América Latina

Seminários RELEU 2026: O cerco dos EUA à Cuba 

Fonte: canal do INCT-INEU no YouTube

Por Matheus de Oliveira Pereira* [Informe OPEU] [RELEU] [Cuba] 

Cuba enfrenta o cerco econômico mais severo de seus mais de 60 anos de conflito com os Estados Unidos, e o risco de uma intervenção militar deixou de ser hipótese remota. Esse foi o quadro traçado por Raúl Rodríguez, diretor do Centro de Estudios Hemisféricos y sobre los Estados Unidos (CEHSEU) da Universidade de Havana, em seminário promovido no último dia 26 de maio pela Rede Latino-Americana de Estudos sobre os Estados Unidos (RELEU). Falando desde a ilha, Rodríguez traçou um vasto panorama das relações entre Estados Unidos e Cuba, recuperando aspectos históricos e conjunturais que envolvem esta que é, há seis décadas, uma das questões mais delicadas das relações interamericanas.  

A conversa foi conduzida pelo prof. Matheus de Oliveira Pereira, do Instituto de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e pesquisador do INCT-INEU, acompanhado de Leandro Morgenfeld, professor da Universidade de Buenos Aires e pesquisador do CONICET, e de Roberto Moll, professor de História da América e do Programa de Pós-Graduação em Estudos Estratégicos da Defesa e da Segurança, da Universidade Federal Fluminense (UFF), também vinculado ao INEU. 

Rodríguez situou o momento atual sobre uma camada de hostilidade que vinha se acumulando há quase uma década. A primeira presidência de Trump desmontou o que os anos finais de Obama haviam construído na relação bilateral, e o fez por medidas, cujas consequências persistem. A ativação do Título III da Lei Helms-Burton, que administrações republicanas anteriores haviam deixado suspensa, e a reinclusão de Cuba na lista de países patrocinadores do terrorismo deixaram efeitos financeiros e de segurança que sobreviveram à troca de governo. Biden, de quem se esperava algum recuo pela proximidade com a herança de Obama, manteve a política de confrontação ao longo de todo o mandato. Esse acúmulo, segundo a exposição, explica por que o retorno de Trump levou a relação além do ponto em que ela já estava. 

O tom apareceu no primeiro dia. Nas semanas finais de seu governo, Biden retirara Cuba da lista de Estados terroristas e suspendera a aplicação do Título III; em 20 de janeiro de 2025, na própria posse, Trump assinou ordem executiva que desfez ambas as medidas. Rodríguez chamou atenção para o procedimento. Uma designação que supõe análise de agências e trâmites próprios foi revertida 15 dias depois com uma assinatura, sinal de que a decisão de retomar a confrontação precedia qualquer avaliação técnica. 

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O ponto de inflexão, na leitura apresentada por Rodríguez, está em novembro de 2025, quando a Estratégia de Segurança Nacional (NSS) fixou os objetivos norte-americanos para o hemisfério. Rodríguez recusou a etiqueta de “Corolário Trump” e falou em Corolário Roosevelt, evocando Theodore Roosevelt e a Diplomacia das Canhoneiras do início do século XX. A imagem enquadra a ênfase atual no Caribe como retomada de um padrão histórico, no qual a bacia caribenha funciona como a fronteira que Washington julga mais ao seu alcance, ao passo que a presença chinesa na América do Sul já escapa a esse tipo de controle. Os primeiros movimentos da ofensiva, de acordo com o pesquisador, foram a tentativa de retomar o Canal do Panamá e a ação contra a Venezuela. 

Rodríguez situou a questão venezuelana em duas frentes – tanto como um precedente regional, como enquanto variável direta da crise cubana. No primeiro plano, Rodríguez associou a ofensiva norte-americana ao bombardeio de uma capital sul-americana e à retirada forçada de um presidente em exercício. No segundo, destacou a interrupção do petróleo venezuelano, suprimento que já vinha diminuindo e cuja queda final coincidiu com a ordem executiva de 29 de janeiro de 2026. O texto declarou Cuba uma ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional dos Estados Unidos e abriu caminho para penalizar países que lhe fornecessem petróleo. Rodríguez observou que a fórmula reproduz a empregada por Obama contra a própria Venezuela. Decisões posteriores da Suprema Corte limitaram a imposição de tarifas, mas, em sua avaliação, o bloqueio petroleiro se manteve na prática, ainda que o secretário de Estado, Marco Rubio, negue sua existência. 

Os efeitos materiais dessa pressão aparecem com nitidez no setor energético. Segundo dados do Ministério de Energia e Minas de Cuba citados por Rodríguez, o país precisaria de oito petroleiros mensais para operar em condições normais. Desde o início do ano, recebeu apenas um navio, de ajuda humanitária russa, no fim de março. A escassez se converteu em apagões de 18 a 20 horas em cidades inteiras, em peças de termelétricas retidas no exterior e em uma rede elétrica que já vinha de longo período sem investimento. Rodríguez recorreu à imagem da praça sitiada para descrever um país em que adoecer ou sofrer um acidente passou a envolver risco adicional pela falta de atendimento.  

O cerco passou da energia para outros setores. A ordem executiva de 1º de maio de 2026 estendeu as restrições à mineração, com destaque para o níquel, que abastece a indústria militar e a produção de baterias, e às finanças, e autorizou o Departamento de Estado e o Tesouro a incluírem empresas cubanas na categoria de “pessoas especialmente designadas”. O alcance da medida se propaga por associação. Ao designar uma firma cubana associada a uma empresa canadense, expôs a sócia estrangeira a sanções, num contágio que atinge toda a atividade econômica externa de Cuba. O Departamento de Estado também pressionou contratos de serviços médicos cubanos, uma das principais fontes de divisas do país; ao longo do ano, cinco países caribenhos, entre eles Honduras, Guatemala, Jamaica, São Cristóvão e Névis e Bahamas, encerraram ou não renovaram esses contratos. 

A última parte da exposição tratou da escalada militar e da narrativa que a sustenta. Rodríguez apontou o aumento das ameaças, a presença de um porta-aviões e os voos de reconhecimento ao redor da ilha, ao lado da construção midiática de Cuba como Estado falido. Reportagens de veículos próximos ao Departamento de Estado falam em preparativos do Pentágono para uma intervenção. A narrativa, segundo Rodríguez, encadeia acusações nunca comprovadas, das células do Hezbollah e do Hamas às estações de escuta russas e chinesas, e chega à hipótese de um colapso humanitário que provocaria um êxodo e justificaria a ação dos Estados Unidos. Rodríguez recusou a tese do Estado falido, lembrando que, se Cuba o fosse, já teria colapsado, e contrapôs a ela a oferta de ajuda humanitária, relembrando um episódio. Após o furacão de outubro de 2025, a assistência norte-americana à ilha chegou 77 dias depois, num valor reduzido e ainda não distribuído por inteiro, com a condição de ser repartida pela Igreja Católica, e não pelas instituições do Estado. 

A discussão que se seguiu deslocou-se para o quadro geopolítico mais amplo. Leandro Morgenfeld situou a política contra Cuba num processo de declínio relativo da hegemonia norte-americana, tese que desenvolveu em obra coletiva organizada com Gabriel Merino no âmbito do CLACSO. Nesta leitura, o segundo mandato de Trump aceleraria esse declínio no plano global e, ao mesmo tempo, redobraria o esforço de controle sobre o continente americano, num Corolário Trump da Doutrina Monroe que a NSS estende do Ártico à Terra do Fogo. Como evidência, arrolou a expulsão de contratos chineses no Canal do Panamá, a interferência nos processos eleitorais da Argentina, de Honduras, do Peru e do Chile, e o assédio documentado a México, Colômbia e Brasil. 

Dessa moldura saíram as questões dirigidas ao expositor. Indagou-se sobre a possibilidade de replicar em Cuba o que se fez na Venezuela, com base na hipótese de uma partilha de áreas de influência entre Washington, Pequim e Moscou, distinguindo a pretensão de Trump daquilo que de fato teria sido acordado, sobre a evolução da participação chinesa na economia cubana diante da retração venezuelana e sobre os rumores de um plano para sequestrar Raúl Castro – algo que Moll considerou pouco plausível. Pereira acrescentou que a coesão das elites cubanas no poder lhe parecia maior que a observada na Venezuela, o que dificultaria uma saída à Venezuela, apoiada na cooptação de setores internos. 

Rodríguez reconheceu que os passos da administração sugerem a intenção de repetir o roteiro venezuelano, com a sequência de designação, recrudescimento do bloqueio e ameaça militar concentrada em poucos meses, mas indicou diferenças que talvez expliquem a hesitação. Retirar Raúl Castro do país seria inviável, e sua morte não traria o efeito buscado num sistema mais institucionalizado, dada a ausência da fratura interna que, segundo sua leitura, facilitou a operação na Venezuela. Essa coesão poderia operar como dissuasão e inclinar Washington a prolongar o asfixiamento econômico até produzir uma situação social que sirva de pretexto a uma intervenção de feição humanitária. Quanto a Rússia e China, ponderou que o apoio político reiterado e algumas doações não se traduzem em respaldo concreto. A licença do Tesouro que autoriza a exportação de petróleo russo sancionado exclui Cuba e o Irã dos destinos permitidos, e a conversão para a energia fotovoltaica chinesa avança devagar. Pesa também, lembrou, a influência do setor mais reacionário da comunidade cubana da Flórida sobre as decisões de Trump. 

No encerramento, Rodríguez destacou ainda a complexidade em torno de um possível acordo. Do lado cubano, a disposição para negociações é clara, mas não inclui qualquer discussão em torno de seu sistema político, aspecto historicamente central para os Estados Unidos que, ademais, querem concessões que vão desde a exploração de atividades econômicas na ilha até a reversão de acordos e alianças internacionais como forma de contenção da influência sino-russa. Nestes termos, o espaço para uma negociação efetivamente digna deste nome é claramente limitado. Estes são alguns aspectos que corroboram o diagnóstico dos participantes de que a questão cubana, apesar de suas especificidades, não pode ser lida como caso isolado. Trata-se, como enfatizou Leandro Morgenfeld, de um problema que diz respeito a toda a região, sobretudo, porque recoloca o tema da soberania latino-americana diante de um recrudescimento das formas abertamente intervencionistas de ação da política externa norte-americana para a América Latina.

 

* Matheus de Oliveira Pereira é professor do Instituto de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Uberlândia. Contato: matheus.pereira1@ufu.br  

** Revisão e edição: Tatiana Teixeira. Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU. 

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