e que a fronteira do império virtual se fecha sobre quem ousa propor a sua própria. 

O Xerife sai à ronda: “Caçar. Encontrar. Acabar.” 

Dessa arquitetura decorre uma consequência que precisa ser fortemente considerada. A obrigação de servir ao aparato de vigilância americano não recai apenas sobre empresas americanas, mas sobre toda corporação transnacional presa, por algum fio que tangencie o território ou o sistema financeiro dos Estados Unidos. E os fios são poucos e resistentes. O primeiro é o uso do dólar, cuja compensação passa fisicamente por bancos em Nova York e arrasta para a jurisdição americana qualquer transação que o utilize, ainda que entre duas empresas de fora. O segundo é a presença mínima em solo americano, um escritório, um servidor ou uma ação em bolsa. O terceiro é o emprego de qualquer tecnologia de origem americana, a mesma regra de produto direto que restringiu a Huawei de comprar equipamentos que demandava. 

Quem toca um desses fios e se recusa a colaborar com o rastreamento de fluxos ligados a um alvo designado expõe-se a duas penas que poucas empresas suportam. Pode ser acusada de prestar apoio material ao inimigo / terrorista, figuras que a lei americana define de modo difuso o bastante para gerar uma enorme rede de captação sobre as comunicações e os ativos financeiros. Além disso, pode ser cortada do circuito do dólar pela via das sanções secundárias, o que, para a maioria das transnacionais, equivale a uma sentença de morte comercial. A reautorização de 2024 ampliou, ainda, a definição de provedor obrigado a cooperar, alargando o universo de empresas conscritas. Negar o auxílio informacional deixa, assim, de ser uma escolha à disposição da empresa e passa a significar a sua própria ruína, em caso de negativa. A malha que recolhe os dados dos brasileiros não é, portanto, americana por nacionalidade. É americana por jurisdição, e a jurisdição alcança quem quer que dependa do dólar ou do código. 

Há ainda um plano, em que o aparato não apenas recolhe, mas devolve, e é o que toca mais de perto a vida de quem desce às ruas pelo Brasil em uma manhã de junho. Os algoritmos das plataformas não se limitam a registrar o que o usuário faz. Colhem o material com que se modula aquilo que ele sente e aquilo que toma por raciocínio próprio. A fronteira que essa operação traça corre pela probabilidade, hierarquizando sujeitos por cálculo de risco e de afinidade, e produzindo grupos espalhados por territórios distintos mas homogeneizados por dentro. Cada bolha recebe a versão de mundo que maximiza o seu tempo de tela. Como a atenção cresce com a emoção forte, e a mais barata das emoções fortes é o medo, a versão entregue tende ao alarme e ao ressentimento. 

O paradoxo eleitoral brasileiro de 2026 oferece a esse mecanismo um exemplo que se mede. Os indicadores objetivos melhoraram, com a inflação dentro da meta, o desemprego no menor patamar em mais de uma década e a renda em recorde e, ainda assim, a percepção que se dissemina é a de que a vida piorou desde o início do governo. A distância entre os números e o sentimento não tem causa única, e convém separar dois fios que se enrolam. Um é a distorção da própria experiência, amplificada pela modulação que seleciona e repete o que dói. O outro é mais fundo, uma espécie de cegueira induzida quanto à origem do mal-estar. O brasileiro sente, com razão, que algo aperta, mas é levado a creditar ao governo nacional uma angústia, cuja raiz está numa era de estagnação com inflação que atravessa o mundo inteiro sob o regime da financeirização global. O algoritmo nacionaliza um sofrimento que é planetário, e faz o eleitor cobrar de Brasília o que pertence à forma do capitalismo financeiro do tempo presente, que nenhum governo de um só país dissolve sozinho. 

Esse deslocamento da percepção, do estrutural para o conjuntural e do mundial para o doméstico, já se mostrou capaz de mover eleições. O episódio da Cambridge Analytica, em 2016, expôs o microdirecionamento de conteúdo emocional sob medida operando sobre o voto, e o que então pareceu escândalo isolado se tornou a função ordinária das plataformas. É sobre esse plano já existente que a designação das facções como terroristas incide com efeito multiplicador, porque a palavra terrorismo é, na economia da atenção, combustível de altíssima octanagem. O medo que o algoritmo já fabricava recebe, com a designação, o selo de uma chancela estatal estrangeira, e quem opera essa modulação, convém lembrar, não é só a corporação americana, mas toda a malha de plataformas presa aos mesmos fios de jurisdição descritos antes. 

Resta perguntar a quem beneficia esse arranjo, porque nenhuma engenharia tão custosa se sustenta sem retorno. O ganho de fundo está em conservar o Brasil como mercado cativo das corporações digitais e da malha financeira que orbita o dólar, e em conduzi-lo a uma exploração oligopólica do próprio território. O arranjo se monta nas camadas que a primeira coluna desta série já anunciava. Os data centers ocupam o chão barato e a energia farta. As minas entregam o minério. E o refino das terras raras, com o processamento que de fato agrega valor, é puxado para fora, deixando ao país o degrau de baixo da cadeia, o de fornecedor de matéria e consumidor de serviço, barrado da etapa em que o minério vira ímã, o dado vira modelo e a energia vira capacidade de cálculo. É a mesma divisão de trabalho que esvaziou o galpão de Jacarepaguá, agora estendida do hardware ao dado. 

O caso, no início de 2026, envolvendo a Anthropic, demonstra a capacidade coercitiva do aparato. Ao se recusar a afrouxar as restrições que impunha ao uso de sua tecnologia para vigilância em massa e para armamento autônomo, uma das maiores empresas de Inteligência Artificial viu o governo americano ordenar que as agências federais cessassem o uso daquela tecnologia, e o Pentágono classificou a companhia como risco de cadeia de suprimentos, rescindindo o contrato. Quando um fornecedor tentou impor uma cláusula de consciência ao uso de vigilância, foi substituído. O recado ao setor dispensa tradução. 

O circuito, então, se fecha sobre si mesmo, e nessa circularidade reside a sua eficácia. O algoritmo fabrica o medo e a percepção distorcida. A designação reveste esse medo com a autoridade do contraterrorismo. A moldura jurídica conscreve a infraestrutura que executa a vigilância. E a vigilância roda sobre a mesma malha que fabricou o medo no início, vendendo em seguida a solução para o problema que ela própria maximizou, com o lucro das duas pontas retornando ao mesmo polo. Não é preciso supor um comitê único, orquestrando cada movimento, e supô-lo seria empobrecer a análise. Trata-se de mecanismos distintos, cujos interesses se reforçam, e que convergem porque partilham a mesma racionalidade de fundo. É essa racionalidade, enfim, que cumpre nomear. 

A pergunta que o montador nunca soube formular tem resposta, e a resposta está na tradição que organiza a sociedade liberal desde Locke pelo menos: aquela que faz da propriedade não um direito entre outros, mas o fundamento de todos, a condição de que dependeriam a liberdade e a própria ordem social. Dessa raiz brota um princípio que parece evidência natural a quem foi por ele formado, o de que o livre fluxo do capital e da mercadoria constitui um bem superior, diante do qual a pretensão de um país a fabricar o que consome soa como teimosia provinciana, quando não como afronta a ser corrigida. 

Para além da Meta: liberdade para coletar e agir 

Foi esse princípio que derrotou o projeto nacional de informática. A reserva de mercado brasileira apenas reservava ao capital nacional uma faixa do próprio mercado pelo tempo necessário a aprender a produzir. Ainda assim foi tratada, em Washington e na imprensa de casa, como violação de uma lei mais alta que qualquer estatuto, a lei do comércio livre, e contra o transgressor dessa lei mobilizou-se a investigação, a ameaça tarifária, a lista de produtos sob retaliação. O delito da Cobra não foi causar dano, foi recusar a disciplina do fluxo e, na gramática liberal, recusar a disciplina do fluxo é, em si, uma espécie de delito, mais grave quanto mais bem-sucedida a recusa ameaça se tornar. 

A perversidade do dispositivo, contudo, não está apenas na coerção externa, e sim no modo como a racionalidade que a justifica é interiorizada por quem ela subjuga. Os brasileiros não defenderam o seu computador. Em nome da modernização, do consumidor, do preço baixo e principalmente do lucro imediatista, boa parte das elites e da opinião pública aplaudiu o desmonte da indústria que empregava o povo e visava a fomentar o ambiente industrial. A população se viu persuadida de que a soberania tecnológica era um capricho caro e atrasado diante da abundância prometida pela abertura.  

A racionalidade liberal venceu não porque ocupou o território, mas porque colonizou o juízo – e ainda o faz. O que se vê é o derrotado celebrando o próprio fracasso, como se fosse alforria. E é exatamente essa operação que volta a se armar sobre os dois territórios de onde partimos, o dólar e o código, porque ambos só governam o mundo enquanto se aceitar, como verdade absoluta, que o direito de propriedade e a liberdade de mercado pesam mais do que o direito de um povo a decidir o que produz, o que preserva e o que entrega. A força que matou a Cobra não foi embora, apenas mudou de objeto. Hoje ela reivindica sobre os dados dos brasileiros a mesma jurisdição que recai sobre o mercado econômico do Brasil. 

O montador da Cobra terminou a vida sem entender a força que o derrotou em seu sonho de futuro. Parte da tragédia de sua geração foi não ter tido as palavras para nomeá-la. A geração que vota em outubro tem, ao menos, horizonte aberto para nomeá-la a tempo. Mas ainda restam grandes questões. Afinal, se a jurisdição americana se exerce, em última instância, pelo controle do dinheiro e do código, o que acontece quando um país do Sul cria um meio de pagar que escapa ao seu poder, e quanto vale, para quem detém o aparato, reaver a peça que lhe fugiu das mãos?

* * * 

Marcus Tavares é pesquisador voluntário do OPEU/INCT-INEU na área de economia, doutorando e mestre em Economia Política Internacional no Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PEPI/UFRJ) e bacharel em Relações Internacionais pelo Instituto de Relações Internacionais e Defesa (IRID/UFRJ). 

** Revisão e edição: Tatiana TeixeiraEste conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU. 

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