Publicações / Informe OPEU

Nossos informes são resumos dos principais fatos de política doméstica e internacional dos Estados Unidos. O Informe OPEU é publicado a cada 15 dias com o conjunto dessas notícias.

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Trump começa a enfrentar problemas no Congresso

Desde a posse, há dois meses, o governo de Donald Trump tem sido marcado por polêmicas e turbulências. Os últimos dez dias talvez tenham sido os  mais difíceis até o momento. Logo no início da semana passada, dia 20 de março, o diretor do FBI, James Comey, e o Diretor da NSA, Michael S. Rogers, foram ouvidos em uma audiência da Comissão de Inteligência da Câmara sobre o papel dos hackers russos nas eleições presidenciais. Na ocasião, Comey confirmou que o FBI investiga supostas relações entre o governo russo e funcionários de campanha de Trump. Também declarou que a participação russa serviu para prejudicar a campanha de Hillary.

Investigações tensionam o Congresso

As investigações sobre a relação entre hackers russos e as eleições norte-americanas se iniciaram, no dia 25 de janeiro, no âmbito do Comitê de Inteligência da Câmara de forma bipartidária, com o aval dos deputados Devin Nunes (R-CA), presidente do comitê e ex-membro da equipe eleitoral de Trump, e Adam Schiff (D-CA), líder democrata.  No dia 4 de março, a questão ganhou proporção quando Trump afirmou no Twitter que Barack Obama teria grampeado a sede de seu conglomerado empresarial, a Trump Tower, em Nova Iorque. A acusação, embora sem qualquer evidência, gerou desconforto, levando inclusive Sean Spicer, o secretário de imprensa da Casa Branca, a suavizar o imbróglio no dia 13 de março.

Dois dias depois, o próprio Nunes parecia estar convencido de que Trump havia se equivocado. Muito questionado, Spicer voltou a sustentar as alegações de Trump numa conferência de imprensa tensa, citando o envolvimento de espiões britânicos no caso. A acusação foi considerada ridícula pela Agência de Segurança Nacional Britânica. O assunto reapareceu, no dia 17 de março, na conferência de imprensa conjunta com Angela Merkel, com Trump afirmando que ambos tinham “algo em comum“, numa referência aos casos de espionagem de 2013 revelados pelo Wikileaks. Entretanto, em seu depoimento ao Congresso, alguns dias depois, Comey afirmou não existir qualquer fundamento que apoie as supostas denúncias feitas pelos tuítes de Trump.

Considerando este contexto, as declarações contundentes dos diretores do FBI e da NSA na audiência do dia 20 pareciam encerrar a questão. Entretanto, dois dias depois, Nunes afirmou ter tido acesso a alguns relatórios que provariam que os serviços de inteligência dos Estados Unidos haviam coletado acidentalmente informações de membros da equipe de campanha de Trump. A polêmica, que parecia sepultada com as declarações de Comey, ressurgiu. Trump declarou que se sentia respaldado em suas alegações com as novas descobertas de Nunes.

A atitude de Nunes gerou uma disputa dentro do Comitê de Inteligência da Câmara. Representantes do partido democrata passaram a questionar se Nunes estaria a obstruir as investigações de alto nível sobre os laços de Trump com a Rússia. Procedimentalmente, Nunes teria se precipitado ao procurar o presidente sem comunicar os outros membros do Comitê. A situação se agravou nesta segunda, dia 27, quando Nunes confirmou ter feito uma visita à Casa Branca para vasculhar os arquivos de inteligência, os mesmos que usou para fazer suas alegações. Os democratas reagiram, sob a liderança de Schiff, pedindo que Nunes seja colocado sob suspeição, uma vez que, no ímpeto de fazer valer as declarações de Trump, não teria respeitado os protocolos e a isenção necessária que o assunto exige. Schiff não está sozinho. Nancy Pelosi (D-CA), líder dos democratas na Câmara, e Chuck Schumer (D-NY), líder democrata no Senado, também exigem o afastamento de Nunes.

Embora Trump tenha usado as afirmações de Nunes para respaldar suas acusações contra Obama, estas ainda carecem de fundamento. Desde o ataque de 11/9, e depois com a aprovação do “Ato Patriota”, é sabido que existem softwares de inteligência monitorando cidadãos norte-americanos, principalmente aqueles que mantém algum contato com determinadas personalidades estrangeiras. Parte deste movimento levou ao escândalo do Wikileaks. Até o momento, as alegações de Nunes parecem se referir a procedimentos de rotina, além de não provarem que Obama colocou a empresa de Trump sob vigilância.

As trocas de acusações tendem a se intensificar nos próximos dias. São duas as possibilidades de solução para o impasse: a primeira, o possível afastamento de Nunes da liderança do Comitê; a segunda, a criação uma Comissão independente para investigar as relações entre a equipe de Trump e os russos.

Os questionamentos feitos pelas lideranças democratas apontam para diversas inconsistências no caso: Qual seria a necessidade de informar o presidente sobre documentos que aparentemente já são de posse da Casa Branca? Qual seria o interesse de Nunes de informar o presidente antes de recorrer aos próprios membros da Comissão?  Enquanto isso, todas as sessões do Comitê de Inteligência foram canceladas, incluindo a audiência do dia 28 de março, que contaria com os depoimentos de Sally Yates, ex-procuradora estadual demitida por Trump em janeiro por se recusar a fazer cumprir uma ordem executiva sobre imigração. No entendimento de Schiff, a Casa Branca contribuiu para a decisão de cancelamento da audiência para evitar que Yates deponha na Comissão e, com isso, provocar desgastes ainda maiores. Segundo o jornal The Washington Post, a Casa Branca chegou a informar a Yates que a maior parte de seu depoimento seria excluído da audiência devido à prerrogativas do poder executivo. A informação foi contestada pelo secretário de imprensa da  Casa Branca.
<h3target=”_blank”>Crise contribui para a piora da popularidade de Trump

Outro golpe para o governo foi a derrota política de Trump no projeto de reforma que substituiria o Obamacare, no último dia 24 de março. Depois de 7 anos prometendo acabar com o Obamacare, os republicanos não conseguiram votos suficientes dentro do próprio partido para mudar o modelo de saúde dos Estados Unidos, mesmo com adiamentos na votação e a participação de Trump nas negociações. É importante lembrar que os republicanos têm maioria no Congresso, de modo que bastariam os votos do próprio partido. Entretanto, membros da ala mais conservadora, principalmente aqueles ligados ao Freedom Caucus, bem como alguns moderados não garantiram os votos que o porta-voz da Câmara Paul Ryan (R-KY) precisava, fazendo com que a lei caísse por terra. Em resposta, Trump atribuiu a culpa da derrota aos democratas e afirmou que a melhor coisa que pode acontecer agora é “deixar o Obamacare implodir”.

Feitas as devidas ressalvas, Obama também teve relações conturbadas com o poder Legislativo, o que fomentou o uso de ordens executivas por parte do ex-presidente. Isso dá alguma margem de manobra a Trump, que pode reverter iniciativas de Obama sem depender do apoio legislativo. Exemplo disto foi a ordem executiva assinada no dia 28, que pôs fim à política de Obama para energia. Mas as investigações sobre os laços da equipe de Trump com a Rússia e o sinal cruzado emitido por parte de sua base aliada na questão da saúde deram o tom da relação entre os poderes Executivo e Legislativo nos últimos dias, e impõem desafios importantes à governabilidade de Trump.

por Filipe Mendonça e Débora Prado

Trump desfaz ordem de Obama e autoriza Keystone XL

Depois de nove anos de controvérsia, o governo dos Estados Unidos autorizou a expansão do oleoduto Keystone XL pela empresa TransCanada.

O trecho aprovado vai da província canadense de Alberta até o estado americano de Nebraska, de onde segue por linhas já existentes para refino no Texas.

A expectativa da TransCanada é exportar 830mil barris diários por quase 2 mil km de extensão. Os gastos também impressionam. Segundo a empresa, a previsão era investir US$ 4 bilhões, mas o atraso na aprovação dobrou a estimativa. A TransCanada já avisou que essa diferença será repassada aos compradores.

Thomas Shannon, vice-secretário de assuntos externos do Departamento de Estado e ex-embaixador no Brasil entre 2010 e 2013, foi quem assinou a liberação do projeto na sexta-feira, 24.  Isso porque o secretário de Estado Rex Tillerson se absteve para evitar conflito de interesse. Antes de assumir o cargo público, Tillerson presidiu a petrolífera ExxonMobil por mais de dez anos.

Por ser uma obra que cruza a fronteira internacional, o Departamento de Estado precisava avaliar o interesse nacional. Esse foi justamente o impasse que paralisou o projeto durante toda a gestão Obama.

Seria de interesse nacional importar petróleo de baixa qualidade e alto nível de poluentes no momento em que os Estados Unidos aumentavam a produção doméstica e enfrentavam as pressões climáticas?

Muitos na indústria petrolífera acreditavam que sim. Entre os principais apoiadores do oleoduto estão os irmãos Charles e David Koch, magnatas do petróleo que fundaram o movimento Tea Party e criaram instituições anti-Estado no país. Apelidada de Kochtopus, em referência à palavra polvo em inglês, a rede libertária tem alcance na mídia, na economia, nas esferas legislativas e judiciárias.

A pressão de empresários como os Koch funcionou sobre o Partido Republicano, que tem grande eleitorado nos estados produtores de petróleo ou por onde passará o oleoduto. Nos últimos anos, uma união incomum entre republicanos e sindicalistas defendeu com unhas e dentes o projeto, alegando que ele aumentaria a segurança energética e a oferta de empregos.

O Departamento de Estado, no entanto, afirma que o número de postos de trabalho será inferior a 1% do total no país, sendo 42,1 mil temporários e apenas 35 permanentes. Menos realista, mas inegavelmente mais otimista, Donald Trump contabiliza em 28 mil o total de vagas permanentes.

O apoio dos republicanos foi tão forte que o partido tentou inúmeras vezes vincular a autorização do oleoduto à votação de orçamentos federais.

Contrariando sua base sindicalista, mas alinhando-se com os ambientalistas, o Partido Democrata manteve-se firme na recusa à construção.

O petróleo betuminoso canadense é um dos tipos mais poluentes. Outra questão ambiental, que ainda deve levar mais seis meses até a aprovação estadual, é o fato de o oleoduto passar sobre o aquífero de Ogallala, no estado de Nebraska.

Os democratas também questionavam o desnecessário aumento da importação de petróleo do Canadá quando as refinarias americanas já estavam abarrotadas com petróleo de xisto. De lá para cá, os estoques só fizeram crescer com o excedente da produção em casa e a queda dos preços globais.

Pouco antes da Conferência de Paris para o Clima, em novembro de 2015, Barack Obama decidiu finalmente vetar o Keystone XL. O então presidente disse que o oleoduto não contribuiria para a economia no longo prazo, não reduziria os preços da gasolina, nem melhoraria a segurança energética. “Por outro lado, aprovar o oleoduto diminuiria a liderança global dos Estados Unidos no combate à mudança climática”, argumentou.

Obama pode ter sacrificado a política doméstica em prol da projeção internacional na governança climática, uma conta que coube a Hillary Clinton acertar com o eleitorado conservador.

Donald Trump nunca escondeu sua simpatia pelo oleoduto. Tanto é assim que, ao contrário de afirmações anteriores, decidiu liberar a TransCanada da obrigação de usar aço norte-americano na obra. Uma espécie de “Buy American Steel” para todas as construções de grandes dutos no país. O presidente justificou a isenção dizendo que a regra não vale para projetos em andamento.

A notícia chegou em boa hora para o Canadá. Sem poder vender para a Europa, onde se usa petróleo mais leve, a alternativa hipotética seria exportar para o mercado asiático. Isso exigiria a construção de infraestrutura física entre as reservas nas areias betuminosas e a costa oeste do país. O problema é que a população canadense resiste à construção do oleoduto pelas mesmas razões ambientais que travaram o Keystone XL nos últimos anos.

por Solange Reis

Gorsuch dá início à virada conservadora na Suprema Corte

No dia 23 de março, o Senado completou a sabatina do juiz Neil Gorsuch, nomeado para a Suprema Corte dos Estados Unidos pelo presidente Donald Trump. A vaga está aberta desde fevereiro de 2016, em razão do falecimento do juiz Antonin Scalia. No último ano, a maioria republicana no Senado bloqueou a nomeação do juiz Merrick Garland, indicado pelo então presidente Barack Obama. Agora, os republicanos precisam conquistar votos de, ao menos, oito senadores democratas para aprovar a nomeação de Gorsuch pela maioria qualificada de 60 votos. Caso a oposição democrata seja irredutível, os republicanos podem ainda invocar a chamada “opção nuclear” e alterar as regras de votação no Senado, o que abriria um precedente histórico. A nomeação de Gorsuch para a Suprema Corte é apenas o primeiro de vários postos de juízes que Trump preencherá durante sua presidência, que poderá marcar uma virada conservadora no sistema legal dos Estados Unidos.

A sucessão de Scalia e o equilíbrio da Suprema Corte

Com o falecimento do juiz Antonin Scalia, em fevereiro de 2016, iniciou-se uma disputa pela orientação da Suprema Corte dos Estados Unidos. O então presidente Barack Obama escolheu Merrick Garland, um sucessor que imaginava poder agradar a ambos os partidos e era apoiado por grupo liberais como o Democracy for America. Senadores republicanos, entretanto, bloquearam sua nomeação com o argumento de que um presidente com menos de um ano de mandato não poderia fazer tal escolha. Diante do bloqueio, a Suprema Corte vem operando com apenas oito membros: quatro indicados por presidentes democratas e quatro indicados por presidentes republicanos. Dentre eles, o juiz Anthony M. Kennedy tende a mudar de posição mais frequentemente, sendo por vezes o fiel da balança. Quando o juiz Kennedy vota com os liberais, eles têm maioria, quando vota com os conservadores, ocorre um empate e nenhum precedente é criado. Com a ajuda de Kennedy, os liberais rejeitaram as restrições às clínicas de aborto no Texas e mantiveram os planos de ação afirmativa das universidades.

A escolha de Gorsuch vem preencher o vazio conservador deixado por seu antecessor e é apoiada por grupos como a Heritage Foundation e a Federalist Society. Segundo Trump, essas organizações o ajudaram na escolha de possíveis nomes e, caso ele venha a nomear outros juízes, será desta lista que ele irá escolher. Gorsuch é um originalista: acredita que a Constituição norte-americana deve ser analisada de acordo com a intenção dos Founding Fathers e, dessa forma, acaba por se tornar o preferido dos conservadores. Essa preferência se dá, principalmente porque ele entende que o sistema de regulação estatal vigente concede muito poder ao Estado. Contrário a um precedente de 1984, Gorsuch manifestou que o juiz não está obrigado a seguir o entendimento das agências governamentais sobre leis federais de sua competência.

Pelo lado dos liberais, há preocupação em relação as suas posições sobre direito de reprodução e aborto, eutanásia e direito de gênero. Gorsuch nunca julgou um caso específico sobre aborto, mas em voto dissidente apoiou empresa que se recusou a distribuir contraceptivos exigidos pela Obamacare com base na liberdade religiosa, e escreveu um estudo sobre eutanásia, condenando a prática. Outros casos que serão julgados pelo novo juiz incluem o do direito de transgêneros utilizarem o banheiro correspondente ao sexo com o qual se identificam e um sem número de casos sobre o direito ao aborto que poderão reverter o precedente de Roe v. Wade.

Perspectivas para a Suprema Corte

As perspectivas não são as melhores para o movimento liberal e sua agenda de direitos humanos. Espera-se decisões cada vez mais conservadoras, o que poderá levar à retração de direitos, principalmente no plano das questões de reprodução e de gênero. A escolha de Neil Gorsuch como juiz da Suprema Corte, no curto prazo, fará com que a relação entre conservadores e liberais volte ao status anterior à morte de Scalia. Entretanto, no longo prazo, Trump não nomeará apenas Gorsuch, que tem 49 anos e pode permanecer por muito tempo no cargo, mas também há a possibilidade de que ele venha a indicar outros três juízes.

Ainda que o cargo de juiz da Suprema Corte seja vitalício, os juízes Stephen Breyer e Ruth Ginsburg, nomeados pelo democrata Bill Clinton, e Anthony Kennedy, nomeado por Ronald Reagan, estão próximos da idade em que juízes historicamente se aposentam. Caso Trump possa nomear juízes jovens e de perfil conservador, como Gorsuch, para essas três vagas, a influência de suas ideias e interpretações poderá se estender por muitos anos.

Além disso, a Casa Branca espera nomear entre 70 e 90 juízes para as Cortes de Apelação nos Estados Unidos nos próximos anos. O número é elevado pela idade de alguns juízes e pelas mesmas táticas de obstrução usadas pelos senadores republicanos durante o governo Obama. Ao preencher tais vagas com juízes de perfil conservador, é provável que o impacto no sistema jurídico seja ainda maior do que a nomeação de Gorsuch, já que a maioria dos casos para nas Cortes de Apelação e nunca chega a ser ouvida pela Suprema Corte.

Resta saber se os senadores democratas vão se juntar ao líder da minoria na Casa, Charles Schumer (D-NY), e tentar bloquear a nomeação de Gorsuch através da manobra conhecida como filibuster. Isso obrigaria os republicanos a conquistar pelo menos oito votos democratas. Caso contrário, restariam duas opções: Trump pode retirar a nomeação e indicar outro juiz de posições mais moderadas aos olhos da oposição; ou o líder da maioria, o senador Mitch McConnell, pode invocar a chamada “opção nuclear” e mudar as regras do Senado para aprovar a nomeação por uma maioria simples. Apesar da cautela de McConnell com a escolha, que abriria um precedente histórico e equipararia as decisões do Senado às de maioria simples na Câmara, esse parece ser o caminho preferido de Trump.

Orçamento mostrará prioridades de Trump

Manchetes, tweets e polêmicas marcaram as primeiras seis semanas da presidência de Donald Trump. Em meio a controvérsias, algumas iniciativas e mudanças concretas começam a dar substância ao novo governo. Dentre elas, a primeira proposta de orçamento, a ser divulgada em 16 de março, deve trazer uma indicação mais clara de quais políticas o governo realmente levará a sério, e o que são apenas táticas para satisfazer eleitores e manter a mídia e a opinião pública ocupadas. Trump pode criar quantas manchetes quiser nas redes sociais, mas se o governo quiser implementar políticas novas terá que empenhar dinheiro e conseguir aprovação do Congresso.

Aumento de gasto militar

Até agora, o que se sabe é que a proposta de orçamento deve trazer um aumento no gasto militar e uma diminuição equivalente nas despesas não militares do governo. Um crescimento de US$ 54 bilhões levaria o orçamento militar para US$ 603 bilhões. Trump tem alardeado que este será o maior aumento de gasto militar da história recente, mas como quase tudo na presidência Trump, não está claro se a informação é verdadeira.

O aumento de verbas proposto se aplica às despesas normais do Pentágono. A administração, todavia, não declarou como tratará as despesas conhecidas como Overseas Contingency Operations (OCO), uma verba adicional do orçamento militar relacionada aos custos das intervenções no Iraque e no Afeganistão. O atual diretor de orçamento da Casa Branca, Mick Mulvaney, foi um grande crítico dessas verbas quando era congressista, uma vez que elas permitem que o Pentágono escape de restrições orçamentárias.

Atualmente, as verbas de OCO giram em torno de US$ 60 bilhões. Com tudo contabilizado, gasto militar do ano fiscal 2017 totaliza US$ 608 bilhões. Se Trump mantiver o valor anunciado de US$ 603 bilhões e não buscar apropriações extraordinárias, o novo orçamento verá uma diminuição real do gasto militar.

Mesmo sem considerar as despesas com intervenções no Iraque e no Afeganistão, a proposta de orçamento já vem sofrendo críticas da ala militarista do Partido Republicano. Trump declarou que a maior parte das novas verbas será investida com equipamentos e pessoal: a Marinha cresceria de 274 para 350 embarcações, incluindo a construção de dois novos porta-aviões; o Exército receberia recursos para 60.000 novos soldados; a Força Área ganharia mais uma centena de aeronaves de combate; e os Marines teriam 36 novos batalhões. O problema é que o orçamento previsto não tem condição de sustentar um crescimento militar como o proposto. John McCain, presidente do Comitê das Forças Armadas no Senado, e Mac Thornberry, presidente do Comitê da Câmara, já criticaram a proposta. Parte da comunidade de Defesa espera por gastos militares no montante de US$ 640 bilhões.

Diminuição do gasto não militar

A contrapartida destas discussões, e a outra parte do problema, é redução do gasto não militar. Os principais alvos da proposta são o Departamento de Estado, que teria uma redução de 37% em seu orçamento, e a Agência de Proteção Ambiental, com um corte de 24%. No caso do Departamento de Estado, os principais cortes viriam dos programas de ajuda externa. Em entrevista, Mulvaney declarou que os EUA iriam parar de gastar dinheiro no exterior para gastar em casa. Novamente, críticas surgem dentre os próprios republicanos. O líder da maioria no Senado, Mitch McConnell, declarou ser contrário a cortes drásticos no Departamento de Estado. O senador Marco Rubio ressaltou a importância dos programas de auxílio externo para a segurança dos EUA. E Lindsey Graham, um dos maiores críticos de Trump, disse que a proposta nasceria morta no Senado.

No caso da Agência de Proteção Ambiental, os cortes seguem o objetivo declarado da administração de rever várias dos regulamentos aplicados pela EPA durante o governo Obama. No fim de fevereiro, Trump assinou ordem executiva alternado a maneira como a Agência trata as vias navegáveis nos EUA. Mas a tentativa de rever regulamentos ambientais e climáticos vai além da EPA. A proposta de orçamento também inclui cortes de 17% na National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), órgão que é parte do Departamento de Comércio. A NOAA é responsável, entre outros, por programas de monitoramento ambiental via satélite que fornecem dados para estudos de aquecimento global.

As propostas são tão polêmicas que até mesmo membros da administração Trump já declararam que vão brigar por reduções menores junto à Casa Branca. Scott Pruitt, o novo administrador da EPA, declarou que vai tentar defender alguns programas da Agência de cortes. O novo secretário de Interior, Ryan Zinke, também disse não estar satisfeito com os cortes.

Perspectivas

Do que foi divulgado até o momento, algumas conclusões podem ser tiradas da proposta de orçamento e dos objetivos da administração Trump:

  1. A conta não fecha: o orçamento do Departamento de Estado e da Agência de Desenvolvimento Internacional (USAID) para 2017 foi de US$ 50 bilhões; o orçamento da EPA foi de US$ 8 bilhões. Mesmo cortes drásticos como os propostos nunca gerariam a economia de US$ 54 bilhões necessária para investimento no orçamento militar. O que esses cortes radicais parecem promover, na verdade, é uma agenda tradicional republicana de desmonte do estado regulatório. Outros alvos de cortes são programas como o AmeriCorps e o National Endowments for the Arts and the Humanities, iniciativas que custam centenas de milhões de dólares em um orçamento de US$ 4 trilhões. E quando perguntado sobre como pretende pagar pelo aumento do gasto militar, Trump recorreu a esperanças de melhoras na economia e na arrecadação.
  2. Ao não querer irritar ninguém, Trump vai irritar muita gente. A proposta de orçamento é baseada no aumento de gasto militar equilibrado por cortes nos gastos não militares. Essa equação deixa a atual trajetória do gasto público no país inalterada, para o desespero dos chamados falcões do orçamento republicanos que querem ver uma diminuição geral do gasto público. Além disso, Trump está cumprindo uma promessa de campanha de não mexer nos programas sociais e aposentadorias. Mas são essas exatamente as maiores despesas do governo que os republicanos vem tentando reformar há décadas, em especial liderados pelo porta-voz da Câmara, Paul Ryan. Ao não reduzir o gasto público e não reformar programas como Medicare, Medicaid e a Seguridade Social, Trump atrairá dissidências entre os republicanos.
  3. No Congresso, principalmente no Senado, os democratas podem ter uma posição mais forte do que inicialmente esperado. O Budget Control Act de 2011 estabelece limites gerais para o gasto militar e não militar. A proposta de orçamento de Trump quer ir além desses limites para despesas militares, mas para isso o governo terá que contar com votos democratas no Senado. Pode-se esperar que os democratas atenuem a quantidade de cortes em gastos não militares como elemento de barganha.

Trump diz que expulsará milhões de imigrantes “criminosos”

 

Milhões de imigrantes em situação irregular nos Estados Unidos poderão ser deportados imediatamente após a posse de Donald Trump em janeiro. Essa foi a declaração do presidente eleito, em entrevista no sábado (12) ao programa “60 Minutes”, da rede CBS. “O que vamos fazer é deportar milhões de criminosos ou pessoas com registros criminais”, disse Trump, destacando que o número pode chegar a 2 ou 3 milhões de pessoas. Vivem no país aproximadamente 11 milhões de imigrantes sem documentos, número equivalente a 3,5% da população total. No ano passado, 235.413 mil pessoas foram deportadas, sendo a metade mexicana. O Brasil aparece em nono lugar na lista de deportações por nacionalidade (744 deportados), atrás de países da América Central, da Colômbia e do Equador. Quase 60% do total de deportados dos EUA haviam sido condenados ou tinham antecedentes criminais, embora muitos possuíssem documentos. Trump afirmou que fará uma avaliação dos imigrantes que merecem permanecer no país por serem “ótimas” pessoas. Imigrantes ilegais representam 5% da força de trabalho nos EUA e mais da metade vive no país há uma década. A maioria reside em Estados como Califórnia, Texas, Nova Jersey, Nova Iorque, Flórida e Illinois. No mesmo dia, o líder da maioria na Câmara, Paul Ryan (R-WI), falou ser improvável colocar em prática um plano de deportação em massa. Ryan disse que o mais importante é proteger as fronteiras.

Ataques à infraestrutura da Internet causam preocupação

Um ataque complexo e em larga escala derrubou sites, e causa preocupação sobre a segurança da Internet. Ao menos três ondas de ataques DDoS (ataque de negação de serviço distribuído) foram direcionados contra a empresa Dyn no dia 21. A Dyn é uma das empresas que opera servidores DNS, o sistema de nomes de domínios que traduz os endereços de sites na Internet em valores numéricos que orientam o tráfego de dados na rede. Um ataque de negação de serviço distribuído é uma técnica em que os agressores simplesmente sobrecarregam os servidores de um determinado alvo requisitando acesso a partir de vários computadores ou dispositivos num curto espaço de tempo. A ideia é levar a estrutura do alvo até o limite máximo de resposta, impedindo o tráfego e o acesso normal. Uma diferença dos ataques recentes é que foram direcionados não a um site específico, mas a servidores DNS que são parte da infraestrutura da Internet. Com isso, as interrupções de tráfego afetaram empresas como Twitter, Netflix, Spotify, Airbnb, Reddit, SoundCloud, The New York Times, entre outras. Outra diferença é que os ataques não foram iniciados apenas de computadores, mas de uma série de dispositivos como câmeras, tocadores de música, babás eletrônicas e roteadores conectados a Internet e previamente infectados com software malicioso. O que vem sendo chamado de “Internet das coisas”, a conexão de cada vez mais dispositivos a rede para acesso permanente e de qualquer lugar, tem aumentado o risco de segurança online. Especialistas têm identificado padrões recentes de ataques à infraestrutura da Internet como sondagens para testar o grau de defesa de empresas e governos. Apesar das fontes dos ataques ainda não terem sido identificadas, o alto grau de complexidade e recursos envolvidos sugere a ação de um Estado, e não de indivíduos ou pequenos grupos.

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