América Latina

Equador sob intervenção: lawfare, militarização e projeção regional dos EUA

 (Arquivo) Presidente Gustavo Petro, em sua cerimônia de posse, em Bogotá, em 2022 (Crédito: USAID/Flickr)

Por Tamara Lajtman* [Informe OPEU] [Equador] [Colômbia] [América Latina e Trump 2.0] [Lawfare] [Segurança pública] [Narcoterrorismo]

Sob o discurso de “guerra contra as drogas” e combate a corrupção, a intervenção dos Estados Unidos no Equador — particularmente sobre o sistema judicial e as forças de segurança — transformou o país em uma espécie de “base ampliada” de Washington na América do Sul, estratégica para sua projeção geopolítica e militar na região. Os recentes ataques a embarcações pesqueiras equatorianas no Pacífico, somados às denúncias de torturas cometidas por forças norte-americanas, revelam as consequências mais brutais desse alinhamento. 

Essa dinâmica adquire especial relevância no contexto eleitoral colombiano. Após um primeiro turno extremamente polarizado, realizado em 31 de maio, o candidato da direita Abelardo de la Espriella (43,7%) e o progressista Iván Cepeda (40,9%) disputarão a Presidência no segundo turno marcado para 21 de junho. Em meio a esse cenário, multiplicam-se os sinais de ingerência estrangeira e desestabilização regional, tendo o Equador como um ator cada vez mais central. 

Lawfare e “terra arrasada” no Equador 

No Equador consolida-se um cenário de “terra arrasada”, caracterizado pela erosão institucional, deterioração econômica, ruptura do tecido social e avanço do narcotráfico. Nesse contexto, o país experimenta um aprofundamento sem precedentes da militarização da segurança interna sob o argumento do combate ao “narcoterrorismo”, em consonância com o roteiro da política de segurança estadunidense. 

A falácia do narcoterrorismo: hegemonia e imperialismo na América Latina 

A violência no Equador cresceu em ritmo vertiginoso: o país registrou mais de 9 mil homicídios intencionais em 2025, alcançando uma taxa aproximada de 50,91 mortes por 100 mil habitantes, uma das mais altas da América Latina, em um país que, até 2017, era considerado um dos mais seguros do continente. Desde janeiro de 2024, Daniel Noboa mantém o país em Estado de exceção permanente (21 estados de exceção, 9 toques de recolher, 272 noites com restrição de movimento). Atualmente, mais de 75.000 soldados se encontram mobilizados em todo o território nacional. No entanto, a experiência recente na América Latina demonstra que esse tipo de resposta não reduz a violência, mas tende a intensificá-la, favorecendo a fragmentação de atores armados e o fortalecimento de estruturas paramilitares. 

Tudo isso ocorre em um cenário, no qual diversas investigações documentaram vínculos entre circuitos do narcotráfico e empresas do setor bananeiro associadas à família Noboa. 

Paralelamente, o lawfare e a destruição da democracia seguem avançando. Desde 2017, com a chegada de Lenín Moreno ao poder, o uso do aparato judicial como instrumento de perseguição política se consolidou no Equador, corroendo gravemente o Estado de direito e buscando desarticular o correísmo como sujeito político. As instituições judiciais e administrativas foram progressivamente reconfiguradas a serviço dessa dinâmica, orientada especialmente contra dirigentes da Revolução Cidadã. Como vem documentando o Observatorio Lawfare em diversas pesquisas, a incidência de agências estadunidenses em setores estratégicos do sistema judicial — particularmente na Fiscalía — desempenhou um papel central na fabricação de causas judiciais e na consolidação da perseguição política no país. 

Mais de 300 funcionários e funcionárias vinculados ao correísmo foram investigados por supostos casos de corrupção; Rafael Correa enfrentou múltiplos processos judiciais que resultaram em sua proscrição política; o ex-vice-presidente Jorge Glas foi encarcerado em processos amplamente questionados por irregularidades processuais e ausência de provas conclusivas e, posteriormente, sequestrado após a invasão da Embaixada do México em Quito, em 2024, encontrando-se atualmente em risco iminente de vida. Soma-se a isso a detenção do prefeito de Guayaquil, Aquiles Álvarez — um dos principais opositores de Noboa — em fevereiro de 2026, bem como a suspensão do partido Revolução Cidadã pelo Tribunal Contencioso Eleitoral (TCE), por meio de sentença de março de 2026. 

Em 9 de março de 2026, relatores das Nações Unidas advertiram sobre o desmoronamento do Estado de direito no Equador e o avanço de um projeto de caráter autoritário. Um dos pontos centrais apontados foi o uso indevido do conceito de “terrorismo”, utilizado pelo governo para classificar automaticamente condutas vinculadas ao crime organizado sem respeitar os padrões internacionais. 

Equador como plataforma militar dos EUA: com ou sem bases 

A presença militar estadunidense no Equador se intensificou significativamente, inclusive depois de um referendo realizado em novembro de 2025 ter reafirmado a proibição constitucional da instalação de bases estrangeiras, estabelecida após o fechamento da base de Manta em 2008. 

No marco da Operação Lança do Sul, impulsionada pela administração Trump desde setembro de 2025, em 3 de março de 2026 o Comando Sul anunciou que forças militares estadunidenses estavam auxiliando o Equador em “operações contra Organizações Terroristas Designadas”. Autoridades equatorianas confirmaram a presença de tropas estadunidenses em uma base da Força Aérea em Manta. 

Poucos dias depois, em 6 de março, uma operação do Exército equatoriano com apoio do Comando Sul destruiu um acampamento em Sucumbíos, na fronteira com a Colômbia. Segundo informações oficiais, tratava-se de uma base dos “Comandos da Fronteira”, dissidência das FARC. O comandante do Comando Sul, Francis L. Donovan, classificou a operação como um êxito no marco do combate ao narcoterrorismo. Entretanto, segundo reportagem do The New York Times, moradores da região afirmam que o local atacado era, na realidade, uma fazenda leiteira. 

Em 17 de março de 2026, o presidente colombiano, Gustavo Petro, denunciou a descoberta de uma bomba em território colombiano, a 200 metros da fronteira com o Equador, em uma zona de selva no departamento de Putumayo. Petro solicitou a abertura de investigação para determinar se houve intencionalidade, uma vez que o artefato pertenceria ao Exército equatoriano, aprofundando as tensões bilaterais em um contexto de crescente disputa comercial e tarifária entre os dois países. 

Em uma pesquisa acadêmica recente, demonstramos como o estreitamento dos vínculos com o aparato de segurança estadunidense converteu o Equador em uma base de operações de Washington na região. Essa dinâmica se materializa no aumento exponencial da assistência em segurança ao Equador sob a administração Biden — de 800 mil dólares, em 2017, para um pico de 172 milhões, em 2022 —; em acordos como o Estatuto das Forças (SOFA), que concede imunidades ao pessoal militar estadunidense e autoriza sua atuação em território equatoriano; bem como no Acordo Relativo a Operações contra Atividades Marítimas Transnacionais (SHIPRIDER). Ambos os acordos foram assinados durante o governo de Guillermo Lasso e ratificados por Daniel Noboa em fevereiro de 2025. 

Somam-se a isso novos acordos com agências como DEA, INL e FBI, destacando-se especialmente o assinado com o FBI em março de 2026, que autoriza a presença permanente de agentes da agência em território equatoriano. Também se observa a incorporação de atores privados vinculados ao complexo militar estadunidense, incluindo empresas associadas a Erik Prince e à Blackwater. 

Nesse contexto, as Ilhas Galápagos adquirem um papel central. Por sua localização geoestratégica, o Equador se torna prioritário para a estratégia estadunidense no marco de sua disputa global com a China. Em entrevista à CNN, o presidente Daniel Noboa reconheceu o interesse em instalar uma base em Baltra, ilha situada no centro do arquipélago, embora posteriormente ela tenha sido oficialmente redefinida como uma instalação “não militar”, destinada ao combate à pesca ilegal e ao narcotráfico. Também foi mencionada a possibilidade de instalações vinculadas ao Homeland Security em Salinas ou Manta. Para além dessas variações retóricas, o fato concreto é que atualmente existem condições formais para o ingresso e o deslocamento de pessoal militar estadunidense no Equador e, em particular, nas Galápagos. 

As evidências são recentes e explícitas. Em dezembro de 2024, o governo equatoriano aprovou a resolução do “Projeto Integral de Segurança na Região Insular” e sua normativa de implementação, ativando os acordos de cooperação militar com os Estados Unidos — SOFA e SHIPRIDER — para permitir a instalação de pessoal militar, embarcações, aeronaves, submarinos e armamento estadunidense no arquipélago para operações contra “atividades marítimas transnacionais ilícitas”. Por sua vez, militares estadunidenses expressaram diretamente, em publicação recente, seu interesse em estabelecer uma base nas Galápagos para dissuadir China e Rússia. 

Os interesses dos Estados Unidos sobre as Galápagos não são novos. Em 1911, Washington tentou arrendar o arquipélago por 99 anos. Em 1942, construiu a base aérea de Baltra para proteger o Canal de Panamá e mobilizou 2.474 tropas durante a Segunda Guerra Mundial.  

Na atual disputa hegemônica, as Galápagos cumprem uma dupla função estratégica para Washington: ofensiva e defensiva. A partir dali, é possível projetar cobertura militar sobre a Mesoamérica e o novo Corredor Transístmico do México, o Canal do Panamá e o Porto de Chancay, no Peru, peça-chave da Iniciativa Cinturão e Rota da China. Ao mesmo tempo, o arquipélago opera como uma extensão complementar — embora não oficial — da arquitetura de segurança estadunidense no Indo-Pacífico voltada para dissuadir a China. 

Os recentes ataques a embarcações pesqueiras equatorianas em águas do Pacífico revelam a perigosa escalada dessa intervenção militar direta. Entre janeiro e abril de 2026, múltiplos barcos de pesca artesanal foram atacados por drones e forças especiais estadunidenses. Os sobreviventes das embarcações “La Negra Francisca Duarte II” (16 tripulantes) e “Don Maca” (20 tripulantes) denunciaram terem sido bombardeados, torturados, vendados e transferidos à força para El Salvador, além de privados de assistência médica, apesar de se encontrarem em águas equatorianas e sem que substâncias ilícitas fossem encontradas a bordo. O caso da “La Fiorella”, desaparecida em janeiro com oito tripulantes, ainda não foi investigado. Em meio às crescentes denúncias, um grupo de cerca de 20 legisladores democratas dos Estados Unidos enviou uma carta ao Pentágono, exigindo a suspensão imediata das operações militares conjuntas com o Equador até a conclusão das investigações sobre possíveis violações de direitos humano. 

Esses fatos constituem graves violações do direito internacional e, juridicamente, representam uma violação direta da soberania equatoriana. Politicamente, revelam um Equador convertido em “protetorado” que não apenas tolera, mas facilita ações ilegais dos Estados Unidos em troca de apoio político e de uma suposta segurança que nunca chega, enquanto o narcotráfico e a violência seguem se agravando.  

A própria doutrina militar norte-americana concebe o Equador como uma plataforma de projeção regional. A Military Review indica que uma eventual base ou presença militar no país permitiria fortalecer as capacidades de vigilância, Inteligência e monitoramento sobre dinâmicas que afetam toda a região –desde o tráfico de drogas até a competição geopolítica com potências como a China e a Rússia.  

Nesse esquema, embora os acontecimentos recentes na Venezuela demonstrem que ações militares diretas dos Estados Unidos não estão descartadas, o Equador não é visto apenas como um destinatário de assistência em segurança, mas como um ponto de apoio geopolítico, logístico e de Inteligência para operações de alcance regional. Trata-se de uma dinâmica, na qual o país não apenas internaliza as prioridades estratégicas de Washington, mas também começa a projetá-las sobre o entorno regional — função que foi desempenhada historicamente pela Colômbia a partir do Plano Colômbia, mas que perdeu centralidade no contexto do Plano Paz Colômbia e, posteriormente, durante o governo Petro. 

Impacto no ciclo eleitoral colombiano e urgência de vigilância internacional 

No atual contexto eleitoral na Colômbia, a possibilidade de que ações militares equatorianas atinjam território colombiano eleva o risco de violações do direito internacional e de escalada das tensões regionais. Em março de 2026, o governo colombiano apresentou evidências de que uma bomba lançada por forças equatorianas caiu em território colombiano, no departamento de Putumayo, provocando fortes tensões diplomáticas entre os dois países. Embora posteriormente uma investigação tenha concluído que o artefato caiu de forma acidental, o episódio reavivou os temores sobre os riscos de transbordamento regional da militarização da fronteira. Os antecedentes não são menores: o bombardeio de Sucumbíos, em 2008, demonstrou como intervenções transfronteiriças podem desestabilizar a região. No entanto, no cenário atual, esses processos adquirem uma dimensão ainda mais crítica, devido ao enfraquecimento ou desaparecimento de instâncias regionais de articulação política, como a UNASUL. 

Nas semanas que antecederam o primeiro turno das eleições colombianas, realizado em 31 de maio, multiplicaram-se as denúncias de interferência externa no processo eleitoral. Entre elas, destacaram-se operações político-midiáticas que buscaram associar o presidente Gustavo Petro ao “narcoterrorismo”, reativando uma narrativa historicamente utilizada para criminalizar lideranças progressistas na região. Em março de 2026, dois procuradores federais de Nova York abriram investigações contra Petro por supostos vínculos com narcotraficantes, em meio a uma forte campanha de desgaste político e midiático. Paralelamente, o senador Iván Cepeda denunciou a existência de operações de desinformação, espionagem e perseguição política dirigidas contra setores progressistas e contra sua própria candidatura. No próprio dia do primeiro turno, surgiram denúncias sobre a ingerência do senador estadunidense Bernie Moreno, que se encontrava na Colômbia como observador eleitoral, apontando possíveis ações ilegais de intervenção política em favor de candidaturas conservadoras. 

Por sua vez, o presidente equatoriano, Daniel Noboa, intensificou declarações e medidas de pressão econômica contra a Colômbia em plena campanha presidencial, instrumentalizando a disputa tarifária e o discurso securitário em apoio explícito ao candidato da direita colombiana Abelardo de la Espriella. A isso soma-se uma política externa equatoriana completamente alinhada a Washington, que inclui o apoio a iniciativas de intervenção sobre a Venezuela, acusações sem fundamento acerca da presença de atores como Irã ou Hezbollah na região e a ruptura de relações com países como Cuba e México; neste último caso, após a invasão da embaixada mexicana em Quito em 2024 e o sequestro de Jorge Glas. 

Nesse contexto, a terceirização da desestabilização deixa de ser uma hipótese para se converter em uma dinâmica regional observável. O Equador não apenas reorganiza sua política interna sob lógicas de militarização, estrangeirização e perseguição judicial, como também começa a projetar essas dinâmicas para o plano regional, com impactos diretos sobre processos político-eleitorais estratégicos como o colombiano. Configura-se, assim, como ponta de lança de uma nova estratégia estadunidense de tutela militar hemisférica, tal como evidenciado pela Iniciativa Escudo das Américas.

 

Tamara Lajtman é pesquisadora associada do INCT-INEU, pesquisadora do Instituto de Estudos sobre América Latina e o Caribe da Universidade de Buenos Aires (IEALC/UBA), cocoordenadora do GT de Geopolítica, Integração Regional e Sistema Mundial da CLACSO e membro do Observatorio Lawfare. Contato: tamara.lajtman@gmail.com.

 ** Revisão e edição: Tatiana Teixeira. Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU. 

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