Resenha OPEU

‘Privacidade Hackeada’: Big Data como instrumento de poder político global 

Crédito: captura de tela do trailer no canal All Trailers, no YouTube

Por Carolina Weber* [Resenha OPEU] [Documentário] [Big Data] 

O documentário “Privacidade Hackeada” (“The Great Hack”, no original), lançado em 2019 pela Netflix e dirigido por Karim Amer e Jehane Noujaim, evidencia como o controle de dados digitais se tornou uma ferramenta estratégica de poder político no cenário internacional contemporâneo. A obra aborda o escândalo envolvendo a Cambridge Analytica e o uso indevido de informações de milhões de usuários do Facebook para influenciar processos eleitorais, como o Brexit e a eleição presidencial dos Estados Unidos em 2016, vencida por Donald Trump. Mais do que retratar um caso de violação de privacidade, o documentário demonstra como o Big Data e os algoritmos passaram a desempenhar um papel central na construção de narrativas políticas e na disputa por poder na era digital.  

A narrativa se desenvolve a partir de depoimentos e investigações, acompanhando personagens centrais do caso, como a ex-funcionária Brittany Kaiser, que atua como informante, e o professor David Carroll, que busca recuperar suas próprias informações pessoais. Ao reconstruir os acontecimentos que levaram ao escândalo, o documentário mostra como dados extraídos das redes sociais foram utilizados de forma estratégica, revelando os impactos desse processo na política contemporânea.

Nesse contexto, as investigações expõem como a coleta de dados foi operacionalizada. O pesquisador Aleksandr Kogan, vinculado à Universidade de Cambridge, desenvolveu um aplicativo no Facebook em formato de teste de personalidade, capaz de mapear perfis comportamentais dos usuários. A ferramenta não se limitava aos participantes diretos: devido a falhas da própria plataforma, também coletava dados dos contatos desses usuários. Posteriormente, essas informações foram repassadas à Cambridge Analytica, que as utilizou para construir estratégias de comunicação altamente segmentadas. Com base em perfis psicográficos, anúncios políticos eram direcionados de forma personalizada, explorando emoções, interesses e vulnerabilidades dos eleitores. Esse uso estratégico dos dados é considerado um dos fatores que contribuíram para o sucesso da campanha de Donald Trump à Presidência em 2016, desencadeando um escândalo global que levou Mark Zuckerberg, cofundador, presidente e CEO do Facebook, a prestar esclarecimentos ao Congresso dos Estados Unidos.

Nesse sentido, o caso pode ser compreendido a partir do conceito de Big Data, caracterizado pela capacidade de coletar, processar e analisar grandes volumes de dados para identificar padrões e prever comportamentos. Em uma sociedade cada vez mais conectada e mediada por algoritmos, essas informações permitem a construção de perfis detalhados dos usuários, possibilitando o direcionamento de conteúdos políticos de maneira personalizada. A partir das chamadas “pegadas digitais”, torna-se possível explorar emoções, preferências e vulnerabilidades individuais, evidenciando o potencial do uso de dados como instrumento de manipulação política e engenharia social.

O papel das plataformas digitais pode ser mais bem entendido pela lente da Teoria de Agenda-Setting, desenvolvida por Donald Shaw e Maxwell McCombs, na década de 1970. Segundo essa perspectiva, os meios de comunicação influenciam não necessariamente o que as pessoas pensam, mas sobre o que elas pensam, ao selecionar e dar destaque a determinados temas. Nas redes sociais, esse processo é intensificado pelos algoritmos, que filtram conteúdos com base nas preferências dos usuários e contribuem para a formação das chamadas “câmaras de eco”. Nessas bolhas digitais, opiniões semelhantes são constantemente reforçadas, enquanto perspectivas divergentes tendem a ser excluídas ou marginalizadas, favorecendo processos de polarização política.

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Por fim, embora a tecnologia seja, frequentemente, apontada como um fator de risco para as democracias contemporâneas, seus impactos dependem das formas de utilização e controle dessas ferramentas. O Big Data não apenas reflete comportamentos sociais, mas também participa ativamente da construção de opiniões, preferências e dinâmicas coletivas. Esse fenômeno ultrapassa fronteiras nacionais e se insere diretamente na política internacional, uma vez que o controle da informação e da circulação de narrativas digitais passou a representar uma nova forma de poder no sistema internacional contemporâneo. Assim, o caso da Cambridge Analytica evidencia que, na era digital, dados e algoritmos se tornaram instrumentos estratégicos capazes de influenciar eleições, moldar opiniões públicas e redefinir disputas políticas em escala global.

 

* Carolina Weber é pós-graduanda em Jornalismo Digital e Comunicação pela Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP) e graduada em Defesa e Gestão Estratégica Internacional no Instituto de Relações Internacionais e Defesa, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IRID/UFRJ). É pesquisadora colaboradora no OPEU e faz parte da equipe do Instagram e LinkedIn. Tem expertise em Comércio Exterior. Contato: carolinaweberds@gmail.com. 

** Texto escrito como parte da avaliação proposta pela disciplina obrigatória “A influência dos dados e das narrativas nos rumos da política global”, ofertada em 2026 pela profª draª Fernanda Magnotta na Pós-Graduação em Jornalismo Digital e Comunicação pela Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP).  

*** Revisão e edição: Tatiana Teixeira. Esta Resenha OPEU não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU. 

 

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