NSS de Trump 2.0: do enterro da ordem liberal ao domínio hemisférico
Recorte da capa da Estratégia de Segurança Nacional (NSS) 2025
Dossiê “Trump 2.0 e o golpe na Venezuela“
Por Henrique Menezes* [Informe OPEU] [Venezuela] [Estratégia de Segurança Nacional] [Doutrina Monroe] [América Latina] [Trump 2.0]
A operação militar que levou à captura do presidente venezuelano por tropas norte-americanas na madrugada de 3 de janeiro de 2026 já se encontrava claramente delineada na Estratégia de Segurança Nacional (NSS, na sigla em inglês) do governo Trump, tornada pública menos de um mês antes da operação. A forma como todo o processo se deu – se Nicolás Maduro foi capturado em uma missão cirúrgica, como descreve o próprio Donald Trump, se foi traído e entregue às forças de segurança norte-americanas, ou se houve uma rendição negociada – permanece obscura, sendo necessárias mais informações para uma compreensão adequada dos fatos.
O fato é que Maduro se encontra detido, foi retirado do território venezuelano e conduzido à Agência Antidrogas dos Estados Unidos (DEA). O destino político do país também permanece incerto, apesar de Trump, em seu discurso pós-operação, ter informado que os Estados Unidos passariam a governar a Venezuela (sem que ainda esteja claro o significado concreto dessa afirmação) e que empresas norte-americanas controlariam a exploração do petróleo venezuelano.
Esse texto, nesse sentido, não pretende uma análise do acontecimento recente na Venezuela, mas uma análise da NSS e de como ela nos ajuda a compreender o caso e desenhar aquilo que pode ser o futuro do engajamento dos EUA na região.
A ação norte-americana é, sem dúvida, uma grave agressão à região e abre um precedente igualmente grave para a América do Sul, cujos contornos vinham se tornando mais evidentes com o aumento da presença militar norte-americana e com as operações realizadas contra embarcações de supostos traficantes de drogas na costa venezuelana. O governo Trump incluiu 14 novas organizações criminosas da América Latina em sua lista de organizações terroristas apenas nos primeiros meses de 2025. Da Venezuela, foram incluídas as organizações Cartel de los Soles e Tren de Aragua, ao mesmo tempo em que se fortaleceu a retórica de que tais grupos representariam uma séria ameaça à segurança nacional norte-americana, exigindo, portanto, uma resposta mais contundente.
NSS 2025: um velho novo roteiro da ação dos EUA
A leitura da mais recente Estratégia de Segurança Nacional evidencia com clareza o roteiro e a forma como os EUA pretendem se comportar diante do mundo e da região, bem como a predisposição e as justificativas do governo Trump para o uso da força militar na América Latina. Desde o início, deve-se enfatizar que as razões para tal não se ancoram na defesa da democracia ou em qualquer outro valor, historicamente propagandeado como norte moral da política externa norte-americana, mas na defesa irrestrita dos interesses estratégicos dos Estados Unidos na região. Isso implica a exclusão de outras potências do espaço regional, entendido como zona de influência norte-americana, e o controle de recursos naturais estratégicos, como bem explicitado no discurso de Trump após a prisão de Maduro. Para alcançar esses objetivos, a estratégia prevê ações combinadas de apoio, pressão e confronto com os governos da região, tendo como critério exclusivo o grau de adesão desses governos à agenda e aos interesses norte-americanos.
A implementação do que está documentado na estratégia representará a consolidação de uma estratégia deliberada de retração das ambições globais norte-americanas, marcada, de um lado, pelo abandono explícito da Ordem Internacional Liberal (OIL) e, de outro, pela reorientação dos interesses estratégicos dos Estados Unidos em direção ao Hemisfério Ocidental, em uma espécie de retorno à política das esferas de influência, com efeitos perigosos sobre a América Latina e desafios importantes para o Brasil.
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Segundo o documento, as elites norte-americanas teriam cometido um erro fundamental de diagnóstico quanto ao que constituiria o melhor interesse dos Estados Unidos desde o fim da Guerra Fria, ao perseguirem um objetivo político global “indesejável e impossível” (undesirable and impossible goal). Como consequência, teriam implementado uma política externa que, em vez de fortalecer o país, revelou-se danosa aos interesses norte-americanos e aos interesses da população e do norte-americano médio.
Nesse sentido, Trump propõe o enterro definitivo da chamada Ordem Internacional Liberal, tradicionalmente evocada pelos Estados Unidos como fundamento legitimador de sua liderança sobre os rumos da política e da economia globais. Sob essa lógica, os interesses do mundo coincidiriam com os interesses dos Estados Unidos, cabendo a Washington o fardo de conduzir o mundo à paz e à prosperidade, arcando com os custos da promoção da democracia, da manutenção de uma economia global aberta e da defesa de um ordenamento internacional sustentado pelo direito e supervisionado por um conjunto de instituições multilaterais.
O fim da Guerra Fria teria representado a mundialização dessa ordem, seja pela incorporação das antigas áreas de influência da União Soviética aos seus princípios e práticas, seja pela atração, pela força do mercado, daqueles ainda pouco dispostos a se subordinar a esse modelo. A crise dessa ordem já vinha sendo diagnosticada: tanto por aqueles atentos aos efeitos perversos da hiperglobalização sobre as bases sociais e políticas que a sustentaram, pelo menos nos países centrais do capitalismo — a prosperidade econômica e a estabilidade política —, quanto pelos que destacam os equívocos estratégicos de uma política externa ancorada em justificativas morais universalistas, utilizadas para legitimar intervenções em praticamente qualquer tema ou espaço do sistema internacional.
A estratégia de defesa nacional do segundo governo Trump parte dessas premissas para reorganizar a forma de inserção dos EUA no mundo. O ponto de partida é a afirmação de que a política externa norte-americana terá como propósito a defesa irrestrita dos seus interesses nacionais essenciais (core national interests), relegando a segundo plano quaisquer compromissos normativos mais amplos que, historicamente, justificaram a atuação internacional norte-americana. Tal orientação implica uma negação explícita dos princípios centrais da ordem internacional liberal, tradicionalmente fundamentada na promoção da democracia como valor universal, na defesa do livre-mercado como princípio organizador da economia política internacional e na centralidade das instituições multilaterais e do direito internacional como mecanismos de regulação da ordem global. Em contraste, a estratégia passa a ser guiada por uma concepção nomeada de Flexible Realism, que rejeita a imposição de valores morais, incluindo a democracia, como compromisso global dos Estados Unidos. A defesa ou promoção da democracia deixa de ser justificativa para a ação internacional.
Nesse marco, consolida-se a defesa do princípio da primazia das nações (primacy of nations), enfatizando a soberania e o respeito à autonomia estatal (sovereignty and respect), desde que não em desacordo com os interesses essenciais norte-americanos, bem como a oposição a qualquer forma de imposição de normas ou institucionais internacionais que possam limitar os interesses essenciais dos Estados, sobretudo, dos EUA. Como consequência direta, a aceitação do equilíbrio de poder como instrumento de ordenação da política internacional reforça essa leitura realista e pragmática sobre o funcionamento do sistema internacional. Nesse sentido, um dos pilares centrais dessa estratégia é a noção de domínio hemisférico, segundo a qual os Estados Unidos buscam assegurar que o Hemisfério Ocidental permaneça suficientemente estável e governável, preservando-o como sua zona de influência estratégica. Isso implica a exclusão de competidores extra-hemisféricos da região e a compreensão de que os recursos estratégicos da região devem ser prioritariamente usufruídos pelos próprios Estados Unidos, reafirmando uma lógica de poder regional hierarquizada e assimétrica.
O retorno do Hemisfério Ocidental como espaço vital
O sentido lógico da Estratégia de Segurança Nacional de Trump 2.0 parte da identificação de dois erros de diagnóstico estruturais que sustentaram a formulação da política externa norte-americana desde o final da Segunda Guerra Mundial.
Em primeiro lugar, as elites norte-americanas teriam-se convencido (e convencido o mundo) de que a dominação permanente sobre a política internacional seria intrinsecamente benéfica para os interesses nacionais do país. Essa leitura teria levado à suposição de que os Estados Unidos deveriam, e poderiam, assumir indefinidamente os custos políticos, econômicos e militares associados à provisão de bens públicos globais e à sustentação da ordem internacional liberal.
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Em segundo lugar, a política externa norte-americana incorreu em apostas profundamente equivocadas, ao se associar diretamente ao chamado globalismo e ao defender o “livre-comércio” não apenas como uma agenda econômica, mas como um projeto político. Essas escolhas teriam contribuído para a desindustrialização, para a erosão da classe média e para o enfraquecimento da base produtiva, sobre a qual repousariam a primazia econômica e a capacidade militar dos Estados Unidos.
Esses dois erros estratégicos se agravaram em razão da vinculação dos interesses nacionais e da política externa dos Estados Unidos a uma extensa rede de instituições internacionais. Na leitura do governo Trump, muitas dessas instituições seriam pautadas essencialmente por um antiamericanismo explícito, enquanto todas elas seriam orientadas por um tipo de transnacionalismo que dilui a soberania dos Estados nacionais e constrange sua autonomia e capacidade de realização de seus interesses nacionais.
Assim, a estratégia reconhece que essa dupla aposta ignorou os limites da capacidade material e da disposição da sociedade norte-americana em sustentar encargos globais desconectados do seu interesse nacional. Essas elites teriam superestimado a capacidade do Estado norte-americano de financiar, simultaneamente, seu aparato doméstico de bem-estar e regulação, ao lado de um complexo militar, diplomático, de Inteligência e de assistência externa de escala global.
Assim, a pergunta “What should the United States want?” (“o que os EUA deveriam querer?”), que norteia o documento, é respondida de forma direta. Os Estados Unidos querem uma ordem internacional que “funcione” para a América, e isso é reduzido à ideia de “America First”. Nesse contexto, como mencionado, a política hemisférica adquire centralidade estratégica na formulação da política externa e de defesa dos Estados Unidos. A região volta a ser concebida como um espaço vital, no qual Washington atuará de forma inequívoca para enquadrar os países do “Hemisfério Ocidental” aos interesses norte-americanos, assegurando a proteção de seus interesses essenciais de segurança, econômicos e geopolíticos.
Essa orientação envolve, em primeiro lugar, a manutenção de governos politicamente alinhados, capazes de cooperar com os Estados Unidos em agendas consideradas prioritárias, como a prevenção à migração em massa, o combate ao chamado narco-terrorismo e a outras organizações criminosas transnacionais, bem como a proteção dos interesses produtivos e econômicos estratégicos dos Estados Unidos. Adicionalmente, busca-se garantir acesso privilegiado a recursos naturais críticos, assim como a áreas e regiões estratégicas do continente, consideradas cruciais para a segurança econômica e industrial norte-americana.
Como indicado no documento, os objetivos dos Estados Unidos para o “Hemisfério Ocidental” podem ser sintetizados pela lógica de enlist and expand, isto é, mobilizar aliados e ampliar a influência regional de Washington. A estratégia prevê, de maneira explícita, o uso combinado de incentivos e pressões políticas. Governos, partidos e movimentos alinhados aos princípios e à estratégia norte-americana deverão ser recompensados e encorajados. Países com orientações divergentes — ainda que democraticamente constituídos — poderão ser alvo de pressão, caso suas escolhas políticas sejam percebidas como facilitadoras da influência de atores extra-hemisféricos. A cooperação será condicionada à disposição desses atores em trabalhar de acordo com as prioridades estratégicas dos Estados Unidos.
Nesse marco, os Estados Unidos buscam se consolidar como o “parceiro de primeira escolha” dos países da região, recorrendo a diversos meios para desestimular a colaboração destes com outros atores internacionais. A contenção da influência externa é tratada como imperativo estratégico, uma vez que o princípio orientador dessa política é a reafirmação da preeminência norte-americana no “Hemisfério Ocidental” como condição necessária para a segurança e a prosperidade dos Estados Unidos. Essa diretriz culmina na reinterpretação e no reforço da Doutrina Monroe, por meio do chamado “Trump Corollary to the Monroe Doctrine”, que busca restaurar a primazia norte-americana no Hemisfério, proteger o território dos Estados Unidos e assegurar seu acesso a geografias estratégicas ao longo da região.
Por fim, essa estratégia reconhece explicitamente que os Estados Unidos não hesitarão em recorrer ao uso de seu poder militar como instrumento de dissuasão e coerção, sempre que tal emprego for considerado necessário para preservar sua posição dominante no hemisfério e assegurar a defesa de seus interesses nacionais.
A intensificação da presença militar norte-americana no Caribe, bem como as ações militares que culminaram na prisão de Maduro, materializam de forma concreta o que está explicitamente previsto na NSS de Trump 2.0, assim como confirmam a lógica de que os poderes militar e político serão mobilizados para a consecução dos objetivos norte-americanos. De um lado, trata-se de uma ação de força, ilegal e politicamente desestabilizadora, voltada para remover do poder um governo com vínculos estratégicos relevantes com Rússia e China. De outro, a operação expressa de maneira as ambições estratégicas norte-americanas relacionadas ao acesso privilegiado a recursos naturais e ao controle de infraestruturas críticas no espaço hemisférico, reafirmando uma lógica de dominação regional hierarquizada e assimétrica. ![]()
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* Henrique Zeferino de Menezes é pesquisador do INCT-INEU e professor do Departamento de Relações Internacionais e do Programa de Pós-graduação em Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Contato: hzmenezes@ccsa.ufpb.br.
** Revisão e edição: Tatiana Teixeira. Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU.
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