A influência dos EUA e da OTAN na segurança e na integração europeias
(Arquivo) Presidente Donald Trump se reúne com o então secretário-geral da OTAN, Jens Stoltenberg, na Winfield House, em Londres, em 3 dez. 2019 (Crédito e fonte: Casa Branca/Shealah Craighead/Flickr)
Por Rúbia Marcussi Pontes e Maria Eduarda de França Moreira* [Informe OPEU] [Trump 2.0] [Europa] [Relações transatlânticas] [Política Externa] [OTAN] [EUA-UE]
A invasão da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2022, representou um marco crítico para a União Europeia (UE) e sua Política Externa e de Segurança Comum (PESC). Em reunião extraordinária em 24 de fevereiro de 2022, o Conselho Europeu condenou, “nos termos mais fortes possíveis”, a agressão militar contra a Ucrânia e afirmou que “seriam impostas consequências maciças e severas para a Rússia por suas ações”. Embora a guerra tenha gerado uma resposta coesa da UE, essa atuação permanece condicionada por limitações estruturais que impedem a consolidação plena da autonomia estratégica do bloco.
Desde os primeiros dias do conflito, a UE aprovou pacotes de medidas inéditos em velocidade e magnitude, que incluíram sanções econômicas, apoio militar, assistência humanitária e ações diplomáticas coordenadas. Ao longo de 2022, tais medidas evoluíram rapidamente. Em fevereiro e março daquele ano, foram aprovados os primeiros cinco pacotes de sanções, que congelaram ativos do Banco Central da Rússia, restringiram o acesso de bancos russos ao sistema SWIFT (abreviatura para Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication, ou Sociedade para Telecomunicações Financeiras Interbancárias Mundiais) e proibiram exportações de tecnologias de ponta. A Comissão Europeia classificou essa resposta como a mais rápida e abrangente de sua história em matéria de sanções, evidenciando como a percepção de ameaça sistêmica funcionou como catalisadora de consenso interno, ainda que tal consenso tenha caráter emergencial, e não necessariamente estrutural. Em abril e maio, a UE estendeu o escopo das sanções ao setor energético e de transporte, impondo o embargo ao carvão e bloqueando navios e aeronaves russas em portos e aeroportos europeus. Em junho, o sexto pacote introduziu o embargo parcial ao petróleo e a proibição de transmissões de meios de comunicação estatais russos na Europa, fortalecendo a dimensão informacional da resposta.
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Além disso, a Comissão Europeia adotou, em maio de 2022, o plano REPowerEU, com o objetivo de reduzir a dependência do gás russo, diversificar fornecedores e acelerar a transição energética. Em menos de um ano, a importação de gás russo para consumo europeu caiu de 40% para menos de 10%, marcando uma transformação estrutural com implicações diretas para a segurança. Essa reconfiguração energética reposicionou a política energética como pilar da segurança europeia, reforçando a ideia de que a guerra acelerou a fusão entre interdependência econômica e geopolítica. No mesmo período, a UE criou o mecanismo de compra conjunta de gás e aumentou o investimento em energias renováveis, consolidando a integração energética como dimensão estratégica de segurança. Antes vista como um tema econômico, a energia passou a ser tratada como pilar de soberania, o que ampliou o escopo funcional da PESC.
Com o ReArm Europe Plan, a UE lançou uma agenda de reindustrialização voltada para a defesa, prevendo cerca de €800 bilhões em investimentos até 2030 e consolidando a Base Industrial e Tecnológica de Defesa Europeia (EDTIB, na sigla em inglês). Segundo Genini (2025), esses marcos consolidam a passagem de uma política de consenso para uma política de poder e de recursos. Ainda assim, a coexistência entre o avanço industrial europeu e a dependência contínua de capacidades militares norte-americanas evidencia o descompasso entre ambição e meios disponíveis para uma autonomia estratégica robusta. Entre 2021 e 2024, os gastos militares dos Estados-membros cresceram cerca de 30%, alcançando €326 bilhões, o maior patamar já registrado, com novas iniciativas em segurança marítima, cibernética e tecnologias de uso dual.
A dimensão humanitária também assumiu protagonismo. Mais de seis milhões de ucranianos foram acolhidos em território europeu sob o mecanismo de proteção temporária, que concedeu direito imediato à residência, ao trabalho, à educação e à assistência social. Esse acolhimento contrastou com a resposta fragmentada à crise migratória de 2015, quando refugiados sírios e africanos enfrentaram resistência política em vários países.
Essas medidas foram elaboradas em estreita articulação com os Estados Unidos, o G7 e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, declarou que as sanções europeias à Rússia haviam sido “preparadas em coordenação próxima com nossos parceiros transatlânticos” e que o objetivo comum era “degradar a base econômica da Rússia e responsabilizar seus líderes”. Essa coordenação simbolizou um tipo de “autonomia cooperativa”, em que a Europa reafirmou seu vínculo com Washington, mas demonstrou capacidade de iniciativa e de liderança diplomática próprias.
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Contudo, por mais que a PESC tenha sido um componente central do posicionamento europeu na crise, sua efetividade permaneceu condicionada por dois conjuntos de fatores estruturais. O primeiro diz respeito às limitações internas do próprio processo de integração europeu, marcadas pela exigência de unanimidade nas decisões de política externa e pela persistente heterogeneidade de interesses nacionais, elementos que dificultam a consolidação da UE como ator plenamente coeso. O segundo se refere aos condicionantes externos – sobretudo, a influência dos EUA e o papel da OTAN como eixo central da segurança no continente –, fatores que restringem a autonomia estratégica europeia e moldam os contornos da ação coletiva do bloco. Aqui, propomos a análise desse segundo conjunto de fatores estruturais.
A influência dos EUA e da OTAN na segurança europeia
A influência dos EUA na política externa europeia deve ser compreendida em relação à lógica histórica da relação transatlântica, que, desde a Segunda Guerra Mundial, molda a segurança europeia. Essa relação é, ao mesmo tempo, um pilar de estabilidade e uma fonte recorrente de tensão na UE. Desde a criação da OTAN em 1949, a Europa desenvolveu sua segurança sob a proteção estratégica norte-americana, o que gerou uma dependência militar e tecnológica que perdura até hoje.
Durante a guerra da Ucrânia, essa influência manifestou-se de forma multifacetada. No plano político e diplomático, a UE e os EUA coordenaram a imposição de sanções econômicas contra a Rússia, definindo o tom e o ritmo das medidas, enquanto a UE continuou como parceira complementar, ajustando seus instrumentos internos para manter coerência e impacto conjuntos. Militarmente, Washington se tornou o principal provedor externo de assistência militar e financeira à Ucrânia, contribuindo com mais de €114,6 bilhões em ajuda militar e humanitária e com a oferta de serviços de Inteligência, logística e coordenação estratégica via OTAN. Essa assimetria material reforçou a dependência europeia e, consequentemente, limitou sua autonomia decisória.
Essa relação é, no entanto, ambivalente. Por um lado, a aliança transatlântica amplificou a coesão europeia nos primeiros meses da guerra, unificando posições em torno da defesa da soberania ucraniana e da aplicação de sanções robustas. Por outro, à medida que o conflito se prolongou e os custos econômicos e energéticos se intensificaram, surgiram divisões entre os Estados-membros sobre até que ponto a UE deveria seguir as diretrizes de Washington.
Países do Leste Europeu veem a aliança com os EUA como indispensável para a segurança continental e defendem o aprofundamento da cooperação militar e da integração com a OTAN. Já potências como França e Alemanha, embora apoiem a Ucrânia, alertam para os riscos de transformar a política externa europeia em uma projeção dependente da estratégia norte-americana, o que contraria o ideal de autonomia estratégica defendido pelo Serviço Europeu para a Ação Externa (SEAE) e pela Bússola Estratégica da UE.
Duas hipóteses analíticas ajudam a compreender as trajetórias possíveis da política europeia diante dessa influência. A hipótese interna sustenta que a guerra aumentou a percepção de ameaça entre os Estados-membros e, consequentemente, elevou a velocidade e a eficácia da tomada de decisões da UE. O medo da instabilidade e da expansão do conflito gerou um consenso emergencial que viabilizou medidas historicamente improváveis, como o financiamento militar, a aprovação rápida de sanções em múltiplas rodadas e a ativação da Diretiva de Proteção Temporária para refugiados. Essa convergência pragmática demonstra que, em contextos de crise, a PESC é capaz de funcionar com eficiência, mesmo em uma estrutura intergovernamental que depende da unanimidade. A sustentabilidade dessa coesão requer, porém, reformas institucionais que reduzam o escopo da unanimidade e arranjos orçamentários capazes de equilibrar os custos do alargamento e da reconstrução ucraniana, evitando o esgotamento político e financeiro do bloco. Ainda assim, tais avanços permanecem vulneráveis ao retorno das divergências nacionais quando a percepção de urgência diminui.
Já a hipótese externa postula que a influência dos EUA é determinante e ambivalente para a PESC. Quando os interesses de segurança convergem, como ocorreu na reação imediata à invasão, a presença norte-americana serve como multiplicador de coesão, reforçando a legitimidade internacional da União e facilitando a coordenação de políticas. No entanto, quando as prioridades divergem, como em relação à duração do apoio militar, à negociação de paz ou às políticas energéticas, essa mesma influência pode induzir fissuras internas. Alguns Estados-membros tendem a se alinhar automaticamente às diretrizes norte-americanas, enquanto outros, preocupados com a autonomia europeia, adotam posições mais cautelosas. Essa discrepância gera ritmos distintos de comprometimento político, o que afeta diretamente a coerência da PESC e o andamento das negociações de adesão da Ucrânia ao bloco, por exemplo.
A relação transatlântica atua, portanto, como fator de equilíbrio e de instabilidade ao mesmo tempo. Quando as diretrizes de Washington coincidem com o consenso europeu, a cooperação reforça a capacidade da União de agir de forma coordenada; quando há divergências, especialmente sobre a escalada militar ou o futuro da reconstrução pós-guerra, a influência norte-americana tende a expor as fragilidades da integração política europeia. Essa oscilação demonstra que a coesão da PESC permanece condicionada a fatores externos, e não apenas às dinâmicas internas da União.
Por isso, o papel dos EUA no contexto da guerra da Ucrânia é decisivo para compreender os limites e as potencialidades da PESC europeia. Embora essencial para garantir a dissuasão e a estabilidade imediata, o envolvimento norte-americano também redefine os contornos da autonomia europeia e condiciona o futuro da adesão ucraniana. A continuidade dessa influência dependerá não apenas da evolução do conflito, mas também da capacidade da UE de fortalecer seus próprios mecanismos de defesa e de governança, transformando a dependência transatlântica em cooperação estratégica equilibrada, e não em subordinação.
Dessa forma, o desfecho do processo dependerá de três vetores encadeados: a evolução militar no terreno, que molda o custo-benefício percebido pelos governos europeus; o grau e o formato do envolvimento norte-americano, que ora coordena e ora polariza preferências dentro da UE; e a capacidade do bloco de se reformar para absorver novos membros, preservando eficácia decisória e solidariedade orçamentária. Essa condição é fundamental para que a ampliação não comprometa a coerência externa do projeto europeu.
Se esses vetores convergirem, a candidatura ucraniana ao bloco tende a se consolidar como vitória geopolítica e institucional; se divergirem, cresce o risco de congelamento da adesão – com custos reputacionais para a UE e estratégicos para a Ucrânia. Assim, a candidatura ucraniana à UE traduz a passagem da ampliação normativa para a ampliação como política de poder. Ela mede a capacidade da UE de compatibilizar valores e interesses sob pressão e os limites e potencialidades da relação transatlântica como arranjo de coordenação estratégica. O que está em jogo não é apenas a trajetória de Kiev, mas a própria definição do alcance geopolítico e da autonomia estratégica europeia nas próximas décadas.
Trump 2.0 e a União Europeia
Nesse cenário já complexo, o retorno de Donald Trump à presidência dos EUA adicionou novos vetores de instabilidade que extrapolam a questão ucraniana e afetam diretamente a autonomia estratégica da UE. No plano econômico, a reintrodução de tarifas sobre aço e alumínio europeus, bem como os embates relacionados à regulação digital e à política de concorrência, sinalizam um esforço norte-americano de pressionar comercialmente o bloco.
No campo tecnológico, a oposição de Washington às regulações europeias sobre Big Techs evidencia tensões profundas entre as duas potências no setor digital, área central para a competitividade e a segurança europeias. Já no domínio de segurança e defesa, Trump tem reiterado críticas ao “baixo gasto militar” dos aliados europeus e sugerido que países que não cumprirem metas deveriam “arcar com sua própria defesa”, além de declarar que poderia reduzir ou condicionar a ajuda militar à Ucrânia a acordos que envolvam concessões territoriais. Esses movimentos reforçam a dificuldade da UE em se posicionar como ator autônomo em um sistema internacional crescentemente competitivo. ![]()
* Rúbia Marcussi Pontes é doutoranda e mestra em Ciência Política pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), professora associada de Relações Internacionais do Centro Universitário FACAMP e pesquisadora do INCT-INEU. Contato: rubiamarcussi@gmail.com.
Maria Eduarda de França Moreira é bacharel em Relações Internacionais pelo Centro Universitário FACAMP. Contato: mariaeduardamoreira55@gmail.com.
** O informe foi escrito com base no trabalho de conclusão de curso de Maria Eduarda de França Moreira, intitulado “A atuação da União Europeia por meio da sua Política Externa e de Segurança Comum na guerra da Ucrânia”, orientado por Rúbia Marcussi Pontes e defendido em dezembro de 2025. Revisão e edição: Tatiana Teixeira. Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU.
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