O futuro como retorno ao passado na Estratégia de Segurança Nacional dos EUA
Crédito: Ilustração gerada por Inteligência Artificial (ChatGPT/OpenAI)
Dossiê “Trump 2.0 e o golpe na Venezuela“
Por Lívia Peres Milani* [Informe OPEU] [Venezuela] [Estratégia de Segurança Nacional] [Doutrina Monroe] [América Latina] [Trump 2.0] [NSS 2025] [Hegemonia]
A elaboração de uma estratégia envolve a formulação de uma visão de futuro desejável, mesmo que de forma incipiente ou implícita. Uma estratégia é uma conjugação de meios para atingir objetivos pré-definidos e, assim, orienta-se para a construção do porvir, a partir de ações presentes. No caso das Estratégias de Segurança Nacional (NSSs) dos EUA, as visões de futuro envolvem uma discussão sobre ordem internacional e o papel da potência em liderá-la. Como ressalta Bernabé Malacalza em seu capítulo no livro La impetuosa irrupción del Sur (Siglo XXI Editores, 2024), a discussão acadêmica sobre ordem internacional tem dimensões não apenas descritivas, mas também normativas. Estas se referem aos debates sobre quais deveriam ser, idealmente, os princípios, normas e regras da governança global em um futuro desejável.
Tendo como base este aporte, neste texto buscamos sintetizar as visões de futuro presentes na NSS divulgada pelos EUA em dezembro de 2025. Estas visões podem ser lidas a partir de três eixos narrativos, dois referentes à política externa, e um, à interna. No plano interno, há à narrativa de restauração de “valores tradicionais”, com a retórica de “salvação da nação” – o futuro almejado, portanto, é o de resgate de um passado de grandeza. No plano externo, há uma projeção destes valores “tradicionais” na discussão de ordem global e uma narrativa de primazia estadunidense, ainda que contida. A visão projetada é de uma ordem internacional que se mantém hierárquica, fundada na preeminência dos EUA em grande parte do globo, mas que se torna ainda menos tolerante e inclusiva.
Política interna: a América restaurada
O lema “Make America Great Again” expressa um diagnóstico de declínio social e internacional. A própria ideia de tornar a América “grande novamente” pressupõe que ela já não o seja. Como sintetizado no livro World of the Right (Cambridge University Press, 2024), esta narrativa é própria de um conservadorismo radical, vertente ideológica que interpreta o presente como degeneração social e propõe a restauração de um passado idealizado. Diferentemente do conservadorismo moderado, que resiste a mudanças abruptas e defende o status quo, o conservadorismo radical é reacionário, pois anseia por um retorno ao passado, vê a necessidade de restauração. Nesta visão, é necessário, portanto, uma ruptura de tendências atuais, mudando o curso da História e proporcionando um retorno aos valores supostamente perdidos.
Saiba mais
‘The MAGA Doctrine’, manual e legado de Charlie Kirk (parte II)
Esta visão reacionária, já presente nos discursos eleitorais que levaram Trump ao governo, foi incorporada à NSS em 2025. O documento apresenta a narrativa de enfraquecimento interno dos Estados Unidos atribuído à incorporação de direitos de diversidade, equidade e inclusão (DEI) nas políticas públicas. Estes direitos são descritos na NSS como “discriminatórios e anticompetitivos”, supostamente “degradando nossas instituições e nos impedindo de avançar” (p. 6).
A meritocracia é apontada como base da inovação e da competitividade estadunidense, mas estaria ameaçada por “ideologias radicais que buscam substituir competência e mérito pela inclusão de determinados grupos, o que tornaria os Estados Unidos irreconhecíveis e incapazes de se defender” (p. 11). Entre os valores importantes para a restauração interna dos EUA, aparecem com clareza os da “família tradicional” e da homogeneidade nacional. Entre os “direitos naturais”, são destacadas as liberdades religiosa, de expressão e de consciência.
Como aparece no documento:
“Queremos a restauração e o revigoramento da saúde espiritual e cultural americana, sem os quais a segurança a longo prazo é impossível […]. Isso não pode ser alcançado sem um número crescente de famílias fortes e tradicionais que criem filhos saudáveis” (p. 4).
O suposto passado glorioso também aparece na narrativa de soberania, equalizada com o “controle total” de fronteiras. A NSS pontua, explicitamente, uma vinculação entre futuro e soberania: “Quem um país admite em suas fronteiras […] inevitavelmente definirá o futuro dessa nação. Qualquer país que se considere soberano tem o direito e o dever de definir seu futuro” (p. 11).
No diagnóstico da NSS, os EUA não são mais soberanos – já que há uma suposta “invasão” de estrangeiros. Assim, retomar a grandeza da nação implicaria domínio sobre as fronteiras, especialmente com a detenção de fluxos de pessoas e drogas, em muitos casos provenientes da América Latina. Em síntese, a NSS apresenta uma narrativa reacionária para a política interna, pois o futuro desejável é a reconstrução de um passado imaginado como glorioso. Ao mesmo tempo, esta visão doméstica é transportada para a Política Externa.
Política Externa como projeção da América restaurada
A projeção externa dos “valores tradicionais” é direcionada, especialmente, para dois temas: o das Organizações Internacionais (OIs) e o das relações com a Europa. No primeiro caso, as OIs em sua configuração atual deixam de ser vistas como uma via para a projeção do poder dos EUA e são descritas como “antiamericanas” (p. 2). O discurso de soberania entra em cena mais uma vez, pois a proposta de reforma destas instituições tem como base um desejo de preservar a autonomia decisória interna, com a prerrogativa de os EUA definirem seu futuro “sem interferências” (p. 9). A visão de soberania é seletiva: ela se aplica aos EUA e, talvez, a outras potências. Claramente, não se aplica ao Hemisfério Ocidental, onde os países devem ser submetidos ao poderio americano.
Ao mesmo tempo, há a sugestão de extraterritorialização do direito interno para que os cidadãos estadunidenses tenham garantias de liberdade de expressão em todo lugar (p. 10). Neste sentido, há uma visão de futuro, na qual prevalecem os direitos individuais e um apagamento das políticas de inclusão. Trata-se de uma política para as OIs cada vez menos inclusiva e tolerante, uma vez que o objetivo de diminuir desigualdades e incluir mulheres, pessoas racializadas e marginalizadas na tomada de decisão é completamente abandonado.
Pesquise
Acesse aqui as NSSs anteriores
No que se refere à Europa, há um diagnóstico de declínio da “civilização Ocidental”, ainda mais forte que nos EUA. Neste sentido, os países banhados pelo Atlântico Norte são apresentados como parte de uma mesma unidade civilizatória, ainda que os EUA se entendam como sua face mais dinâmica. O tom é paternalista e a potência se apresenta na posição de “ajudar” os europeus a recuperarem sua glória perdida.
De acordo com o documento, a Europa enfrenta “a perspectiva real e ainda mais sombria do apagamento da civilização” (p. 23). O documento destaca como “problemas” que supostamente levam à decadência cultural os limites à soberania impostos pela União Europeia, o aumento dos fluxos migratórios, a “censura” à “liberdade de expressão” e a queda das taxas de natalidade.
Projeta-se uma visão de futuro com uma Europa orgulhosa de seu passado e celebrante de sua glória (p. 26). Em outras palavras, a Europa futura não teria pudores em relação ao seu passado de conquista, colonização e racismo. Ao mesmo tempo, o documento propõe a continuidade da aliança euro-atlântica na disputa global em curso. De forma explícita, os europeus são colocados na posição de parceiro júnior que, no entanto, paga sua parcela em termos gastos de Defesa.
Política Externa como manutenção da primazia
Além de projetar uma visão de futuro, na qual a dimensão normativa da ordem internacional tem por base “valores tradicionais”, a NSS reproduz a visão de primazia dos EUA. O documento inicia, com uma visão de futuro ancorada na manutenção de uma posição de poder.
Já na introdução, expressa o objetivo de manter os EUA como “o país mais forte, mais rico, mais poderoso e mais bem-sucedido do mundo nas próximas décadas” (p. 1). Nas páginas seguintes, a visão é reforçada com a narrativa de que os EUA devem ser superiores a outras potências em capacidade bélica e de dissuasão nuclear, em desenvolvimento econômico e tecnológico e em sua base industrial e energética. Neste sentido, há continuidade com as estratégias passadas, que apontam para a manutenção da primazia.
A novidade, contudo, é o reconhecimento dos limites desta preeminência em termos de capacidades e recursos para projeção de poder. Assim, a proposta é focar apenas em “interesses nacionais centrais”, sugerindo um recuo estratégico. Há também a aceitação de esferas de influência e o objetivo de manutenção do poder dos EUA por meio de equilíbrios de poder nos âmbitos regionais. Nesta perspectiva, a projeção de valores e visões de mundo dos EUA deveria se limitar “à Europa, à Angloesfera e ao resto do mundo democrático, especialmente nossos aliados” (p. 12).
Duas regiões se destacam como cruciais para a manutenção do poder dos EUA: o “Hemisfério Ocidental” e o Indo-Pacífico. A visão de futuro para a América Latina é de uma região sob domínio total dos EUA, enquanto o Indo-Pacífico é descrito como “aberto e livre”. Em que pesem tais diferenças, ambos são vistos como fontes de matéria-prima e de acesso americano às cadeias globais de valor. Nesta projeção de futuro, a América Latina não desafia o poder dos EUA, não envia migrantes, coopera em temas de segurança e não se envolve com outras potências em temas estratégicos. No futuro desejado, a região é vista como o quintal que fornece recursos materiais necessários para o crescimento econômico dos EUA – novamente, um retorno ao passado. O acesso a recursos naturais também é visto como proveniente do Indo-Pacífico e, portanto, a estratégia articula necessidade de conter a hegemonia chinesa na região. Nesta área, onde já houve um debilitamento mais sério do poder estadunidense, o futuro que se articula é de competição e rivalidade com a China.
O futuro como projeção de um passado imaginado
A NSS de 2025 não inova em projetar imagens de futuro que são uma continuidade com o presente e com o passado. Ao contrário, em sua maioria, nas estratégias de governos anteriores já estavam presentes visões de futuro que reproduzem a primazia estadunidense. O objetivo já costumava ser a manutenção da liderança, este era o futuro almejado, reproduzindo hierarquias internacionais. No entanto, há novidades na NSS atual, que traz uma visão reacionária, especialmente em relação aos valores que devem guiar a formulação de normas nacionais e internacionais.
Agora, fala-se em soberania (ainda que pensada apenas para as grandes potências), direitos individuais e valores tradicionais (família, decência) como pilares para a ordem global, excluindo a visão mais progressista de equidade. Assim, consensos que pareciam estabelecidos – a exemplo da necessidade de incluir mulheres, grupos marginalizados e uma visão de diversidade na construção da governança global – desmancham-se no ar. ![]()
* Lívia Peres Milani é pesquisadora do quadro permanente do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais da Unesp (IPPRI). Pesquisadora do INCT/INEU e do Grupo de Elaboração de Cenários e Estudos de Futuro (Gecef), vinculado ao Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (Gedes). Contato: livialpm@gmail.com.
** Revisão e edição: Tatiana Teixeira. Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU.
*** Sobre o OPEU, ou para contribuir com artigos, entrar em contato com a editora-chefe do OPEU, Tatiana Teixeira, no e-mail: tatianat19@hotmail.com. Sobre as nossas newsletters, para atendimento à imprensa, ou outros assuntos, entrar em contato com Tatiana Carlotti, no e-mail: tcarlotti@gmail.com.
Assine nossa Newsletter e receba o conteúdo do OPEU por e-mail.
Siga o OPEU no Instagram, X, Linkedin e Facebook
e acompanhe nossas postagens diárias.
Comente, compartilhe, envie sugestões, faça parte da nossa comunidade.
Somos um observatório de pesquisa sobre os EUA,
com conteúdo semanal e gratuito, sem fins lucrativos.