Brasil

Os discursos de Lula e de Trump na ONU à luz da crise da ordem internacional 

Presidente Lula discursa na 81ª sessão da AGNU, em Nova York, em 22 set. 2026 (Crédito: Ricardo Stuckert/Flickr oficial)

Por Williams Gonçalves* [Informe OPEU] [Nações Unidas] [Ordem internacional] 

O Estado moderno – unidade do sistema internacional que passou a ter sua existência reconhecida na Baixa Idade Média europeia – está assentado em dois pilares: hierarquia interna e autonomia externa. Isto se traduz nas seguintes ideias: nos limites de seu território, o Estado não reconhece nenhum poder igual, situando-se todos em posição inferior, ao passo que, nas relações com os demais, o Estado não reconhece nenhum que lhe seja superior. Zelar pela integridade dessa condição é o desafio que os responsáveis pelo Estado enfrentam: criar leis e fazê-las serem respeitadas, de modo que o conjunto social se mantenha estável e funcional; e se proteger das agressões dos demais Estados, decorrentes, na maior parte das vezes, da desigual distribuição do poder entre eles. Esse desafio, vale dizer, foi-se tornando cada vez maior, na medida em que a Revolução Industrial e o contínuo progresso tecnológico interligaram assimetricamente as economias. O lugar dos interesses dinásticos, predominantes nos primórdios do sistema internacional, deu lugar a uma complexa rede de interesses envolvendo comércio, investimentos e acesso a matérias-primas raras e escassas, rede da qual nenhum Estado consegue se ausentar ou se distanciar.  

A construção de uma ordem internacional acontece, portanto, como resultado de um esforço no sentido de limitar as guerras entre os Estados e de fixar regras para disciplinar o intenso fluxo de interações econômicas, sociais, políticas e culturais entre eles. A ordem internacional não é um luxo. Ela é uma necessidade. Sem uma ordem, o sistema internacional se inviabiliza como tal, comprometendo os interesses e até mesmo a existência de todos, sejam os pequenos e os grandes, sejam os fracos e os fortes. Essa extrema necessidade não evita crises. Não há como impedir que fatos e Estados perturbadores promovam-nas. Mas a necessidade de disciplinar as relações internacionais faz o próprio sistema descobrir formas de superar essas crises e de criar uma outra ordem.  

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O governo norte-americano de Donald Trump é o responsável direto pela atual crise da ordem internacional que os próprios Estados Unidos contribuíram decisivamente para erguer, quando do fim da Segunda Guerra Mundial. Graças ao seu poder econômico e à sua disposição de fornecer recursos, os Estados Unidos trabalharam intensamente para criar instituições e promover acordos, de modo a gerar estabilidade e previsibilidade nas relações entre os Estados em todas as dimensões. UNESCO (Organização das Nações Unidos para a Educação, a Ciência e a Cultura), FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), OIT (Organização Internacional do Trabalho), ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados), OMC (Organização Mundial do Comércio) e AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) são alguns dos fundos, programas, agências, organizações e entidades que se estruturaram ao longo do tempo para proporcional alguma ordem nas relações entre os Estados.  

Nenhuma dessas instituições foi criada, graças à benevolência dos Estados Unidos, conquanto tenha sido benéfica para quase todos. A criação delas correspondeu, na verdade, aos interesses nacionais norte-americanos. Para garantir seu imenso poder econômico, político, militar-nuclear e sua influência cultural, fazia-se necessário investir na criação de regras de convivência, da mesma forma que, para manter esse poder, os dirigentes norte-americanos não hesitassem em ser os primeiros a violar essas mesmas regras. Todavia, por interpretar que essas regras proporcionaram o enriquecimento e o fortalecimento de outros Estados, diminuindo consideravelmente a distância que os separavam dos Estados Unidos, Trump tem-se insurgido furiosa e arbitrariamente contra a ordem internacional. De Estado que trabalhou para criá-la e que zelou pela sua manutenção, os EUA passaram à condição de Estado que se coloca à margem e constitui uma ameaça a todos aqueles que respeitam a ordem internacional.  

O que, na concepção de Trump, devia ser um programa de recuperação do poder de seu Estado no âmbito do sistema internacional, verifica-se como precipitação de sua perda de condição de Estado líder. Sua ideia de impedir que a China ultrapassasse os Estados Unidos em poder econômico e alcançasse a liderança no processo de inovação tecnológica não está apresentando os resultados esperados. Pelo contrário, o cuidado e a reverência com que dialoga com Xi Jinping denotam o fracasso de seus planos.  

Com a habilidade e a discrição tipicamente chinesas, Xi Jinping tem coordenado um processo de recuperação da ordem internacional. Sem agir no sentido de destruir a ordem internacional em crise, a China tem estruturado acordos em várias partes do mundo, especialmente na Ásia, onde justamente os norte-americanos decidiram concentrar seus esforços para não perder influência e aliados, com vistas a deter a expansão do poder estatal chinês. Enquanto desperdiça recursos militares e prestígio em uma guerra em que não consegue dobrar os iranianos em sua determinação de defender seu território, suas riquezas e seus valores culturais, Trump é obrigado a assistir a Xi Jinping coordenando as ações da Organização de Cooperação de Xangai (OCX) e, assim, seguir avançando em seu objetivo de realizar o “Sonho Chinês” e dar corpo à “Comunidade de Futuro Compartilhado para a Humanidade”. E ele o faz mediante a cooperação conjunta, visando à segurança e ao respeito à soberania, ao aprofundamento dos laços econômicos e ao desenvolvimento econômico-social.  

Por outras palavras, os chineses atuam em sentido contrário aos Estados Unidos, recorrendo, justamente, aos pilares da antiga ordem que Trump fez questão de desprezar. Além disso, ao liderar informalmente o BRICS, a China continua a incentivar o grupo a avançar no processo de desdolarização nos negócios entre seus membros, por meio do uso de moeda local, o que significa desgastar o dólar como moeda internacional, importante instrumento do poder norte-americano no mundo. 

O virulento discurso pronunciado por Trump na 81ª Assembleia Geral da ONU, no último dia 22, constitui prova indesmentível da corrosão do poder dos Estados Unidos e de sua queda da condição de país líder. Trump mostrou, com todas as letras, a razão do veloz processo que ele conduz de marginalização dos Estados Unidos no sistema internacional. Em vez de agregar e apontar caminhos, Trump se esmerou em exaltar seus supostos feitos com vistas a recuperar o poder de seu país em relação aos demais. Ameaçou aniquilar o Irã; orgulhou-se de violar a soberania da Venezuela e saquear seu petróleo; desmereceu a própria ONU, acusando a entidade de ser posto avançado do comunismo; declarou repudiar qualquer acordo para controlar o uso da IA; menosprezou o Tribunal Penal Internacional; afirmou que continua o trabalho de estrangular Cuba economicamente; ameaçou o México; e, sustentou que não renunciará ao projeto de exercer total controle sobre o Hemisfério Ocidental, isto é, sobre a América Latina. 

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Exercendo a prerrogativa dada pela tradição de ser o primeiro a discursar na Assembleia Geral, o presidente Lula marcou posição importante. Ao mesmo tempo em que lamentou o descompasso entre o Conselho de Segurança e a realidade internacional, uma vez que, por falta da reforma há muito reivindicada pelo Brasil e outros países, o órgão máximo da ONU se mantém o mesmo desde que a instituição foi criada, Lula defendeu a ONU e o multilateralismo como a única forma de se dirimir conflitos e promover a paz e a cooperação internacionais. Sem se dirigir diretamente ao governo dos Estados Unidos, o presidente brasileiro apontou como este tem sido fator de desestabilização das relações internacionais. Lula questionou o projeto hegemônico dos Estados Unidos na América Latina, que ameaça a integridade territorial de todos os Estados do continente. Foi, além disso, enfático ao repudiar a ideia dos norte-americanos de intervir nos assuntos domésticos brasileiros, afirmando que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”. 

A título de conclusão, deve-se sublinhar que, em virtude de sua condição de candidato à reeleição no pleito que se avizinha, não faltaram comentários acerca das implicações eleitorais de sua defesa da soberania nacional. À luz do que foi exposto acima, esse é um comentário muito estranho. Dá-se a entender que a defesa da soberania nacional, em face dos riscos objetivos de intervenção no processo eleitoral com a finalidade de alterar a vontade que os eleitores devem depositar nas urnas, constitui-se em discurso eleitoreiro, visando a arregimentar eleitores. Essa interpretação por muito pouco não se converte em acusação de deslealdade eleitoral, ao se apelar para a defesa da soberania em uma disputa em que essa questão deve estar ausente.  

Ora, a despeito de o discurso ser brilhante ou nem tanto, a defesa da soberania em um organismo internacional, quando os riscos são tão evidentes, não é uma questão de escolha. Não é um recurso eleitoreiro. É, isto sim, um dever do chefe de Estado. Um chefe de Estado, que honra seu compromisso com o conjunto da nação, não pode se comportar de outra maneira. Dele não se pode esperar outra coisa. Estranho seria se se apresentasse indiferente à soberania ou, ainda pior, renunciasse à soberania em favor de governantes de outro Estado. E mais estranho ainda é quando um chefe de Estado, ou candidato a chefe de Estado, que anuncia sua intenção de realizar uma renúncia como essa seja acolhido com naturalidade, como se estivesse a assumir uma posição legítima.

 

* Williams Gonçalves é Professor Titular de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e professor do Programa de Pós-Graduação em Estudos Marítimos da Escola de Guerra Naval (PPGEM-EGN). Doutor em Sociologia, também é pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre Estados Unidos (INCT-INEU). Entre outros livros, é autor de A China e a nova ordem internacional (Editora Ayran, 2023) e O realismo da fraternidade: as relações Brasil-Portugal no governo Kubitschek (Funag, 2024).

** Revisão e edição: Tatiana Teixeira. Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU.

 

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