América Latina

O paradoxo entre discurso e realidade: o fantasma imperial volta a assolar a América Latina 

Fonte: Left Voice

Por Yasmim Abril M. Reis* [Informe OPEU] [América Latina] [Venezuela] [México] [Imperialismo]

Donald Trump foi eleito para o seu segundo mandato como presidente dos Estados Unidos (EUA) com a promessa de impor a lei e a ordem no país, sobretudo, no combate à guerra às drogas com foco na América Latina. Desde o dia 1 de seu governo, Trump ameaçou impor tarifas e designar cartéis de drogas dos países vizinhos como organizações terroristas. Entre esses cartéis, Trump mencionou, especificamente, as organizações mexicanas e venezuelanas. Em fevereiro, por intermédio do Departamento de Estado estadunidense, designou o Trem de Aragua, a Mara Salvavatrucha (MS-13, conhecida por essa nomenclatura) e várias outros grupos como organizações terroristas estrangeiras, sob a alegação de que representam “uma ameaça à segurança nacional, além daquela representada pelo crime organizado tradicional”.  

No dia 8 de agosto, Trump assinou secretamente, uma diretiva ao Pentágono, permitindo o uso da força militar contra os cartéis de drogas latino-americanos que o governo já havia considerado como organizações terroristas. A decisão contempla o envio de mais de 4.000 fuzileiros navais do Grupo Anfíbio Pronto (ARG) de Iwo Jima e da 22ª Unidade Expedicionária de Fuzileiros Navais, assim como membros da Marinha dos EUA para o Comando Sul. A medida também autoriza o envio de um submarino de ataque com propulsão nuclear, aeronaves adicionais de reconhecimento P-8 Poseidon, destroieres e um cruzador de mísseis guiados, alocando-os para o Comando Sul. Destaca-se ainda que, antes do envio da diretiva ao Pentágono, duas semanas atrás, o governo estadunidense adicionou à sua lista o Cartel de los Soles (ou Cartel dos Sóis) da Venezuela, associando-o ao presidente Nicolás Maduro e a outros funcionários de alto escalão o governo. 

As consequências variam, na medida em que a ordem autoriza as forças militares dos Estados Unidos a atuarem em solo extraterritorial. Isto significa que, além da possibilidade de ação militar no exterior, também há como ferramenta coercitiva a aplicabilidade de sanções econômicas, assim como ações restritivas sobre viagens de estrangeiros aos EUA. A questão econômica tem sido a modalidade que é o motor das políticas do governo Trump 2.0, a exemplo do tarifaço. Sublinha-se, além disso, que há consequências para os Estados Unidos, na medida em que a designação e restrição sobre as organizações consideradas terroristas obrigam, em teoria, empresas estadunidenses a deixarem de fazer negócios no México, já que estão sujeitas às sanções. De fato, as consequências terão efeitos para ambas as partes. O México, por exemplo, é o maior parceiro comercial dos EUA em bens, visto que muitas empresas têm operações de manufaturas no território vizinho.  

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A nova decisão tem impactos de ordem econômica e militar, sendo, portanto, os principais vetores afetados. Além disso, aciona o imaginário latino-americano de um velho período de intervenções na região que marcou o século XX. Recorda-se que, “há apenas uma década, a era de guerras, complôs de golpes e intervenções militares dos Estados Unidos na América Latina parecia estar diminuindo quando o governo Obama declarou a morte da Doutrina Monroe, que há muito afirmava a supremacia militar de Washington nas Américas”, como pontuaram Simon Romero e Annie Correal (2025), no artigo publicado no jornal The New York Times, cujo título em português é “Ordem de Trump para combater cartéis revive memórias de intervenções na América Latina”. Desse modo, podemos estar assistindo a um novo momento de inflexão das relações latino-americanas em Trump 2.0. Ante os acontecimentos, é importante questionarmos: será que, em prol dos interesses estadunidenses, o governo estadunidense voltará a ter práticas intervencionistas na região? 

Ordem de Trump revive memórias de intervenções na América Latina 

Em 2013, quando o secretário de Estado na segunda gestão de Barack Obama (2013-2017), John Kerry, afirmou que a era das esferas de influência na América Latina tinha chegado ao fim, fazendo alusão à Doutrina Monroe (1823), não se considerou o peso da declaração e seu reflexo para a política externa dos Estados Unidos. De fato, essa política norteou a política externa estadunidense para a região durante 200 anos, sendo o pilar dessa política. Em linhas gerais, aproximando-se do Corolário Roosevelt (1919), essa direção afirmava a supremacia militar dos Estados Unidos sobre o continente americano, considerado como sua esfera de influência “natural” por séculos.  

Todavia, agora, no segundo mandato de Trump, esse pilar da política externa dos Estados Unidos para a política hemisférica parece estar voltando com toda força, na medida em que “o foco do atual governo é conter o tráfico de drogas, restringir a imigração e corrigir desequilíbrios comerciais – reais ou percebidos –, o que resultou em uma retórica intervencionista que tem precedentes históricos”. De fato, o fantasma histórico que marcou o século XX com diferentes intervenções na América Latina foi reavivado com o anúncio recente do atual mandato, já mencionada. Em seu conjunto, essas decisões não indicam apenas ameaças mais agressivas contra os cartéis de drogas; elas também reafirmam sua política externa “America First”. Em outras palavras, trata-se de uma ação mais extrema e ampla do slogan “América em primeiro lugar”. Essa estratégia “remete às doutrinas do século XIX e início do século XX, defendidas por ex-presidentes como Monroe, Polk, McKinley, Jackson, Roosevelt e Wilson, todos adeptos da primazia dos EUA no Hemisfério Ocidental”. 

Um exemplo da controvérsia da atuação militar intervencionista dos Estados Unidos na América Latina foi sua atuação no México nos séculos XIX e XX. Na década de 1840, para justificar a guerra contra o México, os Estados Unidos acionaram esse imaginário político para intervir e anexar territórios mexicanos, que são hoje os estados da Califórnia, Arizona, Colorado e Novo México. Em 1910, outras intervenções aconteceram no país, em meio a um crescente sentimento nacionalista mexicano em oposição aos Estados Unidos. Esse sentimento ecoa no atual governo da presidente Claudia Sheinbaum, que recorre a ele para rejeitar o uso das forças militares dos Estados Unidos no país.  

O México e a crise do fentanil 

O combate ao tráfico de drogas e aos cartéis mexicanos é uma questão antiga na relação bilateral, sobretudo, para os Estados Unidos, que sinaliza as questões prioritárias a serem enfrentadas: segurança das fronteiras, o combate à produção de drogas e à lavagem de dinheiro, e, mais recentemente, ao fentanil. Essa última substância é um “opioide sintético até cinquenta vezes mais potente que a heroína e mais fácil de produzir”, segundo dados da Administração de Repressão às Drogas (em inglês, Drug Enforcement Administration – DEA), que é um órgão federal de segurança do Departamento de Justiça dos EUA. A substância sintética tem sido transportada por rotas como o México, por exemplo. É nesse ensejo que a discussão recente de Trump se localiza.  

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Uma pesquisa produzida pelo think tank Council on Foreign Relations (CFR) relata que, ao longo das últimas sete décadas, os cartéis floresceram no México, tendo em vista que o país “foi governado por um único partido, o Partido Revolucionário Institucional (PRI)”. O estudo destaca ainda que, “dentro dessa estrutura política centralizada, os grupos do narcotráfico cultivaram uma ampla rede de funcionários corruptos, por meio da qual conseguiram obter direitos de distribuição, acesso ao mercado e proteção”. Desse modo, verifica-se a expansão interna dos cartéis dentro da estrutura de poder mexicana.  

Em nível internacional, essas organizações ganharam maior destaque no final dos anos 1980. É essencial frisar que esse momento também estabeleceu a “guerra às drogas” promovidas pelos governos de Richard Nixon (1969-1974) e Ronald Reagan (1981-1989). Nessa época, como medida, “Nixon instrumentalizou o combate ao comércio de drogas incriminadas (maconha, cocaína e heroína, dentre outras) como uma forma de ampliar os controles sobre áreas urbanas efervescentes em ativismos sociais e áreas industriais com forte presença de segmentos negros e imigrantes que haviam herdado as lutas pelos direitos civis da década de 1960”. Além disso, as gangues mexicanas deixaram o caráter inicial de transportadoras das drogas, oriundas, sobretudo, de cartéis na Colômbia, para se tornarem atacadistas.  

O governo Reagan significou uma mudança no combate às drogas, já que passou a instrumentalizar a geoeconomia, a geopolítica e as relações internacionais dos Estados Unidos com o mundo, com o objetivo de converter o inimigo. A “guerra contra o comunismo”, que estava chegando ao fim na América Latina, foi substituída pela “guerra às drogas”. Em relação ao México, conforme dito anteriormente, essas ações intervencionistas determinaram, historicamente, a relação com os EUA.  

Venezuela e a caça ao Maduro: possibilidade de golpe no país? 

Embora haja particularidades, o caso venezuelano tem sido emblemático. No primeiro governo Trump (2017-2021), a Venezuela foi classificada, ao lado de Cuba e da Nicarágua, como a “troika do mal”. Essa nomenclatura foi declarada pelo então conselheiro para Segurança Nacional, John Bolton. A expressão soa familiar. Em 2002, o presidente George W. Bush fez uso de um vocábulo semelhante ao empregado por Bolton, referindo-se, constantemente, ao que ficou conhecido como o “eixo do mal” – uma alusão aos governos do Irã, Iraque e Coreia do Norte. Não diferentemente, o governo Trump se refere a Cuba, Nicarágua e Venezuela por essa expressão para indicar que esses países são uma ameaça à estabilidade regional e ao sistema democrático.  

Saiba mais neste episódio do programa O Mundo é um Moinho, da TVGGN, de 31 jul. 2025

O discurso em defesa da democracia e contra o “regime” de Nicolás Maduro é algo contraditório na democracia estadunidense, se analisarmos os últimos acontecimentos, em especial o 6 de Janeiro, com a invasão ao Capitólio. Ainda assim, a gestão trumpista se utiliza desse discurso para se posicionar contra o presidente venezuelano. Não é surpresa que o país sul-americano passa por uma crise política, econômica e social, que tem gerado um deslocamento de parte da sua população para outros países da região, como o Brasil. A instabilidade na Venezuela tem sido agravada, em razão das sanções e embargos impostos pelos Estados Unidos, o que, consequentemente, dificulta a importação de produtos, assim como de financiamentos.  

As tensões entre os Estados Unidos e a Venezuela têm escalado nos últimos meses, em meio à insistência do governo Trump em classificar os cartéis de drogas como organizações terroristas. Esse anúncio “permite” aos Estados Unidos considerarem recorrer aos militares em defesa dos interesses nacionais estadunidense, a exemplo do México, que vê tropas americanas na fronteira para atuarem no controle de imigrantes e do fluxo de drogas.  

O atual secretário de Estado, Marco Rubio, um americano de origem latina, tem afirmado, constantemente, que o “regime de Nicolás Maduro não é um governo. Não é um governo legítimo”. Nesse contexto e com essa justificativa, os EUA fazem uma “caça às bruxas” contra Maduro e funcionários do governo. Como estímulo, a perseguição inclui uma oferta de recompensa de até US$ 50 milhões por sua prisão.  

A notícia mais recente, desde a diretiva enviada ao Pentágono autorizando o uso da força militar contra os cartéis de drogas latino-americanos, é que o Executivo estadunidense anunciou o direcionamento de três navios militares para a costa da Venezuela sob a justificativa do combate ao tráfico de drogas em águas internacionais. Como resposta venezuelana, Maduro anunciou que está de prontidão, convocando 4,5 milhões de milicianos chavistas em todo o país ante a nova ação de Trump.  

Concisamente, constata-se que a busca pela primazia militar dos Estados Unidos na região tem revivido o imaginário latino-americano de um período de sucessivas intervenções. Infelizmente, a política externa trumpista não se restringe ao imaginário, tendo, portanto, ações práticas como as exemplificadas neste texto. Por fim, advertimos que as ações de um império em decadência poderão provocar instabilidade geopolítica, e consequentemente, desestabilizar a região.

 

* Yasmim Abril M. Reis é doutoranda em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação Interinstitucional em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP) e Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Segurança Internacional e Defesa da Escola Superior de Guerra (PPGSID/ESG). É pesquisadora colaboradora no Observatório Político dos Estados Unidos (OPEU) nas áreas de Segurança e Defesa,  pesquisadora colaboradora no Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (GEDES), líder de pesquisa voluntária no Laboratório de Simulações e Cenários na linha de pesquisa de Biodefesa e Segurança Alimentar (LSC/EGN) e Pesquisadora de geopolítica no Núcleo de Avaliação da Conjuntura (Boletim Geocorrente-NAC/EGN). Contato: reisabril@gmail.com. 

** Primeira revisão e edição final: Tatiana Teixeira. Primeira versão recebida em 19 ago. 2025. Este Informe OPEU não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU. 

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