A nova Estratégia de Segurança Nacional e o retorno do xerife das Américas
Crédito do pôster: Nature’s Fancy
Por Yasmim Abril M. Reis* [Informe OPEU] [Estratégia de Segurança Nacional] [Doutrina Monroe] [China] [América Latina] [Trump 2.0]
Hamlet é uma clássica obra literária escrita entre 1599 e 1601 por William Shakespeare. Isto é, uma obra dos séculos XVI e XVII. Sumariamente, a peça narra a história de como o príncipe Hamlet tenta vingar a morte do seu pai, Hamlet – o rei –, executado por seu irmão, Cláudio. Esse último, após envenenar seu irmão, tomou o trono e se casou com a rainha. O cenário é a Dinamarca, marcada pela era das monarquias. Todavia, a ideia aqui a ser extraída do clássico literário é a famosa expressão que tomou o mundo: embora seja loucura, há nela algo de metódico (em inglês, Though this be madness, yet there is method in it).
Loucura. Palavra que desfruta de múltiplas definições, sendo uma delas “sentimento ou sensação que foge ao controle da razão” ou, ainda, “entusiasmo exagerado ou insano”, segundo o dicionário Michaelis. 2025, em diversas instâncias, regiões, localidades, pode-se dizer que foi um ano “insano”. Diferentes conflitos em variados locais geográficos, novos ou não, trazem consigo um retorno a uma época não tão longínqua. Cabe-nos questionar o que está diante dos nossos olhos: há um retorno de uma política orientada por polos de poder?
A Rússia entende a Ucrânia como uma região de influência; e a China, por sua vez, preserva essa lógica quando se refere a Taiwan. E os Estados Unidos em relação à América Latina? Será que o discurso da “era da Doutrina Monroe chegou ao fim”, pronunciado por John Kerry, secretário de Estado dos Estados Unidos, durante o governo Barack Obama (2009-2017), na Organização dos Estados Americanos (OEA), ainda ecoa? Parece-nos que não. A Doutrina Monroe, ou melhor, um novo corolário, surge em meio às tensões e incertezas globais. Agora está textualmente dito que há um “Corolário Trump” à Doutrina Monroe, não deixando dúvidas restantes.
Essa mudança foi explicitada nas primeiras horas da última sexta-feira (5/12), quando o governo Donald Trump, em seu segundo mandato, publicou a nova Estratégia de Segurança Nacional (NSS, na sigla em inglês). Concisamente, esse documento é elaborado, regularmente, com o objetivo de determinar prioridades à Segurança Nacional e expor os interesses em jogo na condução da política, tanto no contexto doméstico quanto internacional. O registro é encaminhado pelo presidente ao Congresso Nacional, em consonância com a Seção 601 da Lei Goldwater-Nichols de Reorganização da Defesa de 1986 (PL 99-433), indicando que cabe ao Poder Executivo detalhar “compromissos, objetivos, políticas e capacidades de defesa necessários” e disponíveis para “implementar os planos de segurança” e lidar com os desafios identificados. Essa última palavra se revela de extrema importância: “desafios identificados”. Esses se transformaram e sofreram inflexão nessa nova versão do documento.
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A redação divulgada no registro oficial sinaliza para o mundo que o interesse estadunidense nessa nova era se alterou, e não somente no que concerne aos inimigos. O primeiro aspecto a ser observado é a retirada do terrorismo como ameaça aos Estados Unidos. Esse componente que, desde os ataques do 11/9, tornou-se o cerne ameaçador aos EUA. Agora, o governo Trump enumera novas ameaças, tais como: narcotráfico, imigração, fronteira, tráfico humano, práticas comerciais predatórias, espionagem e, entre outras, a influência de outra potência estrangeira na região.
A China, por sua vez, como na versão do documento publicada em 2017, permanece com destaque. Nessa edição, a China é considerada um grande desafio atrelado à região do Indo-Pacífico. Em outras palavras, o documento prevê que, nessa região, há possibilidades de grandes conflitos econômicos e geopolíticos, na medida em que é a região do globo responsável por quase metade do PIB mundial. A NSS lamenta a posição de grande potência que a China tem alcançado e culpa os governos anteriores, sobretudo os democratas, por essa situação. Na atual versão da edição, o governo de Trump propõe enfrentar a China em diferentes aspectos, tanto econômicos quanto tecnológicos, com o objetivo de impedir que a China se ponha como uma potência dominante global.
A NSS apresentou uma mudança em relação a como as posições regionais estão expostas no documento. A Europa é um exemplo disso, assim como o “Hemisfério Ocidental”. Desde 1947, no pós-Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a Europa tem uma posição estratégica no documento. Posteriormente, esse papel foi assumido pelo Oriente Médio e Indo-Pacífico. Entretanto, a nova versão da Estratégia de Segurança Nacional sinaliza como região prioritária o “Hemisfério Ocidental”, deixando a Europa em posição posterior ao Indo-Pacífico.
A surpresa foi o documento positivar um “Corolário Trump” à Doutrina Monroe.
Desde o início do seu mandato, em 2025, o governo Trump tem emitido discursos e realizado ações que revivem memórias de intervenções na América Latina, como no recente caso da Venezuela, no Mar do Caribe. As medidas tomadas ao longo desse ano não indicam apenas ameaças mais agressivas contra os cartéis de drogas; elas explicitam e reafirmam sua política externa do America First. Como observa o pesquisador Robert Muggah, em artigo publicado no site The Conversation Brasil, de forma geral, essa estratégia “remete às doutrinas do século XIX e início do século XX, defendidas por ex-presidentes como Monroe, Polk, McKinley, Jackson, Roosevelt e Wilson, todos adeptos da primazia dos EUA no Hemisfério Ocidental”.
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Trump não inova em nada a política externa dos Estados Unidos para a região em relação aos objetivos, mas, sim, em relação aos meios e métodos. No documento, na página 5, explicita como objetivo que: “queremos garantir que o Hemisfério Ocidental permaneça razoavelmente estável e bem governado o suficiente para impedir e desencorajar a migração em massa para os Estados Unidos; queremos um Hemisfério, cujos governos cooperem conosco contra narcoterroristas, cartéis e outras organizações criminosas transnacionais; queremos um Hemisfério que permaneça livre de incursões estrangeiras hostis ou propriedade de ativos essenciais e que apoie cadeias de abastecimento críticas; e queremos garantir nosso acesso contínuo a locais estratégicos importantes. Em outras palavras, vamos afirmar e aplicar um “Corolário Trump” à Doutrina Monroe”.
Desse modo, inferimos que a nova ameaça identificada pelos Estados Unidos tem como origem o local/regional, e não mais o sistêmico, o que podemos denominar como uma ameaça regional-global (em inglês, Global Regional Threat). Com efeito, a ameaça não é mais originária da Ásia nem da Europa, mas do seu considerado tradicional “quintal estratégico”.
O recado dos Estados Unidos ao mundo, em especial à América Latina, foi transmitido. Não haverá hesitação em tentar mudar seus meios e métodos para manter sua supremacia imperial.
Destaca-se, além disso, que os EUA do presente não são mais os mesmos dos séculos XIX e XX, e seu poder está em constante declínio. O mais importante e, também, esquecido por Donald Trump e sua cúpula política, é que não adianta reprimir os países latino-americanos, uma vez que o nacionalismo e a busca pela autonomia por esses países em relação à cooperação e ao aspecto comercial já não são mais coordenados somente por Washington. Outros atores surgiram, os séculos mudaram. Ainda que alguns analistas e/ou a sociedade vejam Donald Trump como um personagem muito assemelhado à loucura, Shakespeare já nos alertava: há método na loucura? O método é o resgate e a reafirmação da supremacia imperial na América Latina.
* Yasmim Abril M. Reis é doutoranda em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP) e Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Segurança Internacional e Defesa da Escola Superior de Guerra (PPGSID/ESG). É pesquisadora colaboradora no Observatório Político dos Estados Unidos (OPEU) nas áreas de Segurança e Defesa, pesquisadora colaboradora no Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (GEDES), líder de pesquisa voluntária no Laboratório de Simulações e Cenários na linha de pesquisa de Biodefesa e Segurança Alimentar (LSC/EGN) e Pesquisadora de geopolítica no Núcleo de Avaliação da Conjuntura (Boletim Geocorrente-NAC/EGN). Contato: reisabril@gmail.com.
** Revisão e edição: Tatiana Teixeira. Primeira versão recebida em 9 dez. 2025. Este Informe OPEU não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU.
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