Brasil

‘Olhares ianques’: o que os arquivos revelam sobre as relações Brasil-EUA na ditadura 

O então embaixador dos EUA no Brasil, Lincoln Gordon (à esq.) e o então presidente brasileiro, João Goulart, em 1961. Documentos posteriormente liberados pelo governo norte-americano mostraram o auxílio de Gordon ao movimento golpista que acabou depondo Goulart em 1964 (Fonte: Arquivo Nacional, Correio da Manhã, BR RJANRIO PH.0.FOT.24250)

Por Hannah De Gregorio Leão* [Resenha OPEU] [Lançamento de livro] [Brasil] 

O livro Olhares Ianques: a ditadura brasileira nos arquivos norte-americanos (Companhia das Letras, 2026), de Felipe Loureiro, evidencia, por meio de uma inédita análise dos documentos diplomáticos norte-americanos, a extensão da influência política e econômica norte-americana no golpe de 1964 e no decorrer da ditadura, até o momento da redemocratização. Felipe Loureiro é professor do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da USP, contando com formação em História Econômica, o que confere à obra um importante diálogo interdisciplinar entre a análise arquivística histórica e a análise da política externa norte-americana no período ditatorial brasileiro.  

Olhares Ianques é dividido em 12 capítulos, nos quais o autor narra a interferência norte-americana na política brasileira desde o período de João Goulart até o fim da ditadura, no governo de João Figueiredo. O livro inicia, evidenciando as manobras políticas tentadas pelo embaixador Lincoln Gordon, junto à embaixada em Washington, para apoiar os preparativos para o golpe militar de 1964.  

Os arquivos norte-americanos mostram aproximações e afastamentos nas relações entre Brasil e Estados Unidos no decorrer da ditadura. Inicialmente, os diplomatas norte-americanos e, inclusive, o empresariado brasileiro, apoiaram com empenho a repressão e, em especial, o Ato Institucional nº 5 (AI-5), no governo Costa e Silva. Olhares Ianques traz à tona novos atores relevantes, como diplomatas e empresas, para a efetividade do AI-5 no período ditatorial, tirando a centralidade estatal sobre a implementação da repressão ditatorial.  

Outro momento-chave no livro foi a criação da Operação Bandeirantes (OBAN), em 1969, a qual contou com um amplo apoio norte-americano e empresarial. A OBAN foi gerada meses após os diplomatas norte-americanos declararem que o Exército brasileiro não teria treinamento ou equipamentos suficientes para lidar com o “terrorismo” da forma como vinha se manifestando no Brasil, por parte da luta armada contra a ditadura. Contando com a colaboração norte-americana e empresarial, a Operação foi o primeiro passo essencial para a institucionalização da tortura e posterior estabelecimento do DOI-CODI de São Paulo, um ano depois. Nesse sentido, os arquivos norte-americanos mostram como as empresas brasileiras e norte-americanas também tiveram um papel relevante no financiamento e cooperação política à estruturação da OBAN e do DOI-CODI. A Câmara Americana de Comércio, por exemplo, apoiou, politicamente, a fundação da OBAN, afirmando ser uma importante medida na “batalha contra o terrorismo”. Os documentos mostram que o general Humberto de Sousa Melo tinha ligações com a Fiesp e chegou a fazer uma reunião com empresários, solicitando financiamento para equipar o DOI-CODI. O general até mencionou a existência das salas de interrogação de prisioneiros, ou seja, as salas de tortura, aos empresários.  

O livro demonstra que, desde o assassinato de Henning Boilesen, presidente da Ultragaz, pela Ação Libertadora Nacional (ALN) em 1971, os empresários norte-americanos passaram a perceber os riscos de financiarem ativamente a repressão, o que gerou preocupações na embaixada. Em vez de se afastarem do apoio financeiro à ditadura, os empresários norte-americanos continuaram a apoiar a repressão, política e economicamente, porém criando novos métodos de disfarce. Um exemplo foi a criação de um “fundo educacional” pela Fiesp, usado apenas para evitar o rastreamento do dinheiro doado pelas empresas americanas para a repressão. 

O apoio norte-americano e empresarial à repressão, em seus aspectos político e econômico, foi tão fiel na ditadura que gerou dissidências com os governos nos momentos de abertura política. No governo Geisel, norte-americanos e, especialmente, empresários, passam criticar a expansão das empresas públicas e o início da abertura política. O fim do AI-5 foi um momento determinante para gerar esse descontentamento no empresariado e nos diplomatas norte-americanos. A partir de Figueiredo, as dissidências políticas entre diferentes esferas sociais, assim como entre norte-americanos e empresários, vai-se tornar ainda mais evidente na redemocratização.  

Portanto, o livro Olhares Ianques traz à tona uma leitura internacionalista única dos arquivos norte-americanos, evidenciando como muitos episódios relevantes do período repressivo brasileiro ainda estão nas páginas dos arquivos confidenciais norte-americanos. Trata-se de tirar a hegemonia da narrativa histórica do sigilo e de trazê-la para o centro da política internacional. A partir de tal movimento, novos atores, como empresários e diplomatas, surgem com uma nova relevância na promoção da repressão, em apoio direto aos agentes de Estado. Além disso, momentos políticos inéditos e históricos (re)surgem e são esclarecidos, mostrando o papel da hegemonia norte-americana na consolidação da ditadura brasileira. O livro Olhares Ianques é uma leitura essencial para quem procura compreender a atuação norte-americana na ditadura brasileira.


Informações sobre o livro 

Título: Olhares Ianques: a ditadura brasileira nos arquivos norte-americanos 

Autor: Felipe Loureiro 

Editora: Companhia das Letras 

Número de páginas: 352 

Ano de edição: 2026 

Edição: 1ª 

Preço: R$ 129,90 

Disponível no site da Companhia das Letras 

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* Hannah De Gregorio Leão é advogada e mestre pelo Programa de Pós-graduação em Teoria do Estado e Direito Constitucional do Departamento de Direito da PUC-Rio. Também é mestre em Análise e Gestão de Políticas Internacionais pelo Mestrado Profissional em Análise e Gestão de Políticas Internacionais (MAPI) do IRI PUC-Rio, no qual desenvolveu a pesquisa “O Capital torturador: Justiça de transição e a atuação do empresariado norte-americano e brasileiro na institucionalização da tortura na ditadura militar brasileira”. hannahdegregorioleao@gmail.com. LinkedIn.

** Revisão e edição: Tatiana TeixeiraEste conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU. 

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