Dossiê

Da vitória à derrota: as campanhas presidenciais de Joe Biden

(Arquivo) Público à espera do discurso de Joe Biden e da primeira-dama, Dra. Jill Biden, em comício de campanha no Jim Graham Building, em Raleigh, Carolina do Norte, em 28 jun. 2024 (Crédito: David Lienemann/Biden for President/Flickr)

Dossiê “Vida e legado de Joe Biden” 

Por Andressa Mendes* [Informe OPEU] [Vida e Legado de Joe Biden] [Campanhas Eleitorais] [Dossiê] 

No dia 18 de maio de 2025, foi anunciado que o ex-presidente dos Estados Unidos Joe Biden foi diagnosticado com câncer de próstata agressivo e em fase avançada, com metástase óssea. Diante desse fato e da importância que ele teve para a política dos Estados Unidos, tendo sido senador do estado de Delaware de 1973 a 2009, esse informe tem como objetivo se aprofundar nas campanhas presidenciais de Biden, que o levaram à vitória, em 2020, e à derrota, em 2024. 

Antes de ser o candidato à Presidência pelo Partido Democrata, Biden já havia buscado o cargo em duas outras ocasiões, mas desistindo da campanha ainda nas primárias. Na primeira vez, durante a campanha de 1988, abandonou a disputa após acusações de plágio em seus discursos, quando utilizou trechos do político britânico Neil Kinnock sem a devida citação. Já na campanha de 2008, a desistência veio quando ele obteve fraco desempenho nas primárias. Ele foi, no entanto, convidado a compor a chapa com Barack Obama, tornando-se seu vice-presidente nos dois mandatos democratas, de 2008 a 2016, quando chegou a ser cotado como candidato democrata à Presidência. Não o fez, devido à morte de seu filho Beau Biden, no ano anterior. 

Foi apenas em 2020, durante a pandemia da covid-19 e em disputa contra Donald Trump, que Biden foi nomeado o candidato democrata à Presidência. Ganhou a eleição, com Kamala Harris como sua vice. Apesar de afirmar, reiteradamente, que não se candidataria novamente ao cargo, ele o fez, ao menos durante as primárias, em 2024, uma campanha rodeada de polêmicas em torno de sua imagem, idade e “capacidade” de governar, além da conjuntura política de acentuada polarização, sobretudo, em função de seu opositor, Donald Trump.  

Time for Biden: a vitória eleitoral de 2020 

As primárias 

A corrida presidencial de 2020 aconteceu em meio à pandemia, período da história recente que ficou marcado não só pelas milhares de mortes em decorrência da doença causada pelo coronavírus, mas também pela enxurrada desenfreada de desinformação e de fake news que assolou diversos países do mundo. No caso dos Estados Unidos, discursos antivacinas, teorias da conspiração envolvendo o vírus e a doença e uma crise social, econômica e política se alastraram no governo de Trump (2017-2021). 

Foi antes desse cenário, no entanto, que Biden se posicionou como possível candidato ao Partido Democrata. Ainda em 2019, ele anunciou que pretendia concorrer à Presidência em 2020, ancorado por pesquisas de opinião da época. Nelas, ele e o senador Bernie Sanders (I-VT) – também pré-candidato pelo Partido Democrata – seriam as apostas mais seguras para derrotar Donald Trump.  

Leia mais: Bernie Sanders, um estranho no ninho 

Já em 2020, Biden perdeu os caucuses de Iowa e as primárias de New Hampshire, mas conseguiu virar o jogo, a partir das primárias da Carolina do Sul e do endosso do representante (deputado) daquele estado, Jim Clyburn, assumindo o papel de favorito, ao lado de Sanders, a ser o representante do Partido Democrata. Isso se consolidou na Super Terça, em 3 de março, dia em que Biden ganhou a maioria dos delegados necessários para ficar à frente de Sanders na corrida.  

Mais tarde naquele mês, em 11 de março, a OMS designou o surto de covid-19 como pandemia, mudando as datas das primárias e limitando os eventos da campanha. Em 8 de abril, Sanders desistiu da corrida eleitoral e, dias depois, em 13 de abril, endossou a candidatura de Biden. Como apresentado em matéria do Vox da época: “ao endossar Biden, Sanders deu um passo significativo na construção de uma ponte simbólica entre sua base de apoio progressista e mais jovem e o apoio moderado e mais velho que Biden reuniu”. 

De fato, o apoio de Sanders se estendeu para além da retórica, com a criação de forças-tarefa. Envolveu políticos de diversas áreas do Partido Democrata, com grupos cobrindo questões referentes a: mudança climática, reforma da justiça criminal, economia, educação, saúde e imigração. O resultado foi um documento de 100 páginas, contendo uma série de recomendações políticas nas áreas supracitadas, que serviram de base para a construção da plataforma de campanha política de Biden. 

Leia também: Saída de Sanders mostra peso da cúpula democrata e do voto útil 

Por fim, em 11 de agosto, Biden anunciou que Kamala Harris seria sua companheira de chapa, como candidata a vice-presidente, e, em 18 do mesmo mês, na segunda noite da Convenção (Virtual) Nacional Democrata de 2020, Biden foi oficialmente nomeado candidato à Presidência. No dia seguinte, foi a vez de Kamala. Em seu discurso de aceitação, Biden prometeu restaurar a “alma da América” e libertar a nação das “trevas”. 

Panorama da corrida presidencial  

Com a pandemia da covid-19, o cenário em 2020 era caótico, fosse no âmbito social, político ou econômico. A taxa de desemprego chegou a 15% naquele ano, além de ter havido uma retração da economia de pelo menos um terço. Soma-se a isso o fato de Donald Trump ser o presidente em exercício na época, governando um país bastante dividido politicamente. Desde a campanha de 2016, contra a ex-senadora Hillary Clinton, Trump já havia adotado estratégias de comunicação baseadas na desinformação, no caos e na trativa pessoal (e ofensiva) dos seus opositores. No caso de 2020, isso foi demonstrado por meio de alegações de que Biden sofria de demência e do irônico apelido dado ao democrata, Sleepy Joe (Joe Dorminhoco, em tradução literal).  

Os principais tópicos levantados na disputa de 2020, principalmente nos debates eleitorais, incluíram: o combate à pandemia, famílias americanas, questões raciais, mudanças climáticas, segurança nacional, migração, seguro-saúde e liderança. Sob o slogan de campanha Build Back Better, ele prometeu destinar cerca de US$ 400 bilhões para criação de empregos, maior taxação dos setores mais ricos e expansão da rede de proteção social. Quando anunciou formalmente sua entrada na corrida presidencial de 2020, declarou que defendia duas coisas: trabalhadores que “construíram este país” e valores que podem superar suas divisões.  

Biden se posicionou como um candidato veículo de mudança, mais progressista do que o esperado. Foi, naquele momento, o candidato que uniu o Partido Democrata, conseguindo juntar as alas mais tradicionais a grupos mais à esquerda. Em relação à pandemia, ficou ao lado do que diziam os especialistas, isolando-se socialmente, mesmo com o andamento da campanha.  

Eleições e transferência de posse conturbada 

A eleição presidencial foi realizada em 3 de novembro de 2020, mas foi apenas no dia 9 de novembro que todos os estados certificaram seus resultados eleitorais. Biden ganhou 306 votos no Colégio Eleitoral contra 232 de Trump. Foram cerca de 81 milhões de votos para Biden contra cerca de 74 milhões para Trump, marcando um recorde de participação popular em uma eleição nos EUA. O fato para isso foi a aceitação de votos por correio e alto engajamento da sociedade, estimulado pela polarização política no país.  

Apesar da vitória clara – e com uma diferença mais que considerável –, houve (e ainda há) contestação dos resultados por parte de Trump e de seus aliados, que insistem na alegação de fraude eleitoral. Eles entraram com ações judiciais, questionando os resultados em vários estados. Considerados infundados ante a ausência de provas, tais processos foram arquivados ou retirados. 

Inflados por essas acusações de fraude eleitoral, em 6 de janeiro de 2021, um grupo violento de apoiadores de Trump invadiu o Capitólio, com o objetivo de interromper ou retardar os procedimentos de contagem dos votos eleitorais. Não tiveram sucesso na interrupção da contagem, mas atrasaram o processo, destruíram e vandalizaram parte do Capitólio. No fim, após o boicote de vários membros republicanos da Câmara e do Senado, Mike Pence – vice-presidente de Trump – certificou os votos e garantiu que Biden assumiria o cargo, em 20 de janeiro do mesmo ano.  

A breve e fracassada campanha de 2024  

O mandato de Joe Biden 

A campanha eleitoral de 2024 foi precedida pelo mandato de Biden e seguida da vitória de Donald Trump, que conseguiu a reeleição de um segundo mandato não consecutivo. O republicano se tornou o segundo presidente a cumprir tal feito na história política do país (o primeiro foi Grover Cleveland, eleito em 1885 e 1893). 

Durante seu mandato, Biden enfrentou diversos problemas nos âmbitos doméstico e internacional, o que influenciou um desgaste político e uma queda de popularidade. A pandemia da covid-19 resultou em um aumento dos gastos públicos, aumento da inflação e do custo de vida. Toda essa crise econômica interna fez sua popularidade despencar. Chegou a 39% em 2023, um dos índices mais baixos para presidentes no terceiro ano de mandato. 

Outra questão sensível no governo Biden foi seu fracasso de implementar o cancelamento da dívida estudantil, política barrada pela Suprema Corte em 2023. Essa proposta foi feita ainda durante a campanha e acabou por não se cumprir durante seus anos de mandato. Já no âmbito internacional, a gestão da retirada das tropas do Afeganistão e a condução do conflito entre Israel e Hamas foram pontos de crítica. Esse último acontecimento resultou em protestos pelo país, principalmente entre estudantes universitários. 

A breve campanha eleitoral e a renúncia 

Podemos considerar que os aspectos supracitados contribuíram para o vexame que foi a breve campanha à reeleição de Biden em 2024. Mais do que isso, eles contribuíram para uma imagem de liderança fragilizada, aumentando as dúvidas sobre a capacidade física e mental de Biden para cumprir um segundo mandato. Essa percepção se intensificou por seu desempenho durante a campanha, principalmente no primeiro debate contra Donald Trump. 

O anúncio da campanha à reeleição (ainda com Harris como vice-presidente) ocorreu em abril de 2023 e foi formalizado por um comício sindical na Filadélfia, em junho do mesmo ano. Durante as primárias, ainda em março de 2024, Biden venceu a maioria das disputas necessárias para ganhar a indicação democrata. O debate contra Trump, no dia 27 de junho, mudou o cenário.  

Biden to Trump: 'You're the sucker, you're the loser'Captura de tela do debate que acelerou a saída de Biden da corrida presidencial (Crédito: CNN)

Antes do debate, as pesquisas mostravam Biden como o favorito a vencer as eleições, mesmo que com uma margem pequena. Após o debate, Trump passou a liderar as pesquisas em uma disputa contra Biden, mas perderia em uma disputa contra Harris. As margens de erro indicavam, no entanto, um cenário concorrido e volátil, basicamente um empate técnico. As principais preocupações entre os eleitores incluíam economia, inflação, aborto e direitos democráticos. Ambos os candidatos apresentavam propostas sobre esses temas, cada qual com sua perspectiva política.  

No caso de Biden, havia a defesa e a proteção da democracia (devido à invasão ao Capitólio e aos processos decorrentes desse episódio, que ameaçou diretamente a democracia americana); o direito ao aborto e o compromisso de restaurar os direitos perdidos com a derrubada de Roe vs. Wade; o “Bidenomics”, com a promessa de aumentar impostos para bilionários, incentivos à classe média, e outros; a valorização de conquistas como o Infrastructure Investment and Jobs Act, CHIPS and Science Act e Inflation Reduction Act; a promessa do reforço da segurança nas fronteiras e de reforma policial; e a proteção às liberdades LGBTQI+. 

O debate, adiantado perante pedidos mútuos, foi um teste para avaliar como ambos os candidatos se sairiam e, consequentemente, se estariam aptos a prosseguir com a campanha. O encontro acabou sendo fatal para Biden, que aparentava estar fraco e debilitado, além de ter enfrentado dificuldades ao falar desde o início.  

A repercussão foi tanta que a cobertura da maioria da grande imprensa (jornais escritos e televisionados tradicionais) se concentrou no baixo desempenho de Biden e em uma possível substituição do candidato, em vez de focar nos temas debatidos. Uma pesquisa da CNN feita à época mostrou que 67% dos eleitores registrados que assistiram ao debate consideraram que Trump teve um desempenho melhor que Biden e que a confiança na governabilidade por parte de democratas caiu de 54%, antes do debate, para 39% depois. 

Apesar de a possibilidade de renúncia e substituição de Biden como nomeado à corrida pelo Partido Democrata ter sido descartada de imediato, pressões de diversos grupos (tanto políticos, quanto doadores da campanha democrata) fizeram o incumbente, no dia 21 de julho de 2024, anunciar sua retirada e endossar oficialmente a candidatura de Kamala Harris, agora como candidata à Presidência. Foi a primeira vez desde 1968 (com Lyndon B. Johnson) que um presidente em exercício encerrou a campanha antes da Convenção Democrata. 

Apesar de polêmicas, principalmente no âmbito da sua vida pessoal, Biden foi um homem que se dedicou a sua carreira política e ao seu país, mesmo e, talvez principalmente, quando isso significou resignação.  

 

Leia mais da autora no OPEU 

Informe OPEU, “‘Project 2025’: Trump 2.0 e o controle das Agências Reguladoras Independentes”, 21 maio 2025   

Informe OPEU, “Nacionalismos na crise na fronteira EUA-México no governo Trump 1.0”, 11 mar. 2025  

Informe OPEU, “‘Nunca recuaremos e nunca, nunca, nunca nos renderemos’: O argumento final de Donald Trump”, 5 nov. 2024 

Panorama EUA, “Ascensão de queda de Steve Bannon”, 15 out. 2024 

Panorama EUA, “O primeiro debate presidencial de 2024: antecedentes, tópicos abordados e repercussão”, 5 jul. 2024 

Informe OPEU, “Biden vs. Trump 2.0: polarização política e fragilidade da democracia”, 14 mar. 2024 

Resenha OPEU, “A vitória de Donald Trump nas eleições de 2016: A extrema-direita e as fake news, de André Pini”, 20 fev. 2024 

 

* Andressa Mendes é pesquisadora colaboradora do INCT-INEU/OPEU e doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp, PUC-SP). Ela é mestre e graduada em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Contato: glm.andressa@gmail.com. 

** Revisão e edição finais: Tatiana Teixeira. Recebido em 24 de junho de 2025. Este Informe não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU. 

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