Brasil

O Império contra-ataca: por que o PIX?, parte IV

Fonte: Esfera

Série “Futuro em xeque — Entre a Coerção e a Barganha”

Por Marcus Tavares* [Informe OPEU] [Brasil] [Brasil-EUA] [PIX]

O pé bate no chão, miúdo e apressado, um tamborilar que ela nem percebe que faz, o corpo já contando o tempo que falta para a feira fechar, enquanto a mão, essa, precisa ficar quieta, firme, presa ao milímetro que o dedo mínimo exige, o menor e o mais teimoso, o que sempre fica para o fim. É todo o corpo da manicure dividido assim, a pressa embaixo e o cuidado em cima, enquanto passa a última demão e sopra de leve, mais por hábito do que por pressa, já recolhendo com os olhos os vidrinhos coloridos que vai guardar na nécessaire surrada, o algodão, a acetona, a luz de led que seca o esmalte e que ela comprou em três vezes. A cliente abre o aplicativo do banco ali mesmo, no sofá, e manda os R$ 40. O celular da manicure apita no fundo da bolsa, um apito curto que ela já distingue de todos os outros, o apito do dinheiro que entrou. Nem confere. Confia na cliente de toda semana. Por ora, o que importa é que a manhã rendeu e que a feira ainda está de pé. 

Ela desce a rua quase correndo, a nécessaire batendo na coxa, porque feira de domingo é assim, lá pelo meio-dia o pessoal começa a guardar a lona e o que era pirâmide de tomate vira saldo apressado de caixote. Chega ainda a tempo da xepa. Enche a sacola do que a casa pede para a semana, o tomate, a cebola, o maço de alface que murcha se não for hoje, a dúzia de banana que o filho devora antes de quarta. No fim da banca, não pergunta o preço do cartão nem procura a maquininha. Aponta o celular para o pedaço de papelão preso com fita crepe, onde o feirante imprimiu o tal quadradinho de pontas pretas, e o dinheiro passa da mão dela para a dele no tempo de um apito. O mesmo apito. O dela e o do feirante apitam quase juntos, e nisso há uma simetria que nenhum dos dois nota, ocupados que estão, ela com a alface, ele com o troco que não precisou dar. 

Não lhe ocorre, e não tem por que ocorrer, que aquele dinheiro fez um caminho estranho de tão curto. Saiu do bolso da cliente e entrou no dela, saiu do dela e entrou no do feirante, e assim seguirá para outra conta, sem que em nenhum desses saltos algum valor fique pelo caminho. Não houve a fatia que a “maquininha” levava, a mordida que ela nem via mas pagava, embutida no preço de tudo, nos tempos em que receber custava uma parte do que se recebia. O dinheiro correu rente ao chão, de mão em mão, sem subir. Porque há um andar de cima, e a manicure não pensa nele, mas ele existe: o andar onde o dinheiro do mundo costuma passar para ser contado. É lá que ele sempre sai um pouco menor do que entrou, descontada a comissão de quem controla o território invisível. O que ela moveu naquele domingo não subiu até lá. Ficou embaixo, com ela e com o feirante. 

E não é pouca gente fazendo a mesma coisa. No ano passado, esse dinheiro miúdo que corre rente ao chão somou R$ 35,36 trilhões, três vezes tudo o que o país inteiro produziu no ano, espalhado em quase 80 bilhões de pequenas transferências como aquelas duas. São mais de 170 milhões de brasileiros, gente que muitas vezes nunca teve cartão de crédito, apontando o celular para um pedaço de papelão e pagando sem que ninguém leve uma parte no meio do caminho. Diz o ditado que é de grão em grão que a galinha enche o papo. Mas há grão demais escapando rente ao chão, e quem o cata lá de cima já não é galinha paciente, é águia, e águia sente falta do que lhe foge ao bico. Não que o papo tenha esvaziado, longe disso. É que uma parte dos grãos deixou de subir, e essa parte, multiplicada por milhões de mãos, fez com que num andar muito mais alto do que aquele onde a manicure guarda os vidrinhos, num lugar que ela nunca vai pisar, alguém fizesse a conta do que deixou de passar pela sua mão — e não gostasse do resultado. 

Ao deixar a feira, já com a sacola pesando no braço, os olhos da manicure caem sobre um jornal rasgado no chão, aberto e amassado, que as frutas não pouparam no seu rolar sobre ele, manchado de polpa numa quina e pisado na outra. Ela para, sem saber direito por quê. E ali, naquele papel sujo largado entre caixotes, lê mais uma vez a manchete que lembrava ter ouvido alguns dias antes, enquanto fazia a janta dos seus meninos, o noticiário ligado na sala, o som chegando distorcido à beira do fogão, meio encoberto pelo chiado do óleo na panela, de um jeito que ela não entendera bem e logo esquecera. Agora a frase está ali, parada, impressa, sem o barulho da cozinha para abafá-la, e diz que os Estados Unidos resolveram atacar o tal do PIX.  

No começo ela nem liga o nome à coisa. Mas o pedaço de página que sobrou explica o bastante, e aos poucos ela junta as pontas, e a coisa que o jornal diz estar sob ataque é justamente aquele apito que recebe a unha e paga a alface, o mesmo de todo domingo. Não entende por que um país tão longe se importaria com o jeito como ela cobra de uma cliente, e o texto fala em coisas grandes demais, em dólar, em bandeira de cartão, em comércio. Mas uma frase ela entende inteira, a de que tudo pode voltar a ser como antes. E aí lhe vem, de repente, a lembrança de quanto penou para conseguir a maquininha nos primeiros tempos, a taxa que comia o lucro, o aparelho que vivia sem sinal mesmo com ela pagando caro e em muitas vezes, e que hoje dorme esquecido numa gaveta porque o celular faz de graça o que ele cobrava. Volta a sensação de pequenez de quem precisava pedir licença para poder trabalhar. E pela primeira vez ela ouve aquele apito que tanto a alivia e se pergunta, com um aperto que não sabe nomear, quem afinal decide se ele continua ou não. 

A pergunta dela não tem nada de ingênua, embora ela a faça sem saber que é a pergunta certa. Quem decide se o apito continua é precisamente quem fez a conta lá no alto, e a conta é de uma cifra que nenhuma feira comporta. Para entender por que a praticidade de uma manicure virou assunto de Estado a milhares de quilômetros, é preciso subir do papelão preso com fita crepe até o andar onde o dinheiro do mundo é contado, e ver o que se perde, lá em cima, quando ele teima em ficar embaixo. 

LGPD e Pix são alvo de investigação nos EUA

Convém começar pelo que o sistema fez, porque é a escala do que ele fez que explica o tamanho da reação. O PIX nasceu no fim de 2020 como uma infraestrutura pública de pagamento instantâneo, concebida e operada pelo Banco Central, e em cinco anos deixou de ser uma alternativa entre outras para se tornar a forma como o país transfere dinheiro. Ao fim de 2025, já respondia por mais da metade das transações financeiras do Brasil, à frente do cartão de débito, do cartão de crédito, do boleto e da transferência tradicional somados. A penetração beira o limite do possível: o próprio diretor do Banco Central responsável pela organização do sistema financeiro reconheceu, ao quinto aniversário do sistema, que ele já alcança praticamente toda a população adulta. Um instrumento que recolhe quase a totalidade dos adultos de um país e move, num único ano, três vezes o PIB desse país, não é um detalhe técnico do varejo. É uma camada nova por onde passa a vida econômica inteira. 

O sucesso é o ponto de partida do argumento, e é incontestável a ponto de virar consenso até entre quem o ataca. O Fundo Monetário Internacional (FMI) registrou, em relatório próprio, que o PIX integrou ao sistema financeiro, no primeiro ano, dezenas de milhões de brasileiros que nunca haviam feito uma transferência bancária. O Banco de Compensações Internacionais (BIS), a instituição que reúne os bancos centrais do mundo, dedicou-lhe um boletim para extrair lições, e apontou dois ingredientes do êxito: a participação obrigatória das instituições maiores e o duplo papel do Banco Central, ao mesmo tempo dono da infraestrutura e autor das regras. O que aqui se lê como virtude de desenho é exatamente o que, em outro foro, será lido como infração. Um fluxo dessa magnitude, que antes passava pelos intermediários e agora os contorna, não escapa à atenção de quem vivia de cobrar pela passagem. 

Aqui está o que de fato muda, e é mais fundo do que a conveniência de pagar pelo celular. Quando a manicure recebe e gasta sem que ninguém retenha a fatia do meio, aquele dinheiro permanece na economia em que ela vive, a do tomate e da unha, em vez de ser drenado para a camada que o intermediava. Cada transação que corre por PIX é uma transação da qual a indústria financeira não extrai a sua renda de pedágio, e a soma dessas ausências, repetida por bilhões de pequenos pagamentos, desloca uma massa de recursos da economia financeirizada de volta para a economia de mercado. É uma desfinanceirização silenciosa, que não foi decretada por ninguém e que ocorre transação a transação, à revelia de qualquer programa. 

E é aqui que o gesto miúdo da feira toca o poder de uma potência distante, por um caminho que merece ser dito com cuidado. As instituições financeiras que intermedeiam pagamentos sugam renda em moeda local, em real no caso brasileiro, como sugariam em peso, em rúpia ou em quaisquer outras moedas nos demais países. Essa renda, porém, não costuma ficar onde foi recolhida. Ao ser remetida para o exterior, em lucro, dividendo ou tarifa, ela se converte em dólar, porque o dólar é a moeda em que o valor cruza fronteiras e se acumula no topo do sistema. A intermediação financeira funciona, vista de longe, como uma bomba que recolhe valor nas moedas da periferia e o devolve convertido à moeda do centro. Um regime de pagamento que faz o dinheiro correr rente ao chão, de mão em mão, sem subir à camada que o capturaria, subtrai matéria a essa bomba antes que ela a converta. Por isso, a perda para o poder americano não depende de a financeira contornada ser americana: mesmo uma instituição brasileira, ao recolher em real e remeter em dólar, era um afluente do circuito do dólar, e o PIX seca uma parte desse afluente.  

A face mais visível dessa perda tem rosto conhecido e pode ser medida. As bandeiras de cartão americanas, que por décadas cobraram a sua comissão sobre cada compra, viram o PIX comer o terreno do débito e do dinheiro em espécie. O cartão de débito, que o sistema atinge de frente, estagnou no Brasil enquanto o PIX crescia, e a própria Visa registrou queda no volume de débito a partir do momento em que o sistema deslanchou. A reação das bandeiras é a prova de que a perda foi sentida e não ignorada. Em 2023, a Visa comprou por um bilhão de dólares a Pismo, processadora brasileira capaz de operar trilhos como o do próprio PIX, num movimento que dizia (sem dizer) que, se não era possível derrotar a infraestrutura pública, restava tentar lucrar com ela por dentro. Essa é a perda que se conta em receita, e que cabe numa planilha de resultados. Há outra que não cabe, porque não se mede em dinheiro, e sim em visibilidade. 

O dinheiro que corre por PIX não passa pelos circuitos de compensação em dólar nem pela contabilidade das plataformas estrangeiras e, ao escapar deles, escapa também da malha que a coluna anterior desta série descreveu, aquela que recolhe o dado de cada brasileiro e o submete a uma jurisdição que não é a nossa. Pagar pelo PIX deixa um rastro que fica no Banco Central do Brasil, não nos servidores por onde a vigilância americana se exerce. A fuga financeira e a fuga informacional são, no fundo, o mesmo gesto visto de dois ângulos: escapar da fatia que converteria o valor em dólar é também escapar do registro que o entregaria ao aparato. Quem controla o território invisível do dinheiro perde, com o PIX, as duas coisas ao mesmo tempo: a renda e a visão. 

Chutando a escada: o futuro que repete o passado, parte III  

Na coluna anterior, vimos o projeto nacional de informática ser esmagado nos anos 1980 porque ousou produzir o que o mercado preferia importar, e vimos a racionalidade que tratou essa ousadia como delito. O PIX comete uma transgressão similar, embora invertida. A Cobra quis fabricar o que vinha de fora; o PIX oferece de graça o que o capital privado tarifava. Os dois recusaram a disciplina do fluxo, um na produção, outro no pagamento, e os dois, por isso, foram tratados como problema a corrigir. A diferença é que, desta vez, a peça que escapou move trilhões e alcança quase todos, e reavê-la custa mais caro do que custou desmontar uma fábrica em Jacarepaguá. 

Em primeiro de junho de 2026, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) determinou, na investigação aberta sob a Seção 301 da Lei de Comércio, que práticas brasileiras em serviços de pagamento eletrônico oneram o comércio americano, e propôs tarifa adicional sobre os bens do país. A peça acusa o Banco Central de operar em conflito de interesse, por ser ao mesmo tempo o regulador do mercado de pagamentos e o dono do sistema que nele compete. Ademais, enumera como práticas desleais a obrigatoriedade de participação das instituições maiores, a exigência de que o PIX apareça com destaque não inferior ao de outros meios, a gratuidade para pessoas físicas e o teto de tarifas para empresas. Convém notar que o edital de abertura da investigação, em 2025, sequer nomeava o PIX. Foi ao longo do processo que o sistema, de alvo implícito, passou a alvo explícito. 

A gratuidade que o Fundo Monetário celebrou como motor de inclusão é, na peça americana, vantagem desleal. A participação obrigatória que o Banco de Compensações apontou como ingrediente do êxito é, ali, imposição estatal. Os dois técnicos que conceberam o sistema no Banco Central, ao descreverem em revista especializada o que fizeram, listaram a abertura, o baixo custo e a estrutura de tarifas entre as razões do acerto; o Representante Comercial lista as mesmas características entre as razões da queixa. O mesmo objeto, descrito como liberdade por quem o construiu e como protecionismo por quem o combate. A ironia é espessa, e merece ser nomeada sem pressa, porque o país que se apresenta ao mundo como o baluarte da livre-concorrência está a acusar de desleal um mecanismo que fez o que a doutrina da livre-concorrência promete: derrubou o custo, abriu o mercado a novos entrantes, devolveu ao consumidor a fatia que o intermediário retinha. 

O que essa contradição revela é mais interessante do que uma simples incoerência. Quando o Estado oferece de graça o que o capital privado vendia, e o faz melhor e mais barato, a objeção que se levanta não é, no fundo, contra a liberdade de mercado violada, e sim contra o fato de a liberdade ter sido realizada por outra via que não a da propriedade privada. O que se defende, sob o nome de livre-comércio, não é o livre fluxo em abstrato, mas o direito do capital privado de ser o único a organizá-lo, e a cobrar pela organização. É a mesma racionalidade que, na coluna anterior, tratou a propriedade como valor supremo e a recusa de sua disciplina como delito. O PIX é desleal não porque feche o mercado, mas porque o abre por fora do pedágio. 

A contradição não fica retida em Washington. Ela se reproduz, em tom menor e mais desconfortável, entre os brasileiros que professam o livre-mercado como princípio quase inegociável e que tomam os Estados Unidos como a medida da racionalidade econômica. Para quem foi formado nessa dupla fidelidade, o ataque ao PIX arma uma cena que a sua visão de mundo tem dificuldade de processar, porque o farol que deveria iluminar o caminho do mercado livre aponta, de repente, contra um caso exemplar de mercado livre. O objeto que não se deixa concatenar não é o PIX, que é simples e funciona; é a contradição, que exigiria separar dois termos até então tomados como um só, a liberdade econômica e a América que a encarnava. 

Diante de uma cena que não cabe no horizonte de concatenação, a saída costuma ser deslocar o problema para qualquer lugar menos o centro. Talvez haja no PIX algum vício ainda não percebido, talvez o Brasil tenha feito algo de indevido, talvez exista um detalhe técnico que justifique a queixa. Tudo, menos admitir que o padrão se contradisse, porque admiti-lo seria reconhecer que mercado e América podem apontar em direções opostas, e a moldura não sobrevive a essa separação.  

Resta entender por que a pressão sobre o PIX se intensifica agora, e a resposta está menos numa intenção coordenada do que numa estrutura de incentivos que o calendário brasileiro torna irresistível para Washington. A tarifa proposta sob a Seção 301 recai sobre um governo em ano de eleição, e converte-se, no debate interno, em fatura apresentada a quem está no poder. Aqui, o emprego e a renda atingidos pela retaliação viram argumento eleitoral contra o governo que ousou não ceder. Ao mesmo tempo, um governo alinhado a Washington encerraria a resistência, sem que fosse preciso pressioná-lo, porque entregaria de bom grado o que hoje se tenta arrancar à força. Os dois desfechos possíveis do voto de outubro favorecem, cada um a seu modo, quem exerce a pressão: a vitória do campo que promete alinhamento automático dispensaria a coação; e a permanência do campo que resiste o faria sob uma coação que o calendário transforma em desgaste. 

O USTR, a Seção 301 e o Brasil

Não é necessário supor um plano único que articule a tarifa, a designação e o calendário eleitoral, e supô-lo seria empobrecer a análise. Trata-se de uma estrutura em que os incentivos convergem sem precisar de maestro: o que pressiona o governo no terreno comercial também o enfraquece no terreno eleitoral, e o que enfraquece o governo que resiste fortalece o adversário que promete não resistir.  

Há, porém, na reação americana uma razão que excede em muito o tamanho do mercado brasileiro de pagamentos, e ela está no fato de o PIX ter deixado de ser um caso brasileiro. O modelo tornou-se referência, e a difusão é o que transforma uma perda na margem em ameaça de escala. Inspirada de modo explícito no sistema brasileiro, a Colômbia lançou o seu próprio arranjo de pagamento instantâneo, e a diretora de sistemas de pagamento do BC colombiano reconheceu o aprendizado com o Brasil. Já em 2022, o então presidente do Banco Central brasileiro relatara o interesse de colombianos e canadenses em replicar o PIX. O Fundo Monetário e o Banco de Compensações Internacionais trataram o PIX, em documentos próprios, como exemplo a ser estudado por outros países. E há um detalhe que condensa o movimento: o engenheiro que coordenou a concepção do sistema no Banco Central do Brasil passou, em 2025, a desenhar arranjos de pagamento para outros países a partir do Fundo Monetário Internacional, levando o manual brasileiro para continentes que ainda não o tinham. 

O argumento da desfinanceirização ganha, nessa escala, outra envergadura. Se um único país retira da bomba financeira uma parcela das suas transações, a perda é pontual e suportável. Se o modelo se espalha pelo Sul global e se torna o padrão por onde os países emergentes processam os seus pagamentos, a subtração deixa de ser marginal. Não está em jogo apenas a receita das bandeiras num mercado, mas a erosão lenta de um arranjo em que o valor do mundo periférico sobe, é tarifado e se converte na moeda do centro. Um modelo de pagamento soberano, gratuito e público que se multiplica é, para quem vive da intermediação e da conversão, uma fuga que se generaliza. A Europa, que não costuma ser citada como periferia, move-se na mesma direção quando discute sua autonomia de pagamentos e a dependência das bandeiras americanas, sinal de que o desconforto com o pedágio não é exclusividade do Sul. 

O que para o cidadão comum é alívio, para quem segura as rédeas da ordem financeira global é subtração. Mas a experiência ensina que um sucesso isolado, sem um país que o sustente, não passa de uma ilha à espera da maré. O PIX é, hoje, essa ilha — uma vitória real, que escapou da captura, porque o Brasil soube construí-la, mas que roda sobre servidores, semicondutores e componentes que o país não fabrica. Uma engrenagem, por melhor que gire, não move a máquina sozinha. O destino do PIX talvez não se decida no PIX, e sim em saber se ele será peça solta ou parte de um sistema, de uma cadeia em que o país domine também o hardware que o executa e, na raiz dele, o mineral que o faz existir. E é aqui que a história dá meia-volta e retorna ao começo desta série, às terras raras que jazem em abundância no solo brasileiro. Delas se fazem os ímãs que giram o motor, a turbina e o disco, a matéria miúda de quase tudo que se move e pensa neste século — e o Brasil, que tem a terra, ainda compra o ímã pronto de quem aprendeu a fazê-lo. Resta entender que projeto nacional poderia inverter esse giro, e transformar o que se aglutina no chão na capacidade tecnológica que o país ainda não ousou construir.

 

Marcus Tavares é pesquisador voluntário do OPEU/INCT-INEU na área de economia, doutorando e mestre em Economia Política Internacional no Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PEPI/UFRJ) e bacharel em Relações Internacionais pelo Instituto de Relações Internacionais e Defesa (IRID/UFRJ). 

** Revisão e edição: Tatiana TeixeiraEste conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU. 

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