Eleições

Zohran Mandami, que não foge do rótulo de socialista, larga na frente para a prefeitura de NY

O agora candidato democrata à prefeitura da cidade de Nova York é visto em uma manifestação organizada pela coalizão Resist Facism em 27 out. 2024 no Bryant Park (Crédito: Bingjiefu He/Wikimedia Commons)

Por Lucas Silva Amorim, para Le Monde Diplomatique Brasil* [Republicação] [Seleção OPEU] [Le Monde Diplomatique]

Aos 33 anos, Zohran Mandami enfrentou o establishment democrata e venceu as primárias para a candidatura à prefeitura de Nova York na noite do dia 24. O resultado foi descrito como a “maior reviravolta na história moderna da cidade de Nova York” já que o principal opositor de Mandami era Andrew Cuomo, membro de uma importante dinastia política que assim como seu pai já havia sido governador do estado e que vinha ocupando a dianteira nas pesquisas. Cuomo concedeu a vitória à Zohran antes mesmo do final da noite de terça-feira. 

O jovem e bem-apessoado candidato tem origens incomuns e trajetória política meteórica. Nascido em Uganda, é filho de uma cineasta indiano-americana e um professor de estudos pós-coloniais na Universidade Columbia, ambos muçulmanos. Zohran mudou-se com a família aos sete anos para Nova York após um período na África do Sul. Graduou-se em estudos afro-americanos no Bowdoin College, uma pequena faculdade de artes liberais no Maine. Já se organizava politicamente desde a graduação quando foi um dos cofundadores da seção local do Students for Justice in Palestine, uma organização de apoio à causa palestina que advoga por boicote, desinvestimento e sanções como resposta às violações de direitos humanos por Israel.  

Após um ensaio de carreira musical—Zohran chegou a gravar um videoclipe de rap sob o nome artístico Mr. Cardamom—ele participou da organização de campanhas para cargos locais em Nova York e em 2017 filiou-se ao Democratic Socialists of America, uma organização política de esquerda que apoia candidaturas como a das deputadas federais Alexandria Ocasio-Cortez e Rashida Tlaib, que se encontram na ala mais à esquerda do partido Democrata.  

Após naturalizar-se americano em 2018, ele seguiu apoiando candidaturas progressistas em eleições locais e estaduais até o final de 2019, quando lançou uma campanha desafiando o membro da Assembleia Legislativa que representava o 36º distrito do Estado de Nova York. Em 2020 Zohran venceu o incumbente Aravella Simotas, que já estava em seu quarto mandato como deputado estadual, prometendo defender uma agenda progressista que incluía reestatização de serviços públicos, reforma habitacional, policial e prisional. Foi reeleito sem oposição em 2022 e 2024. 

From Brooklyn Beats to Capitol Seats to City Hall? 

Após seis anos representando os eleitores de uma área que inclui o bairro artístico e progressista de Astoria na Assembleia Estadual, Zohran anunciou sua pré-candidatura ao cargo de prefeito em outubro de 2024. O democrata não titubeia em denominar-se socialista—ainda que com o “atenuante” democrático—num país onde o termo foi por tanto tempo rechaçado, especialmente tendo em vista a perseguição do Macarthismo aos “vermelhos” durante a Guerra Fria. 

A agenda política de Mandami voltou-se para um dos principais desafios enfrentados pelos novaiorquinos, o custo de vida crescente. Não só os valores das contas do supermercado, que subiram com a onda inflacionária pós-pandemia, mas também da habitação na cidade se tornaram insuportáveis para as classes menos favorecidas. O aluguel médio na Big Apple é de $5500 dólares de acordo com a empresa de estatísticas imobiliárias UrbanDigs. O slogan da campanha do democrata— “A city we can afford”, algo como “Uma cidade que caiba no nosso bolso” — busca responder a essas preocupações. 

Para enfrentar a crise da habitação, Zohran propõe congelar os aluguéis em apartamentos de interesse social, que tem o valor regulado por uma comissão municipal, e construir mais unidades de habitação acessíveis. Além disso, o candidato tem um plano para tornar gratuitos os ônibus e reforçar o serviço de transporte com mais linhas e intervalos menores entre cada condução.  

Como medida para reduzir o custo com alimentação, Zohran pretende criar supermercados operados pela prefeitura em cada um dos distritos (boroughs) de Nova York. Sem a pressão dos lucros, a ideia é que os preços mais baixos forcem os mercados privados a reduzirem suas margens, tornando a alimentação mais acessível na cidade. O democrata também pretende ampliar a cobertura da rede de creches, uma proposta que tem importante viés de gênero, visto que em geral são as mulheres que desempenham papel de cuidadoras. 

Para pagar por sua ambiciosa agenda, Mandami pretende aumentar impostos para as corporações e o 1% mais rico de Nova York. Ele pretende equiparar o imposto corporativo com o cobrado na vizinha New Jersey (11,5%) para angariar 5 bilhões de dólares adicionais e implementar um imposto fixo de 2% sobre pessoas que ganham mais de 1 milhão de dólares por ano. De acordo com a campanha, hoje em dia o imposto de renda municipal é praticamente o mesmo para contribuintes que ganham 50 mil dólares, um salário baixo para a cidade, e $ 50 milhões, anualmente. Essa medida pretende arrecadar 4 bilhões de dólares adicionais. Ele também pretende aumentar as receitas municipais com reformas no processo de licitação e de cobrança da dívida ativa. 

Um recado à liderança democrata? 

Zohran traz uma lufada de ar novo no partido democrata, incapaz de responder a altura à agenda identitária e xenófoba do partido republicano—que explora ressentimentos de gênero, classe e raça—especialmente no eleitorado masculino branco sem grau universitário que se sente desatendido pelas políticas afirmativas do partido para as minorias raciais e étnicas e a comunidade LGBTQ+. Surpreendentemente, Mandami é incrivelmente popular entre o eleitorado masculino e jovem, grupo com o qual os democratas têm sofrido para atrair e que foi um dos principais responsáveis pela derrota de Kamala Harris na eleição presidencial do ano passado. 

Um dos obstáculos enfrentados pela campanha do socialista foram as acusações infundadas de antissemitismo feitas por grupos ligados ao governo israelense e a organizações sionistas pela atuação pró-palestina e religião muçulmana do candidato. Esse tipo de acusação se tornou lugar comum contra aqueles que defendem a causa palestina e se posicionam contra o genocídio promovido por Israel principalmente na Faixa de Gaza.  

O jornal britânico The Guardian indicou que Israel está desempenhando um papel desproporcional na corrida para a prefeitura de Nova York. Um exemplo foi a insistência, em um debate televisionado entre os pré-candidatos democratas, de perguntas direcionadas a Mandami sobre seu apoio ao Estado de Israel e se sua primeira visita após a posse como prefeito seria ao país do Levante. Ao contrário dos demais candidatos, Zohran afirmou que permaneceria na cidade e respondeu que apoiaria Israel “como um estado com direitos iguais”. Desta forma, ele ao mesmo tempo afastou as acusações de antissemitismo e chamou atenção para a situação de desigualdade entre os cidadãos árabes e judeus israelenses e o apartheid a que são submetidos os palestinos sob ocupação. 

Um elemento fundamental pode ter ajudado a eleição no final da campanha foi o apoio cruzado entre Mandami e outro pré-candidato democrata Brad Lander, que ficou em terceiro lugar na primária. Lander, um progressista judeu, é o atual controlador-geral das finanças da cidade, um importante cargo na administração municipal eleito independentemente do prefeito. O esquema de apoio cruzado, é possível visto que a votação na cidade é por ordem de preferência, logo os eleitores podem ordenar até 5 candidatos que favorecem para ser o candidato democrata. Os eleitores de Lander, que muito provavelmente ranquearam Zohran em segundo lugar podem ter sido elemento crucial para que Cuomo tenha reconhecido sua derrota tão cedo. 

Andrew Cuomo, além de ser figura notória do establishment democrata, sendo muito mais conhecido que o obscuro legislador estadual, tinha a seu favor vultosas doações em PACs—comitês de campanha não diretamente ligados à candidatura e, portanto, isentos do limite de gastos— e o apoio de figuras tarimbadas do partido como Bill Clinton e Mike Bloomberg. No entanto, tinha a seu desfavor uma série de escândalos sexuais e acusações de corrupção, que levaram a uma renúncia em 2021.  

Talvez o maior desafio do opositor de Zohran tenha sido a pecha de ser do status quo, o que levou ao apelido de “status Cuomo”, num trocadilho encontrado nas redes. Num eleitorado cada vez mais em busca de novas soluções, esse pode ter sido um dos principais fatores que levou ao desempenho abaixo do esperado do candidato. 

As eleições para o cargo de prefeito, onde Zohran deve enfrentar o atual prefeito Eric Adams, que abandonou o partido democrata após ser “salvo” pelo Departamento de Justiça federal comandado por uma procuradora-geral trumpista e o candidato republicano Curtis Sliwa, anfitrião de um programa de rádio e líder de uma espécie de “milícia”, os Guardian Angels, que faz serviço de segurança “beneficente” à margem das autoridades do departamento de polícia. Salvo alguma surpresa, Zohran é encarado como o favorito na corrida. O candidato democrata sempre larga a frente na cidade que tem um dos eleitorados mais alinhados àquele partido nos Estados Unidos. 

Resta saber agora se as impopulares lideranças democratas, que parecem paralisadas e apáticas diante dos arroubos autoritários do presidente Donald Trump entenderão o recado dado pelo eleitorado democrata da Grande Maçã. Em pesquisas recentes a impopularidade crescente de Trump é só superado por aquela das elites do partido liberal. No próprio estado de Nova York, outro candidato progressista conseguiu desafiar com sucesso o incumbente na primária na capital Albany. Num mundo incerto onde a vantagem da incumbência, antes um fato incontestável da ciência política, parece ruir, se agarrar a um apego a instituições falidas e elites partidárias contaminadas por interesses escusos de lobbies corporativos pode não ser uma estratégia de sobrevivência e enfrentamento à erosão democrática viável. 

Apesar de ser muito difícil vencer a inércia partidária dos democratas, vale a pena investir um pouco de otimismo e novidade na política. Para ecoar a citação a Nelson Mandela feita por Zohran em seu discurso de vitória: “Sempre parece impossível até que seja feito”. 

 

* Lucas Silva Amorim é pesquisador colaborador do INCT-INEU/OPEU, doutorando pelo Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (IRI-USP) e pesquisador visitante Fulbright na Georgetown University (2024-2025). Contato: amorimlucas@usp.br. 

** Publicado originalmente em Le Monde Diplomatique Brasil, em 26 jun. 2025. Republicado no OPEU com a autorização do autor e do respectivo veículo. Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU. 

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