Brasil

Não vai subir ninguém: o inimigo agora é invisível, parte II

Marcha contra a vigilância em massa da NSA, ocorrida em Washington, D.C., em 26 out. 2013 (Fonte: PBS. Crédito: Elvert Barnes/Flickr/Creative Commons)

Série “Futuro em xeque — Entre a Coerção e a Barganha”

Por Marcus Tavares* [Informe OPEU] [Brasil] [Terrorismo] [Segurança]

A madrugada de 29 de maio de 2026 entra fria pela janela do casebre, um homem toma o seu pingado em pé, ainda meio acordado e meio dormindo – como o sol que hesita em nascer. O pão com queijo e mortadela amolecendo no café quente antes da primeira mordida. Veste o casaco, o mesmo de todo inverno, e desce a ladeira rumo ao ponto de ônibus, com o passo de quem já fez esse trajeto milhares de vezes. No caminho passa pelos meninos, os fuzis pendurados sobre os ombros que deveriam carregar a mochila da escola. Troca com eles o aceno acanhado de cabeça de sempre, nem cumprimento nem desabono, apenas o reconhecimento mútuo de quem divide o mesmo quinhão de chão.  

Já no asfalto, olha para a banca de jornal que divide espaço com o ponto de ônibus. A manchete o detém. Os Estados Unidos classificaram o Comando Vermelho e o PCC como organizações terroristas. Ele para. Pesca as moedas no bolso do casaco e compra o jornal, coisa que não faz desde a última vez que seu Vasco da Gama fora campeão e ele queria o pôster como recordação. 

Os dedos tocam o papel ainda úmido da prensa, e há algo na textura barata daquela folha que torna a notícia mais real do que seria numa tela. Ele lê devagar. O coração bate de um jeito que ele não reconhece, um descompasso novo, porque a palavra terrorista não vem sozinha, vem carregada de tudo o que ele já viu, os filmes de ação em que os americanos descem de helicóptero e transformam tudo em pó, as cenas de guerra que passam no jornal da noite, cidades estrangeiras varridas do mapa com a naturalidade de quem muda um móvel de lugar. Ele mora no território que o jornal diz ser deles, dos agora terroristas.  

A conta que o corpo faz antes da cabeça é simples e fria. Se foi assim em Caracas em janeiro, se os fuzileiros desceram lá, por que não aqui? Por que não no Alemão? Por que não na próxima madrugada? Por que não na minha casa? 

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Ele dobra o jornal sem terminar a leitura e ergue os olhos. O céu carioca de final de outono está encoberto, as nuvens não decidem se abrem ou desabam, e o homem fica ali por um instante a mais do que devia, seu ônibus já fazendo a curva lá embaixo… Ele fica ali, a contemplar aquele cinza como quem procura nele alguma resposta. Imagina, sem querer imaginar, se por trás das nuvens o perigo já não está ali, um drone, um avião alto demais para ser visto, o xerife do mundo em sua ronda, à espera do melhor momento para descer. O medo dele tem forma de exército. Tem ruído de explosões. Tem o cheiro da morte. 

E é aí que ele erra o endereço do próprio medo, como erraria qualquer um de nós. A invasão que ele teme, a dos blindados americanos subindo a ladeira e dos fuzileiros na porta, é improvável, a ponto de não merecer o sono desta noite. Custaria aos Estados Unidos o que nem a Venezuela custou. A própria base que elegeu Trump cobra o fim das guerras longas e não engoliria uma ocupação terrestre no coração do Rio, num país do tamanho do Brasil, aliado formal, membro do G20, com a América Latina inteira e boa parte do mundo reagindo a uma violação dessa ordem. O exército americano ou bombardeios no Alemão sairiam caro demais, visíveis demais, e renderiam o oposto do que promete.  

Quem comemorou a notícia esperando o contrário, imaginando acordar amanhã num país mais seguro, aguarda por uma mudança visível que também não chegará. O menino do fuzil seguirá na esquina, e o preço do gás não baixará, porque Washington trocou uma classificação. No plano do que se vê e se toca, o dia 29 será igual ao dia 28, e o seguinte também. A força da medida americana não está no que pode descer do céu que o homem examina. Está no aparelho que ele leva no bolso, na malha invisível por onde já passaram, antes mesmo de ele comprar o jornal, a sua localização, a sua rede de contatos, o último áudio que mandou, o PIX com que vai pagar a passagem. O perigo que ele procurava atrás das nuvens nunca esteve no céu. Estava na palma da mão dele o tempo todo. 

E não foi o primeiro a ser alcançado por essa teia. Antes do homem do Alemão, ela já colheu o ponto mais alto da República. 

Em setembro de 2013, o país descobriu, pelos documentos que Edward Snowden entregou à imprensa, que a Agência de Segurança Nacional Americana (NSA) havia grampeado o telefone da presidente Dilma Rousseff, monitorado as comunicações de seus assessores mais próximos e invadido a rede interna da Petrobras. O Brasil era, à época, o principal alvo da agência na América Latina, e nunca havia sido designado inimigo de coisa alguma. A varredura não pedia inimizade declarada para alcançar Brasília. Operava por captura ampla e indiscriminada sobre bilhões de e-mails e ligações que cruzavam o território nacional. O gabinete presidencial foi colhido na mesma malha que recolhia também o cidadão anônimo. Da laje do Alemão ao avião presidencial, a teia não distinguia altura social nem cargo. 

A própria Dilma cravou, na Assembleia-Geral da ONU daquele ano, o ponto que a análise aqui em curso retoma. O pretexto antiterror era falso, e a motivação verdadeira era econômica. Espionar a Petrobras nada tinha a ver com combater o terror e tudo a ver com conferir vantagem comercial aos Estados Unidos sobre o petróleo brasileiro. O episódio expôs, de uma só vez, a engrenagem completa do que o programa PRISM revelava ao mundo. Havia o acesso físico aos cabos e aos servidores por onde corriam os dados. Havia a moldura jurídica que autorizava esse acesso e arrastava as plataformas a cooperar. E havia o processamento dos dados de usuários do mundo inteiro. As três camadas de um mesmo aparato, expostas juntas. 

Convém medir o que veio depois daquela exposição, ainda que com prudência. O Brasil foi vigiado em seu núcleo decisório e em sua maior estatal de energia entre 2011 e 2013, exatamente às vésperas do período que dissolveu o projeto nacional para o pré-sal. Vieram a polarização de 2014, o processo que culminou no impeachment da presidente Dilma Rousseff, a Operação Lava-Jato e o desmonte da política de conteúdo local que amarrava a exploração do petróleo a uma cadeia industrial doméstica.  

Afirmar que a espionagem causou esses eventos seria exceder o que a evidência pública sustenta, e não é o que aqui se afirma. Porém, ignorar que o país teve seu centro de comando energético espionado por uma potência estrangeira justamente antes de o seu maior ativo soberano ser desarticulado seria uma ingenuidade que a história não recomenda. A pergunta de quem se beneficiou do que foi colhido permanece aberta, e o incômodo dela não se dissolveu. 

O que o caso de 2013 deixou como herança não foi a memória de um abuso superado, conforme o governo da época preferiu tratá-lo. Foi a prova de que o aparato existe, alcança o Brasil e opera por baixo da linha do visível. E há um detalhe que desmente qualquer leitura de que aquilo ficou no passado. As autorizações legais que permitiram a espionagem de 2013 não foram desmontadas. A principal delas, a Lei de Vigilância Estrangeira que autoriza a coleta sobre não americanos, foi reautorizada em 2024 e a ordem executiva que dispensa qualquer controle judicial nunca teve prazo de validade. O dispositivo que colheu a Presidente segue de pé. O que buscamos entender é como, 13 anos depois, ele retorna com uma força que em 2013 ainda não tinha. 

Poucas semanas depois de as Torres Gêmeas caírem, em 4 de outubro de 2001, antes mesmo de o Congresso aprovar o Ato Patriota, o presidente George W. Bush assinou em sigilo a diretiva que lançou o Stellar Wind, o programa de vigilância sem mandato que converteu o trauma do 11 de Setembro em licença para interceptar comunicações em escala que nenhuma lei até então autorizava. O que se montou nos meses seguintes foi a tradução física dessa licença. Numa sala sem janelas do edifício da AT&T na Folsom Street, em San Francisco, identificada depois pelo número 641A, técnicos instalaram divisores ópticos que copiavam, fibra a fibra, a totalidade do tráfego de Internet que passava pelo entroncamento. O fluxo original seguia intacto ao destino, enquanto uma cópia idêntica era desviada para equipamento da agência. Tudo isso acontecia sem que nenhum usuário tivesse como perceber. A operação não mirava suspeitos. Copiava tudo e se replicava em pelo menos outras sete instalações da mesma companhia, de Seattle a Atlanta, com Verizon e Sprint abrindo acesso semelhante às suas redes. 

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A escala da coleta, já naquele momento, beirava o inimaginável. Documentos internos da própria AT&T, revelados anos depois, registram a companhia repassando à agência mais de 1 milhão de e-mails por dia e algo próximo de 400 bilhões de registros de metadado por mês – o rastro de quem falou com quem, quando e por quanto tempo. Dentro da sala 641A, o equipamento de análise semântica da Narus peneirava esse dilúvio de dados em velocidade industrial, à procura de padrões. Entretanto, havia um limite que se identifica como o calcanhar de Aquiles do ciberpoder em sua fase originária. A capacidade de capturar superava de longe a capacidade de compreender. Interceptar o backbone entregava montanhas de tráfego bruto, mas converter tráfego em Inteligência acionável exigia analista e máquina, e nenhum dos dois dava conta do volume. O grampo colhia um oceano de dados e devolvia, no melhor dos casos, alguns baldes de informações dotadas de sentido. 

Quando os documentos de Snowden expuseram a extensão do que se fazia, esse limite ainda estruturava a operação, mas já apontava para a sua superação por outra via. A interceptação de backbone, o grampo de cabos e roteadores que a sala 641A inaugurara, respondia então por uma fração pequena da vigilância, algo em torno de um décimo. A grande massa vinha da coleta direta junto às plataformas, dos servidores das próprias empresas de tecnologia que guardavam o dado já organizado, já atribuído a um nome e já estruturado para a consulta. A agência havia descoberto que era mais eficiente pedir o dado a quem o armazenava na fonte do que pescá-lo no fluxo anônimo do cabo. O acesso ao backbone deixava rastro, exigia sala secreta e divisor óptico, e entregava o dado cru. O acesso à plataforma entregava o dado limpo, e a plataforma, por força jurídica que esta série detalhará adiante, não tinha como recusar. 

Treze anos depois desse retrato, dois deslocamentos modificaram o limite que afligia o aparato em sua origem. O primeiro é que a infraestrutura de captura deixou de exigir a sala secreta da Folsom Street, porque a coleta na fonte se tornou a regra e a fonte se espalhou pelo mundo. A nuvem que sustenta o ambiente do Estado brasileiro e das empresas pertence a provedores americanos, a comunicação corre por aplicativos sob jurisdição estrangeira, o WhatsApp é a canal quase universal, pelo qual o país conversa consigo mesmo. O que a agência precisou desviar com divisor óptico em 2003, as plataformas agora coletam como função ordinária do próprio negócio. O dado já nasce estruturado para a análise. O segundo deslocamento é que a Inteligência Artificial passou a enfrentar o gargalo que a Narus apenas tangenciava, ainda que esteja longe de tê-lo eliminado. 

A dimensão do esforço recente dá a medida da urgência. Em julho de 2025, o Departamento de Defesa americano firmou contratos de até 200 milhões de dólares cada com quatro empresas de fronteira em IA, para desenvolver fluxos de trabalho de agentes autônomos aplicados a domínios de guerra e de análise. A Palantir, que opera o sistema de análise de alvos do Pentágono, fechou em julho de 2025 um acordo de até 10 bilhões de dólares com o Exército americano, consolidando 75 contratos numa única década de serviço. A CIA já opera um sistema generativo próprio, usado por milhares de analistas das 18 agências da comunidade de Inteligência. Modelos comerciais de linguagem foram homologados, a partir de janeiro de 2025, para rodar em nuvens classificadas no nível ultrassecreto. O orçamento de Inteligência solicitado para o ano fiscal de 2026 alcançou 115,5 bilhões de dólares – o maior já tornado público. 

Seria exagero, porém, dizer que a máquina já compreende tudo o que colhe. Nand Mulchandani, primeiro diretor de Tecnologia da CIA, descreveu a Inteligência Artificial generativa como um companheiro errático, capaz de grandes ideias e de alucinações na mesma frase. Linda Weissgold, ex-diretora de Análise da CIA pôs o limite em termos que nenhum tecnólogo desfaz: nenhum presidente aceitará que a caixa-preta apenas lhe diga o que fazer, sem que um analista responda pela conclusão. O gargalo persiste, mas encolhe a cada contrato bilionário e a cada modelo homologado. A megacapacidade analítica que faltava está sendo construída em ritmo industrial, e sua infraestrutura física, como a coluna anterior desta série detalhou, busca se ancorar cada vez mais em solo brasileiro, pela via dos data centers e da exploração das terras raras. 

O horizonte mais distante amplia a perspectiva de superação das limitações sem ainda consumá-la. A computação quântica, caso se concretize nos termos que seus desenvolvedores projetam, levaria a capacidade de processamento a um patamar em que captar e compreender deixariam de ser operações distintas. Por ora, ela comparece, sobretudo, como ameaça à criptografia, no cenário em que dados coletados hoje são guardados para serem decifrados quando a máquina amadurecer, por volta da próxima década. Embora se trate de projeção, a direção do movimento vem, contudo, daquela sala sem janelas de 2001, e não se inverteu desde então. O gargalo do aparato sempre esteve na compreensão, nunca na coleta, e cada avanço estreita-o. 

A máquina, portanto, existe, alcança o Brasil e está cada vez mais apta a compreender o que colhe. Faltava a ela uma coisa apenas: a autorização para se voltar abertamente contra os brasileiros. Agora não falta mais. Por meio de uma única palavra, converteu-se o cidadão comum em alvo legítimo, e a empresa que guarda os seus dados, em informante compelido. A palavra foi pronunciada em 28 de maio, quando Washington chamou de terroristas as facções brasileiras. Como é que um único termo, dito a milhares de quilômetros de distância, reaponta toda a engrenagem aqui descrita para o Brasil e por que disso depende quem nos governará a partir de 1º de janeiro de 2027? É o que a próxima coluna desta série se propõe a destrinchar.

 

* Marcus Tavares é pesquisador voluntário do OPEU/INCT-INEU na área de economia, doutorando e mestre em Economia Política Internacional no Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PEPI/UFRJ) e bacharel em Relações Internacionais pelo Instituto de Relações Internacionais e Defesa (IRID/UFRJ).

** Revisão e edição: Tatiana TeixeiraEste conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU. 

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