China e Rússia

A Reunião de Cúpula de Xi Jinping e Donald Trump

Trump e Xi, em Zhongnanhai, Pequim, em 15 de maio de 2026 (Fonte: Instagram @whitehouse)

Por Williams Gonçalves[Informe OPEU]

Em 14 de maio último, o presidente Donald Trump encontrou-se com o presidente chinês, Xi Jinping, na capital Pequim. Este foi um encontro muito aguardado e cercado de expectativas, tanto pelos temas a serem abordados pelos dois mandatários, como pelo estilo intempestivo, com que Trump costuma defender os interesses nacionais de seu país. 

A Trump os chineses dedicaram tratamento dos mais acolhedores, com um refinamento que somente a elite dirigente chinesa é capaz de promover. O sempre discreto Xi Jinping proporcionou a Trump recepção em que não faltaram homenagens militares, crianças acenando bandeirinhas dos dois países, banquete oficial e visita ao Templo do Céu. 

De acordo com a Casa Branca, na reunião de quase duas horas Xi e Trump discutiram questões como comércio entre os dois países, petróleo e a guerra que os EUA travam com o Irã. 

No jantar oficial, Xi Jinping pronunciou importante discurso, no qual reiterou a posição do Estado chinês em face do restante do mundo: 

“Honrado Presidente Donald J. Trump, senhoras e senhores, amigos, ao refletirmos sobre a trajetória das relações China-EUA, a chave para o avanço estável dessa relação reside na possibilidade de termos respeito mútuo, coexistência pacífica e cooperação vantajosa para ambos os lados. O mundo atual é um mundo em constante mudança e turbulento. As relações China-EUA afetam o bem-estar de mais de 1,7 bilhão de pessoas em ambos os países e impactam os interesses de mais de 8 bilhões de pessoas no mundo. Ambos os países devem assumir essa responsabilidade histórica e conduzir o gigantesco navio das relações China-EUA rumo ao futuro, de forma firme e na direção correta”. 

No mesmo discurso, Xi Jinping objetou que a Armadilha de Tucídides não constitui uma fatalidade. Ao recorrer à ideia posta em circulação pelo acadêmico estudioso das relações internacionais Graham Allison, segundo a qual a guerra opondo a potência ascendente à potência declinante é inevitável, Xi, ao mesmo tempo em que mostrou sua atenção para com o debate acadêmico nos Estados Unidos, não se furtou em argumentar que esse movimento de ascensão e declínio de China e Estados Unidos pode ser perfeitamente administrado por meios pacíficos. 

Várias são as interpretações dadas a esse encontro pelos observadores da política internacional. Evidentemente que as interpretações variam segundo o ponto de vista de cada um. Mas alguns aspectos do encontro parecem não causar divergências interpretativas significativas.  

O mais óbvio dos aspectos é a mudança do status dos dois países. Por mais estridentemente que Trump enfatize o poder dos Estados Unidos, o fato objetivo é que os Estados Unidos se encontram cada vez mais isolados. Conquanto conserve inegável poder econômico, tecnológico e militar, a resistência ao exercício arbitrário desse poder tem aumentado. A resistência oferecida pelos iranianos e o pedido de ajuda à China para encontrar uma saída para o conflito é prova disso. Enquanto os Estados Unidos travam uma guerra e prometem intervenções em outras partes do mundo para reafirmar seu poder, assim tentando cumprir a promessa de Trump de fazer com que a América volte a ser grande, o poder da China aumenta a cada dia sem recorrer a guerras. 

Leia com o OPEU, n.2: EUA x China, a disputa que definirá o século XXI 

Outro óbvio aspecto que não pode escapar à visão dos observadores é a coerência com que os chineses defendem princípios como a defesa da soberania, o respeito mútuo e a coexistência pacífica.  

A defesa da soberania é a pedra angular do comportamento da China no sistema internacional de poder. Os dirigentes chineses não transigem com esse princípio. É em nome dele que a China nunca aceitou discutir sobre o Tibete e é em nome dele também que aguardam a reintegração de Taiwan ao mesmo espaço político como algo que mais cedo ou mais tarde deverá acontecer. Nesse caso, vale reparar que os chineses de Taiwan nunca ensaiaram promover a independência da ilha e a criação de um Estado chinês de Taiwan.  

O respeito mútuo entre os Estados e a coexistência pacífica, a exemplo da defesa da soberania, são princípios que os chineses têm sustentado ano após ano, desde a Proclamação da República Popular, o que contrasta fortemente com o comportamento dos Estados Unidos. 

A disposição de Trump de ir à China, o convite a Xi Jinping para retribuir a visita e o chamado de Xi à responsabilidade que os dois Estados têm para a conservação da paz mundial são fatores muito positivos, a despeito de todos os problemas que a relação entre ambos tem enfrentado. A China continuará se desenvolvendo e exercendo cada vez mais influência no curso da vida mundial, enquanto os Estados Unidos continuarão a figurar como uma grande potência e jamais se conformarão a uma posição passiva nas relações internacionais. Nesse sentido, o grande desafio que se oferece a chineses e norte-americanos é defender seus respectivos interesses nacionais sem colocar em risco o equilíbrio mundial.


Conheça alguns dos textos mais recentes do autor publicados no OPEU

Informe “Trump e a decomposição da ordem internacional”, 21 jan. 2026

Informe “Crise nas relações Brasil-EUA”, 13 ago. 2025

Informe “O discurso belicista de Macron”, 6 mar. 2025

Informe “Trump – edição atualizada de Reagan”, 15 jan. 2025

Informe “O futuro governo Trump e as Relações Internacionais”, 8 nov. 2024

Informe “Os Estados Unidos e a Cúpula do BRICS, em Kazan”, 1º nov. 2024

Informe “Congresso: Partido Comunista Chinês se infiltra e influencia os norte-americanos”, 29 out. 2024

Informe “O Partido da Guerra”, 11 out. 2024

Informe “Relatório sobre Estratégia de Defesa Nacional 2024 adverte sobre grandes ameaças aos EUA”, 25 set. 2024

Informe “A tensa relação de Estados Unidos e China no Mar da China Meridional”, 13 jun. 2024

Informe “Rotas de colisão”, 18 de maio de 2024

Informe “Repensar a Estratégia dos Estados Unidos”, 2 ago. 2023

 

*  Williams Gonçalves é Professor Titular de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e professor do Programa de Pós-Graduação em Estudos Marítimos da Escola de Guerra Naval (PPGEM-EGN). Doutor em Sociologia, também é pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre Estados Unidos (INCT-INEU).

Entre outros livros, é autor de A China e a nova ordem internacional (Editora Ayran, 2023) e O realismo da fraternidade: as relações Brasil-Portugal no governo Kubitschek (Funag, 2024).

** Revisão e edição: Tatiana Teixeira. Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU.

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