Brasil

Entre comércio e segurança: o encontro Lula-Trump foi caracterizado por apaziguamento

Presidente Lula chega para encontro com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na Casa Branca, em Washington, D.C., em 7 de maio de 2026 (Fonte e crédito: Agência Brasil/Ricardo Stuckert/PR)

Por Yasmim Abril M. Reis* [Informe OPEU] [Lula] [Lula e Trump] [Brasil-EUA] 

No dia 7 de maio, os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva, e seu homólogo dos Estados Unidos, Donald Trump, tiveram seu primeiro encontro de trabalho formal desde o início do segundo mandato do anfitrião no ano passado. A relação entre os líderes tem sido explicitamente evidenciada pelos lados opostos do espectro político. Além disso, os últimos episódios e tensões conjunturais marcaram as relações Brasil-EUA, para nomear: o tarifaço aos produtos brasileiros; a retirada de vistos de autoridades e inclusão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, na Lei Magnitsky; a investigação da chamada “Seção 301”; a tentativa de mudança da classificação de facções criminosas, como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), para grupos terroristas; assim como  a prisão do ex-deputado federal Alexandre Ramagem, no último mês, foram as sucessões de eventos que marcaram essa relação bilateral desde 2025.  

O clima era de tensão e desconfiança antes do encontro que aconteceu na manhã do dia 7 de maio na Casa Branca, em Washington, D.C. A instável atmosfera política foi evidenciada desde a incerteza na confirmação da viagem, por parte do Palácio do Planalto, até a confirmação da agenda oficial do presidente dos Estados Unidos pela Casa Branca. Cabe notar, ainda, que essa reunião estava prevista para acontecer em março desse ano. Foi adiada, porém, em decorrência do início do conflito no Irã.  

Outro fator preponderante é que se trata de ano eleitoral em ambos os países: eleições gerais, no Brasil; e de meio de mandato (midterms, em inglês), nos Estados Unidos. Em uma recente pesquisa do jornal The Washington Post em parceria com ABC News /Ipsos, a desaprovação do governo Trump alcançou 62%. Dentre os motivos e as críticas à gestão, estão o alto custo de vida (76%) e a inflação (72%). Do lado brasileiro, o governo Lula também tem enfrentado desafios políticos domésticos, embora não da mesma amplitude.  

Mesmo que os ganhos tenham sido acanhados, a foto ao final do evento, sorridente, sinalizou que houve um diálogo, ainda que modesto. Isso pode ser considerado se analisarmos pela lente de que, no mesmo Salão Oval da Casa Branca, os líderes Volodymyr Zelensky (Ucrânia) e Cyril Ramaphosa (África do Sul) foram alvo de constrangimentos por parte do presidente dos Estados Unidos. À luz desses eventos, o governo brasileiro temia que o destino do presidente brasileiro tivesse o mesmo tratamento, na medida em que as visões políticas  distintas marcam as relações bilaterais.  

No conjunto de temas versados, destacam-se: a política tarifária, as terras raras e as facções criminosas. No que se refere ao comércio bilateral entre ambos os países, a negociação teve como objetivo negociar a redução de produtos que permanecem sobretaxados, como o alumínio e o aço, apesar do fim do tarifaço. Adicionalmente, discutiu-se a exploração dos minerais raros.  

Uma questão estruturante importante no radar das discussões foi a tentativa, por parte do governo Trump, de classificar as organizações criminosas CV e PCC, como grupos terroristas. O Brasil rejeita a proposta do governo estadunidense por entender que a ampliação da classificação mudaria a forma de atuação e intervenção no seu território nacional. Em vista disso, o Brasil defende uma proposta que considera instrumentos mais adequados para lidar com o combate ao crime organizado. O posicionamento do país considera uma proposta de acordo que contemple aumento da troca de informações e de investigações conjuntas que auxilie no estrangulamento do crime organizado, sem ferir a soberania nacional.  

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O evento transpareceu a simbologia do encontro com o aperto de mãos entre Lula e Trump no tapete vermelho na chegada à Casa Branca. O gesto foi importante para o governo brasileiro, principalmente pelo clima eleitoral doméstico. A reunião pode ser avaliada como “valiosa” para a sua campanha eleitoral, na medida em que auxiliará o petista a “neutralizar” a narrativa de seu principal opositor, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), de que ele era o único candidato a abrir diálogo com os Estados Unidos. Isso explica o desejo do governo, no sentido do encontro presencial, de resolver questões técnicas, como comércio e segurança, por meio de telefonema e/ou envio de delegados para essa função.  

É cedo para dizer que houve vitórias reais para o governo brasileiro, mas, pelo menos, o presidente brasileiro saiu ileso da discussão, gesticulando um apaziguamento nas relações.  

 

* Yasmim Abril M. Reis é doutoranda em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP) e Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Segurança Internacional e Defesa da Escola Superior de Guerra (PPGSID/ESG). É pesquisadora colaboradora no Observatório Político dos Estados Unidos (OPEU) nas áreas de Segurança e Defesa e pesquisadora associada no Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (GEDES) e no Núcleo de Estudos sobre Tecnologia e Violência na América do Sul (NETVAS). Líder de pesquisa voluntária no Laboratório de Simulações e Cenários na linha de pesquisa de Biodefesa e Segurança Alimentar (LSC/EGN) e pesquisadora de geopolítica no Núcleo de Avaliação da Conjuntura (Boletim Geocorrente-NAC/EGN). Contato: reisabril@gmail.com. 

** Revisão e edição final: Tatiana Teixeira. Este Informe OPEU não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU. 

 

 

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