A Rede Global: como Epstein, Bannon e os doadores de Trump construíram uma nova extrema direita internacional
“Divulguem os arquivos Epstein”, diz faixa, em protesto em Washington, D.C., em 17 jul. 2025 (Crédito: Geoff Livingston/Flickr)
O verdadeiro legado dos e-mails de Epstein não são os detalhes sórdidos que a maioria das manchetes divulgou, mas a revelação casual de até que ponto o trabalho de uma internacional de extrema direita já havia avançado, e de como ela precisa cada vez menos de um único vilão para continuar operando
Por Inderjeet Parmar, para The Wire* [Republicação] [The Wire]
Quando o último conjunto de e-mails de Jeffrey Epstein veio à tona no início de 2025, poucos esperavam que eles se assemelhassem menos a um registro de tráfico sexual e mais às atas de uma start-up geopolítica particularmente sinistra. No entanto, lá estavam eles: trocas detalhadas entre Epstein e o ideólogo e incentivador do Trump-MAGA, Steve Bannon, em 2018-19, sobre modelos de financiamento, listas de contatos de líderes da extrema direita europeia, canais de criptomoedas para evitar a supervisão bancária e até mesmo uma afirmação direta de que “DT está ciente” do projeto.
Donald Trump, então presidente, pode ou não ter sido totalmente informado, mas o quadro geral agora é inconfundível. Uma rede transnacional informal, mas altamente eficaz — que alguns chamam de Internacional Reacionária — passou boa parte da década juntando o dinheiro americano do MAGA, partidos etnonacionalistas europeus, milícias de combate de rua e bilionários do Vale do Silício. Seu objetivo é simples: substituir a ordem internacional liberal por algo mais rígido, mais branco e muito menos sujeito à responsabilização.
A “Internacional Reacionária” é uma rede transnacional informal de atores de extrema direita, populistas e autoritários, think tanks, financiadores e meios de comunicação que trabalham para minar as instituições democráticas liberais, promover o nacionalismo e avançar o conservadorismo cultural. Não é uma organização formal como a histórica Internacional Comunista, mas uma rede descentralizada de alianças que se estende pela Europa, Américas e além.
Cunhado em diversas análises por volta de 2024-2025, o termo descreve como figuras como Viktor Orbán (Hungria), Giorgia Meloni (Itália), Marine Le Pen (França), Javier Milei (Argentina) e Donald Trump (EUA) se coordenam por meio de eventos, financiamento e ideologia compartilhados para desafiar o globalismo, o “wokeness” e organismos multilaterais como a União Europeia (UE).
Os principais centros incluem a CPAC (Conservative Political Action Conference), o Fórum de Madri (organizado pelo partido Vox da Espanha) e o Projeto 2025, da Heritage Foundation, que influenciou políticas dos EUA ao Brasil.
Essa rede prospera com temas antiprogressistas: oposição à imigração, direitos LGBTQ+, ação climática e elites “globalistas”. É financiada por fontes opacas, como bilionários dos EUA (por exemplo, a família Mercer) e fundações europeias, com eventos como o “Europa Viva 24”, em Madri.
Esta não é uma conspiração de corredores. É uma conspiração à vista de todos, documentada em processos judiciais, divulgações de financiamento de campanha, mensagens vazadas e podcasts arrogantes de seus próprios arquitetos.
O arquiteto e o operador
Steve Bannon nunca escondeu sua ambição. Depois de deixar a Casa Branca em 2017, ele declarou que seu verdadeiro trabalho estava apenas começando: construir uma revolta populista de extrema direita global contra o “partido de Davos”. Em 2018, ele criou uma organização em Bruxelas com o nome grandioso de “The Movement”, projetada como um balcão único para os partidos anti-imigrantes da Europa. Matteo Salvini, na Itália; Viktor Orbán, na Hungria; Marine Le Pen, na França; Nigel Farage, na Grã-Bretanha — todos foram cortejados com pesquisas, mensagens e promessas de dinheiro transatlântico. A proposta de Bannon era direta: o que Trump fez ao Partido Republicano, eles poderiam fazer à União Europeia.
Mas a rede do Movimento se espalhou ainda mais, incluindo o Brasil, por meio de Eduardo Bolsonaro, filho de Jair Bolsonaro, que seria seu representante na América do Sul.
O que só recentemente ficou claro foi o quão útil Jeffrey Epstein foi para esse projeto. Epstein não era um ideólogo; ele era um nó da rede com recursos – jatos particulares, listas de convidados de Palm Beach e um desejo desesperado de reabilitar sua reputação após seu acordo judicial de 2008. Nos e-mails, ele oferece a Bannon treinamento de oratória para aparições no Reino Unido, rascunhos de listas de doadores, propõe contas blockchain para movimentar dinheiro sem deixar rastros e até se oferece para colocar Bannon em contato com o presidente em exercício da Assembleia Geral da ONU para obter conselhos sobre “o projeto da UE”.
O tom é casual, quase colegial. Dois homens que compreendiam que o poder não se resume apenas à ideologia. Trata-se de acesso, logística e negação.
O valor de Epstein era precisamente o fato de ele ser radioativo. Ao se associar a ele, Bannon poderia testar quais políticos e doadores estavam dispostos a ignorar o risco à reputação em prol da causa. Aqueles que permaneceram na sala eram os que importavam.
O dinheiro
Nenhuma rede internacional funciona apenas com entusiasmo. A classe de doadores americanos que financiou o retorno de Trump em 2024 acabou sendo o mesmo grupo que Bannon vinha cultivando para a Europa.
Elon Musk doou pelo menos US$ 291 milhões no ciclo de 2024, grande parte por meio de seu America PAC. Parte desse dinheiro pagou por anúncios que poderiam ter sido escritos por Giorgia Meloni ou Geert Wilders: caravanas intermináveis, demografia de “substituição”, civilizações em colapso. Musk não precisava que lhe dissessem o que fazer; ele passou anos saturado nas mesmas bolhas do X/Twitter que Bannon ajudou a criar.
Peter Thiel, mais discreto, mas não menos decisivo, financiou J.D. Vance e uma rede de grupos de dinheiro sujo que serviram de ponte entre Palo Alto e a Nova Direita Europeia. Miriam Adelson assinou cheques de nove dígitos cuja única consistência ideológica era uma linha dura em relação às fronteiras – seja no Negev ou no Rio Grande. Barões das criptomoedas, recém-enriquecidos e recém-paranoicos com a regulamentação, completaram a lista. Seus nomes agora adornam as placas de doadores da reforma de US$ 300 milhões do salão de baile da Casa Branca de Trump, uma metáfora adequada: espalhafatosa, excessivamente cara e construída sobre fundações que ninguém tem permissão para inspecionar de perto.
Isso nunca foi caridade. Foi um investimento em um mundo, onde os Estados-nação recuperam o controle das instituições supranacionais, onde as plataformas tecnológicas policiam a liberdade de expressão de acordo com a política do proprietário e onde a imigração é o bode expiatório para todas as queixas não resolvidas do século XXI.
A força nas ruas
As ideias precisam de executores. Nos Estados Unidos, os Proud Boys, os Oath Keepers e diversas milícias ligadas aos Three-Percenters desempenharam esse papel. Eles forneceram segurança nos comícios de Trump quando a proteção oficial parecia instável, intimidaram funcionários eleitorais e, em 6 de janeiro de 2021, tentaram manter Trump no poder pela força. Muitos de seus líderes foram presos após 6 de janeiro, mas perdoados por Trump no início de 2025. Em 2024-25, seus membros se renomearam como “observadores eleitorais” e “voluntários de segurança da posse”, animados por promessas — algumas explícitas, outras sussurradas — de indultos e favorecimentos.
O QAnon desempenhou uma função diferente. Enquanto os Proud Boys trouxeram força bruta, o QAnon trouxe mitologia. Ao transformar os crimes reais de Epstein em uma fantasia barroca de conspirações satânicas, neutralizou os próprios escândalos que deveriam ter destruído a rede. Trump republicou contas do QAnon durante toda a sua segunda campanha; seu novo Departamento de Justiça não demonstrou interesse em divulgar os arquivos completos de Epstein. Para os verdadeiros crentes, isso é prova de que o plano está funcionando.
Ambas as correntes — os brigões e os conspiradores — foram úteis no exterior. Bannon falou abertamente sobre “franquear” o modelo MAGA. Tommy Robinson no Reino Unido, as facções mais militantes da Alternativa para a Alemanha (AfD) na Alemanha, e os manifestantes dos comboios no Canadá — todos tomaram emprestados táticas, memes e, às vezes, dinheiro do original norte-americano.
A fachada respeitável
O que torna essa rede duradoura é a camada de autoridades eleitas que sabem exatamente o que está acontecendo e escolhem desviar o olhar — ou ajudar.
Em Washington, senadores e congressistas que antes mantinham os Proud Boys à distância agora participam de suas campanhas de arrecadação de fundos. Marjorie Taylor Greene, Paul Gosar e outros transformaram a disseminação de teorias conspiratórias de um passivo em uma marca própria. J.D. Vance, que antes era um Never-Trumper, agora repete os argumentos de Bannon em solo europeu, elogiando a Hungria de Orbán como um modelo para os Estados Unidos.
Na Europa, o processo está mais avançado. Giorgia Meloni governa a Itália com um partido, cujas raízes são inequivocamente fascistas. O novo presidente da Polônia, eleito em 2025 por uma margem estreita, mas decisiva, concorreu com a mesma plataforma antirrefugiados que Bannon ajudou a elaborar uma década antes. Mesmo em países onde a extrema direita permanece na oposição – França, Alemanha, Espanha –, ela define os termos do debate. Os partidos centristas adotam regras de migração cada vez mais rígidas apenas para se manterem elegíveis.
A Nova Internacional
Esta é, então, a nova extrema direita internacional. Não tem sede, nem lista formal de membros, nem congresso anual em Viena. Tem podcasts, jatos particulares, carteiras criptografadas, LLCs offshore e uma lista comum de inimigos: a UE, as Nações Unidas (ONU), o Fundo Monetário Internacional (FMI), os “globalistas”, os migrantes, os teóricos críticos da raça, os ativistas climáticos e qualquer pessoa que ainda acredite na ordem pós-1945.
Em essência, o eixo Epstein-Bannon operacionalizou a visão da Internacional Reacionária: transformar afinidade ideológica em alianças concretas que corroem a democracia por meio de perturbações coordenadas. Embora a morte de Epstein tenha cortado alguns laços, a resiliência da rede — evidente na coordenação contínua entre a extrema direita dos EUA e da UE — mostra seu impacto duradouro.
Sua ideologia não é coerente no sentido tradicional. Ela inclui católicos monarquistas e libertários ateus, sionistas linha-dura e negacionistas moderados do Holocausto, apologistas da Rússia e ultras ucranianos. O que os une é a crença de que a democracia liberal fracassou, que o futuro pertence a nações fortes lideradas por homens fortes e que já é tarde demais.
Jeffrey Epstein está morto. Steve Bannon entra e sai dos tribunais. Trump está de volta à Casa Branca. No entanto, a rede que eles ajudaram a montar é maior do que qualquer um deles. Ela se estende de Mar-a-Lago a Budapeste, do algoritmo do X às ruas de Chemnitz, dos balanços do Vale do Silício aos pátios das prisões onde “capítulos” dos Proud Boys continuam recrutando.
Ela não é invencível. Está atravessada por egos, riscos jurídicos e pelas contradições próprias de quem tenta conduzir um movimento global à base de ressentimento e WhatsApp. Mas já não precisa de coordenação perfeita para continuar avançando. O dinheiro, os lutadores de rua e os representantes eleitos estão lá. E a velha guarda — aquela que ainda acredita em uma ordem baseada em regras e em instituições multilaterais — ainda não encontrou uma resposta. Na verdade, ela própria tem cedido terreno à extrema direita.
Esse é o verdadeiro legado daqueles e-mails: não os detalhes sórdidos perseguidos pela maioria das manchetes, mas a revelação casual de até que ponto o trabalho de uma internacional de extrema direita já havia avançado — e de como ela precisa cada vez menos de um único vilão para continuar em marcha. ![]()
* Inderjeet Parmar é professor de política internacional e reitor associado de pesquisa na Escola de Política e Assuntos Globais da City St George’s, Universidade de Londres, membro da Academia de Ciências Sociais e escreve a coluna American Imperium no The Wire. Ele é membro internacional do think tank ROADS Initiative, em Islamabad, membro do conselho do Instituto de Ciências Sociais de Miami, nos EUA, e do conselho consultivo do INCT-INEU, no Brasil, sua principal associação para o estudo dos Estados Unidos. Autor de vários livros, incluindo Foundations of the American Century, ele está atualmente escrevendo um livro sobre a história, a política e as crises do establishment da política externa dos EUA.
** Tradução: Filipe Mendonça. Revisão e edição: Tatiana Teixeira. Publicado originalmente no site The Wire, em 1º dez. 2025. Republicado no OPEU com a autorização do autor. Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU.
*** Sobre o OPEU, ou para contribuir com artigos, entrar em contato com a editora do OPEU, Tatiana Teixeira, no e-mail: tatianat19@hotmail.com. Sobre as nossas newsletters, para atendimento à imprensa, ou outros assuntos, entrar em contato com Tatiana Carlotti, no e-mail: tcarlotti@gmail.com.
Assine nossa Newsletter e receba o conteúdo do OPEU por e-mail.
Siga o OPEU no Instagram, X/Twitter, Linkedin e Facebook
e acompanhe nossas postagens diárias.
Comente, compartilhe, envie sugestões, faça parte da nossa comunidade.
Somos um observatório de pesquisa sobre os EUA,
com conteúdo semanal e gratuito, sem fins lucrativos.