Centro de Controle de Doenças pausa testagens de doenças infecciosas
Crédito: Site institucional
Por Ingrid Marra* [Informe OPEU] [Saúde]
De acordo com Centro de Controle de Doenças (CDC, em inglês), agência responsável pelo controle e monitoramento de doenças nos Estados Unidos, o Laboratório de Doenças Infecciosas (ID) pausou uma série de importantes testes de monitoramento. Embora o CDC já tenha interrompido testes anteriormente, não há uma boa explicação para a paralisação, e a medida inclui um número de testes ainda maior do que em todas as outras vezes. No total, 32 testes foram suspensos, incluindo raiva, rubéola, sarampo, herpes-zóster, Epstein-Barr (o vírus da Mononucleose), o vírus da varíola do macaco (MPOX) e o painel respiratório (que inclui covid-19 e Influenza).
Um representante do CDC afirmou que a suspensão é temporária, parte de uma análise de rotina para manter a qualidade dos testes. Andrew Nixon, membro do Departamento de Saúde e Serviços Humanos, comentou que os testes deverão voltar ao normal em algumas semanas, e que o CDC oferece suporte para parceiros locais e estaduais para acessar os testes necessários para a manutenção da saúde pública.
No decorrer de 2025, o CDC sofreu diversas reduções no quadro de funcionários, demissões em massa, pedidos de demissão de funcionários e aposentadorias. O processo acumulou uma redução de 20%-25% de seu quadro, incluindo funcionários que trabalham em laboratórios. Laboratórios responsáveis pela testagem de raiva e varíolas, por exemplo, perderam quase metade de seu quadro, enquanto laboratórios responsáveis pela testagem de malária sofreram uma redução ainda maior. Embora alguns desses testes tenham alternativas privadas, outras doenças não contam com testes comerciais disponíveis, dificultando – ou impossibilitando – a testagem.
Alguns laboratórios especializados em nível estadual estão oferecendo testagens alternativas, mas essas instituições dependem do CDC para testagem de confirmação. Além disso, a pausa cria tensão e incertezas no processo de monitoramento e, principalmente, de respostas coordenadas. Sem amplo monitoramento de doenças infecciosas e com dados desatualizados, não é possível criar políticas de contenção coordenadas. Para além da testagem, o CDC é responsável por compilar e interpretar grandes volumes de dados, trabalho que não pode ser realizado por instituições locais.
Scott Becker, chefe-executivo da Associação de Laboratórios de Saúde Pública (APHL na sigla em inglês), comentou que pode demorar diversos meses até que as funções laboratoriais voltem ao normal. Isso pode atrasar o processo de detecção de doenças infecciosas, comprometendo a eficácia dos órgãos de saúde. Desde 2024, o CDC vem passando por uma avaliação interna para medir eficiência, relevância e sustentabilidade de seus laboratórios. Iniciado ainda no governo Biden (2021-2025), o processo pode ter sido utilizado como justificativa para a decisão de pausa de testagem.
Embora o processo de tomada de decisão seja explicado como técnico – avaliação de processos internos de qualidade –, soma-se a uma série de decisões políticas altamente ideológicas sobre saúde sob o mandato do atual secretário. Robert F. Kennedy Jr. é conhecido por seu discurso antivacina e conspiracionista, cortou radicalmente orçamentos de agências de saúde, diminuiu o calendário vacinal pediátrico (de 17 para 11 vacinas obrigatórias), promoveu demissões em massa e limitou, consideravelmente, os investimentos em desenvolvimento de novas vacinas e na prevenção de doenças infecciosas.
O discurso do secretário parece encontrar algum eco: apenas 63% da população americana acredita na eficácia das vacinas pediátricas, o que pode ter consequências fatais para as crianças. Uma das consequências dessa política de incentivo à hesitação vacinal é o atual surto de sarampo – incluído na lista de doenças agora sem testagem –, o maior dos últimos 25 anos no país.

Fonte: Casos de sarampo e surtos, CDC
A Organização KFF, baseada em São Francisco, Califórnia, fez uma enquete para verificar os níveis de confiança da população no CDC e nas novas políticas de vacinação adotadas por RFK. Resultados sugerem que o nível de confiança no CDC continua o mais baixo desde o início da pandemia de covid-19: apenas 55% de democratas, 43% de republicanos e 46% de independentes acreditam na instituição para informações sobre vacinas.
De maneira geral, apenas 44% de adultos expressam confiança nas agências federais de saúde em relação ao calendário vacinal infantil. Além disso, 54% da população acredita que a mudança no calendário terá impactos negativos na saúde das crianças, contra apenas 26% que acreditam em um impacto positivo.

Fonte: Enquete produzida pela Organização KFF
Um aspecto curioso da enquete é que, embora RFK Jr. paute as decisões políticas da Secretaria de Saúde pela ideologia republicana conservadora, houve um aumento de apenas 3% no nível de confiança da população republicana no CDC em relação à política de vacinas entre 2023 e 2026. Além disso, a maioria da população também não expressa confiança na FDA, a agência federal de controle de medicamentos e alimentos: 56% dos entrevistados demonstraram pouca ou nenhuma confiança na capacidade da instituição. De maneira geral, 55% da população desaprova a atuação de RFK como secretário de Saúde.
Altos níveis de desaprovação, somados à falta de confiança nas principais instituições de saúde do país, indicam um futuro incerto – e insalubre – para a população estadunidense. ![]()
* Ingrid Marra é mestra em Global Political Economy and Development (GPED) pela Universität Kassel, graduada em Relações Internacionais pela UFRJ (IRID-UFRJ), colaboradora externa do Observatório Político dos Estados Unidos (OPEU) na área de Economia e Finanças 2021-2024, e Política Doméstica a partir de 2024. Áreas de interesse: hierarquia monetária internacional e criptomoedas, análise de discurso, pós-desenvolvimento e saúde. LinkedIn.
** Revisão e edição: Tatiana Teixeira. Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU.
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