América Latina

O Cair de Maduro e o tabuleiro global 

Crédito: Ilustração gerada por Inteligência Artificial (ChatGPT/OpenAI)

Um Xeque No Longo Cerco 

Dossiê “Trump 2.0 e o golpe na Venezuela 

Por Marcus Tavares* [Informe OPEU] [Venezuela] [Trump 2.0] [China] 

Não foi um criador benévolo quem convocou este encontro, mas um deus faminto de eras, que mastiga impérios como pão duro, chama de história o barulho dos ossos e exige ver qual gramática de poder restará de pé sobre os escombros do século XXI. Numa câmara asséptica, situada em algum círculo não mapeado da geopolítica, onde o tempo cronológico se dissolve em angústia organizada, Donald Trump e Xi Jinping se sentam diante de um tabuleiro que não é feito de madeira, mas da liga visceral de carne, geografia e medo que compõe o destino das nações. 

Trump projeta o corpo sobre o mapa como quem cobra a resposta do mundo, a encarnação de um kairós frenético; mede o globo pelo espasmo do ganho imediato, movendo peças com a urgência ruidosa de quem transforma a estadista em leilão. Cada lance ressoa no silêncio sepulcral como martelo de juízo — política reduzida a transação e choque, vitória como captura que precisa ser exibida. 

Xi, por sua vez, permanece imóvel como tempo geológico. O olhar ignora o centro e perscruta as bordas; deposita pedras no vazio aparente não como quem busca o confronto, mas como quem planta a asfixia, tecendo uma teia, cuja fatalidade só se torna visível quando já não há gesto capaz de revertê-la. O horror da cena não reside na diferença de temperamentos, mas no abismo que separa os jogos: o Ocidente joga xadrez, viciado na teleologia do xeque-mate e no clímax da queda espetacular; o Oriente joga Weiqi (Go), ontologia do cerco fluido, onde a vitória é tornar a existência do adversário irrelevante, sem necessariamente tocá-lo. 

Quando essas duas cosmologias colidem sobre o mesmo tecido da realidade, a fricção exige uma vítima propiciatória, um ponto de ruptura, onde teoria vira sangue, e soberania vira experimento. A Venezuela é arrastada para o centro desse altar. E, diante dos dois arquitetos desta ordem em recomposição, o resto do mundo — paralisado como as almas no vestíbulo do inferno — assiste inerte à preparação do sacrifício. 

Quando a liturgia do sacrifício se traduz em cadeia de comando, a alegoria cede lugar ao registro dos fatos: em 3 de janeiro de 2026, 150 aeronaves militares americanas bombardearam Caracas. Nicolás Maduro foi capturado e levado para solo americano. Trump anunciou que os EUA conduzirão a Venezuela até uma “transição segura”. Essa operação marca uma ruptura: não com a tradição de intervenção americana, mas com a forma como essa intervenção era justificada. O movimento americano em território venezuelano faz o tabuleiro ganhar, por um instante, cheiro de óleo e sangue. Uma peça cai com o ruído estrondoso que Trump prefere, e o mundo relembra uma regra antiga da estratégia das grandes potências ocidentais, sempre disponível sob verniz moderno: o poder não é estoque, mas sim, exercício.  

Gramáticas de poder 

O descer do grande porrete na Venezuela entra como lance-síntese de um impasse maior entre duas gramáticas de poder: a do xeque-mate e a do cerco. De modo que não é “sobre quem venceu”, porque vitória absoluta não é categoria alcançável em um jogo que nunca chega ao fim e cujas regras oscilam. A pergunta é outra, mais desconfortável: o que acontece com a ordem, quando a legitimidade que a tornava suportável deixa de operar, e o poder passa a falar sem liturgia? 

Esse é o ponto em que o debate recorrente sobre o “declínio” americano costuma tropeçar. A tentação do fatalismo é forte, e tem aparência de rigor: déficits, polarização, crises, guerras longas, rivais em ascensão. A palavra “declínio” oferece uma saída rápida, quase terapêutica, para quem deseja uma narrativa linear. Só que a hegemonia dos Estados Unidos, desde 1945, não se descreve bem como linha; ela se mostra melhor enquanto capacidade de reconfigurar restrições e de transformar uma crise em instrumento. A história do pós-guerra mostra uma potência que se sustentou em três pilares que se reforçavam como vigas de um mesmo edifício: expansão, promessa e jurisdição.  

expansão operou como necessidade estrutural, não como temperamento de líderes: o capitalismo nacional liberal americano se reproduziu por apropriação contínua de mercados, recursos, rotas e fóruns, convertendo o horizonte externo em condição interna de estabilidade A promessa operou como pacificação doméstica, a alquimia que transformava exclusões presentes em aspirações adiáveis. Uma amálgama ideológica capaz de fundir universalismo retórico e seletividade material sem que a contradição estourasse. Porque o Sonho Americano não precisava entregar igualdade agora, bastava manter o futuro melhor como crível e que a narrativa ainda prendesse. E a jurisdição operou como poder financeiro: o dólar, como moeda-chave; o sistema de pagamentos, como fronteira móvel; as sanções, como arma de precisão. Decidir quem acessa o circuito global passou a ser decidir quem vive, quem importa, quem respira — política vestida de técnica, tribunal disfarçado de mercado. 

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Durante décadas, quando um pilar rangia, os outros compensavam: a expansão gerava ganhos que alimentavam promessa, a promessa legitimava a expansão, a jurisdição monetária administrava as duas com aparência de ordem. O que muda, quando a engrenagem perde redundância, é que o sistema continua obrigado a expandir, mas perde a capacidade de pacificar pelo futuro e começa a depender demais da coerção para produzir coesão. A promessa esfarela quando o futuro deixa de ser crível — 2008 marca um corte, porque a crise fez o americano médio perceber que a escada não estava quebrada por acidente, estava desenhada para quebrar em certos degraus.  

O porrete na Venezuela como sintoma 

A jurisdição monetária, por sua vez, permanece poderosa, mas deixa de ser total, à medida que rivais tentam construir alternativas, contornar sanções, inventar rotas, oferecer crédito sem os mesmos condicionais; arma que ainda fere, mas já não garante, sozinha, o resultado. E a expansão, estruturalmente imperativa, volta a buscar atalhos mais cruéis, quando a promessa falha: se o “benefício” não pode ser prometido como horizonte, ele precisa ser apresentado como captura imediata, como alívio rápido, como vitória exibível. É aqui que a Venezuela se torna plausível como cenário-limite: uma peça escolhida para provar que a Doutrina Monroe não morreu, que o hemisfério ainda tem dono, e que soberania pode ser rebaixada a variável operacional, quando o centro decide que precisa — não de consenso, mas de demonstração. 

De modo que o grande porrete, descendo sobre Caracas, não entra como repetição de um imperialismo antigo; entra como sintoma de uma crise de forma. Durante dois séculos, mesmo quando praticava carnificina, o poder americano ainda se obrigava a oferecer liturgia, libertação, segurança, democracia, o reempacotamento do golpe como benefício futuro. No ponto em que essa exigência desaparece, a linguagem muda de registro, apropriação, ganho, interesse, transição tutelada, e o mundo ouve, sem o amortecedor do ritual, o golpe contundente que o poder nu produz quando derruba uma peça.  

ROOSEVELT CARTOON, 1904 'The Big Stick in the Caribbean Sea.' President Theodore Roosevelt enforcing his conce

De 1904, charge ‘O Grande Porrete no Mar do Caribe’, com o então presidente Theodore Roosevelt implementando seu conceito da Doutrina Monroe ao enviar uma flotilha naval americana de um porto caribenho a outro, continua atual. Por W.A. Rogers (Fonte: Bridgeman Images)

A disputa entre o xeque-mate e o cerco reaparece, então, sob um signo novo: não é apenas sobre quem vence a rodada, é sobre qual gramática de poder sobreviverá quando a legitimidade que tornava a ordem suportável deixa de operar. A pergunta que fica, mais desconfortável, é a que nenhuma metáfora consegue domesticar por inteiro: o que acontece quando o tabuleiro inteiro relembra que as regras podem ser trocadas no meio da partida — e decide responder em espécie? 

É no subsolo dessa infraestrutura — que expande, promete e julga — que a “troca de regras” se materializa. Quando esse arranjo perdeu tração, e Bretton Woods estourou, o mundo leu o rompimento da conversibilidade dólar-ouro como sinal de fraqueza. O efeito posterior contrariou a leitura apressada: ao escapar da âncora do ouro, os EUA ampliaram a margem de manobra do próprio sistema monetário internacional, convertendo vulnerabilidade em alavanca. O “dólar flutuante” consolidou privilégios exorbitantes. De um lado, a possibilidade de financiar déficits externos com passivos na própria moeda e ajustar paridades via taxa de juros, conforme conveniência, dissolvendo, no limite, a ideia clássica de “restrição externa” para o centro emissor e permitindo financiar o aumento do poderio militar. Na outra mão, a capacidade de sancionar vertiginosamente os seus adversários, a partir da sua posição central no sistema internacional monetário/financeiro. Esse é o tipo de detalhe que torna o declinismo, como explicação total, mais um anseio de corações do que um futuro incontestável. Hegemonia, aqui, não é apenas capacidade de produzir; é capacidade de impor foro, definir o que conta como risco e onde, quando e por quem ele será pago. 

O salto de poder que se abre com o fim de Bretton Woods e o choque Volcker vira, com o tempo, mais do que “margem de manobra”: vira capacidade de jurisdição. A elevação abrupta dos juros em 1979-82 reprecifica o mundo em dólar e recoloca o Fed como centro de gravidade, soldando interesses dispersos do sistema bancário privado internacional sob comando americano e inaugurando aquilo que a tradição heterodoxa chama de “diplomacia do dólar”. A consequência lenta é institucional: quando o custo da liquidez passa a ser decidido em Washington, e o acesso ao circuito do dólar define sobrevivência financeira, “risco” deixa de ser uma variável técnica e vira linguagem de governo. A hegemonia monetária amadurece, então, para um uso coercitivo que não depende de ocupação, porque pode produzir escassez, excluir atores e impor compliance por contágio reputacional. 

É nesse terreno que as sanções do século XXI ganham a forma de arma de precisão sistêmica: a “bomba-dólar”. O mecanismo opera, ao interditar o uso do dólar e ao conscrever bancos e infraestrutura de mensageria (SWIFT) para isolar entidades-alvo, com comando civil concentrado no Tesouro e execução por pressão regulatória e risco reputacional, convertendo a integração financeira do alvo em vulnerabilidade operacional. A Venezuela entra nesse roteiro, porque petróleo, finanças e geopolítica se acoplam: sanções unilaterais dos EUA passam a agravar queda de produção e exportações e a corroer a capacidade de rolar compromissos, inclusive aqueles amarrados à relação sino-venezuelana de “petróleo por financiamento”, em que fluxos eram estruturados por bancos chineses e PDVSA para honrar serviço da dívida. Quando o alvo já depende de receitas externas e de canais de pagamento, o dólar funciona como fronteira móvel. 

Mas o que autoriza esta máquina de coerção financeira é, domesticamente, a capacidade de transformar exclusão estrutural em promessa adiável. Quando esse suporte doméstico falha — porque a população deixa de acreditar no futuro —, a máquina fica exposta. Por isso, os pilares não caem isoladamente; caem juntos. E é justamente quando essa base simbólica enfraquece que a coerção precisa aparecer com nitidez, como prova de eficácia: a sanção deixa de ser apenas arquitetura silenciosa e passa a exigir cena, comunicado, lista, exemplaridade. 

As notícias recentes deixam essa engrenagem explícita em linguagem oficial e em seus efeitos materiais. O Tesouro dos EUA anunciou, no fim de dezembro de 2025, novas designações relacionadas com a Venezuela, envolvendo comércio de petróleo e redes associadas a sanções (OFAC), reforçando a dinâmica de bloqueio por nós logísticos e financeiros. Em julho de 2025, o próprio Tesouro sancionou o Cartel de los Soles como “entidade terrorista global” e vinculou o tema a “narcoterrorismo”, ampliando o espaço político para tratar coerção financeira como extensão de segurança nacional. No plano do petróleo, exportações venezuelanas colapsaram a zero, após sanções diretas sobre a PDVSA e, mais tarde, recuperaram-se parcialmente com a válvula de exceção via waiver/licença operacional para a Chevron — uma oscilação que mostra como sanção, exceção e “alívio condicional” operam como regulador fino de soberania econômica. 

Fato é que a economia americana é menos frágil do que seus déficits podem sugerir, porque as cadeias globais das multinacionais embaralham estatísticas, deslocando produção para fora e repatriando lucros por canais financeiros, de modo que o déficit comercial inflado nem sempre traduz perda líquida de riqueza, mas geografia desigual de valor dentro de cadeias. Esse é o ponto cego do diagnóstico que confunde “saldo” com “poder”. A pergunta relevante vira uma inversão. E se o “declínio” estiver menos na capacidade externa de produzir valor e mais na forma interna de distribuí-lo? A hegemonia continua gerando rendas, só que elas se concentram, e a concentração corrói as condições domésticas de legitimidade que sustentam compromissos globais. 

Erosão do sonho 

Durante décadas, o Sonho Americano funcionou como uma amálgama ideológica pacificadora. Metabolizou contradições ideológicas que seriam naturalmente irreconciliáveis, ao transformar exclusões de oportunidades em promessas de um futuro melhor. Hoje você não tem lugar; amanhã você terá se trabalhar arduamente por isso. Hoje você não tem renda; mas, no futuro, você receberá a justa conta do que produziu. O motor é simples e brutal: a promessa organiza a obediência. Esse motor aguentou, enquanto existiam “substitutos de fronteira”.  

Quando o espaço físico fechou, a promessa migrou para o tempo: crédito, educação, consumo, mobilidade imaginária. A globalização e a financeirização ampliaram essa engenharia, deslocando empregos de menor qualificação, comprimindo salários nos centros e elevando desigualdade, ao mesmo tempo em que o crédito compensava a fratura por algum tempo. Até que a crise global de 2007-2008 expôs o limite do poder de compra real e o caráter de armadilha dessa mobilidade por endividamento. A partir desse ponto, o sonho começou a falhar no que ele faz de melhor: pacificar a experiência cotidiana da perda, dando a ela um sentido administrável. 

O trumpismo aparece, então, menos como acidente e mais como enunciação nativa da falha. O que se chama de “America First” não surge apenas como doutrina externa; surge como confissão doméstica de que a promessa deixou de ser crível para uma parte substantiva do corpo social, e de que a hegemonia passou a entregar custos internos que não conseguem mais ser reembalados como virtude. A crença na ascensão social, mesmo quando essa sempre foi seletiva, perde a capacidade de organizar consentimento. 

Fim do Sonho Americano? (Crédito: Ilustração gerada por Inteligência Artificial, ChatGPT/OpenAI)

Nesse cenário, a Venezuela entra como dobradiça. A operação americana, em vez de provar um “declínio terminal” e uma busca por resguardar o poder que ainda lhe resta, sugere outra coisa: um deslocamento de método, quando a amálgama que pacifica perde eficiência doméstica e deixa de servir a natureza expansiva do capital e da hegemonia internacional. Quando a liturgia falha, o poder tende a recorrer ao gesto cru, ao ganho imediato, à captura que substitui a persuasão. O que era administrado como liderança passa a ser administrado como propriedade. A disputa com a China, que até aqui se beneficiava de formas estratégicas de Weiqi — influência, crédito, cerco paciente —, encontra o choque do xadrez, quando o outro jogador escolhe derrubar uma peça importante para reordenar o tabuleiro pela força. 

O problema, portanto, não pede o conforto do fatalismo. Ele pede precisão. Se os EUA “declinam” em algum sentido, declinam primeiro na capacidade de pacificar sua própria sociedade com a promessa que sustentava a hegemonia; e é justamente por isso que certos lances externos reaparecem com brutalidade imperial. 

O que antes, ao nos ancorarmos nas críticas trumpistas à Guerra ao Terror, aparecia como guerra distante, gasto improdutivo, “construção de nações” e sacrifício sem retorno, passa a ser narrado como operação cirúrgica que entrega bens imediatos, um gesto de polícia global com resultados domésticos mensuráveis, gasolina menos cara, “segurança energética”, reordenação de fluxos, uma peça capturada que, de repente, promete reorganizar o cotidiano de quem paga no posto e sente o custo de cada semana no carrinho do supermercado. A captura de Maduro foi anunciada com essa gramática de administração e proveito, incluindo a ideia de que os EUA governarão o país “até uma transição segura”, com ênfase direta em petróleo.  

A crítica trumpista ao belicismo internacional sempre carregou uma cláusula silenciosa, e Caracas a torna visível. Quando a projeção militar aparece como guerra longa, difusa, com objetivos elásticos e benefícios socialmente opacos, ela é vendida como traição ao trabalhador doméstico e como distração de uma casa em desordem. Ao passo que a mesma projeção se reverte de modo rápido e direto, ao menos no campo performativo, em “vantagem” imediata e inteligível, o julgamento muda de sinal: intervenção vira recuperação, captura vira justiça, coerção vira proteção. O enquadramento em “narcoterrorismo” funciona como dobradiça perfeita dessa inversão, porque desloca o ato do registro da guerra para o registro da lei e da higiene social, como se bombardear fosse extensão da acusação. As notícias após a operação conectam a ação à reativação de acusações e à linguagem de “conspiração narcoterrorista”, criando o corredor narrativo em que a fronteira deixa de ser limite moral e vira perímetro sanitário. 

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O atalho retórico se fortalece quando encontra um país em que o desamparo produz mortalidade. A experiência americana recente tem um nome para esse fundo existencial: “mortes por desespero”, termo popularizado pela obra de Anne Case e Angus Deaton – ganhador do Prêmio Nobel de economia –, onde overdose, suicídio e alcoolismo funcionam como estatística de falha social e como sintoma de uma promessa que não se cumpre no corpo. E que não se cumprirá. Quando esse tipo de morte toma conta do horizonte, a política precisa oferecer uma narrativa de (pseudo)cuidado que pareça eficaz, sem exigir a reconstrução de contratos sociais. Estes, aliás, tornam-se adornos quase vazios, em processo contínuo de rarefação, visando à sua extinção. Nesse ponto, o ataque a Maduro e a assunção do governo venezuelano converte angústia em tarefa, frustração em inimigo externo, perda em sacrifício necessário, e agora também violência em benefício, como se a coerção para além das fronteiras pudesse devolver, por contorno, a sensação de um futuro palatável. 

Assim, a violência é relativizada, conforme o interesse direto que ela consegue prometer. O mesmo repertório que condena a guerra como desperdício aprende a celebrá-la quando ela é apresentada como correção de preço e punição de ameaça, quando petróleo e “narcoterrorismo” aparecem como chaves de retorno rápido, como se a política externa pudesse funcionar como política social por outros meios. A transvaloração completa o circuito: o que era impopular por ser distante vira tolerável por parecer próximo; o que era ilegítimo por ser imperial vira aceitável por ser “segurança”; o que era um custo do império vira, no discurso, um subsídio doméstico. E é exatamente aí que a pergunta volta, mais dura, porque já não depende de moralismo: quanto tempo uma hegemonia aguenta quando precisa recorrer a esse tipo de conversão para manter coesão, e o que acontece com o tabuleiro quando outros jogadores aprendem que “benefício doméstico” é a senha que legitima quase qualquer lance? 

A verdade é que a máxima de que apenas o tempo revela a verdade se aplica melhor às dúvidas aqui levantadas, porque hegemonia não cai como estátua: ela se desloca, muda de forma, testa seus próprios limites e só depois deixa rastros legíveis. A pergunta, então, não pede um veredito imediato; pede um critério. Uma hegemonia aguenta, enquanto consegue converter custo em sentido; enquanto consegue transformar coerção em ordem, exceção em necessidade, sacrifício em promessa. Quando passa a depender reiteradamente da conversão de violência externa em “benefício doméstico” para manter coesão, ela troca um lastro lento por um atalho rápido: ganha fôlego no curto prazo, mas paga com inflação de precedentes. Cada vez que o gesto “funciona”, ele ensina ao mundo a lógica do comando. E, cada vez que precisa ser repetido para produzir o mesmo efeito emocional, ele revela que a promessa já não pacifica sozinha, que o sonho encurtou seu horizonte e que a ascese do trabalho virou insuficiente por não proporcionar mobilidade social real. 

Demais jogadores 

Embora China e EUA sejam os protagonistas mais visíveis do tabuleiro, a partida nunca foi a dois. Cada país exerce influência, em algum nível, no transcorrer do jogo, independentemente do tamanho do Estado, porque influência não é apenas tonelagem de poder; é também rota, voto, porto, minério, cabos, narrativa, jurisdição, petróleo, silêncio. Ao declarar abertamente que a Doutrina Monroe nunca morreu, Washington não apenas reposiciona peças. Convoca os demais países das Américas — do Canadá à Argentina — a decidirem como exercem o poder que detêm: alinhar-se e ganhar previsibilidade, resistir e pagar fricção, ou tentar a terceira via de barganhar autonomia com concessões seletivas. Nessa reconfiguração, Estados “menores” deixam de ser figurantes e voltam a ser pivôs: podem oferecer legitimidade regional, canais logísticos, suporte diplomático, ou, na direção oposta, podem virar terreno de contágio, de neutralidade impossível, de sabotagem por omissão. O tabuleiro se multiplica, porque cada movimento grande redistribui incentivos pequenos, e incentivos pequenos se acumulam. 

Do outro lado do Atlântico, o desconforto é estrutural. União Europeia e Reino Unido se veem em um lugar incômodo, ao terem que assistir a seu aliado e protetor replicar — em forma e efeito — aquilo que condenaram por anos na atuação russa contra a Ucrânia. A tensão não é apenas moral; é jurídica e estratégica, porque compromete a gramática de regras que sustenta coalizões, sanções, tribunais e “ordem internacional” como instrumento. Se a exceção volta a ser monopólio do mais forte, o direito internacional vira mais um teatro, e o custo para manter a unidade política europeia sobe. Assim como cresce a pressão por autonomia estratégica, cresce o medo de perdê-la. O resultado provável é uma Europa mais cautelosa nas palavras e mais pragmática nos meios, tentando preservar o vínculo de segurança sem endossar o precedente. 

Ademais, e talvez o pior de tudo para os interesses americanos, o mundo é convidado a refletir sobre qual estrategista oferece melhor futuro — o enxadrista do choque ou o jogador de Weiqi da paciência. Ao mesmo tempo, a China é empurrada para uma escolha amarga. Se o tabuleiro se torna permeável a capturas súbitas, a lógica do Weiqi, que depende de estabilidade e acumulação, perde parte do seu valor; e a tentação do xadrez cresce, porque o oponente mostrou que o golpe fulminante recompensa. Isso, por si só, coloca a vizinhança asiática em estado de alerta máximo, reavivando a memória de conflitos fronteiriços que a prosperidade comercial apenas adormeceu, não apagou. Só que isso tem um preço sistêmico: quando “benefício doméstico” vira senha para legitimar quase qualquer lance, a política mundial tende a entrar em uma fase, em que cada potência precisa produzir ganhos visíveis para sua plateia interna, e o espaço para acomodação diminui.  

O risco não é apenas de escalada; é de convergência para jogos de aniquilação, em que a vitória passa a ser definida como a incapacidade do outro de jogar — por estrangulamento de cadeia, de moeda, de tecnologia, de acesso. Nesse cenário, a hegemonia aguenta, enquanto consegue manter o privilégio de definir o que é “benefício” e para quem. Já o tabuleiro muda, quando os demais jogadores concluem que a única forma de não serem peças é aprender a falar a mesma língua do comando, ou inventar, a tempo, uma terceira gramática antes que o jogo se reduza ao silêncio. 

Resta, então, olhar para o Brasil — não como apêndice regional, mas como peça-chave. Cabe o alerta de que sanção e tarifa operam como sinais de que o “tabuleiro hemisférico” não é apenas cenário, é jurisdição para exercício, se preciso for. Quando o Tesouro norte-americano enquadra um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, sob o programa Magnitsky, a mensagem excede o indivíduo e mira o princípio de autonomia institucional, porque transforma conflito político interno em matéria sancionável, isto é, em objeto de punição extraterritorial. Quando, em seguida, um tarifaço de 50% passa a incidir sobre parcela relevante das exportações brasileiras, com justificativas públicas que explicitam a disposição de retaliar e “ajustar” o comércio como ferramenta de disciplina, o recado deixa de ser episódico e vira método. A constatação do óbvio ululante, portanto, em que pesem os latidos subservientes, é que o Brasil é grande demais para ser ignorado e estratégico demais para ser deixado fora do raio de comando.  

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O bombardeio na Venezuela, nesse encadeamento, apenas torna audível o que já estava implícito: interesse latente não se limita a petróleo e terras raras. A retórica do “narcoterrorismo” funciona, então, como ponte curta entre a política doméstica americana e autorização para escalada externa. Quando o Departamento de Estado pede ao Brasil que classifique PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas, a solicitação não é semântica, nem simbólica. Ela abre um corredor jurídico para ampliar sanções, rastrear fluxos e legitimar medidas extraordinárias sob o vocabulário do contraterrorismo, ainda que a realidade local seja de crime organizado, e não de insurgência ideológica formal. 

O precedente já existe no plano técnico: o OFAC sancionou Diego Macedo Gonçalves do Carmo — conhecido como “Brahma” — apontado como operador ligado ao PCC por autoridades de combate ao narcotráfico, o que mostra como a categoria “narco” pode ser acoplada a redes financeiras e virar pretexto de estrangulamento seletivo. Nesse quadro, se a via eleitoral não produzir, aos olhos de Washington, um governo alinhado ao seu repertório de ordem e ao imaginário de “vida americana” como padrão exportável, cresce a tentação de converter fricções políticas em ameaça securitária. “Terror” simplifica o enredo para consumo interno e reduz o custo de justificar intervenções diretas ou indiretas, primeiro pela caneta, depois pelo bloqueio, e, se o precedente venezuelano for normalizado, pela força.

 

Marcus Tavares é pesquisador voluntário do OPEU/INCT-INEU na área de economia, doutorando e mestre em Economia Política Internacional no Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PEPI/UFRJ) e bacharel em Relações Internacionais pelo Instituto de Relações Internacionais e Defesa (IRID/UFRJ). Contato: marcus.tavares1987@yahoo.com.br.

** Revisão e edição: Tatiana Teixeira. Este Informe OPEU não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU.

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