America 250 e Freedom 250: a disputa pela memória nos 250 anos da Independência dos EUA
Logo oficial (Fonte: Wikipedia Commons)
Por Tatiana Teixeira e Camila Vidal* [Informe OPEU] [America 250]
Em 4 de julho de 2026, os Estados Unidos completam 250 anos de independência. As comemorações já estão em curso e mobilizam diferentes atores institucionais, iniciativas e narrativas sobre o passado nacional. A efeméride vai, no entanto, além da celebração simbólica: ela revela disputas sobre memória, identidade e uso político da história.
Duas iniciativas são responsáveis pelas celebrações. A primeira é a America 250, sob a coordenação da Comissão do Semiquincentenário dos Estados Unidos, criada pelo Congresso em 2016. De caráter bipartidário, a iniciativa investe em atividades educacionais, culturais e de engajamento cívico, com ampla participação de museus, estados e organizações comunitárias. Sua proposta enfatiza reflexão histórica, pluralidade e participação descentralizada.
A segunda é a Freedom 250, lançada em 2025 pelo presidente Donald Trump e articulada à Força-Tarefa 250 da Casa Branca, criada por ordem executiva. A iniciativa prioriza a promoção de grandes eventos públicos e celebrações de forte apelo simbólico e emocional, centradas na exaltação do “espírito americano”, da grandeza nacional e de uma narrativa positiva e linear da história dos Estados Unidos.
Fonte: site do Departamento da Agricultura dos EUA, USDA
A diferença entre ambas não está apenas no formato dos eventos. Ela aparece, também, na linguagem e na concepção de passado que mobilizam. Enquanto a America 250 se ancora em uma estrutura institucional congressual e enfatiza pluralidade e participação cívica, a Freedom 250 articula uma celebração fortemente vinculada ao Executivo e a uma leitura específica da fundação nacional.
A própria escolha do termo “Freedom” é reveladora. No vocabulário político norte-americano, “freedom” (“liberdade) carrega conotação mais emocional e associada à autonomia individual, à soberania e à ausência de interferência externa. Diferentemente de “liberty” (“liberdade”), termo mais ligado a garantias legais e ao Estado de direito, ou de “democracy”, que remete explicitamente a instituições e procedimentos democráticos, “freedom” permite enquadrar a independência como celebração de uma liberdade originária, menos mediada por conflitos, disputas e exclusões históricas.
Cabe lembrar que os Estados Unidos não nasceram como uma democracia plena. A república instituída no final do século XVIII restringia severamente a participação política, excluindo mulheres, pessoas escravizadas, populações indígenas e homens sem propriedade. A ampliação dos direitos políticos foi (e continua sendo) resultado de processos históricos posteriores e conflituosos.
Nesse contexto, a disputa em torno das celebrações dos 250 anos não se limita à organização de eventos. Envolve, ainda, a definição de quais memórias serão privilegiadas, quais conflitos serão silenciados e quais interpretações do passado ganharão centralidade pública.
A efeméride se torna, assim, um campo de disputa simbólica sobre o que significa e sobre quem pode ser americano e, do mesmo modo, sobre qual passado deve orientar o futuro. ![]()
* Tatiana Teixeira é editora-chefe do Observatório Político dos Estados Unidos (OPEU), pesquisadora de Pós-Doutorado da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e U.S. State Department Alumna (SUSI 2025).
Camila Vidal é professora na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), U.S. State Department alumna (SUSI 2025) e pesquisadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU) e do Instituto de Estudos sobre América Latina (IELA/UFSC).
** A versão integral deste artigo foi publicada no site The Conversation Brasil, em 20 fev. 2026. Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU.
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