Internacional

Estados Unidos, G20 e os sintomas da crise da ordem liberal internacional 

Delegados na Cúpula do G20 em Joanesburgo (Crédito e fonte: G20 South Africa/African Climate Wire)

Por Leonardo Ramos* [Informe OPEU] [G20] [Ordem liberal internacional] 

Hegemonia, revolução passiva e globalização: o sistema G7 / 8O ano de 2025 é um marco para o G20. Com a cúpula de Joanesburgo, encerra-se o primeiro ciclo do agrupamento desde que o mesmo foi reconfigurado, a partir de 2008, passando a ser uma reunião anual de chefes de Estado. Na verdade, o G20 foi estabelecido como um grupo informal durante a reunião dos ministros das Finanças do G7, em setembro de 1999. Embora estreitamente ligado à crise financeira asiática do final dos anos 1990, sua criação também refletiu a crescente incapacidade do sistema G7/8 de resolver questões específicas da governança financeira global e evidenciou a necessidade de envolver as chamadas economias emergentes nesses processos.  

Assim, após sua criação, o G20 tinha como foco primordial discutir os temas relativos ao sistema financeiro internacional e, para esse propósito, os ministros das Finanças do G20 se reuniram anualmente por quase uma década. Em 2008, porém, em resposta à nova crise financeira que se iniciou nos EUA e depois se espalhou pelo mundo, o G20 foi reconfigurado de forma mais robusta e passou a incluir cúpulas anuais de chefes de Estado – além da reunião anual de ministros das Finanças.  

Neste sentido, desde então, houve encontros em todos os países-membros do G20, com a agenda do grupo se ampliando ao longo do tempo, bem como o número de países não-membros convidados. Na Cúpula de Joanesburgo (2025), por exemplo, a trilha dos sherpas teve 15 grupos de trabalho; e a de finanças, sete grupos técnicos e três forças-tarefa. Além disso, 22 países não membros foram convidados a participar. Esta cúpula de 2025 foi a última do primeiro ciclo. Curiosamente, é neste exato momento que novos dilemas surgem, com o G20 se apresentando como um importante recorte das dinâmicas mais amplas das transformações da ordem internacional contemporânea. 

Desde 2022, as cúpulas do G20 têm ocorrido em países do Sul Global: Indonésia (2022), Índia (2023), Brasil (2024) e África do Sul (2025). Se considerarmos que, em janeiro de 2025, a Indonésia se tornou o primeiro membro do Sudeste Asiático do BRICS, foram, então, quatro anos de presidências de países-membros do referido grupo. Ora, as dinâmicas da ordem internacional no período foram extremamente significativas para o G20: em especial, o início dos conflitos na Ucrânia em 2022, que trouxe para dentro do G20 um cipoal de questões e dilemas, para os quais o grupo não tinha sido criado. Mesmo assim, no decorrer desse período (2022-2025), temáticas de interesse dos países do Sul Global foram priorizadas nas cúpulas, com destaque para questões de saúde global, sustentabilidade ambiental, transição energética, desenvolvimento verde e redução de desigualdades, segurança social e alimentar, e governança internacional mais representativa – vide, neste ponto, a inclusão da União Africana (UA) como membro permanente do G20 neste período.  

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Em suma, é possível dizer que os quatro países buscaram projetar as demandas e os anseios do Sul Global, utilizando os espaços do G20 para isso: Indonésia, em uma situação peculiar, lidando com as consequências da pandemia da covid-19 para a saúde global, bem como com o início dos conflitos na Ucrânia; Índia e Brasil, disputando neste período certo protagonismo como representantes dos anseios e das demandas do Sul Global; e África do Sul, buscando reafirmar seu histórico papel de representante do continente africano. 

Os EUA e o G20: de Biden a Trump 

Ora, já era esperada certa mudança na agenda do G20 a partir de 2026, uma vez que a presidência do agrupamento passaria para os Estados Unidos, seguidos de Reino Unido (2027) e Coreia do Sul (2028). Tendo em vista as próprias dinâmicas da política doméstica estadunidense nos últimos anos, ao término do primeiro ciclo do G20, “sintomas ainda mais mórbidos” parecem surgir no horizonte. 

Neste ponto, é importante lembrar que o G20 vinha ganhando uma importância significativa para os EUA durante a gestão do democrata Joe Biden (2021-2025). De fato, o governo Biden havia reafirmado o compromisso dos EUA para com o G20 como o principal fórum de cooperação econômica internacional, além de apoiar a iniciativa indiana na cúpula de Nova Délhi de inclusão da União Africana como membro permanente. Neste sentido, visando à cúpula de 2026 do G20, duas questões eram fundamentais para o governo Biden: (i) o apoio dos EUA a certas demandas por parte dos países do Sul Global pela reforma do Banco Mundial; (ii) a ênfase no desenvolvimento de corredores econômicos e investimentos de grande escala, por meio da Parceria para Infraestrutura Global e Investimento Global lançada no âmbito do G7, em 2022, e reafirmada pelos Estados Unidos no G20.  

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Neste contexto, foi anunciado, durante a cúpula de 2023, o Corredor Econômico Índia-Oriente Médio-Europa, entre Estados Unidos, Índia, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, França, Alemanha, Itália e União Europeia. Da perspectiva dos Estados Unidos, naquele momento, o G20 se apresentava como um importante fórum que contava com representantes de destaque do Sul Global, podendo assim ser extremamente relevante para lidar com questões cruciais da política internacional 

É interessante perceber que a Índia aparecia como um ator crucial para os EUA. No dia 22 de agosto de 2023, o presidente Joe Biden visitou a Índia, reafirmando seu apoio ao papel do primeiro-ministro Narendra Modi à frente do G20. Ou seja, no âmbito do G20 particularmente, passava a ser fundamental para os EUA fortalecer o papel da Índia como um ator de peso do Sul Global, como forma de se opor à crescente influência de Rússia e China nestes países.  

Contudo, uma reviravolta estava à espreita das relações entre EUA, G20 e o Sul Global. 

De início, é importante ressaltar que a primeira eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos em 2017 já foi um momento crítico para o G20. Ao longo de todo o período Trump 1.0, o G20 passou por um período de quase estagnação, com os EUA se colocando contra os temas relativos às mudanças climáticas, à crise global dos refugiados e seus impactos, à igualdade de gênero e ao combate ao protecionismo, por exemplo. Na verdade, seu unilateralismo, associado à política “America First” e às tentativas de contenção da ascensão chinesa (vide, por exemplo, as tensões comerciais e tecnológicas), acabaram por impactar significativamente a agenda do G20. Nesse período, o grupo operou, em larga medida, a partir do “mínimo denominador comum” entre os membros, tendo os EUA sob o governo Trump como a “pedra de toque” para tais decisões. 

Isso fica ainda mais complicado no segundo mandato, principalmente se olharmos para as relações conjunturais imediatas entre os EUA e os países que presidiram as últimas quatro cúpulas do G20. Com relação à Indonésia, houve ameaças de até 32% de tarifas, além de tensões relativas a comércio digital; com a Índia, a ameaça de tarifas chegou a 50%, tendo em vista as compras de petróleo russo por parte o governo indiano; e, no que se refere ao Brasil, houve uma sobretaxa inicial de 40%, além de críticas à condução de processos judiciais e políticos internos no país.  

Quebra da tradição 

No caso da África do Sul, as tensões vêm desde o início de 2025, com questões bilaterais e multilaterais se entrecruzando. Já em fevereiro, logo após o início do governo Trump 2.0, o secretário de Estado, Marco Rubio, criticou em sua conta no X o lema definido pela presidência sul-africana para o G20 durante o ano de 2025, “Solidariedade, Igualdade e Sustentabilidade”. Em suas palavras, “A África do Sul está fazendo coisas muito ruins. Expropriando propriedade privada. Usando o G20 para promover ‘solidariedade, igualdade e sustentabilidade’. Em outras palavras: DEI [diversidade, equidade e inclusão] e mudança climática”. Para Marco Rubio, estes seriam temas antiamericanos e, nesse sentido, contrários aos interesses do governo Trump. 

A partir de então, as relações se deterioraram. Os EUA intensificaram as questionáveis acusações de que o governo sul-africano estaria cometendo perseguição e “genocídio” contra sua população branca, chegando, inclusive, a oferecer asilo a sul-africanos brancos. Além disso, no contexto do tarifaço, aumentaram em 30% as tarifas para importações de origem da África do Sul  uma das mais altas taxas para países africanos. 

Em sequência, Donald Trump anunciou que não iria à cúpula do G20 na África do Sul, nem enviaria uma delegação para a cúpula. Além disso, seu secretário do Tesouro, Scott Bessent, criticou o grande número de não-membros convidados para a cúpula, chamando o G20 de “G100”. Próximo à data da cúpula, os EUA enviaram uma nota ao governo sul-africano, requisitando que o chargé d’affaires de sua embaixada na África do Sul participasse do encerramento da cúpula como forma de passagem da presidência do G20 para os Estados Unidos – desde janeiro de 2025, não há embaixador dos EUA no país. Tal requisição não foi atendida pela presidência sul-africana, o que foi visto como uma ofensa pelo governo Trump.  

Por fim, o último episódio desta saga foi a afirmação feita por Marco Rubio de que “O presidente Trump e os Estados Unidos não estenderão um convite ao governo sul-africano para participar do G20 durante nossa presidência”. Curioso destacar que, ao mesmo tempo em que exclui a África do Sul, os EUA anunciam o convite à Polônia para a cúpula do G20 – um parceiro importante dos EUA tanto no jogo geopolítico ante a crise na Ucrânia, quanto na reafirmação de sua política externa e de seus parceiros estratégicos. 

Neste contexto, o que se pode esperar da próxima cúpula do G20? 

Primeiramente, à frente do G20 em 2026, os EUA devem adotar uma agenda mais enxuta e focada, alinhada às suas prioridades de política externa. Assim, é improvável que os EUA busquem grandes consensos multilaterais. Ao contrário, a tendência é trabalhar com um programa mais restrito do que o das presidências recentes, criando, assim, espaço para avanços específicos em temas econômicos centrais para o governo Trump. Neste sentido, as expectativas de que os EUA realmente vejam o G20 fundamentalmente como um fórum multilateral são baixas, sobretudo, porque a administração tem favorecido acordos transacionais e criticado fortemente as prioridades do grupo nas últimas cúpulas — em particular, os temas de solidariedade, igualdade e sustentabilidade promovidos pela África do Sul. Nesse contexto, Scott Bessent já começou a delinear as prioridades dos EUA para 2026, que incluem desregulação, crescimento econômico, segurança energética e minerais críticos – pontos estes que foram reafirmados por Marco Rubio. 

Esse reposicionamento – afastando-se das agendas de equidade, meio ambiente e desenvolvimento – talvez não encontre parceiros entusiastas no Sul Global, mas pode abrir caminhos mais estreitos e pragmáticos. A abordagem dos EUA tende a tratar o G20 como um espaço de negociação e fechamento de acordos, buscando anunciar compromissos concretos nos temas priorizados por sua presidência. Além disso, espera-se que os minerais críticos ocupem lugar de destaque na agenda – um tema convergente entre diversos membros do G20. Nesse ponto, as dinâmicas das tensões entre os EUA e a China e suas disputas hegemônicas provavelmente se farão presentes, reforçando a dimensão econômica e geoestratégica da cúpula de 2026. 

Por fim, temos três questões pendentes.  

Primeiro, assim como nas cúpulas de Brisbane (2014) e Bali (2022), quando os EUA e o G7 fizeram grande pressão para que a Rússia não fosse convidada para tais cúpulas, haverá um posicionamento conjunto dos países do BRICS (e BRICS+) a respeito da exclusão da África do Sul, caso a medida de força estadunidense se mantenha? Quais seriam suas consequências?  

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Segundo, tendo em vista a exclusão da África do Sul, as críticas substantivas às últimas agendas do G20, bem como as mudanças significativas da política externa dos EUA para o Sul Global a partir do governo Trump, como a presidência do G20 afetará a relação entre os EUA e o Sul Global? Mesmo que, no curto prazo, os EUA tenham algum êxito em construir certas agendas comuns no âmbito do G20, será que, no médio, tal comportamento não fortalecerá o já crescente papel que a China tem para o Sul Global?  

E, por último, como ficará o G20, após tal presidência? Com a exclusão da África do Sul, um importante mecanismo de construção e de perpetuação da agenda do G20 fica comprometido: a saber, a troika do G20 tem sido composta pela última presidência, pela atual, e pela futura. No caso atual, houve uma ruptura, tanto de agenda quanto na troika. Quais serão as consequências de tais ações? Será que, no médio prazo, veremos a presidência do G20 em 2026 como mais um passo no processo de crise do multilateralismo e da ordem liberal internacional?  

Independentemente das respostas específicas a cada uma destas questões, fica claro que a presidência estadunidense do G20 mal começou e já se expressa tanto como causa quanto como efeito da crise da ordem liberal internacional.

 

Leonardo Ramos é professor do Departamento de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), professor visitante da Universidad Nacional de Rosario (UNR), pesquisador do INCT-INEU, líder do Grupo de Pesquisa sobre Potências Médias (GPPM). e pesquisador associado à Coordenadoria de Estudos da Ásia (CEASIA/UFPE). Contato: lcsramos@pucminas.br. 

** Revisão e edição: Tatiana Teixeira. Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU.

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