Brasil

Um Brics ampliado incomoda muita gente: Trump e o tarifaço ao Brasil (I)

Lula usa boné com slogan crítico à postura de Trump sobre as tarifas, durante evento no Espírito Santo (Crédito: Ricardo Stuckert/PR. Fonte: Gazeta do Povo)

Dossiê “Tarifas: Trump vs. O Mundo”

Por Tatiana Teixeira, de Amherst, Massachussetts (MA), EUA* [Informe OPEU] [Dossiê] [Trump 2.0] [Tarifas] [Comércio] [Brics] [Brasil] 

O presidente Donald Trump anunciou, na quarta-feira (9), o aumento das tarifas comerciais para vários países, nenhum deles um ameaçador concorrente industrial para os EUA. Ainda assim, serão sobretaxados entre 20% e 50% (ver relação abaixo), com entrada em vigor em 1º de agosto. A lista inclui o Brasil, agraciado com o percentual mais alto, a ser aplicado a todos os seus produtos e em separado das tarifas setoriais existentes, a partir da mesma data. Na prática, isso eleva, de modo significativo, os obstáculos às nossas exportações para os EUA, que incluem óleos brutos e combustíveis de petróleo, produtos de ferro e aço, aeronaves, café, suco de laranja e celulose. Nesse cenário, é possível que a economia brasileira sofra uma desaceleração no crescimento, mas, mesmo assim, o governo Lula afirma que o país tem condições de segurar o tranco e não cederá à chantagem. O respeito à soberania nacional é a linha vermelha que não se pretende permitir que seja cruzada. 

Novas tarifas: Filipinas: 20%; Brunei: 25%; Japão: 25%; Cazaquistão: 25%; Malásia: 25%; Moldávia: 25%; Coreia do Sul: 25%; Tunísia: 25%; Argélia: 30%; Bósnia e Herzegovina: 30%; Iraque: 30%; Líbia: 30%; África do Sul: 30%; Sri Lanka: 30%; Indonésia: 32%; Bangladesh: 35%; Sérvia: 35%; Camboja: 36%; Tailândia: 36%; Laos: 40%; Mianmar: 40%; e Brasil: 50%. 

De tom mais agressivo, mas sem perder a informalidade e o linguajar característicos, o conteúdo da carta enviada ao presidente Lula foge do texto padrão adotado nas demais. Além da pauta comercial e do protecionismo nelas vocalizados, manifesta-se uma explícita intervenção na política doméstica brasileira. No texto, o tarifaço é justificado como retaliação pela “perseguição [política, N.A.] em curso” sofrida por seu buddy de extrema direita Jair Bolsonaro; pela “longa e muito injusta relação comercial” causada pelas “tarifas e barreiras tarifárias e não tarifárias do Brasil”; e pelos “ataques insidiosos do Brasil às eleições livres e aos direitos fundamentais de liberdade de expressão dos americanos”. Como exemplo, ele menciona a “Suprema Corte brasileira, que emitiu centenas de ordens de censura SECRETAS e ILEGAIS às plataformas de mídia social dos EUA, ameaçando-as com milhões de dólares em multas e expulsão do mercado brasileiro de mídia social”. A preocupação ganha sentido quando se olha para um dos principais setores de financiamento de sua campanha eleitoral e de apoio de sua administração: o da Big Techs. 

Junto com os anúncios acima, Trump disse já ter orientado seu representante comercial (USTR), Jamieson Greer, a iniciar “imediatamente” uma investigação sobre o Brasil, sob o amparo da Seção 301. Esse dispositivo da legislação americana para o setor permite aos EUA investigarem supostas práticas desleais de outras nações para aplicar retaliações. O presidente também prometeu estabelecer uma taxa de 10% sobre as importações dos membros do grupo Brics, e de 50%, sobre as importações de cobre, assim como ameaçou implementar um imposto de 200% sobre produtos farmacêuticos importados pelos EUA. Para empresas, mercados e governos, é um cenário de incerteza e volatilidade que se prolonga no tempo e se aprofunda, em decorrência da guerra comercial por ele deflagrada. Urge, portanto, dar às coisas o nome, o desígnio e o peso que elas têm; e situar melhor o contexto dos recentes acontecimentos. 

Carta de Trump a Lula

Classificar a medida como “injusta”, ou até mesmo “simbólica”, é um eufemismo ingênuo, porque ignora a importância do que está em jogo. E que não tem a ver com os argumentos expressos na carta – deliberadamente falsos e propositadamente desconectados da realidade. Trump sabe disso, aferrando-se ao mesmo arsenal de estratégias usado, com recorrência, em casa e no plano internacional: atordoar, intervir, mentir, testar os limites de sua autoridade executiva (o que inclui a questão tarifária) e, do mesmo modo, os de aliados e de adversários/rivais/concorrentes/inimigos. O plano ainda não deu o resultado esperado, em especial, tratando-se de um governo que precisará reforçar (e muito) o caixa para compensar a redução de impostos para os mais favorecidos. Desde o “Dia da Libertação”, em 2 de abril, prometeu-se conseguir “90 acordos em 90 dias”, mas, até agora, apenas dois (Reino Unido e Vietnã) foram confirmados.  

A cortina de fumaça 

O fato de Trump buscar cada brecha da Constituição de seu país para burlar a separação de Poderes e os princípios idealizados pelos Pais Fundadores não significa que o Brasil deva rasgar a sua. Nesse sentido, é difícil não comparar os caminhos escolhidos pelo Legislativo, pelo Judiciário e pelos presidentes dos dois países para tratar dos envolvidos no 6 de Janeiro (EUA) e no 8 de Janeiro (Brasil), datas que serão lembradas como tentativas de golpe nas duas maiores democracias das Américas. Essa distinção não passou despercebida pela imprensa internacional, como mostra o levantamento feito pela BBC. 

O ex-presidente e agora réu Jair Bolsonaro não é vítima de uma “caça às bruxas”, como alega a missiva da Casa Branca. Ao contrário dos EUA do presente (Trump vs. United States), no Brasil o presidente não tem imunidade criminal em relação a atos oficiais. Ao contrário dos EUA do presente, nosso sistema de pesos e contrapesos segue funcionando. Não é perfeito, nem está imune à politização da Justiça nem à judicialização da política, mas está ativo e alerta.  

Isso significa que Bolsonaro e seus comparsas têm garantido o direito à defesa e ao devido processo legal e respondem pela série de crimes dos quais são acusados. Entre eles, mas não somente, estão liderança de organização criminosa e tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito. Conforme investigações que trouxeram à luz robustas evidências, parte do plano para cometer um golpe de Estado incluiria o monitoramento, a prisão ilegal e até a possível execução do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e então presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Alexandre de Moraes; de Lula (PT) e de Geraldo Alckmin (PSB), presidente e vice-presidente eleitos, respectivamente.  

Nessa mesma chave, é oportuno observar (sem surpresa) o que as reações dos aliados de Bolsonaro revelam sobre um desqualificado segmento da nossa “elite” política. Casuísmo, subordinação, entreguismo, cinismo, hipocrisia, vira-latismo e risível estupidez são algumas palavras que podem ajudar a entender por que políticos brasileiros se articulariam e celebrariam que um país estrangeiro impusesse sanções ao seu próprio território. Não se convida à afronta à soberania nacional um país como os EUA, com seu longo histórico de intervenções (políticas, militares e econômicas) na América Latina e em outras partes do mundo. Não se dá esse tipo de abertura a um presidente que tenta reavivar e abraça, com entusiasmo, a Doutrina Monroe. 

Nesse grupo estão os que preferem manter a dependência do Brasil, a se verem como cidadãos de um país autônomo e soberano em suas decisões políticas. Nesse grupo estão os que batem continência para a bandeira estrangeira e defendem slogans de outra pátria – ainda que sejam brasileiros e que a política comercial americana possa ser prejudicial ao Brasil. Pelo mesmo motivo, são os que criticam o avanço do Brics e responsabilizam o bloco pela hiperbolizada reação punitiva de Trump. Apesar do descrédito de muitos analistas sobre a relevância do Brics, a virulência e a extensão das medidas do presidente americano revelam um entendimento bem diferente em Washington, D.C..  

Crise sem precedentes 

Em 200 anos de reconhecimento mútuo, Brasil e Estados Unidos mantiveram sólidas relações no âmbito do comércio. Independentemente dos ventos e humores políticos, essas trocas foram guiadas, sobretudo, pelo pragmatismo. Tensões, benefícios e margens de manobra se mostraram maiores ou menores para um e outro lado, a depender do poder de barganha proporcionado por eventos históricos e suas janelas de oportunidade específicas. Em nenhum desses momentos, porém, houve uma crise bilateral com um potencial de escalada como a atual. O problema não é o Brasil, mas o Brasil do Brics, e o que isso pode representar no plano internacional e para a hegemonia dos Estados Unidos, no médio e no longo prazos.  

Desdolarização da economia global, defesa do multilateralismo, reforma e ampliação do número de membros das organizações internacionais multilaterais, mais protagonismo dos países do Sul Global e cooperação são alguns aspectos e movimentos que vão de encontro à agenda e às prioridades da America First. A retórica inflamada de Trump tem, portanto, endereço certo. Foi o que vimos após o encerramento da Cúpula do Brics de 2025, realizada no Rio de Janeiro, com a ameaça de taxação de 10% aos países que “se alinharem às políticas antiamericanas” do grupo. 

No início da gestão trumpista 2.0, a breve análise intitulada “Putting Business First: The Key to Advancing U.S.-Brazil Partnerships in Trade and Investment”, divulgada on-line em 13 de fevereiro de 2025, Lambrini Kolios, diretora do Brazil-U.S. Business Council, vinculado à Câmara Americana de Comércio, ainda ecoava aspectos positivos das relações bilaterais: “Os Estados Unidos têm um superávit comercial com o Brasil, são o segundo maior parceiro comercial do país [atrás apenas da China, N.A.] e a principal fonte de investimento estrangeiro direto. Quase 130 mil empregos nos Estados Unidos e 500 mil empregos no Brasil dependem das exportações bilaterais, beneficiando não apenas grandes empresas, mas também muitas pequenas e médias empresas”. 

Informações disponíveis no site do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) reforçam uma relação vantajosa para os EUA e esvaziam a falaciosa queixa de Trump: “O comércio total de bens dos EUA com o Brasil foi estimado em US$ 92,0 bilhões em 2024. As exportações de bens dos EUA para o Brasil em 2024 foram de US$ 49,7 bilhões, um aumento de 11,3% (US$ 5,0 bilhões) em relação a 2023. As importações de bens dos EUA provenientes do Brasil em 2024 totalizaram US$ 42,3 bilhões, um aumento de 8,3% (US$ 3,2 bilhões) em relação a 2023. O superávit comercial de bens dos EUA com o Brasil foi de US$ 7,4 bilhões em 2024, um aumento de 31,9% (US$ 1,8 bilhão) em relação a 2023”. 

USTR extends Section 301 tariff exclusions on certain seafood for another three months | SeafoodSourcePrédio do USTR, em Washington, D.C. (Crédito/Cortesia: Mark Van Scyoc/Shutterstock)

Os números mostram que os argumentos da Casa Branca não se sustentam. Há, porém, um ponto em que é possível concordar com a carta de Trump. Como ele próprio diz, sim, “nosso relacionamento, infelizmente, tem estado longe de ser recíproco”, já que, desde 2009, a balança comercial tem sido favorável aos EUA. Outros dados sobre o assunto podem ser consultados na página on-line da Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil), no site do Censo dos Estados Unidos, ou da Secretaria de Comércio Exterior, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Brasil). 

Com aprovação em queda – especialmente em relação a sua gestão da economia e na esteira da sanção presidencial da One Big Beautiful Bill Act (Uma Grande e Bonita Lei), também rejeitada pela maioria da população –, Trump se volta para sua fiel base MAGA (Make America Great Again). O uso da política como entretenimento e espaço de bravatas tem, contudo, suas limitações. A distração extra de pouco servirá quando o consumidor sentir no bolso o impacto do tarifaço e se deparar com a escassez dos produtos “Made in China, Made in Brazil e alhures”. A título de exemplo: em torno de um terço do café e metade do suco de laranja consumidos nos Estados Unidos são de origem brasileira. 

A essa altura, grande parte dos chefes de Estado e de Governo do mundo já entendeu (ou deveria ter entendido) como Trump funciona e como ele vê qualquer tipo de negociação. Trata-se, não importa a situação, de um jogo de soma zero. Para um lado ganhar, o outro precisa perder. De modo a obter o resultado que deseja, o empresário ameaça, inventa, faz e desfaz com a mesma rapidez, desestabiliza, desarticula, confunde. Avança, ao sinal de fraqueza, medo ou hesitação do adversário (sobretudo, no caso das economias menores e menos diversificadas). Recua, quando o oponente fala mais alto e reage à altura. Em tais circunstâncias, é mais do que recomendado e pertinente responder de forma proporcional.  

Também é fundamental insistir no fortalecimento, na união e no crescimento do Brics, mantendo uma tradição cara à nossa política externa, que é a da diversificação de parceiros comerciais. Outrossim, identificar, mapear e monitorar think tanks, empresas, lobbies e grupos de interesse mais atuantes e influentes no governo trumpista é informação crucial para que o governo brasileiro possa entender o que está por trás de cada balão de ensaio e reagir na proporção e na intensidade adequadas, garantindo melhor posição nesse conflito. Em meio à fanfarronice e ao destempero, o Brasil se mostra como um país sério e mais maduro, ao recorrer à sua Lei de Reciprocidade Econômica, conforme declaração do presidente Lula. É assim que se conversa e se negocia com Trump. Com o porrete sobre a mesa, just in case.

 

Conheça alguns dos textos da autora publicados no OPEU

Divulgação “Chamada para publicação no OPEU em fluxo contínuo: Dossiê ‘Distopias e Trump 2.0’”, 25 de maio de 2025

Informe “Os primeiros 100 dias de Trump 2.0: caos deliberado, incerteza e perseguições”, 28 abr. 2025

Informe “Oscar 2025 diz ‘não’ a Trump e sua agenda”, 4 mar. 2025

Informe “Posse presidencial: um ritual de sacralização do ordinário marcado por opulência e poder”, 21 jan. 2025

Informe “Criador das ‘13 Keys’, Nostradamus das eleições nos EUA prevê vitória de Kamala Harris”, 7 set. 2024

Informe “Impacto da saída de RFK Jr. é pequeno, mas pode ser chave em eleição apertada”, 30 ago. 2024

Informe “Think tanks, lobbies e política nos EUA”, 6 jun. 2024

Informe “Colégio Eleitoral nos EUA: um sistema obsoleto que resiste à mudança dos tempos e da sociedade”, 28 de maio de 2024

Informe “Lula e Biden: uma relação com ganhos e (novos) limites para Brasil e EUA”, 11 fev. 2023

Informe “A carta de Biden”, 21 mar. 2021

Informe “O legado do senador republicano Mitch McConnell”, 30 out. 2020

Informe “Think tanks e política nas eleições de 2020 nos EUA”, 15 dez. 2019

Informe “A bilionária e feroz propaganda eleitoral nos EUA”, 17 nov. 2019

Informe “Think tanks americanos e a desigualdade de gênero”, 29 out. 2019

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Tatiana Teixeira é editora-chefe do OPEU. Está nos EUA, onde participa do curso de American Politics and Political Thought, de seis semanas de duração, realizado no âmbito da Civic Initiative, do Donahue Institute, vinculado à Universidade de Massachusetts Amherst (UMass). SUSI 2025 é patrocinado pelo Departamento de Estado dos EUA e administrado pela Universidade de Montana (UM). Trabalhos decorrentes do programa ou outros relacionados aos Estados Unidos são considerados de totais autonomia, iniciativa e responsabilidade da pesquisadora e não representam qualquer endosso ou adesão a quaisquer políticas e agendas por parte do governo americano atual, ou anteriores. Contato: tatianat19@hotmail.com. 

** Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU. 

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