Publicações / Informe OPEU

Nossos informes são resumos dos principais fatos de política doméstica e internacional dos Estados Unidos. O Informe OPEU é publicado a cada 15 dias com o conjunto dessas notícias.

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Escalada retórica eleva risco de guerra com Coreia do Norte

Em resposta ao teste de mais um míssil intercontinental norte-coreano, no dia 28, Donald Trump prometeu reagir com “fogo e fúria jamais vistos pelo mundo”.

A ameaça foi feita do Campo de Golfe de Bedminster, em Nova Jersey, onde o presidente trabalha enquanto a Casa Branca passa por reformas.

Contrariado com as palavras de Trump e com as sanções aprovadas pelo Conselho de Segurança da ONU, no sábado (5), o líder Kim Jong-un disse que irá “examinar cuidadosamente” um plano de ataque à ilha de Guam. Cerca de 160 mil pessoas vivem no território norte-americano, onde os Estados Unidos mantêm uma das mais importantes de suas bases militares no Pacífico.

Crises entre Estados Unidos e Coreia não são novidades, mas o lançamento do míssil com capacidade para atingir grandes cidades norte-americanas, e a guerra retórica que banaliza o uso da força nuclear aumentam a insegurança.

A incerteza cresce com o fato de que o poderio norte-coreano se consolida numa época em que o líder dos Estados Unidos rompe padrões de comportamento político e diplomático, e elimina qualquer via de previsibilidade.

Criando ansiedade

Em uma série de tweets na quarta-feira (9), o presidente tentou explicar o óbvio. Fogo e fúria significam usar o poder nuclear que, graças a ele, estaria mais forte do que nunca. Segundo Trump, sua primeira ordem ao assumir o cargo foi mandar modernizar o arsenal do país.

Trump distorce fatos e prazos. Seu primeiro gesto na presidência mirou o Obamacare, e quem colocou em marcha a atualização da força nuclear foi Barack Obama, instituindo um programa de décadas.

Falar sem compromisso com a realidade tem sido uma marca do republicano, que se tornou o símbolo político de uma era na qual a informação se forma e se difunde em bolhas de radicalização nas mídias sociais. Trump soube captar as angústias e os medos de alguns segmentos, e verbalizá-los sem inibição protocolar.

Absorve uma linguagem populista e, quando questionado se teria cruzado uma linha vermelha com a Coreia do Norte, responde que a mensagem tinha que ser mais dura.

Quem vê sua ira não imagina que ele nem sempre apoiou o uso da força contra a Coreia do Norte. Em uma entrevista de 1999, quando indagado sobre o que faria em relação ao programa nuclear norte-coreano, o magnata disse que negociaria “feito louco” até conseguir o melhor acordo possível.

Eram outros tempos. Trump sonhava com uma candidatura independente, e acusava o Partido Republicano de ser uma direita louca.

O passar dos anos não mudou a posição do Partido Republicano no espectro ideológico, haja vista a ascensão do Tea Party. Foi Trump quem deu uma guinada tresloucada para a direita alternativa (alt-right, em Inglês)

Em busca do bom senso perdido

A Constituição estabelece que a função de declarar guerra cabe ao Congresso, mas grandes guerras e conflitos dos Estados Unidos depois de 1945 começaram sem uma declaração oficial.

Para fazer valer os freios e contrapesos do sistema político, o Legislativo aprovou, em 1973, o War Powers Act. Essa legislação determina que o presidente peça autorização ao Congresso antes de atacar um país, embora deixe alguns pontos descobertos, como guerras preemptivas e o uso de armas nucleares.

Em tese, o Congresso pode impedir Trump de acionar os códigos nucleares, mas não é certo que queira ou consiga fazê-lo na prática. Possivelmente, a oposição democrata não autorizará um ataque preemptivo, mas é a maioria republicana que será o fiel da balança.

Os políticos republicanos estão divididos. Para o senador Lindsey Graham, da Carolina do Sul, Trump não precisa de autorização legislativa, pois “não há nada na Constituição limitando o uso da força para se proteger a América”. Já o senador Dan Sullivan, do Alasca (estado mais perto da mira norte-coreana) afirma que a Constituição é bem clara quanto à necessidade de autorização.

Caso representantes e senadores republicanos busquem o sentimento da população, a divisão é nitidamente partidária. A maioria das pessoas teme uma guerra com a Coreia do Norte, mas democratas e republicanos discordam quanto à confiança em Trump como comandante em chefe. De acordo com uma pesquisa da CBS News, 61% não acreditam na capacidade do presidente. Destes, 87% são democratas, 64%, independentes, e apenas 22%, republicanos.

Diante de tanta incerteza, de onde virá a sensatez? O senador John McCain recomenda buscá-la, não em Trump, mas no seu entorno imediato. O importante são os assessores, afirma o conservador republicano, ressaltando que os militares John Kelly, James Mattis e H.R. McMaster, respectivamente, chefe de gabinete, secretário de Defesa e conselheiro de segurança nacional, são muito capacitados.

Um detalhe que vem passando despercebido é que cargos normalmente ocupados por civis são agora preenchidos por militares. Isso também indica redução do controle civil sobre as decisões estratégicas. Sempre é bom lembrar que Mattis, que na visão de McCain seria uma voz da razão, alertou Kim Jong-un sobre os riscos de destruição de seu povo.

De todo modo, a imprensa começa a divulgar que, enquanto Trump e Kim Jong-un disparam suas metralhadoras verborrágicas, diplomatas dos dois países agem nos bastidores para um acordo.

Reações de aliados e rivais

A sensatez também poderá vir de terceiros. No sábado (12), o presidente chinês Xi Jinping telefonou para Trump pedindo moderação ao “lado mais relevante” para evitar a escalada da tensão na Península Coreana.

O pedido parece combinado com a declaração do ministro das Relações Exteriores russo. Sergei Lavrov recomenda que o “lado mais forte e inteligente dê o primeiro passo para longe do limite do perigo”.

Angela Merkel prometeu colaborar para uma saída não militar, e condenou a escalada retórica. Trump não deixou por menos, sugerindo que ela fale pela Alemanha, e não pelos Estados Unidos.

Por outro lado, há aliados incondicionais. O primeiro-ministro Malcolm Turnbull afirmou, categoricamente, que a Austrália se juntará aos Estados Unidos em caso de guerra. Shinzo Abe, primeiro-ministro japonês, concorda em mais ações contra a Coreia do Norte para proteger a população do Japão.

A Coreia do Sul, talvez a maior interessada no problema, mantém o comportamento de sempre. Junta-se aos Estados Unidos em exercícios militares, como os que estão previstos para a próxima semana, ao mesmo tempo em que negocia uma saída com Pyongyang.

Em caso extremo de conflito, sobretudo de ataque preemptivo por parte de Washington, é provável que o mundo veja novamente a divisão do pré-guerra do Iraque. Na ocasião, George W. Bush classificou os aliados entre os que estão “conosco e contra”.

Trump tem uma visão menos respeitosa sobre alianças, e deverá ser menos diplomático do que Bush ao se referir aos aliados “traidores”.

Jean Lee, especialista em Coreia do Norte no Wilson Center, opina que a reação explosiva de Trump é tudo o que Kim Jong-un deseja para alimentar polêmica e ganhar poder de barganha.

por Solange Reis

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Comey, Spicer, Priebus, Scaramucci: qual será a próxima demissão de Trump?

Se, no início do governo Donald Trump em janeiro de 2017, a pergunta era sobre quem seria o primeiro a sair, agora, seis meses e muitos escândalos e polêmicas depois, a pergunta é quem ficará até o final. Para seus críticos e adversários políticos, aliás, quando será esse final é uma questão relativamente em aberto. Seja por decisão pessoal, seja por determinação (ou pressão indireta) do presidente, é grande e incomum o número de baixas registradas no alto escalão do Executivo americano em tão curto tempo de administração. Também é incomum o número de cargos de prestígio ainda não preenchidos, assim como de indicações à espera de aprovação no Congresso. Boa parte das saídas relevantes está relacionada a um imbróglio que assombra a Casa Branca desde a entrada de seu novo hóspede: a suspeita de que membros de sua equipe de campanha, assim como de seu entorno pessoal mais íntimo, tenham orquestrado um conluio com o governo russo para minar a credibilidade e derrotar sua adversária na corrida presidencial de 2016, a ex-secretária de Estado Hillary Clinton.

Últimas baixas

Julho foi marcado por um ritmo intenso na dança das cadeiras washingtoniana, com quase dez saídas e substituições de alto perfil do governo Trump. A última aconteceu no dia 31, encerrando não apenas o mês como também uma escalada de troca de acusações e de mal-estar no gabinete. Com uma Casa Branca operando de incêndio em incêndio, uma comunicação clara é cada vez mais essencial e, na mesma medida, cada vez mais difícil – dentro do governo, com a imprensa e com os demais atores políticos. O agora ex-diretor de Comunicações da Casa Branca Anthony Scaramucci foi demitido menos de duas semanas depois de ter sido convocado por Trump. Generoso doador da campanha do magnata republicano e conhecido por sua lealdade ao presidente, Anthony Scaramucci havia assumido a posição que estava vaga desde a saída de Michael Dubke, em maio.

Três dias antes (28) e como resultado do recrudescimento das divergências com Scaramucci, o ainda chefe de gabinete da Casa Branca, Reince Priebus, deixou o governo. Ele estava na função desde a posse de Trump, em 20 de janeiro – o que é muito pouco tempo para os padrões dos mandatos recentes. Em seus dois governos, o presidente democrata Barack Obama teve quatro chefes de gabinete (Rahm Emmanuel, Bill Daley, Jack Lew e Denis McDonough) e um interino (Pete Rouse). Todos duraram mais de um ano no cargo. Seu antecessor, o republicano George W. Bush, contou com Andrew Card e Joshua B. Bolten nos oito anos de sua gestão.

Para substituir Priebus, Trump deslocou seu então secretário de Segurança Interna, general John Kelly, que pressionou pela saída do polêmico lobista, na tentativa de fazer algum tipo de controle de danos dos últimos acontecimentos. Em inflamadas e pouco elogiosas declarações à imprensa e no Twitter, Scaramucci expôs Priebus, apontando-o como um dos possíveis “vazadores” da Casa Branca. Também ameaçou demitir toda sua equipe por conta dos vazamentos para os jornais.

Ambos são antigos desafetos. Foi Priebus que embarreirou sua entrada no início do governo. O lobista chegou a vender sua empresa, a SkyBridge Capital, para poder integrar o gabinete. Agora, nessa derradeira queda de braço, o ex-presidente do Comitê Nacional Republicano perdeu. Aliado de Priebus, o porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer, havia renunciado em 21 de julho, em protesto contra Scaramucci, que tomou posse nesse mesmo dia. Sarah Huckabee Sanders assumiu o lugar de Spicer. O então vice-secretário de Imprensa, Michael Short, também abandonou a equipe, na esteira do “efeito Scaramucci”.

Ainda nesse mês, no dia 6, Walter Shaub já havia deixado o posto de diretor do Gabinete de Ética do Governo por discordar das participações financeiras de Trump. E saiu disparando. Segundo ele, a gestão do republicano é “motivo de chacota”, com potenciais conflitos de interesse entre o papel do presidente e seus negócios, ignorados pela Casa Branca. “Vão começar a se referir a nós como uma cleptocracia”, denunciou.

Estrago russo

Em fevereiro, o então conselheiro de Segurança Nacional, Michael Flynn, teve de renunciar, após menos de um mês no cargo, por ter omitido do vice-presidente Mike Pence contatos com o embaixador de Moscou nos Estados Unidos, Sergey Kislyak – antes e depois da campanha de 2016. Ambos teriam discutido sobre sanções adotadas na gestão Obama contra a Rússia. No dia seguinte à sua renúncia, o presidente Trump teria-se reunido com o ainda diretor do FBI, James Comey, para lhe pedir que arquivasse a investigação sobre seu ex-conselheiro. Logo no início do governo, a procuradora-geral interina, Sally Yates, chegou a informar a Casa Branca sobre a possibilidade de Flynn ser chantageado pelos russos. Além de alertar sobre Flynn, Sally irritou Trump ao se recusar a cumprir o travel ban, decreto de proibição de entrada nos EUA de cidadãos de países de maioria muçulmana. Foi demitida em 30 de janeiro.

Agravando um cenário já pouco favorável, de forma inesperada, Trump anunciou a demissão de Comey, em 9 de maio. Ele foi o segundo diretor do FBI a ser demitido por um presidente. O primeiro foi William S. Sessions, demitido por Bill Clinton em 1993. Trump justificou sua decisão, alegando má condução da investigação sobre o uso de e-mails por parte de Hillary, quando ela esteve à frente do Departamento de Estado. Em testemunho no Senado, porém, o ex-diretor se defendeu, denunciando ter sido demitido por causa da investigação sobre o conluio entre membros da equipe de Trump e o governo russo.

Em 1º de agosto, por 92 votos contra cinco (todos democratas), o Senado confirmou o novo diretor do FBI, Christopher Wray. Funcionário de alto escalão do Departamento de Justiça durante o governo W. Bush, esse advogado formado em Yale assume com a responsabilidade de manter a independência da agência, exposta à forte pressão do Executivo de Trump em meio a uma densa e potencialmente explosiva agenda investigativa. Nas audiências para confirmação do cargo, Wray garantiu que renunciará se lhe for pedido que faça algo ilegal, ou imoral.

Expectativa

Primeiro senador a dar seu apoio à improvável candidatura do magnata nova-iorquino, o secretário de Justiça, Jeff Sessions, vem sendo fritado há semanas. Sua saída parece ser uma questão de (pouco) tempo. Em recente desabafo à imprensa, lamentou as críticas “dolorosas” de Trump, em especial depois que o presidente disse se arrepender de tê-lo nomeado. Com o aumento dos vazamentos relacionando pessoas de seu círculo mais próximo – entre elas seu filho mais velho, Donald Jr., e seu genro, Jared Kushner – ao escândalo russo, Trump reclamou que Sessions tenha-se declarado impedido de participar das investigações em curso. Também acusou-o de fraqueza em relação às denúncias contra Hillary e contra os responsáveis pela divulgação de informações confidenciais. A recusa faz todo sentido, já que o próprio secretário admitiu ter tido contatos com o embaixador Kislyak. O último procurador-geral a ser demitido do posto foi Howard McGrath, em 1952, no governo de Harry Truman, por afastar o procurador independente que investigava a corrupção nesse mesmo Departamento.

Além dele, as especulações têm aumentado quanto à saída do secretário de Estado, Rex Tillerson, e do conselheiro de Segurança Nacional, H.R. McMaster – segundo no cargo em pouco mais de seis meses. Nos dois casos, são fortes os rumores de conflitos com Trump, tanto em questões pontuais, como a relação com a Rússia, quanto em termos mais gerais de Política Externa e Segurança Nacional.

por Tatiana Teixeira

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Republicanos não conseguem revogação do Obamacare

Às vésperas do recesso do Congresso em agosto, os republicanos e o governo Donald Trump sofreram mais uma dura derrota no Senado. Em uma tensa sessão na madrugada de 28 de julho, a Casa rejeitou a versão light de um projeto de lei para “revogar e substituir” o Obamacare – como é chamado o Patient Protection and Affordable Care Act. Foram 51 votos contra 49, com John McCain (R-AZ), Susan Collins (R-ME) e Lisa Murkowski (R-AK) unindo-se a todos os democratas. Ainda atordoados e incrédulos com o resultado, os republicanos precisarão continuar tentando acomodar suas diferenças e buscar uma nova estratégia em sua batalha contra a reforma de saúde aprovada em 2010.

Mais pessoas sem cobertura até 2026

Com o objetivo de suavizar o texto e agradar aos mais conservadores, o Health Care Freedom Act (HCFA) propunha alterações de partes da legislação. Entre elas, o fim da obrigatoriedade de aquisição de um seguro de saúde por parte da população e sua suspensão, por oito anos, no caso de empresas com mais de 50 funcionários. Incluía ainda a suspensão do repasse de verbas para a organização de planejamento familiar Planned Parenthood durante um ano. De acordo com informe divulgado na quinta à noite (26) pelo Congressional Budget Office (CBO), o skinny bill deixaria mais 16 milhões de pessoas sem seguro até 2026. Além disso, em comparação com a legislação atual, os planos individuais sofreriam um aumento de 20% em todos os anos no período 2018-2026.

Em discurso no dia 24 na convenção nacional da National Association for the Advancement of Colored People (NAACP), o senador Bernie Sanders (D-VT) criticou o que chamou de “mais cruel, mais destrutivo e irresponsável texto legislativo já levado ao Senado dos Estados Unidos na história moderna” do país. Entre os efeitos das disposições do projeto, apontou o corte no Medicaid (programa de saúde para a população de baixa renda) e muitos percalços para quem tiver condições preexistentes. Admitindo que o Obamacare é “imperfeito”, defendeu que o “trabalho do Congresso é melhorar o Affordable Care Act, não destruí-lo”.

O fator McCain

No início da semana (25), os republicanos chegaram a celebrar uma pontual, mas importante vitória em sua saga contra o Obamacare. Após intensas negociações, o líder da maioria na Casa, senador Mitch McConnel (R-KY), conseguiu aprovar a moção de procedimento para iniciar os debates sobre a revogação e/ou substituição da reforma de saúde. Com direito a desempate por parte do vice-presidente Mike Pence e à presença inesperada de um convalescente John McCain, foram 51 votos a favor e 50 contra, incluindo duas dissidências já esperadas – Susan e Lisa, ambas moderadas. O suspense durou até o final, quando os indecisos – entre eles Rand Paul (R-KY), Dean Heller (R-NV), Rob Portman (R-OH) e Shelley Moore Capito (R-WV) – se posicionaram.

Nas duas sessões, e por motivos diferentes, foi decisivo o comparecimento do veterano senador, recentemente diagnosticado com um câncer no cérebro. O mesmo McCain elogiado por Donald Trump como um “herói americano” no início desta semana foi o mesmo que teve sua biografia questionada pelo então pré-candidato republicano, em julho de 2015. Segundo o magnata republicano, ele não seria um “herói de guerra” por ter sido “capturado” na guerra do Vietnã. “Gosto de pessoas que não foram capturadas, ok?”, declarou Trump, no polêmico episódio, sem nunca ter-se retratado. Essas situações – a doença, a busca pela integridade do que vê como seu legado político e suas diferenças com Trump – podem explicar muito do que aconteceu em plenária esta semana.

Em nota divulgada após a votação, John McCain voltou a defender a revogação e a substituição do Obamacare, mas “como uma solução que aumente a competição, os baixos custos e melhore o atendimento para o povo americano”. No mesmo comunicado, pediu que se volte ao “jeito certo de legislar”, o que inclui – segundo ele – colaboração bipartidária, com mais debate entre ambos os lados e diálogo com os governadores. O problema é que, não importa o quanto se debata, algumas divergências são de ordem fundamental e dizem respeito ao entendimento que cada grupo tem do papel do Estado, de sua relação com o mercado e de marcos regulatórios. Como se vê, o grande desafio da base governista ainda é conseguir elaborar um documento viável que apazigue demandas aparentemente irreconciliáveis.

Escalada de incertezas

O percurso até esse desfecho foi bastante confuso e com sinais pouco promissores. Agora, as dúvidas e o racha entre republicanos moderados e conservadores parecem ainda mais acentuados. Até a véspera da votação de terça-feira (25), por exemplo, o placar de dissidentes e de adesões era incerto. Nem os republicanos tinham uma ideia clara do que estava em jogo para poder decidir se abririam espaço para a apreciação do tema em plenária: se a completa revogação do Obamacare, pura e simples, sem colocar nada em seu lugar, ou se sua revogação e substituição, em meio aos diferentes projetos disponíveis.

Entre as opções, estavam a polêmica versão da Câmara de Representantes aprovada em maio – o American Health Care Act (AHCA); a do Senado, promovida por McConnell; e até um projeto de lei aprovado pelo Congresso em 2015. Vetado por Obama, este último preconiza a revogação da reforma de saúde sem sua substituição imediata, prevendo o fim da obrigatoriedade de aquisição de um seguro de saúde, assim como o fim da expansão do Medicaid.

Já na terça (25), logo após a aprovação da moção, o Senado rejeitou uma medida que incluía a polêmica proposta republicana de “revogar e substituir” o Obamacare (o Better Care Reconciliation Act), assim como as emendas do conservador Ted Cruz (R-TX) e do moderado Rob Portman (R-OH). Como essa ampla versão do Senado ainda não tinha sido analisada pelo CBO, seriam necessários 60 votos. Obteve apenas 43.

Diante de tantos impasses, a cúpula do partido começou a se mobilizar por uma versão mais light da revogação. Para aumentar as chances de conseguir revisar minimamente o Obamacare, a estratégia seria aprovar um texto simplificado no Senado e levá-lo para a discussão de conciliação com a versão da Câmara. Não funcionou, porque alguns tiveram receio de que, em algum momento, o texto fosse enviado como está para sanção presidencial.

Pressão do Executivo

Nos últimos dias, a Casa Branca foi a campo com esforços intensificados. O presidente Donald Trump ameaçou seus correligionários direta e indiretamente, chamou democratas de “obstrucionistas”, além de recorrer a uma entrevista coletiva com carga dramática, rodeado de cidadãos que teriam sido enganados pelas promessas dos democratas – os quais chamou de “vítimas esquecidas” do Obamacare. Em evento com o secretário de Saúde e Serviços Humanos, Tom Price, no encontro anual dos Escoteiros, em 24 de julho, afirmou (ao que parece, em tom de brincadeira) que iria demiti-lo, se a moção não fosse aprovada. Foi muito criticado pelo discurso político fora de lugar.

O vice-presidente Mike Pence também aproveitou cada encontro de sua agenda este mês para convocar os republicanos, como no jantar anual do Partido Republicano em Ohio (22). O governador desse estado, John Kasich, tem sido bastante crítico a Trump e à tentativa de “revogar e substituir” o Obamacare, denunciando as propostas de cortar recursos que seriam usados na expansão do Medicaid.

Na terça (25), talvez para não desgarrar fileiras, o presidente Donald Trump celebrou o resultado com um comedimento incomum, reconhecendo o longo e difícil caminho até a aprovação de uma nova legislação. “Foi um grande passo”, declarou, em entrevista coletiva, na qual se queixou dos votos contrários e prometeu um novo plano “muito, muito maravilhoso” e “realmente ótimo” para os americanos. No dia 28, recorrendo a seu tom habitual, voltou a defender que é melhor deixar o Obamacare “implodir e então negociar”.

Em geral, o tipo de pressão exercida por Trump tem-se mostrado pouco eficaz nesse assunto (e em outros), sobretudo, pela ausência de argumentos sólidos e de explicações sobre o que torna a versão republicana melhor do que a democrata. Apesar da facilidade de contar com maioria nas duas Câmaras do Congresso, a dificuldade de impor sua agenda continua. Após seis meses de governo, transbordam os sintomas de uma administração sem rumo, observada por um partido que ainda não se refez do “efeito Trump”. Em recente pesquisa divulgada pelo jornal The Washington Post com a rede ABC News, a aprovação do governo Trump atinge pífios 36% – um novo piso histórico em 70 anos para esse mesmo período.

por Tatiana Teixeira

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Assessores de Trump sugerem usar mercenários no Afeganistão

O estrategista-chefe da Casa Branca, Steve Bannon, sugeriu trocar soldados por mercenários na Guerra do Afeganistão. Bannon levou a ideia ao secretário de Defesa, general James Mattis, no dia 8.

Segundo o The New York Times, Mattis recusou a proposta, que foi desenvolvida por empresários de segurança militar a pedido de Bannon e Jared Kushner, genro e conselheiro de Donald Trump. Dias antes, os dois assessores do presidente se encontraram com Erik Prince, fundador da antiga Blackwater, e Stephen Feinberg, proprietário da DynCorp International.

A sugestão acontece no momento em que o Departamento de Defesa se vê pressionado pelo Congresso a apresentar uma solução para a guerra que já entrou para a história como a mais longa dos Estados Unidos.

Terceirização e conflito de interesse

A proposta elaborada pelos empresários, de acordo com fontes ouvidas pelo jornal, tem como objetivo reduzir custos e aumentar a eficiência. De 2001 para cá, foram gastos US$ 826 bilhões no Afeganistão, sem contar as despesas relacionadas no Paquistão. Outras dezenas de bilhões foram dotadas para tratamento médico e psicológico, benefícios e aposentadoria dos veteranos.

Apesar do custo quase trilionário e das perdas humanas – 170 mil mortos e 183 mil feridos – o Talibã ainda controla 40% do território afegão.

Em entrevista ao blog de extrema-direita, Breitbart News, Prince disse que o uso de mercenários reduziria o custo para 10% do valor atual e daria resultados melhores. O ex-marine também sugeriu que o governo nomeie uma espécie de “vice-rei” para o Afeganistão, com muito mais autoridade e autonomia do que os comandantes militares têm hoje.

Feinberg propôs que as operações sensíveis a cargo do Pentágono voltem a ser de responsabilidade da CIA, que coordenaria as unidades paramilitares. A troca daria liberdade de ação para as missões clandestinas e o uso de drones. Por outro lado, reduziria a transparência, uma vez que a agência não precisa se justificar para o Congresso.

As propostas de privatização escancaram o conflito de interesse porque Prince e Feinberg estariam entre os prováveis beneficiários da subcontratação. O uso de mercenários também coloca um problema ético para o patriotismo que sustenta ideologicamente as guerras, pois os combatentes particulares são contratados em diversos países.

Erik Prince, ex- marine que se tornou empresário da violência   

Prince não responde mais pela Blackwater, que trocou de nome duas vezes e hoje se chama Academi. Mudar a razão social e o sócio foi a saída para desvincular a imagem do massacre na Praça Nisour, em 2007, no Iraque.

Funcionários da empresa que faziam a segurança de um comboio diplomático norte-americano em Bagdá abriram fogo contra civis desarmados, matando 17 e ferindo mais de 20. O episódio levou à condenação dos atiradores, descrédito da Blackwater e atrito do governo americano com o iraquiano sobre a imunidade legal para soldados e terceirizados.

Depois de deixar o controle da empresa, em 2009, Prince continuou no ramo. Atualmente, ajuda o governo dos Emirados Árabes Unidos a montar uma força paramilitar.

Prince teve boa entrada no governo Bush, mas sua intimidade com o poder parece maior na atual administração. Sua irmã, Betsy DeVos, foi nomeada secretária da Educação em fevereiro. Entre outras controvérsias, a secretária defende reverter as políticas de Obama contra estupros em universidades e ouve grupos como Coalizão Nacional para os Homens, formada por militantes que contestam a versão das vítimas. Sua marca principal, porém, é o ataque ao ensino público.

O próprio Prince teria garantido, extraoficialmente, um lugar ao sol no governo. Em janeiro, o empresário se encontrou com representantes do governo russo para tentar alinhar as estratégias de Estados Unidos e Rússia na Síria. A reunião teria acontecido nas Ilhas Seychelles, dias antes da posse de Trump, sob a intermediação dos Emirados Árabes Unidos.

Stephen Feinberg, de Wall Street para a indústria da guerra

A DynCorp já atua no Afeganistão como a maior prestadora de serviços de logística e treinamento das forças afegãs. Desde 2002, quando começou a trabalhar para o governo norte-americano, foram mais de US$ 2,8 bilhões em contratos para essas atividades.

Atualmente, o conselho administrativo da empresa é formado por militares aposentados que ocuparam cargos de alto escalão das Forças Armadas e por financistas do setor privado.

Em 2009, a companhia protagonizou um escândalo sexual ao contratar meninos dançarinos para entreter soldados afegãos. O governo norte-americano abafou o caso e a DynCorp acabou comprada pelo Cerberus Capital Management, fundo especializado em investimento de risco, cujo CEO é Feinberg.

A aquisição pode não ter sido a melhor aposta do fundo, mas aproximou Feinberg do núcleo duro do poder. O financista, que doou US$ 1,5 milhão para o super PAC “Reconstruindo os EUA Agora” da campanha de Trump, chegou a ser cogitado para chefiar o Departamento de Segurança Doméstica e reformular as agências de inteligência dos Estados Unidos após a eleição.

A entrada de Feinberg para o círculo de confiança do presidente também seria um sinal positivo para a indústria de armamentos porque o Cerberus é acionista principal do Freedom Group, gigante nacional de produção de armas.

As trajetórias de Feinberg e Prince se cruzaram em 2005, quando o financista fez um treinamento tático nas instalações da Blackwater para aprender sobre armamentos.

Hoje, a reunião dos empresários com dois caciques da Casa Branca, dispostos a ouvir conselhos sobre estratégia militar, diz muito sobre a política de segurança de Trump.

Solução incomum para uma guerra ilógica

A relação entre governo e empresas privadas do ramo não é novidade nos Estados Unidos, nem exclusiva de um ou outro partido. Ambas as companhias prestaram serviço ao republicano George W. Bush e ao democrata Barack Obama.

O elo, no entanto, ganha complexidade na atual administração em função do impasse no conflito do Afeganistão e da disputa por influência – entre militares e civis, e mesmo entre Bannon e Kushner.

O plano de terceirização introduzido por Bannon chega no momento em que o Pentágono é pressionado a apresentar uma saída para a guerra. Passados quase 16 anos, os militares norte-americanos parecem não ter a menor ideia de como sair do Afeganistão.

No mês passado, Mattis admitiu ao Comitê de Serviços Armados do Senado que os Estados Unidos não estão ganhando a guerra e prometeu apresentar uma estratégia alternativa em julho. O novo plano deverá incluir o envio de mais quatro mil soldados, ideia já autorizada por Trump e publicamente defendida por Prince.

Breve resumo de uma guerra longa

Desmantelar a Al Qaeda e o Talibã foi a justificativa para invadir o Afeganistão em 2001. A presença militar foi precedida pela atuação da CIA, que trabalhou junto com a Aliança do Norte e o Pashtuns, grupos rivais do Talibã.  No ano seguinte, teve início o processo de “state building” (reconstrução do Estado), mas o fortalecimento do Talibã em 2005 fez com que o Pentágono e a OTAN, em sua primeira missão fora da Europa, aumentassem a campanha.

Menos de um ano depois de assumir, Obama enviou mais 30 mil soldados para a contra-insurgência, elevando o contingente para quase 100 mil. O reforço, contudo, não trouxe o resultado esperado.

Depois de muita negociação, os dois países assinaram o Acordo de Segurança Bilateral em 2014. Entre outras coisas, o acerto permitiu que os Estados Unidos mantivessem bases no Afeganistão, acesso a residências civis e imunidade legal para soldados e contratados. Além disso, reduziu a presença militar norte-americana para pouco mais de 9 mil soldados com o objetivo de treinar o Exército afegão.

Parte do treinamento e quase toda a logística material é feita pela DynCorp International.

por Solange Reis

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Proibição à imigração de muçulmanos entra em vigor

Após uma sequência de batalhas judiciais e em resposta ao Departamento de Justiça, a Suprema Corte americana autorizou, em 26 de junho, a implantação da polêmica ordem executiva Protecting the Nation from Foreign Terrorist Entry into the United States. Em sua segunda versão, de 6 de março, a norma estabelece restrições à entrada nos EUA de imigrantes e não imigrantes de seis países de maioria muçulmana – Irã, Líbia, Somália, Sudão, Síria e Iêmen –, assim como de refugiados. Na primeira, sancionada em 27 de janeiro, o Iraque fazia parte da lista.

Ainda que o decreto passe a valer apenas de forma parcial e temporária, o veredicto foi muito celebrado por um governo atrapalhado, em busca de boas notícias e que, desde a posse de Donald Trump, tem sido marcado pela inconsistência e pelo improviso na tomada de decisões. Logo que a norma entrou em vigor, em 29 de junho, a Casa Branca teve de correr para explicar pontos cegos e imprecisos desta segunda versão do texto e se defender – mais uma vez – das acusações de preconceito contra muçulmanos e refugiados e de criminalização da imigração. Enquanto Trump celebrou a “clara vitória para nossa Segurança Nacional”, o diretor do projeto “Direitos do Imigrante” da American Civil Liberties Union, Omar Jadwat, ressaltou “o quão estreita é a parte da proibição que está sendo permitida”. A ACLU é uma das mais importantes e ativas organizações de defesa dos direitos civis do país.

O decreto de Trump

De acordo com o documento divulgado em janeiro (a Executive Order 13769), trata-se de “proteger o povo americano dos ataques terroristas cometidos por estrangeiros admitidos nos Estados Unidos” e de manter “terroristas radicais islâmicos fora” dos EUA. Para isso, o governo decidiu barrar por 90 dias cidadãos desses países, com ou sem visto de imigrante. Também barrava refugiados de qualquer lugar do mundo por um período de 120 dias, estabelecendo – no caso sírio – proibição por tempo ilimitado. O texto também expunha a preocupação do governo com estrangeiros nos EUA acusados de crimes ligados ao terrorismo, ou que tenham “se radicalizado” após sua entrada.

Remontando aos atentados do 11 de Setembro, em que todos os agressores tinham visto americano, o governo alega que o processo de concessão desse documento tem “papel crucial para detectar indivíduos com laços terroristas e para evitar sua entrada nos Estados Unidos”. Segundo o governo Trump, desde 2001, “vários indivíduos estrangeiros foram condenados, ou envolvidos, em crimes relacionados com terrorismo”, incluindo aqueles que entraram com visto de turista, estudante, ou trabalho, ou dentro do Programa de Admissão de Refugiados nos EUA (USRAP, na sigla em inglês).

Essa justificativa se sustenta com dificuldade. Embora um relatório sigiloso do Congresso, conhecido como 28 Pages, tenha descartado envolvimento oficial da Arábia Saudita nos atentados mais dramáticos já sofridos pelos EUA em seu próprio território, dos 19 sequestradores dos aviões, 15 eram nacionais desse reino. Os críticos mencionam ainda o atentado na maratona de Boston, ou o ataque em uma boate em Orlando, na Flórida, cometidos por pessoas de países que não aparecem na lista, como Arábia Saudita, Egito e Quirguistão. Do mesmo modo, não há qualquer alusão a agressores nascidos nos EUA. Em maio passado, aliás, em visita ao Oriente Médio, Trump assinou um polpudo acordo de cooperação militar e venda de armas com Riad, de US$ 110 bilhões.

Em um primeiro momento, nenhuma orientação foi dada sobre como autoridades aeroportuárias deveriam agir nos EUA e ao redor do mundo. Essa ausência de informação levou a protestos e ao caos em aeroportos de diversas cidades do país. Advogados de organizações dedicadas à luta pelos direitos civis e dos imigrantes fizeram plantão nos terminais aéreos para tentar amenizar o impacto para os recém-chegados. Refugiados e imigrantes se viram, de repente, mergulhados em um limbo jurídico, fruto da comunicação precária e descuidada entre Casa Branca, agências e departamentos envolvidos – sobretudo, os de Segurança Interna, Estado e Defesa, e o Diretor de Inteligência Nacional. Em meio ao acúmulo de confusão e de desinformação, esclarecimentos começaram a surgir apenas dois, três dias depois, por parte do governo, quando muitas pessoas já haviam sido detidas e/ou devolvidas para seus países de origem – algumas em clara situação de risco nesse retorno.

Reações e resistência nos tribunais

As críticas vieram de correligionários e de adversários politicos. No final de janeiro, os senadores republicanos John McCain (R-AZ) e Lindsey Graham (R-SC) alertaram que o decreto “pode fazer mais para ajudar o recrutamento terrorista do que para melhorar nossa segurança”. O líder da minoria no Senado, democrata Chuck Schumer (D-NY), disse se tratar de uma ordem “não americana”. No início de fevereiro, os ex-secretários de Estado Madeleine Albright e John Kerry e outros ex-integrantes do alto escalão do governo enviaram uma declaração à Corte de Apelações, alegando que “não existe um objetivo de segurança nacional para um entrave total à entrada de aliens dos sete países relacionados”. Além disso, acrescentaram, em termos de Segurança Nacional, o decreto foi “mal concebido, implementado de forma precária e mal explicado”. Nas palavras da líder democrata na Câmara de Representantes, Nancy Pelosi (D-CA), “o governo Trump tem mostrado continuamente que discriminação, e não Segurança Nacional, é a proposta desse veto”. A ACLU advertiu que o decreto viola a Primeira Emenda constitucional.

Por diferentes motivos, magistrados de vários estados bloquearam o decreto de Trump. Logo no fim de janeiro, do Tribunal Federal Distrital no Brooklyn, a juíza Ann Donnelly determinou que pessoas presas em aeroportos no país não poderiam ser enviadas de volta para casa. Seu gesto se repetiu nas cortes de Massachusetts, Virgínia, Washington, Minnesota, Oregon e Califórnia, com medidas semelhantes, ainda que com diferenças de abordagem e de alcance.

Nova versão

Para evitar a não aplicação do decreto por conta da enxurrada de ações judiciais, Trump liberou uma nova versão (Executive Order 13780) em 6 de março, excluindo o Iraque. Essa mudança teria decorrido da pressão dos secretários James Mattis (Defesa), Rex Tillerson (Estado) e John Kelly (Segurança Doméstica) em reconhecimento e pela manutenção da colaboração de iraquianos com americanos em Bagdá. Chamado de “caso especial”, o país é agraciado com um longo parágrafo sobre a “relação cooperativa” do “governo iraquiano democraticamente eleito” com os EUA e sobre seu “compromisso para combater o Estado Islâmico”. Lembra-se ainda da “forte presença diplomática” e da “significativa presença de forças dos EUA” nesse país.

Nesta segunda edição, os “protocolos e procedimentos de controle e verificação”, assim como o USRAP, ganham destaque como tão relevantes quanto a concessão de vistos para detectar potenciais ameaças terroristas. De acordo com o texto, os seis países listados são patrocinadores do terrorismo, funcionam como celeiros de organizações terroristas (o EI aparece com frequência no decreto), recusam-se a cooperar com os EUA nos esforços de contraterrorismo, ou são governos fracos, com Estados mergulhados em conflitos e sem condições de lidar com esses grupos. Cabe lembrar que, um dos suportes legais do decreto, a Lei de Nacionalidade e Imigração (INA, na sigla em inglês) afirma que ninguém pode ser “discriminado na concessão de um visto imigratório em função de raça, sexo, nacionalidade, local de nascimento, ou local de residência”.

Outras alterações importantes dizem respeito aos refugiados sírios – agora sem o veto “por tempo indeterminado” – e à permissão de entrada a quem tiver visto, ou green card, válidos. Refugiados e asilados vivendo legalmente nos EUA não serão afetados, e vistos já concedidos serão mantidos. O novo texto também é explícito quanto à possibilidade de que os Departamentos de Estado e de Segurança Interna analisem caso a caso, o que aumenta a brecha legal. Mais do que esclarecer, porém, o novo decreto se perde em uma extensa defesa da ordem anterior e reforça suas justificativas no âmbito da Segurança Nacional para restringir a entrada dos refugiados. Para o ano fiscal 2017, fica estabelecido o limite de ingresso de 50 mil pessoas nessa categoria. É menos da metade do que havia sido estipulado pelo então presidente Barack Obama para o presente ano – 110 mil refugiados. Esse teto é decidido pelo Executivo, anualmente, em consulta com o Congresso. De acordo com a imprensa americana, até maio deste ano, quase 46 mil haviam sido admitidos. Em 2016, foram 84.994, de acordo com o Migration Policy Institute. Os estados que mais recebem refugiados são Califórnia (10%), Texas (9%) e Nova York (6%).

Apesar das alterações, no Havaí e em Maryland, juízes federais suspenderam em março a aplicação de partes da segunda versão do decreto, alegando discriminação religiosa com muçulmanos. Segundo eles, Trump estaria tentando cumprir sua promessa de campanha de banir esse grupo dos EUA. O Havaí também advertiu contra o “dano imediato” à economia, ao turismo e às instituições educacionais locais.

A decisão da Suprema Corte

Ainda que os juízes conservadores Clarence Thomas, Samuel Alito e Neil Gorsuch preferissem deixar o travel ban entrar em vigor como estava, a decisão foi tomada de forma coletiva (per curiam) por uma Corte que optou por estabelecer limitações ao texto do Executivo. Assim, permitiu-se a entrada de estrangeiros com “laços confiáveis”, ou “de boa-fé”, com os EUA. Nesse grupo, estariam estudantes aprovados para cursarem universidades americanas, profissionais contratados por empresas locais, especialistas convidados para dar palestras e visitantes com parentes já vivendo no território.

O juiz Thomas antecipa problemas com a sobrecarga do Judiciário para esclarecer o que são os tais “laços confiáveis”, além de mais disputas nos tribunais contra o decreto. Diretrizes posteriores divulgadas pelo governo regulamentaram o assunto. Avós, netos, tios, sobrinhos e primos, por exemplo, não são considerados “parentes próximos“. Quem quiser entrar no país por motivos profissionais, ou para fazer negócios, precisa comprovar uma relação que seja “formal, documentada” e que não tenha sido forjada para burlar o decreto, explica o Departamento de Estado.

O texto valerá em sua forma atual até que a Suprema Corte decida, definitivamente, sobre sua legalidade. A mais alta instância do Poder Judiciário americano deve começar a ouvir argumentações sobre o decreto apenas a partir de 2 de outubro, quando retoma suas atividades após o recesso de verão. Os trabalhos seguem até 21 de dezembro.

por Tatiana Teixeira

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Estados Unidos viram alvo real da Coreia do Norte

Em pleno 4 de Julho, quando se comemora a independência dos Estados Unidos, a Coreia do Norte anunciou o lançamento de seu primeiro míssil balístico intercontinental (ICBM). Autoridades dos Estados Unidos confirmaram que o artefato levou 37 minutos para percorrer cerca de 930 Km de distância, alcançando 2.500 km no ponto mais alto da trajetória e caindo a 350 Km da costa japonesa.

Foi um presente para os “bastardos americanos”, falou o presidente norte-coreano, Kim Jong-un. A retórica é importante na propaganda de seu regime, tratado no cenário internacional com um misto de escárnio e curiosidade. Dessa vez, a percepção prevalecente é a de temor. O feito coloca a América do Norte na mira dos mísseis teleguiados e eleva a tensão na Ásia, ao mesmo tempo em que dificulta a solução do problema.

Sem cartas na manga

Segundo o físico e diretor do Union of Concerned Scientists, David Wright, a altura indica que o projétil poderia atingir o Alasca, a quase 6.000Km do ponto de partida. O Pentágono e o Departamento de Estado também reconheceram se tratar de um ICBM, frustrando a previsão recente do presidente Donald Trump de que nunca haveria um míssil intercontinental da Coreia do Norte.

O governo norte-coreano afirma que o projétil pode ser carregado com ogiva nuclear, mas não existem provas de que o país já tenha alcançado esse nível tecnológico. Mesmo sem munição atômica, o lançamento do míssil torna os Estados Unidos fisicamente vulneráveis.

Existe outro agravante. O escudo de defesa nos Estados Unidos, com 32 interceptadores no Alasca e quatro na Califórnia, falhou em três dos cinco testes feitos até hoje.

Formas de responder militarmente não faltam para os Estados Unidos, seja por um ataque cirúrgico (aéreo e de bases offshore) para destruição do arsenal norte-coreano, até a intervenção com mais de 80 mil soldados estacionados na Ásia e forças aliadas de dentro e fora da região. O problema são as consequências, entre as quais, o contra-ataque à Coreia do Sul e ao Japão, bem como a incerta reação de potências regionais não aliadas.

China e Rússia condenam o lançamento do míssil, mas rejeitam uma ação militar liderada pelos Estados Unidos. Após um encontro no Kremlin entre os presidentes Xi Jinping e Vladimir Putin, também no dia 4, seus ministérios das Relações Exteriores comunicaram que os dois países manterão posição unificada em relação à questão. Em outras palavras, a Coreia do Norte não é o único desafio que Washington tem que enfrentar no Norte Asiático.

Sempre é importante lembrar que, não longe de lá, ainda se trava a longa e quase esquecida Guerra do Afeganistão. Em 2012, o então secretário de Defesa, Leon Panetta reconheceu que duas guerras simultâneas são inviáveis na realidade orçamentária contemporânea.

Adotar a política de contenção, que significa conviver com o poderio nuclear norte-coreano e dissuadir o seu uso, perpetuaria a instabilidade regional e desacreditaria os Estados Unidos perante seus aliados e rivais.

Tentar mudar o regime norte-coreano seria uma alternativa política, ainda que demorada e de difícil previsão. Além de provocar a suspeita até mesmo entre aliados. No longo prazo, como se pode ver no Iraque, refazer a política doméstica de outro país cobra seu preço.

Resta a dependência de terceiros para uma saída política, retomando, por exemplo, o Grupo dos Seis (EUA, China, Rússia, Japão e as duas Coreias). Mas os atores verdadeiramente capazes de levar o governo norte-coreano à mesa de negociação são Coreia do Sul e China.

Trump reconhece a importância chinesa. Após a notícia sobre o míssil se tornar pública, o republicano expressou no Twitter sua esperança de que a China tome uma atitude firme e acabe com essa “maluquice de uma vez por todas”.

Teria o presidente reconhecido a impotência dos Estados Unidos?

Respondendo, mas não à altura

No dia seguinte ao lançamento, Estados Unidos e Coreia do Sul fizeram exercícios com mísseis nas águas territoriais sul-coreanas. Segundo o Comando do Pacífico dos EUA, o treinamento conjunto foi uma resposta direta às ações da Coreia do Norte.

O governo norte-americano também pediu uma reunião extraordinária do Conselho de Segurança da ONU (CS) para deliberar sobre novas sanções contra a Coreia do Norte. Como os Estados Unidos têm um comércio pequeno e restrito com o país, limitado a alimentos e medicamentos, a maneira de aumentar as sanções é convencer o mundo a boicotar Pyongyang.

Onde lê-se mundo, entenda-se China, que é o maior parceiro comercial da Coreia do Norte (90%). Nikki Haley, embaixadora dos Estados Unidos na ONU, afirmou que os países que insistirem em fazer comércio com a Coreia do Norte serão penalizados nas transações comerciais com os Estados Unidos.

Diante da importância da China para a economia norte-americana, a declaração soa como blefe. O mais provável é que os Estados Unidos apliquem penalidades pontuais e simbólicas. Dias antes do disparo do míssil, o Departamento do Tesouro já trabalhava para isso, impondo sanções contra uma empresa, um banco e dois indivíduos chineses por ligações ilícitas com a Coreia do Norte. Como era de se esperar, o governo chinês foi poupado.

Por sua vez, a proposta no CS não avançou. China e Rússia não aceitaram os termos da resolução por discordarem que o míssil em questão seja de longo alcance. Em nota, no dia 6, o governo russo explicou que aceitará a resolução se os Estados Unidos, que são os proponentes, corrigirem o texto.

Mesmo que a China aceite aumentar a pressão, suas opções diminuem a cada dia. A China já deixou de comprar carvão da Coreia do Norte no início do ano. O próximo passo seria suspender a venda de petróleo, mas o governo chinês teme desperdiçar o trunfo antes da hora.

Teria o lançamento do ICBM avançado os ponteiros?

Coreia do Sul, aliado titubeante

Eliminar o poder nuclear norte-coreano é um objetivo comum dos Estados Unidos e da Coreia do Sul. Foi o que disse Donald Trump depois de se reunir com o presidente sul-coreano, Moon Jae-in, quatro dias antes de o míssil ser lançado.

No encontro na Casa Branca, Trump acrescentou que o tempo da paciência estratégica com o programa balístico da Coreia do Norte acabou, mas que existem várias formas para se lidar com a ameaça.

A variedade de opções à qual se refere o republicano também pode ser interpretada como divergências com o aliado sobre a melhor política para a Coreia do Norte. Enquanto o governo norte-americano planeja subir o tom e impor mais sanções, Seul prefere a via diplomática. Pelo menos, esse era o cenário até 4 de julho.

Moon pretende que as duas Coreias formem uma equipe única para disputar as Olimpíadas de Inverno de 2018, na cidade sul-coreana de Pyeongchang. O presidente também quer investir mais no vizinho e fala em assinar o tratado de paz pendente desde o fim da guerra em 1953.

A apologia à reaproximação entre as duas Coreias não é novidade entre a classe política sul-coreana. Até sofrer um impeachment em dezembro de 2016, Park Geun-hye, antecessora de Moon, tentou mobilizar apoio doméstico e internacional nesse sentido.

Discretamente, os Estados Unidos apoiam a reunificação desde que o norte seja incorporado pelo sul. O plano, é claro, não conta com a anuência da China. Uma Coreia unida, com domínio nuclear, poder econômico e alinhamento ocidental é tudo o que a China menos precisa para sua segurança regional.

O movimento contrário – Coreia unida e alinhada com a China – tampouco interessa aos Estados Unidos. Fica, então, a dúvida se a reunificação tem chance diante da conformação geopolítica.

Paralelamente às tratativas diplomáticas, os Estados Unidos aumentam seu poder militar na região. Um exemplo recente é o sistema de defesa THAAD (Terminal High Altitude Area Defense). Construído e instalado pelos Estados Unidos, o escudo visa proteger a Coreia do Sul e os 28.500 soldados norte-americanos em bases sul-coreanas de ataques balísticos de curto e médio alcance.

Eleito em maio, Moon suspendeu o plano de expansão do sistema, alegando que a instalação de quatro novos lançadores precisava ser avaliada do ponto de vista ambiental. Na verdade, o presidente se irritou por não ter sido informado pela cúpula militar de que os lançadores já estavam no país.

Na campanha presidencial, e em aparente concessão à China, Moon já tinha sugerido que o programa do THAAD fosse rediscutido. A China alega que o sistema também pode interceptar e destruir seus mísseis, dando aos Estados Unidos uma vantagem estratégica na Ásia que a China não tem na América. Outras alegações são as de que o super radar do THAAD facilitaria o monitoramento de atividades militares chinesas pelos Estados Unidos.

Desde que a primeira parte do THAAD foi inaugurada, em 2016, a China vem retaliando com boicotes à importação de alguns produtos sul-coreanos e proibindo excursões de turismo para a Coreia do Sul. A pressão econômica sensibiliza pouco a ala política conservadora na Coreia do Sul, que tem fortes ligações com os militares, mas preocupa as lideranças liberais, como Moon.

O atrito por conta do THAAD vem num momento em que Estados Unidos e Coreia do Sul também têm suas rusgas comerciais. No encontro com Moon, Trump reclamou que a balança comercial tem crescido a favor da Coreia do Sul. O foco da queixa são as barreiras sul-coreanas à indústria automotiva norte-americana e a suposta intermediação sul-coreana para entrada de aço chinês nos Estados Unidos.

Teria o nacionalismo de Trump aproximado Coreia do Sul e China?

Muita tensão para pouca doutrina

Com tão pouco tempo de presidência, é cedo para se analisar o estilo de política externa de Trump, embora há quem arrisque dizer que “America First” não tem nada a ver com o isolacionismo falado na campanha presidencial. Se essa avaliação estiver certa, pode-se esperar mais assertividade no norte da Ásia.

No encontro do G-20, três dias depois do lançamento do míssil, Trump ameaçou aplicar medidas severas contra a Coreia do Norte, embora sem especificar quais. Insistindo que alguma coisa precisa ser feita, por enquanto, o republicano não parece ter a menor ideia de como sair dessa encruzilhada.

por Solange Reis

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