América Latina

Guerra das ideias e governo Milei: como a Rede Atlas conquistou a Argentina

 Javier Milei e Adrián Ravier (Fonte: Perfil)

Por Jahde Lopez e Luan Brum* [Informe OPEU] [Rede Atlas] [Milei] 

A eleição de Javier Milei (2023) costuma ser apresentada como resultado do carisma de um líder antissistema ou da crise econômica argentina. Embora esses fatores sejam importantes, eles contam apenas parte da história. A ascensão de Milei está ligada a um processo mais longo de construção de uma infraestrutura intelectual dedicada à difusão de ideias neoliberais na América Latina.  

Ao longo de décadas, fundações, universidades, think tanks e organizações articuladas internacionalmente investiram na formação de intelectuais, jornalistas, empresários e lideranças políticas comprometidos com a defesa do livre-mercado. Entre essas organizações, destaca-se a Rede Atlas, uma das principais articuladoras transnacionais desse universo. Na Argentina, onde a Atlas encontrou sua rede mais extensa de parceiros na região, esse investimento contribuiu para aproximar intelectuais e organizações que hoje ocupam posições estratégicas no governo Milei. Este informe analisa justamente essa trajetória.  

Em agosto de 2012, Alberto Benegas Lynch, principal assessor político do atual presidente argentino, Javier Milei, concedeu uma entrevista ao intelectual e advogado chileno Axel Kaiser, que se autodefine como o “inimigo número um da esquerda”. A conversa foi promovida pela Fundación para el Progresothink tank parceiro da Rede Atlas no Chile, cujo conselho é presidido por Kaiser. Na ocasião, Benegas Lynch discorreu sobre a formação do clima de ideias e a relação entre intelectuais e políticos, reconhecendo a influência do pensamento de Antonio Gramsci, inclusive entre grupos da direita latino-americana:  

Na medida em que se faça bem o trabalho intelectual, é como se fosse uma pedra atirada em um lago onde existem círculos concêntricos que cobrem áreas cada vez maiores. Quando chega à mídia, quando um jornalista adota a ideia, significa que está quase no último círculo.  

“Não é que os políticos tenham estudado os livros de Gramsci, eventualmente não têm a menor ideia de quais são”, acrescentou Lynch, no mesmo programa. Para ele, os políticos acompanham as transformações do clima de ideias para não perder apoio eleitoral e, nesse processo, contam com o trabalho dos intelectuais. A disputa política é apresentada, portanto, como uma guerra de ideias, travada por aqueles que buscam moldar a opinião pública. Nessa narrativa, os liberais – em referência às correntes do liberalismo econômico associadas à defesa do livre-mercado, da redução da intervenção estatal e da desregulamentação econômica – aparecem como combatentes da liberdade.  

Essa concepção ajuda a compreender a trajetória de figuras que, antes de ocuparem cargos no Estado, atuaram justamente na construção e na difusão desse “clima de ideias”. A recente nomeação de Adrián Ravier como porta-voz do governo de Javier Milei constitui um exemplo emblemático desse processo.  

No dia 19 de junho, a jornalista e escritora argentina Soledad Vallejos chamou a atenção, em sua conta no Instagram, para a recente escolha de Ravier como novo porta-voz do governo argentino. O destaque de Vallejos à nomeação de Ravier não decorre apenas de sua nova função no governo Milei, mas também de sua trajetória e de suas conexões com importantes instituições do universo libertário latino-americano, que ajudam a iluminar as redes de ideias e influência por trás do atual governo argentino.  

A trajetória de Ravier foi inicialmente construída no campo acadêmico e intelectual, atuando como economista, professor e divulgador do ideário neoliberal antes de ingressar diretamente na política partidária. Diferentemente de outros dirigentes da La Libertad Avanza, partido que levou Milei à Presidência da Argentina, sua ascensão política está diretamente relacionada a uma longa atuação no campo da produção e circulação de ideias, aproximando-o do papel de um intelectual engajado na construção de uma visão de mundo, em sentido próximo ao conceito gramsciano de intelectual orgânico.  

A relação de Ravier com Milei antecede a chegada de ambos ao governo. Antes de ocuparem cargos institucionais, os dois já compartilhavam espaços de debate econômico e defesa das ideias liberais, especialmente na crítica ao keynesianismo, na defesa do livre-mercado e na valorização da tradição austríaca. A parceria também se expressou na publicação do livro La Batalla por la Macroeconomía (2026), em coautoria, revelando uma proximidade intelectual que ajuda a compreender as redes de ideias e atores que contribuíram para a formação do projeto político de Milei.  

Antes de assumir o posto de deputado nacional pela província de La Pampa, em 2025, Ravier já tinha uma formação intelectual atrelada a algumas das principais escolas do pensamento liberal. Discípulo do economista espanhol Jesús Huerta de Soto, um dos principais expoentes contemporâneos da Escola Austríaca e frequentemente citado por Milei como uma de suas referências intelectuais, Ravier também passou por instituições centrais desse universo, como a Sociedade Mont Pèlerin e o Cato Institute. 

Em 2004, concluiu seu mestrado em Economia e Administração de Empresas pela ESEADE, fundada por Benegas Lynch, e, posteriormente, tornou-se professor na Universidade Francisco Marroquín (UFM), na Guatemala, e na UCEMA, na Argentina. Reconhecidas por sua orientação libertária e por seu papel na formação de quadros liberais na América Latina, essas instituições também foram parceiras da Rede Atlas.  

Além da formação acadêmica, Ravier participou de espaços de articulação política e intelectual associados à chamada “batalha cultural” liberal. Entre eles, destaca-se sua atuação junto à Fundación Farothink tank criado por Agustín Laje e Axel Kaiser, que se apresenta como uma organização voltada ao “desenvolvimento econômico e social da educação, da formação de lideranças e da disseminação de ideias liberais”.  

A instituição se tornou um dos braços intelectuais do atual governo de Milei, promovendo debates, eventos e campanhas relacionados com temas centrais da sua agenda. Apenas nos últimos três meses, a Fundación Foro gastou US$ 135 milhões em anúncios contra imigração, feminismo, “agenda LGBT” e peronismo, além de divulgar mensagens a favor do governo nacional. 

Entre suas principais vozes destaca-se Agustín Laje, especialista em Contraterrorismo formado pela Universidade de Defesa Nacional, em Washington, D.C.. Apontado pela Forbes como “a voz independente mais influente da direita no mundo hispânico”, tem milhões de seguidores nas redes sociais. Axel Kaiser, por sua vez, figura entre os intelectuais mais próximos da rede de organizações associadas à Atlas e é irmão de Johannes Kaiser, candidato à presidência do Chile nas eleições de 2025.  

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A proximidade de Ravier com esse circuito ficou evidente no evento “Ideas para una Sociedad Libre”, realizado em 23 de junho, que contou com a participação do presidente Javier Milei. Durante o encontro, Milei discursou e agradeceu publicamente a Adrián Ravier, recém-nomeado porta-voz presidencial. A presença de figuras como Alberto Benegas Lynch e Martín Krause reforçou o caráter de articulação entre diferentes gerações de intelectuais liberais, evidenciando a inserção de Ravier em uma rede de atores envolvidos na formulação, circulação e legitimação das ideias que sustentam o projeto político por trás de Milei.  

Para além de Ravier, outros nomes associados a aliados argentinos da Atlas passaram a ocupar posições de destaque no governo de Milei. Antes dele, Manuel Adorni, jornalista, professor da ESEADE e integrante da Fundación Libertad y Progreso, ocupou o cargo de porta-voz e chefe de Gabinete de Milei, até renunciar em junho deste ano, após uma série de escândalos envolvendo a omissão de aproximadamente US$ 500 mil (cerca de R$ 2,5 milhões) em sua declaração financeira. Em sua defesa, alegou que guardava esse dinheiro “por baixo dos panos, como todo mundo” na Argentina. Apesar das denúncias, Milei reiterou publicamente seu apoio ao aliado, afirmando que Adorni “tem tudo em ordem“. 

Outro nome relevante foi o de Diana Mondino, economista, ex-professora da UCEMA e com trajetória no setor financeiro e empresarial. Eleita deputada nacional em 2023, renunciou ao mandato para assumir o Ministério das Relações Exteriores, Comércio Internacional e Culto. Exerceu a função até 2024, quando foi afastada após divergências com Milei sobre o posicionamento da Argentina em uma votação da ONU relacionada ao embargo dos Estados Unidos a Cuba. 

A presença desses nomes evidencia que a aproximação entre o governo Milei e o campo intelectual liberal argentino não se restringiu à formulação de ideias. Envolveu, também, a incorporação de quadros oriundos de instituições que atuaram, ao longo das últimas décadas, na difusão de perspectivas pró-mercado e na formação de lideranças políticas e intelectuais. 

Esse movimento está diretamente relacionado à atuação da Atlas e de sua extensa rede de aliados na Argentina. Entre 1994 e 2021, a Argentina concentrou 365 organizações parceiras da Atlas, o maior número entre todos os países latino-americanos, superando o Brasil, com 220, e o Chile, com 170. Além da expressiva quantidade de organizações, o país também se distinguiu pelo elevado grau de heterogeneidade dessa rede, que reunia não apenas centros e institutos dedicados à promoção do livre-mercado, mas também fundações políticas, universidades, meios de comunicação, como a fundação do jornal La Nación; câmaras de comércio; e até mesmo órgãos estatais, como o Ministério da Economia. 

O fortalecimento dos aliados da Atlas na Argentina, que hoje se reflete na rede de intelectuais e organizações ligadas ao governo Milei, contou com um volume significativo de recursos financeiros. A consulta aos arquivos da Atlas na Hoover Institution, da Universidade de Stanford, revelou que, entre a década de 1990 e o início dos anos 2000, a Lilly Endowment (Indianápolis, Indiana) – uma das maiores fundações filantrópicas privadas dos Estados Unidos conectada ao setor farmacêutico – destinou em torno de US$ 260 milhões aos parceiros argentinos da Atlas, com a própria organização atuando como intermediária na distribuição desses recursos.  

No fim das contas, Milei, com seu slogan “Viva la libertad, carajo!”, não é um fenômeno isolado. Ele é o rosto visível de uma infraestrutura que levou décadas para ser montada, com dinheiro, intelectuais e um plano claro: conquistar o poder pela força das ideias e mantê-lo em suas mãos com gente de confiança.  


Notas 

Para saber mais sobre a batalha cultural na Argentina, recomenda-se a leitura de Los dueños de la libertad (Sudamericana, 2025), de Soledad Vallejos. 

 

Jahde Lopez é doutora em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e participa do projeto de pesquisa Repensando a Hegemonia: Poder e Contradições da Presença dos Estados Unidos no Mundo Contemporâneo (RI-UFPel). Contato: jahdelopez@gmail.com. 

Luan Brum é professor substituto do curso de Relações Internacionais da UFPel, doutor em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina e pesquisador do IELA (UFSC). Coordena o projeto Repensando a Hegemonia: Poder e Contradições da Presença dos Estados Unidos no Mundo Contemporâneo (RI-UFPel). Contato: luan.brum1996@hotmail.com. 

** Revisão e edição: Tatiana TeixeiraEste conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU. 

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