Dossiê

Crise e ambiguidade: os 100 dias do Departamento de Defesa sob Trump 2.0 

Memorial Day: Trump; seu vice, J.D. Vance; e seu secretário da Defesa, Pete Hegseth, em cerimônia no Cemitério Nacional de Arlington, em 26 de maio de 2025 (Crédito: Departamento de Defesa/aviador sênior da Força Aérea dos EUA Spencer Perkins/Flickr)

Dossiê “100 Dias de Trump 2.0” 

Por Yasmim Abril M. Reis * [Informe OPEU] [100 dias] [Trump 2.0] [Defesa] 

Os últimos 100 dias foram marcados por mudanças expressivas no Departamento de Defesa dos Estados Unidos. A primeira mudança aconteceu antes da posse presidencial em 20 de janeiro de 2025, quando Donald Trump anunciou o nome de Pete Hegseth para chefiar o Pentágono. A surpresa surgiu da falta de experiência e da qualificação necessária para a função a ser desempenhada. Entre os demais abalos, destacam-se o escândalo do Signal, em que informações de operações secretas foram divulgadas, e a implementação de políticas antitransgêneros nas Forças Armadas. Nesse contexto, atenta-se para uma relativa crise no maior Departamento dos EUA.  

O Departamento de Defesa dos Estados Unidos é um dos maiores arranjos institucionais do país. O referido departamento ganhou os contornos que hoje são conhecidos apenas na década de 1940, mais precisamente em 1947, quando a Lei de Segurança Nacional foi aprovada. É importante salientar que, até 1947, o que existia como instituição era o Departamento da Guerra, o qual era composto por três secretarias distintas – Exército, Força Aérea e Marinha, essa última abrangendo também os Fuzileiros Navais. O antigo departamento era dirigido de forma independente dos demais – em especial no que concerne ao planejamento e à execução no teatro operacional militar –, ante o consenso de que temas relacionados à defesa e à segurança eram responsabilidade dos militares. Essa percepção sofreu alteração no período após as duas Grandes Guerras, quando o governo norte-americano identificou que houve erros estratégicos importantes dos oficiais militares. Era, portanto, necessário corrigi-los, com o objetivo de evitar as mesmas falhas no futuro, segundo John Lewis Gaddis em seu livro The United States and the Origins of the Cold Wars 1941-1947 (Columbia University Press, 1972).  

Nesse contexto, o governo estadunidense começou a discutir a criação de um arranjo institucional que garantisse o controle civil sobre o Departamento de Defesa e, consequentemente, sobre as políticas desse setor. Isto significava a instituição de uma autoridade civil que coordenasse as Forças Armadas. Assim, o debate foi levado ao Congresso Nacional, sendo amplamente discutidas as diferentes propostas apresentadas. Em 1947, após o estabelecimento da Lei acima citada, o cargo de secretário de Defesa e o respectivo departamento foram criados. Isso não significou a preeminência do controle civil de forma imediata. A consolidação e a transferência da autoridade civil sobre o Departamento de Defesa se efetivaram somente em 1961, quando Robert McNamara (foto abaixo) assumiu o cargo. Desde então, o controle civil se expandiu sobre o Pentágono. Além disso, destaca-se que os Estados Unidos defenderam e propagaram a lógica da necessidade de um secretário ou ministro da Defesa civil em países democráticos nas décadas subsequentes.  

Robert McNamara answering questions about his documentary … | Flickr(Arquivo) Robert McNamara em evento promovido pela Brookings Institution sobre o documentário “The Fog of War: Eleven Lessons from the Life of Robert S. McNamara”, em Washington, D.C., em 25 fev. 2004 (Crédito: Tom Williams Photography/Flickr)

Ao longo das últimas décadas, o secretário de Defesa assumiu várias responsabilidades, como formulação da política de defesa, supervisão das operações militares, supervisão do orçamento e coordenação das atividades de defesa nos níveis doméstico e internacional. Desse modo, o secretário de Defesa desempenha um papel central na administração dos Estados Unidos. Com isso, a pessoa escolhida para o posto deve exercer influência na definição das estratégias de segurança nacional.  

Nos últimos governos, o chefe do Departamento de Defesa foi uma personalidade notória e ligada à área, inclusive no primeiro governo de Donald Trump (2017-2021). Em seu segundo mandato, porém, Trump surpreendeu ao escolher o ex-apresentador da Fox News Pete Hegseth. Nesse contexto, os últimos 100 dias foram marcados por mudanças e incertezas, em especial no que diz respeito ao secretário de Defesa, que vazou planos militares no Iêmen no aplicativo de troca de mensagens Signal.  

Novas diretrizes para o alistamento militar sob Trump 2.0 

O mundo mudou, e as Forças Armadas precisaram se ajustar, tendo reflexo também nos Estados Unidos. O alistamento militar feminino, por exemplo, é permitido no país desde 1973, mas não como combatentes. Essa última modalidade foi autorizada somente em 2015, durante o governo Barack Obama (2008-2017).  

O alistamento de pessoas transgêneras tem sido alvo de discussão desde a década passada. Como resultado de um debate amplo, o então presidente Obama autorizou, em 2016, o serviço de pessoas transgêneros nas Forças Armadas. A medida foi revogada no governo seguinte, de Donald Trump (2017-2021), abrindo mais uma vez o debate sobre a temática, bem como sobre a legislação vigente.  

Em 2017, quando eleito para o seu primeiro mandato, Trump tuitou que “(os militares) não aceitariam ou permitiriam que indivíduos transgêneros servissem em qualquer sociedade”. Na concepção de Trump, que, por vezes, é contraditória em relação ao tema da defesa, as Forças Armadas devem estar focadas em obter vitórias decisivas e esmagadoras. Em outras palavras, Trump condena o uso de verbas públicas para tratamentos médicos destinados a esse grupo da sociedade dentro das Forças Armadas, mostrando-se preconceituoso. Tanto o republicano quanto algumas autoridades do Pentágono se justificam, alegando que os indivíduos transgêneros são incompatíveis com os padrões físicos e mentais necessários para o serviço militar. Com isso, de acordo com o novo governo, os gastos com procedimentos médicos destinados a esse grupo da sociedade dentro do serviço militar é interpretado por Trump como propagação da cultura woke, demonstrando uma fraqueza da potência militar norte-americana.  

A notícia não ecoou bem na opinião pública. Em 2017, mais de 50% dos norte-americanos apoiavam a permissão para que homens e mulheres transgêneros servissem nas Forças Armadas, incluindo 56 generais da reserva e almirantes. Assim, o tema ressoou por todo o governo Trump 1.0. Somente em 2021, quando o então democrata Joe Biden (2021-2025) assumiu a Presidência, é que foram revogadas as medidas proibitivas de Trump sobre o serviço militar de pessoas transgêneras.  

Todavia, a discussão não se findou. Assim como no primeiro mandato, Trump, logo após voltar à Casa Branca, assinou novas ordens executivas, entre elas uma que visa a restringir o recrutamento de pessoas transgêneras nas Forças Armadas norte-americana, além de prever a expulsão daquelas já em serviço militar. O lema adotado pelo presidente e por seu secretário de Defesa, Pete Hegseth, é “priorizar a excelência militar e a prontidão”. Em contradição com a medida restritiva sobre a comunidade LGBTQIA+, em um dos documentos, Trump destacou que as novas ações estão “comprometidas com a meritocracia e com a eliminação da discriminação baseada em raça e sexo dentro das Forças Armadas dos Estados Unidos”.  

Tonificando essa decisão, no dia 6 maio do presente ano, a Suprema Corte dos EUA autorizou o governo a proibir militares transgêneros nas Forças Armadas. Trata-se de uma decisão temporária que derruba as ordens de instâncias inferiores anteriormente proferidas, as quais consideravam a determinação de Trump uma “política de exclusão sem fundamento, dramática e aparentemente injusta”.  

A contradição no corte no orçamento 

Desde a chegada de Trump à Casa Branca, o Departamento de Defesa tem sido alvo de controvérsias. Essas divergências emergem, principalmente, da discussão sobre os recursos destinados à área. O orçamento do Pentágono para 2025 é o equivalente a US$ 850 bilhões, sendo uma estimativa aprovada de forma consensual por ambos os partidos políticos no Capitólio. Tais gastos são justificados, em particular, pela necessidade de deter as alegadas ameaças representadas por China e Rússia no cenário geopolítico atual.  

Em 19 de fevereiro de 2025, porém, o secretário Pete Hegseth sugeriu um plano que prevê cortes anuais progressivos de 8% do orçamento de defesa, o qual precisa ser aprovado pelo Congresso norte-americano, conforme memorando divulgado pelo Pentágono. O documento estabelece que 17 categorias estarão isentas dessas reduções orçamentárias, entre as quais se destacam: operações na fronteira sul dos Estados Unidos, modernização de armas nucleares e defesa antimísseis e aquisição de drones de ataque unidirecional. Em sua declaração, o secretário de Defesa enfatizou a importância das agências de apoio regionais, estruturas estratégicas fundamentais para a política de defesa norte-americana. Nesse contexto, Hegseth sublinhou a relevância do Comando Europeu, que tem um papel de liderança na execução da estratégia dos Estados Unidos durante a Guerra na Ucrânia. Mencionou, ainda, a importância do Comando Central, que tem como objetivo supervisionar as operações no Oriente Médio, assim como do Comando da África, que gerencia os milhares de soldados norte-americanos presentes em território africano. 

O plano do Executivo deve sofrer uma significativa oposição bipartidária no Congresso. A principal resistência decorre do desalinhamento entre a proposta e os objetivos estratégicos estabelecidos pelo Legislativo nos últimos anos, em especial o combate das ameaças externas representadas por China e Rússia. A avaliação dos congressistas democratas é que, no longo prazo, a atual proposta orçamentária do Executivo pode representar danos irreparáveis para a posição estratégica norte-americana, visto que o Departamento de Defesa é um dos pilares da projeção de poder externo e de manutenção da hegemonia estadunidense.  

Em meio a turbulências, Trump demite o chefe das Forças Armadas 

Em meio às tensões, em 21 de fevereiro, o presidente Donald Trump demitiu o general Charles Q. Brown (foto abaixo), chefe do Estado-Maior Conjunto e oficial militar sênior do país. Segundo afro-americano a ocupar o cargo, o general Brown era um oficial de carreira da Força Aérea com ampla experiência em operações militares.  

230929-D-LS763-1074 | U.S. Air Force Gen. Charles Q. Brown, … | Flickr(Arquivo) O general Charles Q. Brown Jr., da Força Aérea dos Estados Unidos, participa da cerimônia das Forças Armadas em sua homenagem como 21º presidente do Estado-Maior Conjunto na Base Conjunta Myer – Henderson Hall, Virgínia, em 29 set. 2023 (Crédito: Departamento de Defesa/Benjamin Applebaum/Flickr)

A surpresa em relação ao anúncio decorre da ruptura com uma tradição histórica: a de não substituir o chefe do Estado-Maior Conjunto nos Estados Unidos durante a mudança de governo na Casa Branca, independentemente do partido que irá ocupar a posição. Além da questão da confiança, outro fator que pesou na decisão de demitir o general Brown foi sua promoção da diversidade nas Forças Armadas. Na visão de Trump, o então chefe do Estado-Maior Conjunto priorizou excessivamente a agenda da diversidade, em detrimento da capacidade combativa da tropa. Para o atual presidente, a função combativa é primordial para defender o país e deve estar alinhada ao movimento America First. 

Trump tem afirmado, com frequência, sua intenção de contar com líderes exclusivamente de sua confiança. Essa postura está diretamente relacionada ao seu conflito com seu ex-chefe do Estado-Maior Conjunto Mark Milley (2019-2023), transformado em desafeto. Durante a campanha eleitoral do ano passado, Milley se referiu a Trump como “fascista”, expondo detalhes de sua atuação no movimento de insurreição do 6 de Janeiro. Como resposta, Trump rapidamente acusou-o de traição.   

O vazamento de dados do Pentágono e o futuro incerto de Hegseth 

O Pentágono enfrenta uma crise institucional. Em meio ao caos, em março de 2025, houve o caso do vazamento de dados em um grupo privado de bate-papo no Signal, por parte do secretário Pete Hegseth. Nesse caso, sabe-se que informações sobre o ataque dos Estados Unidos contra o Iêmen foram publicadas, por erro, no grupo de mensagem. No corpo do texto, as, mensagens secretas contemplavam os horários dos ataques aéreos no Iêmen. Esses dados foram acessados pelo editor-chefe da revista The Atlantic, Jeffrey Goldberg, incluído, supostamente por engano, no grupo criado pelo (ainda) conselheiro de Segurança Nacional, Mike Waltz. Esse evento resultou na demissão de Waltz no último dia 1º de maio, sendo designado como embaixador dos EUA na ONU. Posteriormente, Hegseth enviou as mesmas mensagens em um grupo privado familiar, o qual incluía sua esposa, Jenniffer Hegseth, ex-produtora da Fox News, além de seu irmão e de outras pessoas sem autorização de segurança para acessá-las.  

Os atropelos dos últimos meses mergulharam o Departamento de Defesa em uma crise sem precedentes. Entre os múltiplos desafios, destacam-se os vazamentos de planos operacionais secretos, a demissões em massa, passando pela saída do chefe do Estado-Maior Conjunto e do conselheiro de Segurança Nacional. Diante desse cenário, o atual secretário de Defesa tem sido alvo de críticas, embora o presidente Donald Trump ainda consiga razões para mantê-lo no cargo, priorizando o critério de confiança e lealdade, em detrimento das denúncias e dos escândalos.  

Não é surpresa que as turbulências e contradições do segundo governo Trump estejam se refletindo, também, na pasta considerada um pilar da Segurança Nacional norte-americana e de projeção de poder. Pouco se sabe sobre o que há por vir, mas não é exagero afirmar que a erosão da democracia norte-americana se espalhará por um setor, no qual o impacto desse desgaste tenderá a ser muito custoso para a hegemonia estadunidense.

 

* Yasmim Abril M. Reis é doutoranda em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP), mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Segurança Internacional e Defesa da Escola Superior de Guerra (PPGSID/ESG), pesquisadora colaboradora no OPEU, líder de pesquisa voluntária no Laboratório de Simulações e Cenários na linha de pesquisa de Biodefesa e Segurança Alimentar (LSC/EGN) e Pesquisadora de geopolítica da América do Norte e Central para o Boletim Geocorrente, no Núcleo de Avaliação da Conjuntura (NAC/EGN). Contato: reisabril@gmail.com. 

** Primeira revisão e edição final: Tatiana Teixeira. Primeira versão recebida em 15 mai. 2025. Este Informe OPEU não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU. 

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