Dossiê

‘​​​O Gafanhoto torna-se pesado’: a rede Truth Social como realidade alternativa em Trump 2.0

‘Truth Social é minha voz, e a voz real da América!!! MAGA2024″: postagem de Trump em sua rede (Fonte: Britannica) 

Por Victor Hugo de Oliveira Colmanetti e Glória Runa Fiais dos Santos* [Informe OPEU] [Dossiê Distopias] [Truth Social] [O Homem do Castelo Alto] 

“Um mundo psicótico, este em que vivemos. Os loucos estão no poder. Há quanto tempo sabemos disso? Encaramos isso? E… quantos de nós sabem? […]. Talvez, se soubermos que somos loucos, então não sejamos loucos. Ou estamos, finalmente, deixando de ser loucos. Despertando. Suponho que apenas poucas pessoas tenham consciência disso. Pessoas isoladas, aqui e ali. Mas as grandes massas… o que será que elas pensam? As centenas de milhares de pessoas aqui nesta cidade. Será que imaginam que vivem num mundo são? Ou adivinham, vislumbram, a verdade…?” O Homem do Castelo Alto (Editora Aleph, 2019) 

Publicado originalmente em 1962, nos Estados Unidos, o livro O Homem do Castelo Alto, do autor norte-americano Philip K. Dick, apresenta uma distopia histórica que parte da seguinte pergunta: “e se as forças do Eixo (Alemanha e Japão) tivessem saído como vitoriosas na Segunda Guerra Mundial?”. Baseado nessa realidade alternativa, Dick redesenha a história e os fatos que conhecemos com um Estados Unidos dividido entre as influências das potências alemã e japonesa, sendo a narrativa abordada a partir da vida cotidiana de diversos personagens que tentam sobreviver e encontrar sentido nessa sociedade opressiva. 

Fonte: Raptis Rare Books

Embora a obra aborde diversas questões, como totalitarismo e cultura, seu pilar central é a fragilidade da percepção do real. Essa questão se materializa no livro proibido pela Alemanha O Gafanhoto Torna-se Pesado, de Hawthorne Abendsen (conhecido como o “Homem do Castelo Alto”), em que descreve um mundo onde o Eixo foi derrotado.  

Esse exercício metalinguístico, ou seja, um livro dentro do livro, que propõe a existência de uma realidade diferente daquela construída durante toda a narrativa, funciona para os personagens como um despertar. Ao entrarem em contato com essa arte revolucionária, suas mentes se abrem para novas possibilidades políticas e espirituais. Para nós, esse ponto levanta o questionamento: que realidade é essa, na qual vivemos? 

O gafanhoto tem diversos simbolismos, conforme mostrado no título do livro fictício da distopia. Para algumas culturas, como a japonesa, representa avanço e mudança. No cristianismo, o inseto simboliza forças destrutivas que, ao gerarem crises, impulsionam grandes transformações históricas. Já para culturas como a chinesa, sua proliferação desenfreada, responsável por gerar a devastação de plantações, é interpretada como um sinal de desordem no cosmos. 

Com o início do segundo ano do governo Trump 2.0, em 2026, a configuração política dos Estados Unidos e seus reflexos internacionais materializam o simbolismo pessimista do gafanhoto. Se, na obra de Dick, o livro proibido era o catalisador de uma verdade oculta, na nossa realidade, o “gafanhoto” que se torna pesado é a própria institucionalização da pós-verdade. O termo pós-verdade foi empregado pela primeira vez na imprensa norte-americana em 1992, pelo dramaturgo Steve Tesich, e mais tarde sistematizado por Ralph Keyes, em A era da pós-verdade (Editora Vozes, 2018). Consagrou-se como palavra do ano dos Dicionários Oxford em 2016, que definem o termo como as circunstâncias em que os fatos objetivos pesam menos na formação da opinião pública do que os apelos à emoção e às crenças pessoais. Esse fenômeno atua como uma força destrutiva, através da qual a desordem informacional e a ruptura com o real deixam de ser ruídos, para se converterem no novo pilar da governança contemporânea. 

Em um mundo pautado pela pós-verdade, a criação de realidades paralelas, possibilitadas por universos informacionais que ultrapassam os meios de comunicação consolidaram-se como a nova realidade. Dessa forma, o cenário atual compelido pelo governo Trump 2.0 ecoa a obra de Dick: uma realidade marcada por rupturas e instabilidades que desafiam nossa percepção. Podemos perceber essas mudanças com base nos três níveis de análise de Kenneth Waltz, sendo eles i) a natureza humana e o indivíduo; ii) o Estado e as suas características internas, e iii) o sistema de Estados.  

O Estado 

Sob o governo Trump 2.0, o Estado passa a desempenhar um papel ativo de curador da realidade informacional doméstica. Nesse contexto, uma das principais ferramentas mobilizadas para materializar essa curadoria é a rede social Truth Social, que opera não apenas como espaço de comunicação política, mas na condição de infraestrutura de construção de um universo informacional paralelo, dissociado dos mecanismos tradicionais de verificação e pluralidade midiática. 

criação da plataforma remonta aos acontecimentos de 6 de janeiro de 2021, quando apoiadores de Donald Trump invadiram o Capitólio dos Estados Unidos em rejeição à certificação da vitória eleitoral do democrata Joe Biden, inflamados pelo presidente derrotado e por seu núcleo político mais próximo. Na esteira dos eventos, Trump foi banido de diversas redes sociais de grande alcance, como o então Twitter (atual X), sob a justificativa de incitação à violência e propagação de ideias antidemocráticas. 

Em resposta, Trump fundou o Trump Media & Technology Group (TMTG) e lançou a Truth Social em fevereiro de 2022, posicionando a plataforma como uma alternativa às redes que, segundo sua narrativa, praticavam censura sistemática contra vozes conservadoras. Mais do que um projeto comercial, a plataforma se converteu em canal oficial de comunicação política do trumpismo, estruturando um ecossistema informacional próprio, no qual as fronteiras entre discurso governamental, propaganda e entretenimento político se tornam quase nulas. Com isso, a rede Truth Social se constitui como o universo informacional à parte, servindo para o Estado enquanto ferramenta de blindagem política e de projeção de poder, onde o patriotismo é construído sob uma lógica de autoafirmação constante. 

No contexto doméstico dos EUA, essa curadoria transforma eventos reais em matéria-prima para ficções políticas. Agências como o Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE, na sigla em inglês), por exemplo, deixam de ser apenas órgãos de gestão migratória para operarem como produtoras de conteúdo. Assim, constituem instrumentos de demonstração de força soberana, ao realizarem operações em cidades-santuário e deportações em massa, servindo de espetáculos políticos para a base trumpista. Na Truth Social, esses eventos são editados e amplificados para consolidar uma narrativa de invasão e heroísmo nacional. Nela, dados estatísticos cedem lugar a uma estética de guerra cultural, cuja eficácia política é medida não por seus resultados, mas pelo impacto emocional que produz. 

Da mesma forma, o tratamento dado ao caso Epstein ilustra o apagamento deliberado de dados sensíveis e o uso de manobras de distração para proteger a cúpula do poder. Evidências incômodas e citações diretas a Trump são neutralizadas e transmutadas em teorias de conspiração sobre um suposto “Deep State” que agiria para incriminá-lo. Assim, o Estado opera um manipulador informacional, em que a verdade empírica é sacrificada em favor de uma realidade paralela, desenhada para desviar o escrutínio público e manter a massa em um estado de constante validação emocional e defesa do líder. 

O indivíduo 

Essa reconfiguração estatal reverbera no nível individual, a primeira imagem de Waltz, ao produzir um efeito profundo sobre a forma como o cidadão percebe e interpreta a realidade. Inserido no ecossistema informacional da Truth Social, o indivíduo passa a se cercar apenas de vozes que confirmam suas crenças preexistentes, refugiando-se em grupos que pensam de forma homogênea e reforçam, mutuamente, suas convicções. Esse fenômeno, conhecido como The Filter Bubble (ou Filtro de Bolha), foi cunhado por Eli Pariser e descreve ambientes informacionais, nos quais perspectivas divergentes são sistematicamente excluídas, e a repetição substitui a evidência como critério de verdade. 

Na Truth Social, esse mecanismo não é um efeito colateral algorítmico, é um princípio fundador. A plataforma foi arquitetada para reunir aqueles que já compartilham a mesma visão de mundo, alimentando um ciclo contínuo de autoafirmação, no qual o dissenso não encontra espaço. Quanto mais o indivíduo se isola nesse ambiente, mais a narrativa do grupo se consolida como uma única realidade plausível. O mundo exterior, com suas instituições, sua imprensa plural e todas as coisas que vêm com isso, passa a ser percebido não a título de ancoragem, mas como ameaça.  

Dessa forma, o resultado é uma fratura cognitiva que Philip K. Dick antecipou com precisão literária. Assim como os personagens da obra habitam uma realidade fabricada que não precisa ser verdadeira, apenas coerente o suficiente para ser habitável, o cidadão imerso no Filtro de Bolha trumpista experimenta um fechamento progressivo sobre si mesmo. O mundo exterior deixa de ser interpretado e passa a ser, simplesmente, rejeitado. 

O despertar ocorre de forma invertida. Não é uma libertação para a verdade, mas um mergulho em uma subjetividade radical, onde o delírio coletivo é institucionalizado. O indivíduo se converte em componente funcional desse ciclo, validando a autoridade estatal não por resultados práticos, mas pela fidelidade à narrativa construída. E, quanto mais a câmara de eco se fecha, menos essa distinção importa. A política se transforma, assim, em um exercício de sobrevivência psíquica, em um mundo onde a verdade tornou-se o recurso mais escasso e pesado de todos. 

O Sistema Internacional 

Agora preenchido por uma ideologia que rejeita a verificação empírica, o Estado projeta uma imprevisibilidade para o sistema internacional (a terceira imagem de Waltz). Nesse cenário, a guerra das narrativas e a pós-verdade deixam de ser subprodutos do debate público para se firmarem enquanto as próprias estratégias de governança: o Estado não busca mais o consenso baseado em fatos compartilhados, mas a hegemonia, mediante a saturação de versões que anulam a crítica externa. 

Se a anarquia internacional exige clareza para o equilíbrio de poder, a diplomacia da pós-verdade introduz uma cegueira estratégica, a qual impede aliados e rivais de lerem os sinais de um ator que habita sua própria distopia narrativa. Sob essa lógica, a política externa do governo Trump 2.0 deixa de ser um exercício de cálculo geopolítico tradicional para assumir a forma de uma extensão do espetáculo doméstico: seja na reiteração de propostas transacionais sobre a Groenlândia, seja na pressão por mudanças de regime na Venezuela, seja na imposição de sanções econômicas punitivas a parceiros como o Brasil — caso estes não se alinhem ao ecossistema ideológico de Trump. O objetivo não é a estabilidade sistêmica, mas a demonstração de uma força unilateral que satisfaça o algoritmo de sua base digital. 

Imagem postada por Trump em sua conta na Truth Social, em 20 jan. 2026, durante a crise da Groenlândia (Fonte: Truth Social)

Essa lógica narrativa contamina diretamente a condução da política internacional. O posicionamento em relação à guerra Rússia-Ucrânia oscila conforme a necessidade de alimentar o engajamento doméstico, transformando um conflito geopolítico de alta complexidade em episódio maleável dessa realidade construída. Da mesma forma, a postura diante do conflito Israel-Palestina é orientada menos por uma doutrina estratégica coerente do que pela projeção de uma força messiânica que descarta mecanismos tradicionais de mediação em favor de vitórias narrativas imediatas, ou seja, gestos de impacto simbólico calibrados para ressoar na base trumpista antes de produzir qualquer efeito diplomático concreto. 

O peso do Gafanhoto 

De modo geral, a institucionalização da rede Truth Social como bússola do Estado completa o ciclo de uma distopia vivida em tempo real. Assim como em O Homem do Castelo Alto, onde a realidade é uma construção frágil mantida pelo poder hegemônico, o governo Trump 2.0 estabelece uma governança baseada na “subjetividade soberana”. Onde antes se esperava que o Estado exercesse o papel de garantidor de fatos para a estabilidade social, hoje vemos uma estrutura que opera ativamente na demolição do senso comum. 

A “verdade” deixa de ser um referencial externo e objetivo e passa a funcionar como um produto de consumo ideológico, validado pela repetição incessante nos Filtros de Bolha e pela exclusão deliberada do contraditório, transformando a política em um exercício de manutenção de uma ficção habitável, de limites estreitos e bem definidos. O resultado final dessa trajetória é a erosão da previsibilidade sistêmica e o agravamento da anarquia internacional. 

Quando a maior potência do globo se retira da realidade compartilhada para habitar um universo informacional paralelo, os mecanismos tradicionais de diplomacia e de dissuasão perdem sua eficácia. No mundo de Trump 2.0, o “gafanhoto” se tornou definitivamente pesado: o peso esmagador de uma pós-verdade que, ao tentar recriar o mundo à sua imagem, reconfigura não só o nível estatal, mas também o individual e o sistêmico.

 

* Victor Hugo de Oliveira Colmanetti é mestrando de Relações Internacionais do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp, PUC-SP) e bolsista de mestrado da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Contato: victor-hugo.oliveira@unesp.br. 

Glória Runa Fiais dos Santos é bacharela em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), tendo sido bolsista de iniciação científica do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) no ciclo de 2023-2024. Contato: grf.santos@unesp.br. 

** Revisão e edição: Tatiana Teixeira. Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU. 

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