Sobre desconhecimento do futuro, prudência e eleições nos EUA

Histórico aperto de mão entre os presidentes Richard Nixon (EUA) e Mao Tsé-tung (China), em fev. 1972, em Pequim (Foto: AFP)

Por Mateus de Paula Narciso Rocha*

A sabedoria popular afirma que não é prudente deixar todos os ovos na mesma cesta. No mesmo sentido, uma regra fundamental da diplomacia é manter as opções abertas e considerar a possibilidade de a outra parte mudar de interesse. Afinal, nas relações internacionais inexiste aliança perpétua. Tão logo a Alemanha se tornou um centro de poder, a rivalidade secular entre Inglaterra e França foi superada. Pouco após a vitória contra Hitler, a aliança de guerra se transmutou em confronto bipolar. Inimigos na Guerra da Coreia, a China comunista e os Estados Unidos se aproximaram, anos depois, contra a União Soviética.

Diante dos fatos, a indeterminação do futuro entra no cálculo dos estadistas. Assim, a ruptura sino-soviética no final da década de 1950 ocorreu, em grande medida, pelos receios de Moscou de apoiar o projeto nuclear chinês, ou seja, fortalecer o vizinho oriental em um contexto de desconhecimento do amanhã. Nos anos 1980, quando Estados Unidos e China se aliaram contra os soviéticos, a Casa Branca passou a vender armas e tecnologias para Pequim. Os EUA nunca transferiram as mais avançadas, porém. Afinal, entre outras coisas, não se conhecia o futuro.

Em 1943, os líderes britânicos, aliados de guerra dos Estados Unidos, criaram a ideia da França como um dos “policiais” do pós-guerra, tão logo tiveram ciência de que a Casa Branca queria elevar a China ao status de quarto policial. Churchill desconfiou da jogada de Roosevelt e considerou que a França poderia ser útil em uma possível defesa do império britânico. Desse modo, a atual configuração dos membros permanentes do Conselho de Segurança é também uma fotografia dos receios de um aliado em relação ao outro.

A indeterminação do futuro recomenda, portanto, a prudência: a preparação para os cenários benignos e para os prejudiciais; para a paz e a guerra; para a vitória do partido da situação e a vitória da oposição. Mas a prudência deve ser calibrada em função do contexto, pois, a depender dele, pode ser virtuosa, ou inócua. No contexto da crise dos mísseis de Cuba, a prudência de Kennedy foi uma virtude e permitiu evitar a guerra nuclear. Na década de 1930, o excesso de prudência do então primeiro-ministro britânico, Neville Chamberlain, facilitou o fortalecimento da Alemanha nazista.

É fundamental uma leitura empírica acurada, ver as coisas como são e não como desejamos que seriam. Nesse sentido, muito se fala que os Estados Unidos escolhem seus aliados por afinidade ideológica, mas seria mais preciso indicar que Washington o faz por seus interesses nacionais. Os aliados históricos dos EUA não o são por serem democracias vibrantes, ou campeões do livre-comércio, mas por propiciarem benefícios estratégicos: a Arábia Saudita, o controle de grande reserva de petróleo; o Reino Unido, a projeção de poder na Europa; o Japão, a projeção de poder na Ásia. O caso de Israel parece ser uma exceção. Segundo o estudo de John Mearsheimer e Stephen Walt, essa aliança estaria relacionada ao lobby interno.

De todo modo, uma aliança é constituída mais por interesses palpáveis, estratégicos, ou domésticos, do que por afinidades individuais, ou ideológicas.

História recomenda prudência

No mesmo sentido, um diagnóstico realista das alianças revela que elas propiciam benefícios de várias ordens aos participantes, mas não são incondicionais. Não é abolida a diferença de poder entre as partes e, por vezes, o elo forte exige o alinhamento incondicional aos seus interesses. Após a Segunda Guerra, os Estados Unidos apoiaram o desmonte do império britânico e o fim das “preferências imperiais”. Na década de 1980, Washington pressionou o Japão a estabelecer restrições voluntárias às exportações de automóveis e a valorizar sua moeda. Em 2018, o novo acordo comercial entre Estados Unidos, México e Canada (USMCA, na sigla em inglês) tem uma cláusula tóxica, patrocinada por Washington. Nela, se uma das partes – México, ou Canadá – fizer um acordo comercial com a China, as outras duas podem se retirar do acordo em relação a essa parte.

E é importante salientar que, quando uma decisão-chave não foi fundada em um diagnóstico realista e tomada de modo prudente, os resultados quase sempre foram catastróficos. Foi o que descobriram os Estados Unidos na Guerra do Vietnã; a Argentina, na Guerra das Malvinas; e o Iraque, na invasão do Kuwait.

Os Estados Unidos também exemplificam o benefício de combinar o diagnóstico acurado e a prudência. Perante a imposição do stalinismo na Europa Oriental e antecipando a vitória dos comunistas na China, a Casa Branca formulou o Plano Marshall. Este buscou manter a Europa Ocidental em sua órbita por meio de benefícios econômicos, e não pela força. Em 1966, perante o enfrentamento do então presidente francês, Charles De Gaulle, aos interesses estadunidenses o Departamento de Estado observou que tais políticas não teriam duração considerável, pois estavam enraizadas na personalidade do general de mais de 70 anos, e não em um consenso social ou burocrático. A Casa Branca, então, decidiu aguardar o presidente sair de cena e evitou gestos públicos que exacerbariam justamente as posições políticas que queria conter.

Esse sobrevoo histórico realça a importância, em um cenário de indefinição sobre o futuro, de conciliar a análise fidedigna à ação prudente. É conhecido que, em 2020, as eleições presidenciais nos Estados Unidos ditarão os rumos da superpotência. Os demais governos já analisam qual seria o melhor cenário para os seus interesses. Os europeus anseiam por uma vitória democrata, enquanto os chineses, para a surpresa de muitos, parecem preferir um outro mandato de Trump.

Brasil e Argentina sinalizam desejos antagônicos sobre o resultado do pleito. Independentemente disso já sentem o peso dessas eleições: a taxação unilateral do aço oriundo desses dois países está diretamente relacionada ao objetivo do presidente republicano de se manter no poder. E, se já são sentidos os efeitos, o resultado eleitoral deve deixar marcas mais profundas.

Nesse contexto, a prudência recomendaria que se analisasse o movimento das forças internas dentro da superpotência. Os sinais dados pelo presidente Donald Trump sugerem uma disputa eleitoral acirrada. A prudência lembraria, também, que uma aliança estratégica se funda somente se o elo fraco tiver algo realmente estratégico a oferecer. Ela indicaria ainda que, mesmo dentro de uma aliança, a parte mais poderosa pode forçar o mais fraco a um alinhamento incondicional e prejudicial a seus interesses nacionais. Prescreveria, por fim, que o futuro pode não ser como se quer e, portanto, seria importante se preparar não apenas para o cenário preferido.

De todo modo, pode-se deixar a prudência de lado, colocar todos os ovos na mesma cesta, acreditar que a regularidade histórica não tem mais aplicação e que as alianças serão fundadas não nos interesses, mas nos valores mais nobres. É uma opção. Lembraria Aristóteles, porém, que são os jovens – os que estão na época da vida de pouco passado e de muito futuro – que creem que tudo é possível. A maturidade, período da vida em que já são mais bem conhecidos o passado e o próprio gênero humano, recomendaria prudência.

 

* Mateus de Paula Narciso Rocha é mestrando em Relações Internacionais no PPGRI-UFU e orientando do professor Filipe Mendonça, membro do INCT-INEU. Mateus pesquisa política externa dos EUA para a China no pós-Guerra Fria.

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