Balanço das relações Irã-EUA no governo Trump

Iranianos carregam foto do guia supremo, aiatolá Ali Khamenei, durante protesto em Teerã, em 10 maio 2019 (Crédito: AFP)

Por Matheus Pfrimer*

As relações bilaterais entre Irã e Estados Unidos se deterioraram nos últimos cinco anos. Embora não se possa afirmar que anteriormente houvesse alinhamento entre suas posições, havia, contudo, alguns pontos de convergência. De forma a analisar os elementos de continuidade e de descontinuidade durante a administração Donald Trump, refletimos sobre as reverberações das relações bilaterais na esfera doméstica, regional e internacional. O marco da escalada de tensões nas relações bilaterais ocorre com a saída americana do Acordo Nuclear Iraniano de 2015, contudo não se pode esquecer de que, em um contexto mais estrutural, essas relações se vinculavam à herança do engajamento militar dos EUA no Iraque e a seu apoio logístico aos rebeldes na Guerra Civil da Síria.

Arena doméstica: instabilidade interna x apoio popular

No nível doméstico, as sanções econômicas americanas vêm fazendo com que o custo de vida no Irã se torne mais caro, elevando a insatisfação da população. Nestes últimos meses, aconteceram diversas manifestações no Irã contra o regime. Parte dos movimentos sociais é apoiada indiretamente por Washington. Enquanto o programa nuclear iraniano se desenvolve com dificuldades, o projeto de formação de milícias xiitas por parte do governo iraniano tem sido um dos projetos estratégicos de defesa, tendo influências não apenas domésticas, mas em toda região.

Além disso, as erráticas relações bilaterais entre os países podem influenciar os planos de reeleição do presidente Donald Trump. Ainda que as teorias da guerra divisionárias ressaltem os efeitos positivos para popularidade presidencial, uma recente pesquisa realizada pelo Instituto Gallup nos EUA aponta que apenas 18% dos americanos apoiam ações militares contra o Irã, enquanto 78% preferem ações diplomáticas, ou sanções econômicas. O que mais chama a atenção é que as opiniões de entrevistados republicanos e democratas são parecidas.

Possivelmente, as abordagens geopolíticas em relação ao Irã serão um tema central do debate eleitoral em 2020, ainda mais levando-se em conta as anteriores manifestações do presidente Trump de que não entraria em guerra contra este país.

Arena regional: engajamento x desengajamento

No que tange à arena regional, o Irã vem procurando manter sua liderança por meio da articulação com líderes e grupos armados xiitas na região. Na questão mais premente iraniana — sua influência no Iraque —, Teerã possui como base de sua influência alinhamentos com os líderes das Unidades de Mobilização Popular (PMU, sigla em inglês), que também conformam uma importante elite política iraquiana. Pelo menos um terço do Parlamento iraquiano é composto por partidos ligados às PMUs, o que demonstra o alcance da influência iraniana (ver Figura 1: em verde, os assentos dos partidos ligados às milícias xiitas). A recente morte do general iraniano Qassem Soleimani por parte dos EUA representou, porém, uma perda para o Irã, uma vez que ele era o principal articulador das milícias xiitas não apenas no Iraque, mas no Líbano e na Síria.

Figura 1 – Composição do Parlamento iraquiano por assentos (2019)

Este episódio também culminou em alguns reveses para a política externa estadunidense. A pretensão de desengajamento das tropas americanas no Oriente Médio acabou sendo abortada, devido à possibilidade de um enfrentamento militar com o Irã. Um segundo revés foi a aprovação pelo Parlamento iraquiano de um pedido de retirada das tropas americanas de seu território. Diante da necessidade de reequilibrar a liderança geopolítica iraniana, a perda de projeção política regional acaba por trazer uma instabilidade ainda maior para a região. E uma possível retirada americana do Iraque poderá dar maior margem de manobra para os interesses iranianos na região.

Arena global: armas x petróleo

Por último, no cenário global, as consequências da escalada das tensões entre EUA e Irã gira em torno dois temas: o Acordo Nuclear Iraniano e o petróleo. Ao se retirar do Acordo Nuclear de 2015 e incrementar as sanções econômicas ao Irã, os EUA acabaram se afastando do posicionamento das grandes potências. Essa decisão do Departamento de Estado americano foi, inclusive, condenada pela Corte Internacional de Justiça da ONU, o que reflete uma perda de influência diplomática ante a comunidade internacional.

Em relação ao petróleo, o Irã procura indiretamente pressionar os EUA, por meio do acirramento das tensões em pontos territoriais estratégicos, como o estreito de Ormuz. Muito embora os EUA disponham de autonomia energética suficiente para não serem impactados por uma possível alta do petróleo, os aliados estadunidenses, como a Arábia Saudita, e parte do mercado internacional se veriam afetados. Invariavelmente, um cenário de instabilidade no Oriente Médio provoca algum impacto sobre o preço do petróleo, mas de forma não tão decisiva como há algum tempo. Uma vez que o petróleo não teria mais o mesmo efeito sobre o cenário internacional, o Irã tenderia a seguir os exemplos da Coreia do Norte e do Paquistão, isto é, tentar a longo prazo produzir armamento nuclear.

 

* Matheus Pfrimer é professor de Segurança Internacional no curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de Goiás (UFG).

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