Economia e Finanças

‘Cenário global é de profunda incerteza’, aponta diretor-executivo do Brasil no FMI 

Crédito: Simone D. McCourtie/FMI/Flickr

André Roncaglia explica rearranjo da economia global em cenário pós-pandêmico e destaca papel do Brasil no órgão multilateral 

Por Tatiana Carlotti[Informe OPEU] [Brasil] [FMI]

Combater a queda da produtividade se tornou o grande desafio das economias globais após a pandemia. Os esforços vinham num crescente e a tendência era positiva até Donald Trump embaralhar o cenário com o anúncio de sua guerra comercial. O clima agora é de profunda incerteza. “Todo mundo está questionando o que vai acontecer após guinada comercial dos EUA”, observa André Roncaglia, diretor-executivo do Brasil no Fundo Monetário Internacional (FMI).  

Ele apresentou um panorama do rearranjo da economia global, no seminário Os rumos da economia internacional: o papel dos EUA e os desafios para o Sul Global, promovido pelo Instituto de Estudos Políticos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU) e pelo Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais (IPPRI), em 15 de maio. 

Professor de economia da Universidade de Brasília (UnB) até assumir o posto no organismo multilateral, Roncaglia destacou que, hoje, as grandes economias mundiais, como os Estados Unidos e os países europeus, vêm experimentando dramas típicos dos países latino-americanos, submetidos à forte pressão inflacionária e a juros altos sobre suas dívidas públicas.  

Ele também mencionou o respeito que o Brasil conquistou dentro do FMI, do qual é credor desde o primeiro mandato do governo Lula. “O país é incrivelmente bem-visto”, afirmou. Acompanhe a discussão.  

Cenário pós-pandêmico 

Roncaglia começou o debate apresentando o cenário de incertezas a que estão submetidos todos os países do globo. Ele contou que até o governo Trump, os países seguiam uma trajetória voltada a diminuir a ociosidade generalizada da economia, após a pandemia.  

“Estávamos ocupando cada vez mais a capacidade produtiva, com queda do desemprego voltando a níveis pré-pandêmicos, economias mais aquecidas e sob um processo de desaceleração da inflação. Uma trajetória benigna em termos sistêmicos, com pontos de tensão mais ou menos generalizados”, detalhou.  

O ponto central neste período é que os países retomaram as suas atividades econômicas, mas em um nível menor. Isso os levou a buscar um aumento da produtividade, uma melhor qualidade dos empregos e a elevação da renda, justamente, para combater as pressões inflacionárias. 

Este desafio, apontou Roncaglia, foi alcançado de forma heterogênea, com destaque para a China, que conseguiu manter o crescimento da produtividade e, também, o da renda. A Europa, por sua vez, apresentou “um problema gravíssimo em termos de produtividade, gerando tensões internas acopladas por pressões imigratórias”. 

Europa  

O economista explica que a alta do custo de vida, além da derrubada da produtividade pela pandemia, foi agravada na Europa pelo choque de energia provocado pela Guerra na Ucrânia, que atingiu a Rússia, o principal mercado energético europeu, que alimenta, em particular, a Alemanha, a economia da região. 

Outro fator que vem impulsionando a alta inflacionária é o processo de concentração de renda e de riqueza. “Os grandes agentes financeiros (hedge fund, family office, entre outros) têm um imenso poder de alocar a concentração de capital e vêm sendo atraídos por setores ligados à produção tecnológica, com rendimentos muito rápidos e de alta volatilidade”, aponta.   

Com isso, “o modelo que sempre garantiu a primazia alemã em um paradigma tecnológico anterior, começou a ser contestado pelos polos da economia global dos Estados Unidos e da China, tirando a Europa da vanguarda tecnológica”.  

Diferentemente dos Estados Unidos, salientou Roncaglia, o arranjo econômico europeu incorpora direitos sociais e trabalhistas, o que é visto negativamente pelo mercado financeiro.  

“Do ponto de vista social, ele é muito mais sustentável do que o norte-americano, mas ele não está conseguindo vencer esta corrida. A Europa rediscute seu redesenho industrial, em meio à forte divisão interna de opiniões sobre qual caminho seguir, se o norte-americano ou o chinês, de planejamento”, apontou. 

Estados Unidos 

Embora seja a economia mais produtiva do mundo, a parte que representa ganho de produtividade nos Estados Unidos é muito pequena perto de todo o território norte-americano, onde existem grandes vazios de produtividade e uma forte desigualdade regional, aponta.  

“No Vale do Silício, a Califórnia é a sétima economia do mundo, um estado entre 50. E o resto do país? É muito difícil imaginar que uma economia como esta garantirá emprego de qualidade para todo mundo”, avalia.  

É justamente essa situação que Trump está tentando reverter com sua política tarifária. “Podemos criticar os seus métodos, se a maneira como ele está fazendo isso é correta, mas o plano dele não é muito diferente do plano do Biden, ele apenas usa mecanismos diferentes” para reindustrializar o país.  

Em sua avaliação, “o equívoco de Trump é que ele está tentando reindustrializar para trás, reanimando indústrias que não mais existem em vez de criar as indústrias que ainda não existem”. 

Além disso, o choque tributário de Trump reprogramou o sistema de órbitas comerciais. “Os Estados Unidos estão, essencialmente, dizendo ‘venham para a minha órbita que eu posso te dar um desconto para você ter acesso ao meu mercado interno”.  

“Se você tem déficit comigo, vou colocar um preço de 10% para você entrar aqui e ter acesso ao meu mercado. Se você tem superávit, vai pagar mais, porque a minha intenção é fazer com que você, de alguma maneira, ou me ofereça algo para rebalancear esse déficit em bens, não para pararmos de comprar de você, mas para você produzir aqui dentro”, complementou. 

“Essa é a promessa de Trump para a economia norte-americana. Você não vai mais comprar 30 bonecas chinesas, mas duas ou três e elas serão produzidas dentro dos Estados Unidos”, aponta.  

No entanto, o efeito disso sobre o custo de vida ainda é uma incógnita. “Todo o aparato de produção, em tese, vai migrar para os Estados Unidos e isso leva muito tempo”, alerta. Ele também destacou um senão neste projeto: o fato de a China produzir grande parte dos bens intermediários globais.  

“Quem quiser produzir carros, por exemplo, pode levar toda a linha de montagem para os Estados Unidos, mas terá que continuar comprando as peças da China. Se você quer produzir computador, vai continuar comprando os instrumentos, os chips. É muito difícil se desacoplar dessa cadeia produtiva que tem a China como uma grande produtora de bens intermediários”, apontou.  

“Enquanto o mundo inteiro mirava setores mais sofisticados, a China estava fazendo a parte chata da cadeia produtiva, o que deu a ela um posicionamento central na cadeia de valores que os Estados Unidos, mesmo impondo as tarifas, precisam enfrentar para trazer os insumos chineses”, detalhou.  

O resultado imediato foi um aumento tanto dos preços dos bens importados, dada a dominância da China, quanto dos bens não importados nos Estados Unidos. 

Inflação e alta dos juros 

O economista também mencionou que “atualmente, nós vivemos um cenário de países mais endividados e com serviços de juros da dívida muito grande”. O singular neste processo é os países desenvolvidos estão sofrendo um processo típico das economias latino-americanas.  

“Países que historicamente tinham taxas de juros muito baixas, e pouca pressão sobre os seus orçamentos, estão tendo que lidar com problemas tipicamente latino-americanos. Essa é a novidade. Estamos falando de Alemanha, França, Itália, Portugal, Estados Unidos, países que tipicamente não tinham esse problema”, destacou.  

“Em meio a esse processo, a principal ferramenta de ajuste é a dívida pública”, apontou, ao explicar que os títulos dos governos possuem um perfil de dívida que oscila. Há países com títulos de dez, cinquenta anos, outros com títulos centenários. “Cada um desses prazos tem uma taxa de juros que inclui riscos e o esperado é que, quanto mais longos os contratos, maiores sejam esses riscos”, devido à impossibilidade de prever o que acontecerá em intervalos de tempo mais longos.  

Ao mesmo tempo, as economias apresentam riscos diferentes. Os títulos do Brasil, por exemplo, são considerados mais arriscados no mercado financeiro do que os dos Estados Unidos, que sempre foi a uma base de precificação dos riscos para os demais países.  

Daí a gravidade do rebaixamento, por duas vezes seguidas, da nota de crédito dos Estados Unidos. “Isso tem um imenso impacto no restante de todos os ativos que, por comparação, são mais arriscados. É como se o metro mudasse de valor”, exemplifica.  

“A gente não sabe se isso é uma tendência. Pode ser que a gestão Trump consiga arrecadar suficiente recursos e diminuir os gastos e estabilizar a dívida americana. Os mercados financeiros estão dizendo que isso é difícil e estão subindo os prêmios de riscos sobre os títulos mais longos, mas eles podem avaliar que os riscos de curto prazo são mais arriscados neste momento”, apontou. 

De qualquer forma, destacou, “se ocorrer uma inversão e o prêmio de risco do título de curto prazo for maior que o prêmio de títulos de dez anos, por exemplo, isso será sinal de recessão”.  

Incertezas e oportunidades 

Segundo Roncaglia, ao introduzir a questão das tarifas em um cenário já turbulento, Trump adicionou “uma camada de incerteza, ou seja, uma impossibilidade de cálculo, tornando o horizonte de planejamento dos países, quase impossível de ser previsto”.   

Ele citou o caso de empresas transnacionais que precisam alocar recursos nos diferentes países e encontram uma imensa dificuldade em maximizar algum retorno. “Isso gerou todo um embaralhamento do ambiente e da prospecção do cálculo econômico, que vai obviamente produzir a volatilidade no mercado de ativos”, avalia.  

A suspensão por 90 dias do tarifaço, inclusive, agravou ainda mais o cenário de incertezas. “É, justamente, o encurtamento desse horizonte de planejamento que está produzindo a incerteza. Na dúvida, eu espero os 90 dias, e ninguém mexe em nada de maneira mais brusca”. 

Quem mais perde com isso são os países da periferia do sistema, “que acabam sentindo mais fortemente as ondas dessas oscilações, como os países da América Latina, da África, do leste asiático”, afirmou.  

No entanto, para o Brasil, o cenário pode trazer alguns benefícios. Segundo o economista, a depreciação deliberada do dólar pode favorecer o Brasil no curto prazo. “Isso deve ajudar bastante o governo brasileiro, está ajudando o governo argentino no seu processo de reestruturação e estabilização da economia. A questão é saber quanto tempo isso vai durar”, avaliou. 

Ele também mencionou as oportunidades em termos de articulação regional. “Um dos efeitos da emergência da China, quanto dessa recentralização regional dos Estados Unidos, é evidenciar o grau de fragmentação da nossa região e o quanto de comércio que abrimos mão frente a essa atratividade do polo seja americano ou chinês”.  

Roncaglia defendeu a necessidade da região de “reencontrar um caminho de cooperação dentro do multilateralismo que olhe as diferenças e as assimetrias dos países. É o grande desafio que a América Latina tem”.  

Em sua avaliação, a região requer “uma combinação de geopolítica e política interna com a economia, afinal, o caminho da fé cega na economia deu no que estamos vivendo agora”. 

Brasil no FMI 

Roncaglia também destacou a visão do Brasil pelo FMI, salientando que apesar de ter sido criado pelas grandes potências, existe no órgão multilateral “um espaço que podemos ocupar e lutar por sua reforma. Nós temos mandato, somos cotistas do órgão e o Brasil é incrivelmente respeitado dentro do FMI”, afirmou.  

“A cadeira brasileira é ouvida por todos os demais países. Eles nos procuram, inclusive, porque temos autonomia para dizer o que muitos não têm. Esse é o resultado de uma longa trajetória de participação brasileira no FMI”, destacou.  

Questionado como o país é visto dentro do fundo, o economista contou que, em termos econômicos, o Brasil é visto como um país com um grande desafio fiscal. “O principal elemento que chama atenção é o custo de rolagem da dívida, tanto o serviço de juros muito elevado da dívida pública, quanto o custo de serviço dessa dívida, o que nos coloca o desafio de estabilizar a dívida a longo prazo”.  

Do ponto de vista do esforço fiscal, o Brasil “é muito bem-visto como um país que está tentando conseguir um ajuste fiscal, com equilíbrio e moderação das despesas e aumento da arrecadação, baseado em maior progressividade de sua estrutura tributária e maior em eficiência, por meio da reforma tributária encampada recentemente pelo governo Lula”. 

“A questão é se vamos conseguir compatibilizar o ritmo de crescimento com as pressões inflacionárias. Aí entra a estabilidade cambial e a própria política monetária. O que o Banco Central (BC) vem fazendo também é muito bem-visto pelo FMI. Do ponto de vista do órgão, significa um compromisso em garantir a redução da inflação e a convergência da inflação à meta”, complementou. 

Roncaglia também citou como positivo, aos olhos do fundo, a tentativa brasileira de melhorar a inclusão feminina no mercado de trabalho e, em particular, a liderança brasileira na esfera climática, citando a primazia do país na dimensão ambiental, com propostas de criar mecanismos de financiamento de países que tem emissão líquida negativa.  

“Há muitos países no continente que tem uma porcentagem muito grande de florestas e que poderia, por exemplo, receber recursos para manter esse patrimônio ambiental. O Brasil tem uma grande liderança nesse sentido”, concluiu.

 

* Tatiana Carlotti atua como repórter há mais de 20 anos, com passagem por Fórum 21, Carta Maior, Blog Zé Dirceu e instituições como INCT-INEU. É doutora em Semiótica (USP) e mestre em Crítica Literária (PUC-SP).

*** Sobre o OPEU, ou para contribuir com artigos, entrar em contato com a editora do OPEU, Tatiana Teixeira, no e-mail: tatianat19@hotmail.com. Sobre as nossas newsletters, para atendimento à imprensa, ou outros assuntos, entrar em contato com Tatiana Carlotti, no e-mail: tcarlotti@gmail.com. 

 

 

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