O eco das narrativas pró-Trump nas manifestações pró-Bolsonaro de 2025
Apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro fazem manifestação na avenida Paulista, em 3 ago. 2025 (Crédito: Cadu Pinotti/Agência Brasil)
Por Acza Rodrigues [Informe OPEU] [Jair Bolsonaro] [Trump 2.0] [Brasil] [Brasil-EUA] [Eleições 2026]
As manifestações pró-Bolsonaro ocorridas entre 2021 e 2025 revelam uma transformação significativa no repertório político da direita brasileira, marcada pela crescente presença de discursos, símbolos e referências vinculadas ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Placas, faixas e cartazes com dizeres como “Help, Trump” (“Nos ajude, Trump”), bandeiras norte-americanas e pedidos explícitos de intervenção estrangeira passaram a compor o imaginário e o fazer político da parcela mais aguerrida dos apoiadores de Jair Bolsonaro.
Esse fenômeno não pode ser compreendido isoladamente. Ele emerge de um processo mais amplo de reorganização da direita global, no qual bolsonarismo e trumpismo constituem expressões de uma mesma matriz ideológica, situada no campo da chamada “Nova Direita”. Trata-se de uma configuração discursiva transnacional que combina antiglobalismo, teorias conspiratórias, desconfiança das instituições democráticas, defesa de valores morais e uso intensivo das redes digitais como instrumento de mobilização.
Manifestações pró-Bolsonaro
As manifestações de rua no Brasil passaram por uma profunda transformação entre 2013 e o período em que Jair Bolsonaro passa a se apresentar como personalidade política capaz de mobilizar manifestações. No artigo A Trajetória Discursiva das Manifestações de Rua no Brasil (2013-2015) (Revista Lua Nova, 2017), Céli Pinto traz uma análise dos discursos proferidos nas manifestações ocorridas entre 2013 e 2015. A investigação dessa trajetória é relevante para compreender as manifestações pró-Bolsonaro, pois permite identificar mudanças nos repertórios discursivos e nas formas de mobilização política que antecederam a emergência do bolsonarismo. A pesquisadora afirma que as “Jornadas de Junho” de 2013 tiveram pautas difusas, relacionadas ao transporte público, à corrupção e à precariedade dos serviços estatais. Em 2014, já se observava uma polarização crescente, com grupos conservadores assumindo um discurso antipetista, de um lado, e, de outro, setores ligados à esquerda defendendo pautas sociais e denunciando a repressão policial.
Em março de 2015, explica Céli, o cunho político dos protestos se modificou. As manifestações de março de 2015, a favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff, foram mobilizadas por grupos nas redes sociais. Seus participantes passaram a adotar uma identidade visual marcada pelo predomínio de camisetas amarelas da seleção brasileira. Essa mudança também se refletiu no perfil dos manifestantes: enquanto as mobilizações de 2013 reuniam um público mais heterogêneo, com forte presença de jovens e indivíduos sem histórico de militância política, os atos de 2015 apresentaram maior concentração de setores de classe média e de grupos identificados com posições políticas de direita e com o antipetismo.
Houve, também, um deslocamento dos locais dos protestos. Diferentemente dos atos realizados nos centros antigos das cidades, os quais haviam caracterizado parte das mobilizações anteriores, os atos passaram a ocorrer em áreas de classe média alta, como a Avenida Paulista, em São Paulo, e a Avenida Atlântica, em Copacabana, no Rio de Janeiro. A alteração do espaço de mobilização, associada à mudança no perfil dos participantes, indica uma transformação na composição social e política dos protestos. Esse movimento deixa claro o público-alvo esperado, pois o deslocamento dos moradores da periferia aos domingos (dia das manifestações) seria mais difícil.
Em sua obra Guerra cultural e retórica do ódio: Crônicas de um Brasil pós-político (Editora Caminhos, 2021), João Cezar de Castro Rocha argumenta que essas manifestações atuaram como vetores do impeachment de Dilma em 2016. Essas mobilizações se tornaram movimentos de direita consolidados, revelando ao país uma organização sólida de grupos conservadores, com destaque para as articulações realizadas nas redes sociais, cujo objetivo central era derrubar o PT.
Em 2020, durante o governo de Jair Bolsonaro, a pandemia da covid-19 intensifica essa dinâmica. Fonseca e Silva abordam que o enfrentamento da pandemia e da crise dela advinda recaiu sobre a gestão de cada estado da federação. O presidente Bolsonaro adota, por sua vez, uma posição negacionista, mostrando-se contrário ao isolamento social, além de ignorar medidas de segurança definidas por organizações internacionais de saúde. Isso é realizado com a justificativa de que a pandemia não deveria atingir as atividades econômicas do país, mesmo que pessoas fossem colocadas em contato com o vírus. Esse discurso encorajou a participação de brasileiros em manifestações de apoio ao então presidente, desafiando as normas de distanciamento físico, recomendações de quarentena e uso de máscaras.
Na celebração do Sete de Setembro de 2021, manifestantes retornaram às ruas em meio ao cenário epidêmico, atendendo a uma convocação de Jair Bolsonaro. Os protestos ficaram marcados por ameaças antidemocráticas, como pedidos de intervenção militar e insatisfação com ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Congresso. Na mesma data, no ano seguinte, já em um cenário de campanha para a reeleição, manifestantes retornam às ruas, incluindo a participação do próprio Bolsonaro no ato na orla de Copacabana.
A radicalização dos atos alcançou seu ápice em 8 de janeiro de 2023, quando bolsonaristas invadiram o Congresso Nacional, o STF e o Palácio do Planalto. No ato, repetiam-se as acusações alardeadas por Bolsonaro contra a confiabilidade das urnas eletrônicas, após a vitória eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva; questionava-se a legitimidade da eleição; e pedia-se “intervenção militar”. No decorrer das investigações sobre a tentativa de golpe de Estado, Bolsonaro foi denunciado pela Procuradoria-Geral da República e preso de forma preventiva em agosto de 2025. Em setembro de 2025, foi condenado pelo STF a 27 anos e três meses de prisão pelos crimes relacionados à trama golpista. Já em março de 2026, passou a cumprir a pena em prisão domiciliar, medida posteriormente mantida pelo STF. A situação judicial de Bolsonaro se tornou, assim, um novo eixo de mobilização de seus apoiadores, que retornaram às ruas para contestar a atuação do STF e reivindicar medidas em favor do ex-presidente.
Por isso, a condução de seu julgamento resultou no retorno de apoiadores de Jair Bolsonaro às ruas em 2025, a partir de julho, ainda durante suas investigações. Um dos principais atos foi o da Avenida Paulista, em São Paulo. O motivo da reivindicação na ocasião era a atuação do STF sobre o julgamento de Jair Bolsonaro. Donald Trump criticou tal julgamento na carta em que anunciou as tarifas de 50% sobre o Brasil. Por esse motivo, nas ruas, manifestantes agradecem e pedem ajuda ao presidente dos Estados Unidos. Em 2025, o feriado da Independência do Brasil também ficou marcado pela ocorrência de manifestações em diversas cidades, nas quais se pediu anistia aos condenados pelos atos golpistas do 8 de Janeiro e por crimes contra a democracia.
Discurso pró-Trump
Em 3 de agosto de 2025, manifestantes a favor de Jair Bolsonaro organizaram nova manifestação na Avenida Paulista. Nela, mais uma vez ostentaram cartazes e faixas, nos quais pediam ajuda e agradeciam ao presidente Trump. Dizeres como “Thanks, Trump” (“Obrigado, Trump”), “Help, Trump” (“Nos ajude, Trump”) e “SOS, Trump” (“Socorro, Trump”) apareceram em diversas placas, além do hasteamento de bandeiras dos Estados Unidos.
Na mesma ocasião, Gabriel Brondi (@gabrielbrondi) publicou em sua conta no TikTok uma entrevista com uma mulher que estava nas ruas. O entrevistador perguntou: “Você acha que o Trump deve continuar pressionando?”. A mulher respondeu: “Sim. Eu acho que ele deve punir aquelas pessoas que não estão realmente respeitando os direitos humanos. Porque não é legal prender pessoas da maneira que elas estão sendo presas, sem o devido processo legal, sem o amplo direito à defesa…”. Em outro vídeo publicado por ele, uma mulher segura um cartaz, no qual se lê “SOS USA stop dictatorship Alexandre de Moraes” “(Socorro EUA pare a ditadura Alexandre de Moraes). A mesma mulher é questionada se acredita que Trump acertou ao taxar o Brasil. Ela responde: “Eu não sei se acertou, não sei se é a palavra certa. Eu sei que é uma maneira, porque nós não temos um governo, nós temos um desgoverno”.
No dia 11 de agosto de 2025, Brondi publicou outro vídeo e, nele, uma mulher agradece a Trump pela imposição das tarifas ao Brasil. A mulher afirma que a medida foi adotada, graças à amizade entre Trump e Bolsonaro, pois “não aceita prejudicar um amigo brasileiro”. Ao final do vídeo, ela acrescenta: “essa ptzada, esse Alexandre de Moraes está bagunçando o país. Então, temos que aceitar, sim, ajuda estrangeira”.
Os depoimentos apresentados ilustram a simplificação das narrativas. Mostram, ainda, como uma deturpada percepção da conjuntura política brasileira contribui para gerar cada vez mais desinformação. A afirmação de que o país vive uma “ditadura”, por exemplo, reduz a complexidade do conflito entre os Poderes a uma oposição entre um governo supostamente autoritário e uma população que necessitaria de intervenção externa. Da mesma forma, a associação direta entre as decisões do STF e uma suposta ausência do “devido processo legal” é apresentada sem consideração pelas diferentes etapas e garantias previstas no ordenamento jurídico brasileiro. Nesse processo, questões jurídicas e políticas complexas são reorganizadas em narrativas de fácil compreensão e forte apelo emocional, nas quais o conflito institucional é interpretado como evidência de uma ruptura democrática.
A circulação dessas narrativas é potencializada pelas redes sociais, que funcionam não apenas como espaço de divulgação de informações, mas também como instrumentos de mobilização política. Essa dinâmica encontra explicação na chamada economia da atenção. Como observou Herbert Simon, no livro Designing Organizations for an Information-Rich World (The Johns Hopkins Press, 1971), em um ambiente de crescente abundância informacional, o recurso escasso deixa de ser a informação em si e passa a ser a capacidade humana de processá-la. Isso faz da atenção, segundo a formulação posterior de Michael Goldhaber em The Attention Economy and the Net (First Monday, 1997), a verdadeira moeda de disputa entre plataformas, criadores de conteúdo e atores políticos. Nessa lógica, conteúdos curtos, depoimentos individuais e mensagens de forte carga emocional são favorecidos, justamente, por sua capacidade de capturar e reter a atenção do público de maneira mais eficiente do que explicações complexas ou matizadas.
Essa arquitetura comunicacional favorece a construção de interpretações dicotômicas, nas quais os atores políticos são apresentados como aliados ou inimigos, e a explicação de acontecimentos complexos é reduzida ao seu mínimo. Tal simplificação não é incidental. Ela constitui, em si, um mecanismo de mobilização emocional: a manutenção de um estado de ansiedade, crise e ameaça constante funciona para suspender o julgamento analítico racional. Gera-se, com isso, um estado de vulnerabilidade, no qual o público passa a aceitar discursos de exceção. Nesse contexto, a repetição de determinadas alegações pode contribuir para sua naturalização entre os grupos que compartilham essas mesmas referências políticas, ainda que tais afirmações não sejam acompanhadas de evidências suficientes para sustentá-las.
No ato de 7 de Setembro de 2025, havia sósias de Donald Trump e cartazes com dizeres como “I love Trump” (“Eu amo Trump”). Além disso, manifestantes foram incentivados a hastear bandeiras dos Estados Unidos e a proferir frases como “America salve o Brasil”. Na Avenida Paulista, uma grande bandeira dos Estados Unidos foi estendida, acompanhada de cartazes em inglês com dizeres como “We shall never surrender” (“Não devemos nos render nunca”) e “Trump Magnitsky law” (“Lei Magnitsky de Trump”), referências às possíveis sanções sobre o ministro Alexandre de Moraes. O que se observa nos eventos descritos é a mobilização da narrativa pró-Trump com base no posicionamento do presidente norte-americano diante de possíveis ataques à liberdade de expressão. Essa narrativa se apoia, especialmente, nas críticas de Trump a decisões do STF relacionadas às plataformas digitais e em sua defesa pública de Jair Bolsonaro.
A relação entre Jair e Trump advém de uma estratégia política. Ambos estão localizados no espectro da Nova Direita, orientados por ideias como antiglobalismo e anticomunismo, defesa de valores conservadores, desconfiança em relação às instituições democráticas tradicionais, crítica à imprensa e às “elites”, além do uso intensivo de tecnologia e de teorias conspiratórias como instrumento político.
Desse modo, observa-se a formação de uma cadeia de equivalências ideológicas e simbólicas entre ambos os líderes. Jair Bolsonaro reiterou, em diversas ocasiões, sua admiração por Trump e, durante seu governo, buscou um alinhamento preferencial, automático e acrítico com os Estados Unidos. Contatos pessoais, encontros oficiais, articulações estratégicas e redes de cooperação transnacional foram mobilizados nesse período. Personalidades do bolsonarismo, como Eduardo Bolsonaro e Olavo de Carvalho, desempenharam papel ativo na articulação com atores influentes da extrema direita estadunidense. Destaca-se a figura de Steve Bannon — ex-estrategista-chefe da Casa Branca e antigo diretor do portal Breitbart News, apontado como um dos principais articuladores globais desse movimento —, que promoveu o pensamento de Olavo de Carvalho nos Estados Unidos e manteve interlocução direta com Eduardo Bolsonaro, ao lado de outros nomes centrais na formulação e difusão de estratégias da Alt-Right, como Stephen Miller e influenciadores do ambiente digital.
Contradições
Embora exista identificação entre ambas as personalidades e suas ideologias, os pedidos formulados pelos manifestantes apresentam contradições irreconciliáveis, quando examinados sob a ótica do interesse nacional, da soberania e da coerência política – especialmente quando confrontados com o patriotismo reivindicado pela Nova Direita brasileira.
Em primeiro lugar, o bolsonarismo, alicerçado no slogan “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, transmite uma defesa enfática da soberania. No entanto, solicitar que Trump “salve o Brasil”, “intervenha” ou “puna autoridades brasileiras” fere diretamente o princípio da autodeterminação dos povos, um dos pilares normativos do sistema internacional contemporâneo e um dos princípios fundamentais das relações exteriores brasileiras, inscrito na Constituição federal. Somado a isso, os Estados Unidos não têm obrigações constitucionais ou legais com o Brasil. Dessa maneira, qualquer decisão tomada por Washington será orientada exclusivamente por seus próprios interesses. Por consequência, tal demanda desloca o centro decisório do território nacional para uma potência estrangeira, comprometendo a autonomia política brasileira.
O cenário se deslocou para o campo da intervenção eleitoral. Além das sanções econômicas, o governo estadunidense manifesta ativamente seu favorecimento a uma candidatura (a de Flávio) e a uma possível vitória bolsonarista nas eleições de 2026. Chegou, inclusive, a tentar enviar dois de seus homens ao Brasil para avaliar e questionar o funcionamento e a confiabilidade das urnas eletrônicas.
Em adição, pedidos de intervenção reforçam o padrão que Immanuel Wallerstein (Boitempo, 2007) denominou “Universalismo Europeu”, uma retórica de dominação que legitima a submissão de países periféricos aos interesses das Grandes Potências. Apoiar tarifas impostas ao Brasil ou pedir que o governo norte-americano “puna” instituições brasileiras reforça a lógica (incorreta) de que o Brasil não é capaz de gerir seus próprios conflitos e deve aceitar custos econômicos e políticos em troca de uma suposta proteção externa. Isso se aproxima de uma lógica colonial moderna, em que não há ocupação territorial direta, mas sim tutela política e dependência estrutural.
Do ponto de vista econômico, políticas tarifárias são instrumentos clássicos de protecionismo, cujo objetivo é favorecer a produção nacional e proteger setores da economia doméstica diante da concorrência externa, ainda que sua adoção possa gerar impactos negativos sobre os parceiros comerciais. No caso em análise, trata-se de uma política voltada para a proteção dos interesses econômicos dos Estados Unidos. Ao apoiar tais medidas, os manifestantes ignoram que os principais setores afetados pertencem, justamente, à base econômica e eleitoral do bolsonarismo, como exportadores brasileiros de aço, alumínio e derivados, e parte significativa do agronegócio.
A celebração de medidas protecionistas estadunidenses revela, portanto, uma incompreensão elementar sobre interesse nacional. Tarifas não são demonstrações de amizade entre países, mas instrumentos de disputa econômica, alinhados aos objetivos internos dos EUA.
Acima de tudo, a defesa da intervenção externa viola o próprio princípio democrático que alguns manifestantes defendem. Em seus discursos, dizem viver em uma ditadura, pedem mais democracia e reivindicam o respeito do “devido processo legal”. A ironia é que a mera possibilidade de que esses grupos possam se manifestar publicamente contra o governo e o Poder Judiciário constitui um indicativo fundamental da preservação das liberdades políticas e, portanto, da existência de um regime democrático e de Estado de Direito. Solicitar a intervenção externa equivale a contribuir para a suspensão dos direitos civis e da soberania popular, pois desconsidera os mecanismos institucionais internos de resolução de conflitos e a vontade da maioria dos cidadãos brasileiros que elegeram o governo vigente.
2026: a escalada de uma dependência anunciada
O 7 de Setembro deste ano (2026) volta a repetir os símbolos e retóricas mobilizados em 2025. Novos elementos foram inseridos ao discurso, como o caso do Banco Master, cujos desdobramentos trouxeram à tona não apenas o envolvimento do senador Flávio Bolsonaro (RJ-PL), mas também da troca de mensagens entre o banqueiro Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes. Esses casos afloram ainda mais o emocional e o extremismo das massas, tornando o espaço político às vésperas do segundo turno da eleição presidencial, ainda mais polarizado, carregado de escândalos, inconsistências políticas e confusão.
Nesse mesmo cenário, ganhou repercussão, em setembro de 2026, a denúncia do então candidato a presidente Renan Santos — ainda não comprovadas e contestadas pelos citados — de que a campanha presidencial de Flávio estaria recebendo financiamento ilegal da Rockbridge Network, uma rede de financiadores políticos norte-americanos alinhada ao presidente Donald Trump e fundada pelo vice-presidente J.D. Vance. Se confirmada, tal denúncia configuraria violação direta à legislação eleitoral brasileira, que veda doações estrangeiras a candidaturas nacionais. Independentemente do desfecho judicial dessas acusações, sua própria existência é sintomática: revela como a aproximação retórica e simbólica entre bolsonarismo e trumpismo, analisada ao longo deste texto, já não se limita ao plano discursivo das manifestações de rua, ou do “campo das ideias” de eleitores extremados. Ela passa a ser associada, publicamente, a mecanismos concretos de ingerência financeira estrangeira no processo eleitoral brasileiro.
A análise das manifestações pró-Bolsonaro demonstra, assim, que a invocação de Donald Trump como agente externo em questões brasileiras é a concatenação de uma série de incongruências, que intensificou o risco de forma progressiva. O que, em 2021, manifestava-se como pedidos pontuais de apoio moral e legitimação simbólica, converteu-se, ao longo dos anos seguintes, em demandas cada vez mais diretas por intervenção. Essa escalada revela como discursos inicialmente tratados como retórica de protesto tendem a se consolidar e a se materializar em práticas concretas, quando reiterados de forma contínua e não contestados institucionalmente.
O fenômeno evidencia, ainda, o papel das redes sociais não apenas como amplificadoras de desinformação, mas como instrumentos particularmente perigosos nesse processo de escalada, na medida em que operam à margem de regulações efetivas: a opacidade dos algoritmos de recomendação e a ausência de mecanismos amplos de responsabilização (accountability) permitem que esse tipo de conteúdo circule e se intensifique sem contrapesos institucionais claros. Essa dinâmica retroalimenta o próprio ciclo de radicalização retórica e torna a opinião pública cada vez mais receptiva a demandas de subordinação e de intervenção externa.
A democracia atravessa um momento de fragilidade acentuada, não pela ausência de eleições regulares, de pluralismo partidário ou de instituições formalmente ativas, mas pela erosão progressiva da confiança pública nesses mecanismos e pela naturalização de discursos que os colocam sob suspeita permanente. Se, em 2025, os manifestantes iam às ruas para pediar a “intervenção” de Trump na política doméstica brasileira, em 2026 a própria hipótese de financiamento direto a uma candidatura representaria a materialização mais grave do fenômeno aqui analisado.
Neste ponto, já não estamos mais falando de um apelo simbólico a uma potência estrangeira, mas de uma possível ingerência concreta no processo eleitoral soberano do país. Isso evidencia que a análise aqui empreendida não descreve um episódio isolado ou passageiro, mas um padrão persistente e crescente de erosão da autodeterminação nacional, mascarado sob o discurso de aliança ideológica e de amizade pessoal entre lideranças da Nova Direita transnacional.
* Acza Rodrigues é mestranda em Estudos Estratégicos da Defesa e Segurança (PPGEST/UFF) e graduada em Defesa e Gestão Estratégica Internacional no Instituto de Relações Internacionais e Defesa, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IRID/UFRJ). É pesquisadora colaboradora no OPEU e faz parte da equipe de mídias sociais. Contato: silva.acza@gmail.com.
** Revisão e edição: Tatiana Teixeira. Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU.
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