América Latina

Cem Anos de Solidão e o amargo fruto do imperialismo na América Latina 

Fonte: Ilustração de Luiza Rivera | Reprodução do livro Cien Años de Soledad (Random House) 

Por Maria Eduarda Oliveira* [Resenha OPEU] [EUA-AL] 

Fonte: Gabriel García Márquez (Montagem da autora)

Cem Anos de Solidão (Editora Record, 2024), do escritor colombiano Gabriel García Márquez, é uma das obras mais emblemáticas da literatura latino-americana, entrelaçando crítica social e realismo mágico, um estilo literário que mistura realidade com fantasia, para explorar, de forma profunda e simbólica, as complexidades do que é ser latino em uma “América para os ‘norte-americanos’”. 

Para além de elementos fantásticos e referências bíblicas, García utiliza em sua escrita momentos históricos e contextos políticos vividos pela Colômbia, em especial o Massacre das Bananeiras, ocorrido em 1928 na cidade de Aracataca. O balanço foi trágico: mais de 2.000 mortos entre os trabalhadores da antiga multinacional norte-americana United Fruit Company (UFCO). Esse episódio serviu como fio condutor para uma crítica contundente ao imperialismo estadunidense na região, revelando como a exploração externa moldou e continua a moldar profundamente a história e a identidade latino-americanas. 

Gênesis 1:1 – No princípio, Macondo foi criada  

No início da obra, é narrada a saga dos fundadores de Macondo, cidade fictícia criada por Gabriel García Márquez. José Arcadio Buendía e Úrsula Iguarán, unidos por um matrimônio rejeitado por suas próprias famílias, lideram um grupo em direção aos vales remotos da Colômbia, em busca de um lugar para chamarem de seu. A narrativa dessa gênese carrega traços míticos e religiosos, evocando a criação bíblica do mundo, ao mesmo tempo em que simboliza a tentativa de fundação de uma sociedade autônoma — ideal que também permeou diversos projetos nacionais latino-americanos no período pós-independência. 

Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de pau a pique e telhados de sapé construídas na beira de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome, e para mencioná-las era preciso apontar com o dedo” (p. 7, Editora Record, 2024, edição de referência das demais citações) 

Macondo nasce, portanto, como fruto da fuga, da invenção e do desejo de autonomia. Cada personagem da família Buendía carrega uma dimensão simbólica, representando tanto impulsos individuais quanto contradições estruturais da América Latina — entre o moderno e o arcaico, o progresso e a ruína, o real e o mágico. No entanto, assim como Macondo, essas nações acabaram atravessadas por violência, desigualdade e interferências externas, revelando que a promessa de soberania logo seria confrontada pela dura realidade do imperialismo e da exploração — temas centrais que García Márquez desenvolve com profundidade no decorrer de toda a obra. 

Ao longo das gerações dos Buendía, observamos personagens marcados pela repetição de nomes e solidões, como se estivessem presos em um ciclo inescapável do destino. José Arcadio Buendía, fundador sonhador e obcecado pelo conhecimento, inaugura a linhagem com um idealismo que, aos poucos, é corroído pelas escolhas e tragédias de seus descendentes. Úrsula, símbolo de resistência e lucidez, tenta manter a ordem familiar diante do caos crescente de Macondo — ela é a base da família e do povoado. “Aurelianos” e “Arcádios” se multiplicam, cometendo erros, desde a repetição da obsessão pelo conhecimento ou pela guerra até o isolamento e a solidão excessivos, e sucumbindo às paixões, cada um à sua maneira, enfrentando a tensão entre o desejo de mudança e o peso do passado. À medida que as novas gerações se deparam com as transformações econômicas e sociais impostas por forças externas, suas trajetórias se tornam ainda mais instáveis.  

Infográfico, em fundo creme, com a árvore genealógica da família Buendia.Fonte: Cristielle Luise/Superinteressante

A chegada da Companhia Bananeira e a transformação de Macondo 

A harmonia de Macondo é profundamente abalada com a chegada da Companhia Bananeira, logo após as guerras civis travadas pelo Coronel Aureliano Buendía, que se torna responsável por mudar completamente a história e o destino dos habitantes do povoado e, principalmente, da família Buendía. A instalação da companhia bananeira representa a entrada de capital estrangeiro, infraestrutura e empregos — mas também a destruição do tecido social e cultural da cidade. Assim, seduzida pela promessa de progresso e de modernização, a população assiste à instalação de uma estrutura econômica e social dominada por interesses norte-americanos, que transformam Macondo em uma colônia informal de exportação.  

Os gringos, que depois levaram suas mulheres lânguidas com roupas de musselina e grandes chapéus de gaze, construíram um povoado à parte, do outro lado da linha do trem, com ruas ladeadas de palmeiras, casas com janelas de tela metálica, mesinhas brancas nas varandas e ventiladores de pás dependurados nos tetos, e extensos prados azuis com pavões e codornas” (p. 246-247) 

Ao narrar este episódio, García Márquez recria o evento histórico do Massacre das Bananeiras, ocorrido em 1928 na cidade de Ciénaga, vizinha de Aracataca, terra natal do autor. A presença da companhia estrangeira — inspirada na norte-americana United Fruit Company (UFCO) — expõe a face mais brutal do imperialismo dos Estados Unidos na região, revelando como o discurso de progresso serviu de fachada para exploração, violência e apagamento. A United Fruit Company foi uma poderosa corporação estadunidense fundada em 1899, a partir da fusão entre a Boston Fruit Company e outras empresas menores. Com sede em Boston e, depois, em Nova Orleans, a United Fruit rapidamente se tornou uma gigante do setor agroexportador, especialmente de bananas, operando vastas plantações na América Central, Caribe e Colômbia.  

Bananas: How the United Fruit Company Shaped the World - Peter Chapman -  Book Review - The New York TimesAlém de sua atividade comercial, a empresa se tornou símbolo do imperialismo econômico dos EUA na região, influenciando governos, controlando infraestruturas como ferrovias e portos, e intervindo politicamente em assuntos internos dos países. Muitas vezes, essa intromissão contou com apoio do próprio governo estadunidense, como no caso da Nicarágua, quando a ocupação militar dos EUA entre 1912 e 1933 garantiu um ambiente político favorável à atuação da empresa e reprimiu movimentos nacionalistas, como o de Augusto César Sandino. Na Guatemala, em 1954, a CIA organizou um golpe de Estado contra o presidente democraticamente eleito Jacobo Árbenz, que tentava implementar uma reforma agrária que afetaria as terras em posse da UFCO.  

Entre tantos outros casos de interferência dos Estados Unidos na América Latina, a atuação da United Fruit Company foi tão marcante que deu origem ao termo “república das bananas” — expressão usada para descrever países, cujas economias e decisões políticas eram moldadas por interesses estrangeiros, especialmente os da própria empresa. Por meio do controle de vastas extensões de terra, infraestruturas estratégicas e alianças com elites locais, a companhia se tornou um agente de dominação econômica e política, consolidando o imperialismo informal estadunidense na região. 

No caso da Colômbia, a empresa esteve envolvida no que ficou conhecido como “Massacre das Bananeiras”, quando o Exército colombiano, sob pressão de interesses econômicos estrangeiros, assassinou centenas de trabalhadores grevistas em Ciénaga — que pediam melhores condições de trabalho e salários mais justos. Este é um dos episódios centrais retratados no romance, quando García Márquez faz uma crítica contundente ao imperialismo estadunidense e uma denúncia à aliança entre o capital estrangeiro e os poderes estatais locais. A cena do massacre é uma das mais chocantes da literatura latino-americana: 

O capitão deu a ordem de fogo, e catorze ninhos de metralhadoras responderam no ato” (p. 329) 

Quando despertou, José Arcadio Segundo estava deitado de costas nas trevas. Percebeu que ia num trem interminável e silencioso, e que estava com os cabelos engomados de sangue seco, e que todos os seus ossos doíam. Sentiu um sono insuportável. Disposto a dormir muitas horas, a salvo do terror e do horror, acomodou-se do lado que doía menos, e só então descobriu que estava deitado sobre os mortos” (p. 330-331) 

A descrição direta e brutal da chacina, sem metáforas ou fantasias, rompe com o tom de realismo mágico que caracteriza o romance. Essa escolha estilística reforça a urgência política do evento: a morte em massa de trabalhadores não pode ser suavizada, pois representa o extremo da violência estrutural promovida por interesses imperialistas. O massacre é, também, o símbolo da substituição definitiva da utopia por um sistema de opressão. A esperança de mudança se esvai diante da metralhadora. O Estado, longe de proteger seus cidadãos, age como cúmplice da empresa, usando o Exército nacional para reprimir o próprio povo. 

Pior ainda é o que se segue ao massacre: o apagamento. O horror não apenas ocorre — ele é negado pela história oficial. García Márquez trata com ironia e tristeza esse esforço sistemático de apagar os rastros da violência: 

“ José Aureliano Segundo não falou enquanto não terminou de tomar o café. 

— Deviam ser uns três mil — murmurou.  

— O quê? — Os mortos — esclareceu — Acho que todos os que estavam na estação.  

A mulher mediu-o com um olhar de lástima. ‘Aqui não houve mortes’, disse. ‘Desde os tempos do seu tio, o coronel, não acontece nada em Macondo’. Em três outras cozinhas por onde José Arcádio Segundo passou antes de chegar em casa disseram a mesma coisa: ‘Não houve mortes” (p. 332) 

A memória se torna resistência. A persistência de José Arcadio Segundo em buscar a verdade transforma-o em uma figura trágica e heroica — alguém que luta contra a solidão imposta pelo esquecimento. O desaparecimento da história do massacre reflete um padrão latino-americano: o silenciamento das vítimas, a ocultação dos crimes e a perpetuação da impunidade. 

Trabalhadores em uma plantação de banana na ColômbiaFonte: Opera Mundi. Crédito: Autor desconhecido 

Macondo como espelho da América Latina 

Em meio a uma Macondo devastada pelo tempo, pela guerra e pelas múltiplas solidões que assombram seus habitantes, somos confrontados com a mais dura das realidades vivenciadas pelo povoado: o fruto amargo da invasão estrangeira. A chegada da Companhia Bananeira impõe um novo ciclo de dominação, evidenciado pela exploração do trabalho, pela violência sistemática e pelo apagamento da memória coletiva.  

Esse momento culmina na dissolução da identidade de Macondo e no término da linhagem dos Buendía — uma estirpe marcada por sonhos interrompidos, repetições trágicas e tentativas fracassadas de resistir ao destino. Desde a fundação do vilarejo até sua completa ruína, os companheiros da família carregam o fardo das intempéries históricas e simbólicas que atravessam a América Latina.  

Ao eternizar essa trajetória em Cem Anos de Solidão, Gabriel García Márquez constrói não apenas uma saga familiar, mas um espelho crítico das feridas coloniais e imperiais que, mesmo após quase um século — e em pleno 2025, quando o Massacre das Bananeiras completa 97 anos —, ainda exigem serem lembradas, discutidas e superadas. 

“… era irrepetível desde sempre e para sempre, porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda chance sobre a terra” (p. 446)

 

* Maria Eduarda Oliveira é graduanda do quarto semestre de Relações Internacionais da PUC-SP e membra do Grupo de Estudos sobre Conflitos Internacionais (GECI) da PUC-SP. Contato: mdominguesoliveira9@gmail.com. 

** Primeira revisão de conteúdo: Isabela Agostinelli (pesquisadora do INCT-INEU e GECI PUC-SP). Contato: isagostinellis@gmail.com. Revisão e edição finais: Tatiana Teixeira. Primeira versão recebida em: 15 ago. 2025. Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU. 

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