América Latina

Pesquisadores debatem relações Brasil-EUA no Encontro Anual INEU 2025

Crédito: Tatiana Carlotti

Por Tatiana Carlotti [Informe OPEU] [Divulgação]

O Instituto Nacional de Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU) realizou, entre os dias 3 e 5 de dezembro, mais uma edição dos seus tradicionais encontros de final de ano, reunindo convidados e pesquisadores da rede para fazer um balanço da conjuntura internacional com foco nas movimentações da potência mundial. 

Esta edição, naturalmente, foi marcada pelas transformações promovidas pelo retorno de Donald Trump à Casa Branca, com medidas que englobam desde a imposição do tarifaço, passando pela repressão interna aos imigrantes, até as amaças diretas à soberania dos países, em particular os latino-americanos, incluindo o Brasil. 

Neste cenário, o Encontro Anual INEU 2025 abriu os eventos com um debate de ponta e notório interesse sobre as assimetrias e vulnerabilidades brasileiras ante os Estados Unidos nos planos econômico, digital e militar. Também foram analisadas as distintas respostas dadas pelas forças parlamentares e judiciais de ambos os países em relação aos ataques antidemocráticos ao Capitólio em 2021 e, dois anos depois, à Praça dos Três Poderes. 

Com mediação de Samuel Soares (Unesp/INEU), a discussão contou com a participação dos professores Leonardo Ramos (PUC-MG), Marco Cepik (UnB/INEU), Héctor Saint Pierre (Unesp/INEU) e Andrei Koerner (Unicamp/INEU). 

A transmissão do evento foi ao vivo e todas as discussões podem ser conferidas no Canal do INEU. Confira abaixo os principais pontos debatidos. 

Vulnerabilidades econômicas 

Crédito: Tatiana Carlotti

Focando nos aspectos conjunturais do tarifaço imposto por Trump sobre os produtos brasileiros, o professor Leonardo Ramos (PUC-MG) apresentou os números das importações, exportações e do Investimento Estrangeiro Direto (IED) dos Estados Unidos e países do BRICS em relação ao Brasil.  

Em termos de exportações, os números relativos ao período entre 2009 (quando surge o BRICS) e 2024, mostram que a China se tornou um país chave para o Brasil a partir de 2016, mantendo a liderança desde então.  

No mesmo período, os índices dos EUA permaneceram estáveis, enquanto a versão estendida do bloco (que inclui nações como Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Irã, Indonésia e outros parceiros), ganhou peso significativo na balança comercial brasileira.  

No quesito importações, a lógica se repete: China e Rússia lideram, mas seguidas pelos Estados Unidos e depois pelos BRICS+, invertendo a situação das exportações, onde a economia norte-americana permanece em terceiro lugar. 

O quadro se altera, no entanto, ao observamos os dados do Investimento Estrangeiro Direto (IED), relativo às operações de empresas internacionais em longo prazo no país. Neste caso, aponta Ramos, a importância estadunidense é “muito mais significativa” do que a dos países do BRICS ou, particularmente, a da China. 

Em termos de IED, os Estados Unidos totalizaram US$ 0,27 trilhão em investimentos diante dos demais países do BRICS, cujos valores oscilam entre US$ 50 bilhões e US$ 60 bilhões, já incluídas a China e a Rússia.  

Na avalição do professor da PUC-MG, isso indica ao governo brasileiro “um potencial ainda maior de investimento desses outros parceiros, para além dos Estados Unidos, em infraestrutura ou investimento estrangeiro direto”.  

Ele explica que para os Estados Unidos, o IED é fundamental na garantia da absorção do excedente do capital norte-americano, ao mesmo tempo em que permite à potência global manter o controle sobre determinados setores produtivos.  

Ramos também observa que embora sejam importantes para alavancar determinados segmentos, as iniciativas recentes do presidente Lula, como sua visita à Ásia e participação na Cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), giram essencialmente m torno de acordos comerciais e negociações de novos mercados. 

O ponto central, em sua avaliação, é que a estrutura da dinâmica das relações entre Brasil e Washington permanece intacta. “Seu cerne não é abalado ou questionado, na medida em que os elementos associados aos IED não são alterados; e não há perspectiva de alteração de médio prazo desse processo”, destaca. Este cenário, alerta, tem desdobramentos nas assimetrias das relações econômicas entre Brasil e Estados Unidos.  

Ramos também reiterou a necessidade de uma leitura conjuntural do tarifaço face aos investimentos estrangeiros diretos, para que possamos compreender as “possibilidades, dilemas e maneiras de inserção internacional do Brasil” em uma ordem econômica internacional que se encontra em plena transformação.  

Confira a apresentação de Leonardo Ramos (PUC-MG) 

Infraestruturas críticas: a dependência digital 

Crédito: Tatiana Carlotti

Na sequência, o professor Marco Cepik (UnB) trouxe o cenário da dependência brasileira em relação aos Estados Unidos no universo digital, considerado uma infraestrutura crítica, ou seja, um serviço cuja interrupção pode trazer graves impactos para o país.  

Cepik lembrou que, no contexto do tarifaço, os Estados Unidos abriram uma ampla investigação comercial contra o país, sob a alegação de as decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) em relação às plataformas digitais, essencialmente empresas norte-americanas, “funcionariam como censura no Brasil”. 

Os Estados Unidos, destacou Cepik, também alegaram “discriminação injusta” pelo uso do PIX – usado por 76,4% dos brasileiros –, alegando que a medida prejudicaria outras empresas norte-americanas como Visa, Mastercard e sistemas privados da Apple Pay. Frente ao cenário de ataques, apontou o pesquisador, “acenderam-se várias luzes amarelas e vermelhas nos agentes do governo brasileiro”. 

Em sua apresentação, o professor da UnB elencou uma série de vulnerabilidades em termos de dados, infraestrutura e sistemas. Em relação ao fluxo de dados, ele destacou que “60% das cargas de dados nacionais rodam em nuvens fora do Brasil” e 90% desse fluxo é gerido por big techs norte-americanas.  

“A computação em nuvem no Brasil é um negócio de US$ 47 bilhões, com crescimento de 40% ao ano”, afirmou, ao mencionar que o Cloud Act (Clarifying Lawful Overseas Use of Data Act) “permite ao governo dos Estados Unidos, de maneira extraterritorial, acessar informações localizadas em data centers de empresas norte-americanas, dentro ou fora do país”. 

Em termos de infraestrutura, ele relatou que “90% do nosso tráfego internacional passa por cabos submarinos”, sendo que dos 16 cabos existentes no mundo, as empresas norte-americanas controlam 11. “Uma das resoluções dos BRICS neste ano, sob a presidência brasileira, foi constituir um cabo submarino direto ligando os países do bloco”, frisou. 

Cepik também destacou que, embora tenhamos um satélite de comunicações brasileiro, o SGDC (Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas), o Brasil detém “100% de dependência hoje da Starlink”. E, em órbita baixa, “altíssima dependência da rede de satélites GPS para posicionamento e navegação, afetando diretamente o funcionamento de infraestruturas críticas de transporte, telecomunicações, energia e finanças”. 

Além disso, salientou, vivemos um contexto de permanentes ameaças dos Estados Unidos em torno das restrições à exportação de componentes críticos de supercomputação; e de alta dependência do Brasil dos chips da Nvidia, sediada na Califórnia. 

Já na área de sistemas, o professor da UnB lembrou que 99% dos smartphones brasileiros — atingindo um universo de 170 milhões de pessoas — usam o WhatsApp; e que boa parte das discussões sobre os riscos à soberania digital ocorre em aplicativos da Microsoft, “que controla 98% do mercado de automação de escritórios no setor público e mais de 80% nas grandes empresas brasileiras”, sendo que “os grandes modelos de linguagem que utilizamos são estrangeiros” e 50% da população utiliza inteligência artificial com base nesses modelos.” 

“Combinando dados, infraestrutura e sistemas, nós temos um risco muito grande à soberania digital e estamos expostos a ameaças e ataques à soberania brasileira”, avaliou.  

“Apesar da postura mais soberanista do Brasil e dos esforços em torno da diversificação de parcerias no âmbito dos BRICS, isso leva muito tempo”, disse Cepik.  

Em sua avaliação, é preciso manter uma visão estratégica e entender as tendências gerais do sistema internacional, inclusive em relação ao mercado chinês. Por enquanto, “nós ainda temos entre 90% e 100% de dependência de investimentos e capitais estadunidenses em setores-chave” e “qualquer aumento de market share chinês mal arranha a superfície dessa dependência estrutural”. 

Confira a apresentação de Marco Cepik (UnB) 

Alinhamento militar 

Crédito: Tatiana Carlotti

Além da dependência econômica e digital que marcam as relações assimétricas entre Brasil e Estados Unidos, o país está submetido a uma forte dependência militar norte-americana, expressa em um acintoso alinhamento da caserna brasileira aos ditames de Washington. É o que revela o professor Héctor Saint-Pierre (Unesp/INEU) que trouxe, em sua exposição, a dimensão dessa dependência. 

Segundo Saint-Pierre, essa dependência ganha escala a partir da Segunda Guerra Mundial. Em 1949, o Brasil criou a sua primeira Escola Superior de Guerra, “uma cópia da Escola Superior de Guerra dos Estados Unidos de 1948” que, desde seus primórdios, “obedecia basicamente aos interesses norte-americanos de contenção ao comunismo”. 

Outra forte dependência do Brasil se dá em relação à tecnologia e armamentos norte-americanos, acompanhada de uma “doutrina do emprego, treinamento e preparo do soldado brasileiro que passa, basicamente, pela formação nos Estados Unidos”. 

O Brasil é também é um dos países que mais operações conjuntas realizou com os Estados Unidos. Isso se incrementou — “não por acaso”, ressaltou o professor — entre 2018 e 2025, quando foram realizadas 74 ações conjuntas, mais de duas por ano, entre os dois países. A título de comparação, ele citou o caso do México, que tem fronteira com os Estados Unidos e uma agenda comum de combate ao narcotráfico, e realizou 13 operações conjuntas no mesmo período.  

Segundo o professor, o número de oficiais brasileiros que vão aos Estados Unidos para participar de cursos de formação também é muito alto. De cada quatro cursos no exterior, três acontecem no país. Além disso, o Brasil conta com um fundo de financiamento para a compra de materiais norte-americanos.  

Como exemplo emblemático das “relações carnais” entre as Forças Armadas de ambos os países, ele lembrou que, em 2019, um general de Brigada brasileiro, o major-general David Almeida Alcoforado, foi nomeado subcomandante de interoperabilidade do Comando Sul dos Estados Unidos.  

“Isso significa que o Brasil está pagando um oficial para servir à estrutura militar de outro país que tem interesses importantes na região, especificamente no Brasil”, destacou. A denúncia saiu imprensa norte-americana, não na brasileira, após a apresentação das autoridades do Comando Sul ao presidente norte-americano, em 2020.  

Um vídeo mostrado por Saint-Pierre durante a exposição mostra a apresentação de Alcoforado a Trump, pelo general norte-americano Craig Faller, então à frente do braço Sul das Forças Armadas estadunidenses. “Do Brasil, através do presidente Bolsonaro, temos a mais nova aquisição: o major-general David, um dos mais destacados das Forças Armadas brasileiras. E aqui também, os brasileiros pagando para ele vir aqui e trabalhar para mim e fazer a diferença”, afirma Faller a Trump no vídeo. (Confira o vídeo aqui) 

Legenda: Major-general David Almeida Alcoforado, então subcomandante das Forças é apresentado a Donald Trump, em 2019. (Reprodução de vídeo /Yahoo Finances)

“Estamos falando da soberania nacional”, apontou Saint-Pierre, ao destacar que o oficial deveria ter, no mínimo, passado por uma dupla aprovação: a do Ministério das Relações Exteriores para verificar as restrições normativas; e a do Congresso Nacional. No entanto, ele foi nomeado e “ninguém estava sabendo”. 

“É um oficial superior, o cargo máximo nas Forças Armadas, um general de quatro estrelas que define doutrina, armamento, treinamento, valores dentro da caserna e que traz essas doutrinas de treinamento dos Estados Unidos”, alertou.  

Segundo o professor, a autonomia hoje dos militares brasileiros constitui na “maior vulnerabilidade” da política externa brasileira. “Eles não só não obedecem, como têm um oficial general que entrou na cadeia de mando dos Estados Unidos”, salienta. 

Os riscos dessa autonomia descontrolada dos militares brasileiros ganham em escala, apontou o professor da Unesp, frente às ameaças de Trump contra a Venezuela. “As decisões que Lula poderia tomar estão amarradas ao parecer dos militares. Quem vai decidir com ele sobre a situação na Venezuela? Ele pode fazer declarações como vem fazendo, mas e as vias de fato?”, questionou. 

Ele também frisou que a transição de poder no sistema internacional e a crise sistêmica abrem janelas de oportunidades para os países buscarem um alinhamento apoiado em uma neutralidade ativa, que signifique efetivamente “defender a neutralidade”. “É o momento de encontrar uma posição intermediária e pragmática”, avaliou, ao reiterar que “a autonomia dos militares não é brincadeira: ela está bloqueando a possibilidade de decidirmos soberanamente”. 

Confira a apresentação de Héctor Saint-Pierre (Unesp/INEU) 

Inversão insólita da democracia constitucional 

Crédito: Tatiana Carlotti

Em sua exposição, o coordenador do INCT-INEU, Andrei Koerner (Unicamp) apresentou o que chamou de “insólita inversão” entre as democracias constitucionais do Brasil e dos Estados Unidos: “hoje, o Brasil é reconhecido interna e externamente, como um regime democrático e um Estado de Direito; enquanto os Estados Unidos apresentam um estatuto duvidoso”. 

Essa percepção, reforça o pesquisador, cresce frente às medidas recentes de Trump em seu segundo mandato, que “de forma arbitrária, tanto interna quanto externamente, vem levantando dúvidas sobre a qualidade e a persistência do regime democrático” no país. Enquanto, no Brasil, a democracia “sobreviveu após a instabilidade política provocada por um então governante protofascista”. 

Koerner citou, como exemplo, a investigação e punição dos atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023, em particular o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, que teve um destino oposto ao de Trump, reeleito em 2024, após ser apontado como fomentador da invasão no Capitólio, em 6 de janeiro de 2021. 

Segundo o pesquisador a capacidade de reação institucional do sistema político e da Justiça brasileira “foi decisiva para a resistência democrática no Brasil”, em particular “a atuação conjugada do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com amplo apoio do Congresso, dos governadores e da sociedade civil”. 

Somado a isso, desde o final das eleições de 2002, estabeleceu-se uma ampla coalização política “em defesa da democracia e das eleições, com apoio no Brasil e no exterior, notadamente do governo Biden, para garantir a autoridade do TSE na condução das eleições e no reconhecimento do seu resultado”.  

Isso foi “determinante para a declaração de derrota de Bolsonaro nas eleições, que teria como desdobramento a tentativa de golpe em janeiro de 2023 e o processo de condenação subsequente”, salientou. 

Nos Estados Unidos, contrariamente, Trump conseguiu bloquear os processos judiciais que corriam contra ele, durante o governo Biden.  

“O Congresso rejeitou o pedido de impeachment de Trump, e as instituições judiciais, nomeadamente a Suprema Corte, não tiveram vontade, em virtude do alinhamento dos juízes com o Partido Republicano, nem foram capazes de finalizar os processos a tempo de impedir volta de Trump, inabilitando-o para concorrer às eleições de 2024”, detalhou. 

Esse movimento, detalhou Koerner, ocorreu devido à radicalização ideológica nas últimas décadas nos Estados Unidos, que provocou um “alinhamento dos parlamentares às máquinas partidárias — sobretudo a ala republicana — enrijecendo suas posições ideológicas”.  

Um padrão, destacou, que se estende ao campo jurídico, cujas decisões “passaram a ser mais diretamente condicionadas por objetivos partidários, estreitando a margem de manobra dos magistrados”. 

Em sua avaliação, “mais do que acentuar uma ofensiva conservadora, o segundo governo Trump vem apostando na desorganização da ordem constitucional, do conjunto de direitos, procedimentos e autoridades que são tomados como dados naquela cultura jurídica”. 

Enquanto no Brasil, houve “uma conciliação entre elites em torno de prática política e uma cultura jurídica voltada à preservação da ordem social”. O resultado, ponderou, foi uma “estabilidade política nos quadros da democracia constitucional, dominada por um centro oligárquico que neutraliza, em parte, as potencialidades da democracia”.  

Confira a apresentação de Andrei Koerner (Unicamp/INEU)

 

* Sobre o OPEU, ou para contribuir com artigos, entrar em contato com a editora do OPEU, Tatiana Teixeira, no e-mailprofessoratatianateixeira@outlook.com. Sobre as nossas newsletters, para atendimento à imprensa, ou outros assuntos, entrar em contato com Tatiana Carlotti, no e-mailtcarlotti@gmail.com.

 

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