OPEU Entrevista

Parceria OPEU e Chutando a Escada: mitos e distopias nos 250 anos de ‘América’ 

Crédito da arte: Natália Constantino/OPEU 

Por Tatiana Teixeira e Filipe Mendonça* [Chutando a Escada] [America 250] 

Neste OPEU Entrevista especial, trazemos a transcrição dos principais trechos do episódio “EUA 250 anos: Mitos Fundadores e Distopia”, produzido pelo podcast Chutando a Escada e divulgado em 5 de março de 2026.

Neste episódio, a editora-chefe do Observatório Político dos Estados Unidos, Tatiana Teixeira, conversa com a professora Camila Vidal, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), sobre a permanência e a transformação de mitos, memória e identidade nestes 250 anos da Independência dos Estados Unidos. Camila é U.S. State Department alumna (SUSI 2025) e pesquisadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU) e do Instituto de Estudos sobre América Latina (IELA/UFSC).

Na abertura, Filipe Mendonça traz a seção Giro de Conjuntura, uma síntese dos acontecimentos mais importantes desse agitado início de 2026. 

Para melhor fluidez, clareza e compreensão do texto, o conteúdo foi editado e adaptado em algumas passagens. O vídeo está disponível, na íntegra, no site do Chutando a Escada, assim como no Spotify, no YouTube e no Apple Podcasts. 

 


Filipe Mendonça: Seja bem-vindo e seja bem-vinda a mais uma edição do Chutando a Escada, o primeiro episódio dessa temporada de 2026. É uma alegria inenarrável estar de volta e abrir esse ano com vocês. Para quem está chegando agora, ou para quem já é da casa, vale sempre reforçar o nosso compromisso. Chutando a Escada é um podcast de divulgação científica na área de relações internacionais. O nosso foco é o rigor e a profundidade. Para fazer isso, não teria como fazer sozinho. A gente sempre traz especialistas que realmente dominam os seus temas – pesquisadores, pesquisadoras, acadêmicas que dedicam a vida a entender os fenômenos que discutimos por aqui. 

Isso está no DNA desse projeto de divulgação científica. Por isso, inclusive, preferimos evitar a análise do calor do momento. A gente espera os temas quentes esfriarem um pouco, saírem da pauta imediata, até para dar tempo aos pesquisadores analisarem mais profundamente o que está acontecendo. Para a notícia de última hora, há muita gente boa fazendo excelentes trabalhos na podosfera e fora dela também, mas aqui preferimos esperar os acontecimentos esfriarem um pouco para poder mergulhar mais profundamente. 

E olha, o que não falta é assunto para mergulhar. Ao olhar para o que aconteceu de dezembro de 2025 – quando o último episódio do Chutando a Escada foi ao ar – até agora, março de 2026, a política internacional parece que virou de cabeça para baixo. Vimos, por exemplo, a captura e o sequestro absurdo de Nicolás Maduro em solo venezuelano por forças americanas, gerando uma crise sem precedentes na região. Vimos a pressão de Washington sobre a soberania da Groenlândia, a discussão em torno da militarização na Europa, o Oriente Médio à beira de um abismo sem fim com a guerra no Irã. Isso sem mencionar as revelações dos arquivos Epstein, a criação de um novo Conselho da Paz por Donald Trump e, dias depois, o início de uma nova guerra, o aniversário da guerra na Ucrânia, o massacre em Gaza. O mundo parece rodar numa velocidade difícil de acompanhar. 

Para dar conta dessa complexidade, nessa temporada de 2026 teremos três parcerias fundamentais que serão os pilares do nosso conteúdo durante todo o ano. A primeira é o OPEU, o Observatório Político dos Estados Unidos, ligado ao INCT-INEU, o Instituto Nacional de Estudos sobre os Estados Unidos. O episódio de hoje já é uma continuidade dessa parceria. Temos também a parceria com o Observatório da Extrema Direita, com o David, com o Casarões, com o Odilon, que produzem episódios muito instigantes para entender a extrema direita no Brasil e no mundo. E temos uma nova parceria confirmada, que é o RUSLAT: o Observatório Rússia América Latina. Vou ser muito franco: estou muito feliz com essas três parcerias. Sem elas, não haveria como tocar esse projeto. São os pesquisadores e as pesquisadoras que trazem a densidade necessária para o debate que propomos aqui. 

Quero dedicar esse episódio de abertura ao Henrique Marques Torrija. Foi a contribuição financeira do Henrique que permitiu que esse episódio fosse ao ar. Muito obrigado pela sua generosidade e por acreditar nesse projeto. 

E para começar com o pé direito, o Chute 388, de 5 de março de 2026, traz uma conversa com o OPEU sobre os 250 anos da independência dos Estados Unidos. Para isso, contamos com a âncora do podcast, a Tatiana Teixeira, e com a professora Camila Vidal, da Universidade Federal de Santa Catarina, que discutem os mitos fundadores, o conceito de destino manifesto e o excepcionalismo americano – tudo muito importante, inclusive, para entender o trumpismo e o unilateralismo agressivo que está remodelando o mundo hoje. 

*** 

Tatiana Teixeira: Hoje vamos aproveitar os 250 anos da independência dos Estados Unidos, celebrados em 2026, para fazer um exercício que é histórico, mas também político: revisitar a fundação do país para entender como essa origem foi narrada, disputada e mobilizada ao longo do tempo. Para essa conversa recebo novamente a professora e pesquisadora Camila Vidal, da Universidade Federal de Santa Catarina. Camila já participou outras vezes do Chutando a Escada e eu recomendo que vocês ouçam os episódios anteriores. Camila, seja muito bem-vinda. É muito bom ter você de volta. 

Camila Vidal: Obrigada, Tati. É um prazer estar aqui no Chutando a Escada. Como você mencionou, sou professora na Universidade Federal de Santa Catarina, pesquisadora do INCT-INEU junto com você e outros colegas nossos, inclusive o próprio Filipe. Faço parte do Instituto de Estudos sobre América Latina, na UFSC, e sou aluna do SUSI for Scholars de 2025. 

Tatiana Teixeira: Vou direto ao nosso tema. Queria começar mencionando um livro que dialoga muito com o que vamos discutir hoje: Mitos sobre a Fundação dos Estados Unidos, do historiador Ray Raphael. Nesse livro, ele mostra como a independência americana é narrada de uma forma quase irresistível: simples, linear, heroica, moralmente clara. É uma história que fala de um povo oprimido, mas vencedor; de líderes que são heróis visionários; de uma ruptura corajosa com a tirania; de uma liberdade duramente conquistada. 

Segundo Raphael, essa história foi sendo organizada com o correr do tempo, por meio de repetição contínua e memória seletiva, com a ajuda instrumental das artes visuais e da tradição oral, até se tornar uma narrativa imobilizadora. Assim foi-se inventando um passado bonito, glorioso, patriótico e inspirador – um roteiro que pode ser facilmente adaptado para diferentes usos políticos em diferentes circunstâncias. E a gente viu isso acontecer, reiteradamente, ao longo da história americana. Nesse momento em que os Estados Unidos celebram os seus 250 anos de Independência, o que exatamente está sendo celebrado, Camila? 

Camila Vidal: Excelente essa sua apresentação inicial, Tati. De fato, vamos celebrar os 250 anos da Independência dos Estados Unidos, mas, como você mesmo comentou, é uma perspectiva bastante romantizada, fundada num mito acerca de um excepcionalismo estadunidense. Queria depois voltar a isso e tratar um pouco de como vemos as próprias origens desse excepcionalismo no momento em que chegam às colônias. 

É uma narrativa que mobiliza uma série de artifícios e ferramentas – seja a partir da própria comemoração, mas também de um conjunto de símbolos mobilizados ao longo de todo o ano, não só no momento da data. Ela está fundada no mito de um povo sofrido, trabalhador, virtuoso, que sofria uma série de estratégias de opressão por parte da aristocracia inglesa e resolve se sublevar numa revolução pela independência. A partir daí, outros mitos são criados, como o mito de um país, onde a liberdade é um dos bens mais importantes. A declaração de que todos são criados iguais faz parte desse mito. 

A própria história da independência mobiliza um conjunto de narrativas e símbolos para resgatar essa visão romantizada. A comemoração dessa data nos Estados Unidos é, anualmente, uma grande festa que mobiliza toda a sociedade. Cada bairro, cada condado faz uma apresentação com música, onde o hino dos Estados Unidos é cantado, as pessoas levam suas cadeiras, sentam no gramado e, ao fim da noite, há a queima de fogos de artifícios – além de souvenirs variados sendo vendidos em tudo que é loja. 

De modo que mobiliza toda a sociedade dentro de uma perspectiva romantizada de virtuosidade de um passado muito heroico. Isso se reflete, também, no ensino escolar, retratado de forma linear e simples: foi um conjunto de legislações que a Inglaterra começou a colocar e que punia esse povo sofrido nas colônias. Essa narrativa é reiterada nos museus, nos filmes, nas séries, e é usada a todo momento e desde muito cedo. Um dos exemplos que dou em sala de aula: durante uma estadia em Washington, deparei com um outdoor convidando crianças a dormirem com a Declaração da Independência. Fui atrás disso e descobri que é uma iniciativa do próprio museu do National Archives. Eles abrem algumas vezes ao ano para que crianças possam dormir naquele espaço, aprendendo sobre a história e fazendo atividades. Vejam como isso é mobilizado de forma lúdica desde muito cedo. 

Esse ano, com o Trump, a gente vai ver essa romantização ainda mais enfatizada. O Trump rejeita uma leitura crítica – inclusive já criminalizou esse tipo de leitura, como outros governantes de estados que colocaram legislações, proibindo uma perspectiva crítica da história dos Estados Unidos. Imagino que ele vá retomar esse passado romantizado, calcado no mito de um povo heroico e virtuoso. 

Episódios do Chutando a Escada sugeridos pela editora
372 A batalha pela memória nos Estados Unidos, com Mary Anne Junqueira, Tatiana Teixeira e Andressa Mendes
303 O Poder das Ideias e a Manutenção Hegemônica, com Camila Vidal e Filipe Mendonça
366 USAID sob Trump 2.0, com Camila Vidal e Tatiana Teixeira

Tatiana Teixeira: Falando nisso, me lembrei que tanto eu quanto você estivemos lá no ano passado por conta do SUSI: eu, com política americana; e você, com política externa. Me lembrei do meu Quatro de Julho, em Chesterfield, Massachusetts, uma cidade com cerca de mil habitantes. Foi muito interessante acompanhar essa data numa cidade pequena, porque ali todos esses elementos gritam de uma maneira muito reveladora para quem é um observador estrangeiro e pesquisador. 

Saí entrevistando as pessoas, perguntando o que é o Quatro de Julho para elas. Em algumas horas, falei com umas cem pessoas. Duas coisas me impressionaram. Primeiro: a palavra “democracia” apareceu pouquíssimas vezes. A palavra que mais surgiu foi “liberdade”. Segundo: muitas pessoas falaram em estar junto do vizinho, da família – um senso de comunidade. Isso nos mostra como esses símbolos são mobilizados e como a gente pode interpretá-los. 

Tem uma linha interpretativa importante sobre isso: a do historiador Gerald Horne, autor de A Contrarrevolução de 1776 (tradução literal do título). Nesse livro, ele argumenta que a independência também foi uma forma de proteger a escravidão. Segundo ele, parte das elites coloniais teria temido movimentos britânicos que podiam ameaçar a ordem escravocrata. Como esse debate muda a forma como entendemos essa data, Camila? 

Contrarrevolução e escravidão 

Camila Vidal: O livro do Gerald Horne é interessante, porque é um dos primeiros a desmistificar esse passado glorioso da independência dos Estados Unidos. Em uma entrevista que vi, ele disse que não foi difícil evidenciar empiricamente que a chamada revolução pela liberdade não foi uma revolução, mas uma contrarrevolução para manter a estrutura escravocrata e para continuar a aquisição de terras dos nativos. E disse: os documentos estavam lá, os relatos estavam lá. Por que só ele conseguiu trazer essa leitura mais crítica? Porque, sendo um professor universitário negro, olhou com uma perspectiva crítica e focou em relatos e documentos que outros pesquisadores não enfatizariam. Ele explica por que isso é tão recente: até fins da década de 1960, havia segregação racial, com grande dificuldade de acesso à universidade e à docência como professor negro. Isso demorou a tal ponto que só no século XXI conseguiu escrever essa obra. 

O argumento de Horne é o seguinte: existia uma revolução em curso na Inglaterra e nas colônias inglesas – uma pressão pelo fim da exploração das terras dos nativos e pelo fim da escravidão. Desde meados da década de 1760 – lembrando que a Declaração de Independência foi em 1776 –, houve um clamor popular no Reino Unido pelo assassinato de nativos e pela aquisição de terras por parte dos colonos. A visão inglesa sobre os nativos era a de um certo paternalismo: a de que eles precisavam de ajuda e poderiam ser “educados” na religião e nas leis inglesas. 

Da mesma forma, nesse período circulou uma série de petições, demandando o fim da escravidão nas colônias. O estopim foi a circulação de uma imagem de um navio negreiro – aquela imagem muito conhecida que mostrava o máximo de pessoas escravizadas que cabiam no navio, usada como propaganda –, o que pegou muito mal na Inglaterra. Não à toa, no início da década de 1770, os Estados Unidos começaram a revogar direitos ligados à escravidão nas ilhas caribenhas. Esse movimento ia chegar mais cedo ou mais tarde às Treze colônias. O cálculo dos colonos foi: antes que chegue aqui, lideramos uma independência e mantemos nossa estrutura escravocrata, especialmente no Sul, enquanto seguimos expandindo fronteiras a Oeste. 

Se pararmos para analisar, a Independência dos Estados Unidos não alterou a estrutura escravocrata. Durante a própria Guerra de Independência, os negros libertos do Norte lutaram ao lado da coroa britânica. Sabiam que, se os Estados Unidos se tornassem independentes, a escravidão seria mantida. Foram cerca de 20 mil homens negros que lutaram pela coroa e cerca de 5 mil que lutaram ao lado dos colonos. Com a Independência, consolidou-se o modelo de mão de obra livre no Norte, e mão de obra escravizada, no Sul – ainda que o Norte também fosse conivente, pois os navios do tráfico de escravos saíam daquela região e por lá eram embarcadas as mercadorias exportadas pelo Sul. 

Os próprios pais fundadores eram escravocratas: cerca de dois terços deles eram proprietários de escravizados. O primeiro presidente, George Washington, escravizou quase 700 pessoas. O presidente do Congresso Continental, Henry Laurens, era traficante de escravizados. James Madison era proprietário de mais de 100 escravizados. James Monroe, de quase 200. Thomas Jefferson, de mais de 600 – e é dele que vem a célebre frase de que todos os homens são criados iguais, ao mesmo tempo em que ele violentou sexualmente uma escravizada e teve filhos com ela. 

Obras mencionadas no episódio
Who Are We? The Challenges to America’s National Identity, Samuel Huntington, 2004
Mitos sobre a fundação dos Estados Unidos, Ray Raphael, 2006
The Counter-Revolution of 1776, Gerald Horne, 2014 

Tatiana Teixeira: A própria solução do Colégio Eleitoral, a questão do direito de voto. São iguais entre iguais. São esses que merecem ter seus direitos preservados. 

Camila Vidal: Exatamente. É o que Gerald Horne e outros fazem: uma leitura verdadeiramente crítica desse período. Isso é cada vez mais difícil, ainda mais com Donald Trump no poder, porque esse tipo de leitura é visto como traição, como antipatriotismo. 

Raízes do excepcionalismo americano 

Tatiana Teixeira: No início da conversa, você falou que queria voltar ao excepcionalismo americano, que é um elemento central da formação da identidade americana. É a crença de que os Estados Unidos seriam diferentes, moralmente superiores, historicamente únicos. Eles inventaram um passado moldado à preferência dos seus fundadores. Essa distinção em relação a todos os demais países tem raízes religiosas, especialmente na tradição puritana, na figura da “Cidade sobre a colina”, e, em algum momento, se seculariza. De onde vem essa noção de singularidade e por que ela foi tão duradoura? 

Camila Vidal: Essa narrativa se mantém até hoje, porque é contada e recontada a todo momento — na escola, na família, na igreja, no museu, em Hollywood. Ela vem da própria formação das Treze colônias. 

A ida para o continente americano foi uma tentativa de preservação da vida – especialmente para os que vinham de perseguições religiosas –, mas também uma forma de descarregar nesse “Novo Mundo” o que não fosse mais desejável no “Velho Mundo”: os outsiders da religião, mulheres sem marido, crianças órfãs pobres, devedores. Em 1620, por exemplo, a Companhia de Londres levou 100 órfãos para a Virgínia. Mulheres eram transportadas para leilão. Devedores iam para as colônias em servidão temporária para pagar suas dívidas. E, sobretudo, os quakers, puritanos e protestantes calvinistas, que sofriam perseguições religiosas na Inglaterra e viram nas colônias um refúgio. Esses peregrinos puritanos, já embarcados a caminho da América, se mobilizaram para criar – nessa leitura romantizada – uma sociedade baseada em leis justas e iguais, sem perseguição religiosa. É o que chamam de Mayflower Compact: o mito da América como nova sociedade justa de iguais. 

Esse mito da América com propósito divino vem daí. Os puritanos entendiam que eram um grupo escolhido por Deus para criar uma sociedade especial. Herman Melville, em 1843, escreveu: “Nós, americanos, somos o povo peculiar, o povo escolhido, o Israel de nossos tempos. Nós carregamos a arca das liberdades do mundo”. Dessa superioridade derivou a necessidade de exportar esse modelo para outros países; “ajudar”, entre todas as aspas possíveis, os que ainda não chegaram nesse nível. 

Eu sempre trago em sala de aula o quadro do John Gast, “American Progress”, porque ali está a ilustração dessa mentalidade. Do lado direito, a Costa Leste – clara, organizada, com navios e trem. Uma figura feminina divina, a Colúmbia, levando um cabo de telégrafo numa mão, e um livro escolar, na outra, avançando em direção ao Oeste – o lado escuro da tela, onde tudo é desorganizado, com nativos fugindo. É a demonstração de que “estamos levando a luz, literalmente, para vocês”. 

Thomas Jefferson escreveu que, se um viajante atravessasse o continente de Oeste a Leste, estaria conduzindo uma investigação no tempo sobre o progresso do homem, dos primórdios da criação até os dias de hoje – dos “selvagens” das Montanhas Rochosas até os “cidadãos pioneiros no avanço civilizatório”. Isso vai justificar toda a ideia do destino manifesto. 

Destino Manifesto e expansionismo 

Tatiana Teixeira: Quando a noção de excepcionalismo vira uma ideia de missão, de projetar esse modelo para o mundo, ela se traduz num princípio: o país estava destinado a se expandir pelo continente e tinha o direito divino de fazer essa expansão. Como se dá essa passagem do excepcionalismo para o expansionismo, e como isso molda a relação com os povos originários e com a América Latina? 

Camila Vidal: O Destino Manifesto foi mobilizado como uma justificativa ideológica para o injustificável: como um povo que se proclama defensor de leis justas e iguais justificaria a apreensão de terras e, portanto, a morte e o confinamento de comunidades inteiras de nativos? Isso se tornou ainda mais visível, quando se descobriu ouro em terras próximas à Califórnia, inclusive em espaços onde os nativos já estavam confinados. 

O termo “Destino Manifesto” foi cunhado pelo jornalista John L. O’Sullivan, editor de um jornal de Nova York, e vai dizer que os Estados Unidos têm que cumprir seu Destino Manifesto: se expandir no continente. Nas palavras dele: “É direito do nosso Destino Manifesto se espalhar e possuir o continente, o qual a Providência nos deu, para o desenvolvimento do grande experimento da liberdade”. Um contrassenso evidente – falar em levar a liberdade, enquanto se aprisiona e mata nativos –, mas baseado na noção prévia de superioridade. 

Uma das formas concretas de aplicação do Destino Manifesto foi o que chamaram de “civilizar” os nativos. Em 1871, o Congresso dos Estados Unidos aprovou uma lei com esse objetivo. Ali estava exposto que custa menos “civilizar” do que matar. A ideia era focar nas crianças: retirá-las de suas comunidades e famílias, destruir a cultura nativa, a língua, o credo, a história, e levá-las para escolas em formato de internato. O educador Richard Pratt, principal nome dessas boarding schools, sintetizou: “Mate o índio, salve o homem”. Nessas escolas, também se reproduzia uma visão patriarcal: meninos cuidavam dos cavalos, meninas cuidavam da casa. 

Imperialismo na América Latina 

Camila Vidal: Esse imperialismo pedagógico foi e é conduzido também no âmbito da América Latina. A primeira incursão clara de política externa agressiva foi o papel dos Estados Unidos na Guerra Hispano-Americana de 1898, com William McKinley – com a justificativa de “libertar” Cuba da Espanha. Ao fim dessa guerra, os Estados Unidos assumiram o controle formal das Filipinas, de Porto Rico – que não tem soberania até hoje – e de Guam. Começou assim o imperialismo na América Latina que se mantém até hoje. 

A justificativa ideológica está sempre muito presente. É “libertar” Cuba, é “ajudar” o Panamá. Logo após a Guerra Hispano-Americana, Rudyard Kipling publicou “O Fardo do Homem Branco”, evidenciando a noção de que esse povo “superior” tem um fardo: educar, libertar, civilizar outras nações. 

O que quero enfatizar é que essa ideia de virtuosidade como justificativa para práticas imperialistas é antiga. Não foi criada agora com o Trump. Mas sempre se manteve com uma roupagem virtuosa e louvável que justificava as intervenções: vamos levar a liberdade, vamos levar a democracia. Isso parte do pressuposto de que os estadunidenses são seres excepcionais, superiores. Se me coloco num patamar superior, me dou o direito de ensinar os “pobres coitados” que ainda não chegaram a essa superioridade. Há um certo racismo com relação ao diferente, ao outro – a relação do “nós versus os outros”. 

Se você for ver os formulários de imposto de renda de grande parte das organizações governamentais e não governamentais que atuam na América Latina – como o NED, a USAID, a Atlas Network, a Freedom House –, a missão principal é “educar”. Já se parte do pressuposto de que quem educa sabe mais. O excepcionalismo é o que sustenta uma política externa imperialista por parte dos Estados Unidos. 

Identidade, Trump 2.0 e o declínio do excepcionalismo 

Tatiana Teixeira: Isso não é só na política externa. Huntington, em Quem Somos Nós (tradução literal do título em inglês), defendia que a identidade americana teria sido moldada por uma matriz protestante, branca, individualista, e que o crescimento da população hispânica estaria descaracterizando essa identidade. O movimento que vemos hoje é, de certa forma, uma tentativa de reverter esse processo. 

Quando olhamos para os dados do censo, o país hoje é, majoritariamente, não homogêneo, com um crescimento expressivo da população latina, asiática, multirracial. Ao mesmo tempo, pesquisas mostram aumento da percepção de declínio do país, tanto internamente quanto externamente, e aumento da percepção de polarização social e política. A parcela que está no poder, que foi beneficiada por todos os direitos e conquistas dos Estados Unidos, sente-se ameaçada por essa transformação. 

O que acontece quando uma identidade construída sobre a grandeza e o excepcionalismo – símbolos onipresentes em qualquer café, biblioteca, universidade ou rua nos Estados Unidos – passa a sentir ameaça e substituição? 

Camila Vidal: O declínio que você menciona é visível. Os dados falam por si: hoje há jovens que acham mais vantajoso economicamente não ir para a universidade, porque sabem que sairão com um crédito estudantil que não conseguirão honrar. Pela primeira vez na história, os filhos não terão uma qualidade de vida tão boa quanto a dos pais. É uma sociedade que não está progredindo nesse sentido. 

Mas é difícil para o estadunidense entender esse declínio e fazer frente a ele, porque isso implicaria uma crítica a uma série de estruturas. A ideia de que o país é o berço da democracia e da liberdade está tão arraigada que, mesmo diante de políticas claramente autoritárias do governo Trump, as pessoas dizem “parece que está caminhando para um rumo um pouco mais autoritário” – esse caminho nunca chega. Como pode ser o berço da democracia e ao mesmo tempo um regime autoritário? Isso não entra na psique. Existe uma barreira criada durante anos de exposição ao mito fundacional que não permite fazer essa revisão. 

Tatiana Teixeira: Essa revisão significaria, na verdade, uma revisão existencial. 

Camila Vidal: Exatamente. Como dizer que é um país berço da democracia quando, até ontem, havia segregação racial legalizada na metade do país? A Freedom House sempre colocou os Estados Unidos no percentil mais alto em termos de democracia – mesmo durante a segregação racial. Para entender esse declínio e fazer frente a ele, é preciso mexer nesses fantasmas. E é nesse momento que ascendem lideranças como Trump, resgatando mitos fundacionais e um passado romantizado e heroico que nunca existiu, trazendo uma solução simples, fácil – e de quebra culpando os outros pelos problemas causados pelos próprios estadunidenses. 

Tatiana Teixeira: E Trump se concentra num conceito de liberdade muito mais claro, com um significado mais acessível para um público amplo do que a democracia, que foi a palavra na qual Biden se concentrou. Nem todo mundo sabe o que é democracia e se vê beneficiado por ela dentro do que deveria receber por viver numa democracia. Trump se conecta com o que as pessoas entendem, com o que lhes é mais palpável. 

Camila Vidal: Exatamente.

 

Tatiana Teixeira é editora-chefe do Observatório Político dos Estados Unidos (OPEU), pesquisadora de Pós-Doutorado da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e U.S. State Department Alumna (SUSI 2025). 

Filipe Mendonça é professor da Universidade Federal de Uberlândia (IERI/UFU) e fellow na The Academy of International Affairs NRW, Bonn. Também é pesquisador do INCT-INEU e tutor host do Podcast Chutando a Escada. Além de Poder e comércio, é autor do livro Entre a teoria e a história: A política comercial dos Estados Unidos na década de 1980. 

** Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU.

*** Sobre o OPEU, ou para contribuir com artigos, entrar em contato com a editora Tatiana Teixeira, no e-mailtatianat19@hotmail.com. Sobre as nossas Newsletters, para atendimento à imprensa, ou outros assuntos, entrar em contato com Tatiana Carlotti, no e-mailtcarlotti@gmail.com.

 

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