Eleições 2026, influência estrangeira e disputa hegemônica: a Rockbridge Network no Brasil
Fundador da Rockbridge Network, o vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance, em evento em Glendale, Arizona, em 21 set. 2025 (Crédito: Gage Skidmore/Flickr)
Por Acza Rodrigues* [Informe OPEU] [Brasil-EUA] [Brasil] [Eleições 2026] [Hegemonia]
No decorrer da campanha eleitoral brasileira, manchetes sobre suspeitas de intervenção norte-americana no processo eleitoral nacional e sobre o direcionamento de recursos com este objetivo se tornaram frequentes. Em reportagem de 30 de setembro, o jornal britânico The Guardian divulgou que o governo de Donald Trump estava desviando fundos de direitos humanos para impulsionar agendas de extrema direita para o exterior. E o Brasil? É um dos destinos dessa verba milionária.
Em paralelo, outra movimentação da alta política dos Estados Unidos tem chamado atenção, e é a ela que nos dedicaremos. No início de setembro de 2026, o candidato à Presidência Renan Santos (Missão) denunciou que a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro estaria recebendo financiamento ilegal da Rockbridge Network. Essa é uma rede de financiadores políticos norte-americanos alinhada ao presidente Donald Trump e fundada pelo vice-presidente J.D. Vance. Ao longo do mês, o caso foi-se desdobrando e já houve o reconhecimento oficial, por parte da assessoria de imprensa da Rockbridge, de que foi aberta nos Estados Unidos uma empresa destinada ao caso brasileiro, a Rockbridge Brazil LLC.
O que é a Rockbridge Network
A Rockbridge Network é uma organização conservadora norte-americana criada em 2019 por Christopher Buskirk e pelo atual vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance, sob a articulação inicial do investidor Peter Thiel. Concebida para funcionar como uma “empresa de capital de risco voltada para a política” (political venture capital), a rede nasceu da percepção de que o movimento conservador carecia de coordenação estratégica e de infraestrutura organizacional duradoura. Seu objetivo central é reformular o ecossistema republicano tradicional, substituindo think tanks e estruturas antigas por uma coalizão capaz de garantir a continuidade da agenda do movimento MAGA (Make America Great Again) no longo prazo.
A organização funciona como um clube de doadores, composto predominantemente por grandes nomes do setor de tecnologia do Vale do Silício e do mercado financeiro. A rede se sustenta com contribuições substanciais, cujas anuidades variam de US$ 100 mil, para parceiros limitados, a US$ 1 milhão, para parceiros principais. Já acumulou em seu caixa mais de US$ 100 milhões destinados ao financiamento de projetos ideológicos e políticos.
Na prática, a Rockbridge atua gerindo esses recursos privados para construir e financiar uma estrutura de influência. Em vez de se limitar ao repasse direto a campanhas, a entidade canaliza verbas para a formação e a expansão de veículos de mídia conservadora, o custeio de pesquisas eleitorais, o financiamento de jornalismo investigativo de direita e a operação de redes ativistas de mobilização de eleitores. Além disso, seu modelo prevê intervenções estruturadas em setores considerados estratégicos, criando conselhos temáticos e fornecendo Inteligência de dados e equipes de apoio a parlamentares de direita e extrema direita.
Embora tenha surgido com foco na política doméstica dos EUA, a rede iniciou um plano de expansão transnacional, e é nesse âmbito que se insere o caso brasileiro. O caso ganhou dimensão nacional depois que Renan acusou o também candidato Flávio Bolsonaro (PL) de se beneficiar de apoio financeiro clandestino, associado a promessas de negócios no setor de terras raras. Em seguida, o Partido dos Trabalhadores (PT) apresentou ao Supremo Tribunal Federal (STF) um pedido de abertura de inquérito para apurar suposta interferência e financiamento estrangeiro ilegal na candidatura de Flávio Bolsonaro. O pedido foi acolhido pelo ministro Flavio Dino. Em 27 de outubro, ele determinou à Polícia Federal que investigue a possível interferência estrangeira nas eleições de 2026.
Investigações e documentos vazados confirmaram que a organização registrou oficialmente a empresa Rockbridge Brazil LLC no estado de Wyoming em 12 de maio de 2026. O responsável formal pela abertura foi Chris Applegate, consultor do Partido Republicano e encarregado das captações de recursos de Vance e da própria Rockbridge. Embora a matriz norte-americana tenha alegado que o projeto não avançou comercialmente, comunicados oficiais da filial sul-coreana da rede já indicavam, desde janeiro de 2026, que o Brasil era alvo do plano de expansão internacional do grupo.
Sua atuação no país teria duas frentes centrais: a construção de uma estrutura político-ideológica condizente com os padrões da gestão trumpista e o controle de ativos geopolíticos e econômicos estratégicos. No campo político, o principal objetivo era exportar para o Brasil o modelo de “capital de risco político” praticado nos EUA, isto é, destinar as anuidades dos membros à construção de uma plataforma de investimento em projetos políticos.
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O plano previa operar por meio de três esferas no campo político: a imprensa, as universidades e o Legislativo, setores considerados “em desequilíbrio”. Os trabalhos envolvendo a imprensa deveriam ser mobilizados em torno de “investir, qualificar e organizar a mídia independente conservadora”, bem como ampliar seu alcance geográfico. No que tange às universidades, o objetivo seria financiar iniciativas e criar redes de formação acadêmica conservadora para jovens universitários. Também é citada uma função legislativa do grupo, que seria a de fornecer equipes de apoio e análise de dados a parlamentares de direita, cuja atuação é tida como “desarticulada”, para torná-la mais efetiva.
De maneira simultânea, uma carta de apresentação confidencial e sem assinatura, endereçada ao então pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro, permite afirmar que a rede tem outros objetivos. Entre eles, buscava intermediar o acesso de empresários e investidores de tecnologia estrangeiros a setores cruciais da economia brasileira, por meio de propostas como a criação de um Conselho de Tecnologia e a adoção de acordos binacionais. Forjar esse tipo de parceria estabeleceria prerrogativas para o livre acesso dos Estados Unidos, no Brasil, a elementos como energia, terras raras, água, território para data centers, Inteligência Artificial e indústria de defesa.
Gramsci e o conceito de hegemonia
Na obra Word of the Right: Radical Conservatism and Global Order (Cambridge University Press, 2024), Rita Abrahamsen e outros autores argumentam que a extrema direita e a direita radical nos Estados Unidos utilizam as estratégias de Gramsci, configurando um “Gramscianismo de direita”, para cooptar e remodelar o senso comum da população. Para entender melhor o que isso significa e sua relação com o tema deste Informe OPEU, vamos recuperar algumas ideias desenvolvidas por Gramsci.
Antonio Gramsci afirma que a dominação se sustenta por estratégias políticas, ideológicas e culturais, e não apenas pela coerção. Isso se expressa no conceito de guerra de posição que, ao contrário da guerra de movimento, um ataque frontal para capturar o aparato coercitivo do Estado, assemelha-se a uma guerra de trincheiras, travada no terreno da sociedade civil e da cultura. Desse conflito, decorre a hegemonia: o processo pelo qual um bloco social dominante preserva seu poder, fabricando e mantendo o consentimento das classes subordinadas. Nessa perspectiva, a cultura é um meio ativo de dominação da burguesia e do Estado capitalista, e abrange não só a alta cultura, mas também a cultura popular e a religião. A dominação resulta da combinação entre força (ou sua ameaça), interesses econômicos e consentimento tácito. Ao produzir uma cultura hegemônica, a burguesia faz seus valores e práticas serem tomados como naturais pela sociedade.
Para explicar como isso se concretiza, Gramsci propõe o “Estado Ampliado”, síntese dialética entre sociedade política e sociedade civil. A primeira é o aparato governamental, responsável pela coerção direta e pela ordem. A segunda reúne os “aparatos privados de hegemonia”, como meios de comunicação, escolas, partidos, sindicatos, igrejas, editoras, think tanks e plataformas digitais. E é por meio desses aparatos que se forja o senso comum, uma filosofia espontânea que permeia a sociedade e nasce da experiência cotidiana, não de uma educação sistemática promovida por um grupo dirigente consciente.
Como estratégia para preservar esse senso comum, os grupos hegemônicos recorrem aos “intelectuais orgânicos”, responsáveis por criar e sustentar as imagens mentais, tecnologias e organizações que mantêm uma classe unida em torno de uma identidade comum. Valendo-se dos aparatos privados de hegemonia, eles traduzem os interesses da classe dominante em conceitos, normas e discursos acessíveis ao grande público, conferindo-lhes coerência e direção ideológica. Diante de frustrações e medos cotidianos, também “educam e direcionam” esses sentimentos espontâneos, oferecendo um enquadramento interpretativo que canaliza o descontentamento para limites compatíveis com a estabilidade do sistema.
Seria a Rockbridge Network um aparato de construção de hegemonia gramsciano?
Ao recorrermos ao referencial teórico gramsciano como lente para analisar o papel e as motivações da Rockbridge Network, é possível estabelecer algumas relações. Nesse sentido, a organização pode ser compreendida como uma manifestação contemporânea da guerra de posição, na qual a preservação da dominação política se desenvolve por meio de uma disputa contínua e estruturada no terreno da cultura e da sociedade civil. Logo, em vez de se limitar a aportes financeiros pontuais em campanhas eleitorais, a entidade administra recursos privados de doadores do setor de tecnologia para construir uma infraestrutura organizacional e ideológica permanente, voltada para garantir a continuidade e a hegemonia do movimento MAGA.
Essa estratégia se concretiza na atuação da rede como um aparato privado de hegemonia, elemento central do conceito de Estado Ampliado, em que a sociedade civil atua na fabricação do consenso e na modelagem do senso comum. Por isso, é tão importante financiar a qualificação da mídia independente conservadora, estimular redes de formação acadêmica nas universidades e fornecer Inteligência de dados e equipes de apoio a parlamentares de direita. Tais ações tornam possível a disputa e a construção de narrativas dominantes.
Nesse arranjo, investidores, executivos do Vale do Silício e articuladores da rede desempenham o papel de intelectuais orgânicos do conservadorismo radical. Por meio da proposta de comitês temáticos, como o Conselho de Tecnologia, e da aproximação com elites políticas e econômicas locais, esses agentes traduzem interesses de classe em normas e projetos institucionais. Isso, por sua vez, organiza o descontentamento e enquadra os sentimentos espontâneos da população em limites compatíveis com a agenda conservadora.
Em última instância, a atuação do grupo expõe a articulação dialética entre a busca por hegemonia cultural e a garantia de uma base material e geopolítica concreta. Sob o pretexto ideológico de combater o “globalismo” e defender o alinhamento com o Ocidente, a rede buscava assegurar prerrogativas e tratamento comercial preferencial a empresas estrangeiras (estadunidenses) em setores estratégicos da economia brasileira. Dessa maneira, a mobilização de aparatos culturais e políticos transnacionais se reafirma como um instrumento central para a manutenção da subordinação dos países da América Latina aos interesses hegemônicos dos Estados Unidos.
A exportação da Rockbridge Network para o Brasil vai, portanto, além das interpretações (válidas) de intromissão no processo eleitoral brasileiro e de violação da soberania nacional do país. A presença da organização representa um ideal de exploração imperial e (neo)colonialista que ainda se faz presente nas relações entre Estados Unidos e Brasil. Em conclusão, não se trata de uma ideologia que liberta, que favorece ou que promove de alguma forma o povo brasileiro, mas da cooptação de uma elite entreguista beneficiada por uma estrutura de troca (bastante desigual, é bom ressaltar). O Brasil tem autonomia e capacidade para gerir estrategicamente os recursos naturais que lhe conferem competitividade, não necessitando de “ajuda” externa. Ademais, o povo brasileiro merece independência cultural e intelectual, quer ela se incline mais à direita, quer à esquerda, mas, sem dúvida, deve ser um processo idealizado e realizado somente pelo povo brasileiro e para o povo brasileiro. ![]()
* Acza Rodrigues é mestranda em Estudos Estratégicos da Defesa e Segurança (PPGEST/UFF) e graduada em Defesa e Gestão Estratégica Internacional no Instituto de Relações Internacionais e Defesa, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IRID/UFRJ). É pesquisadora colaboradora no OPEU e faz parte da equipe de mídias sociais. Contato: silva.acza@gmail.com.
** Revisão e edição: Tatiana Teixeira. Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU.
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